terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Confissão I

Como toda boa confissão, escrevo em um momento de agonia, que logo desqualifico, por tratar-se daquilo que atualmente convencionou chamar-se de ansiedade. A iminência da derrota é uma expectativa dos que esperam -- mas, mesmo assim, duvido do quanto de liberdade posso ter eu. Tornar-se quem se é: essa é uma tarefa da vontade pura?

Questiono-me se devo querer ser quem sou ou se posso ser quem quero. É claro que meus gostos são amplos, mas, ao mesmo tempo, a percepção de que sou constantemente criticado faz-me pensar naquilo que me formou. Na verdade, sinto que fui criticado e que, ao mesmo tempo, me foi oferecido usufruir de certa liberdade que meus gostos anteriores não permitiam e talvez eu deva esquecer boa parte de tudo o que construí, por tratar-se de uma contenção dos meus verdadeiros desejos. Todo o meu arsenal teórico, que consigo levar a radiais expansivos: não passam dos anteparos ao meu gozo. Reafirmo que me foi oferecido um outro estilo de vida, mas as condições objetivas não permitem, por enquanto, ultrapassar o limite do que posso para o que quero. Provavelmente, devo explicar por que não posso fazer o que quero, ainda que essa minha criação nova seja perfeitamente compreensível e altamente elaborada: porque ela constitui um crime ou algo muito próximo disso, ainda que o bem que a sua criminalidade avilte não passe mesmo da ordem do avilte.

Concomitantemente, devo confessar, também, que esse questionamento surgiu de uma sessão de psicanálise, em que me questionava se deveria abandonar minhas teorias e passar para o campo da arte logo de uma vez e professar a liberdade direta -- sem precisar justificá-la com toda a minha teleologia ontológica do materialismo crítico, sem precisar respaldá-la com toda a minha nova teoria geral das sociedades, sem a minha nova teoria do Brasil. Se eu pudesse simplesmente escarnecer do passado e afirmar-me, sem precisar dizer que o afirmar-me é a base ontológica que justifica o materialismo histórico vitalista. Não gostaria de precisar tresvalorar Fichte e Descartes por uma orientação feuerbachiana: gostaria apenas de fazer, como aprendi com o primeiro filósofo de que gostei. (Então me lembro que também esse filósofo me foi apresentado por uma escola que frequentei.) Talvez seja jogar tempo fora pensar sobre isso, mas ainda continuo pensando se não afirmar quem sou não pode significar afirmar que eu quero ser. Mas, como disse, foram promessas que me fizeram descortinar essa possibilidade, e os meios de existência e execução da minha nouvelle vie jouissante ainda não me foram concedidos: tornar-me um artista de desfrute ácido.