Desceram do táxi, na rodoviária, completamente fora de si. Olharam a escada rolante:
-- Por aqui, Zeca! -- disse Gominho, vendo que Zeca se distraía em meio ao turbilhão de pessoas que passavam por ele.
Ao subir a máquina, com suas mochilas e umas caras de malucos, depararam-se com um inconveniente. As pessoas reconheciam Gominho. Uma ou outra reconhecia Zeca. É claro que isso era estranho, oras. Por que reconheciam Gominho mais do que a Zeca? Os que reconheciam Zeca só poderiam ser interventores do futuro, e o garoto se assustava. A multidão da rodoviária às 18:00 era mesmo uma loucura. A todo momento estavam a ponto de perder-se, e não era só por causa do efeito da ketamina. Certamente, a droga, por seus efeitos de transe, dificultava o entendimento, corrompendo as faculdades mentais da dupla. Seguiram, todavia, fortemente engajados na epopéia, em direção ao guichê da Autoviação Cometa. Escolheram essa companhia, pela ironia, é claro, mas também porque, com esse nome, se sentiram estranhamente mais seguros, o que era parte da ironia: ou mais, era parte do comprometimento cósmico que se antecipava, a todo momento, aos fatos.
-- Duas passagens para São Paulo, por favor. -- pediu Gominho à atendente do guichê, que reconheceu o amigo de Preta.
-- O senhor não é o...? -- disse ela não escondendo o seu contentamento.
-- Sim, sou! -- disse ele risonho. Zeca ao fundo, parecia absorto em suas próprias alucinações senso-motoras. Apresentava uma cara plácida, os olhos abertos mas meio tombados e a boca levemente aberta, com a sua mochila da Kipling, pesada, arqueando-lhe a coluna.
Gominho despediu-se da moça do guichê e logo puxou Zeca pelo braço. Zeca estava pior que Gominho... Sempre tem alguém que fica mais doido. Encaminharam-se para a platafomra de embarque, e o ônibus já estava quase para sair. Compraram os tíquetes das 18:30. Entraram logo no automóvel e posicionaram-se nos seus lugares no andar de baixo, no leito. Zeca não conseguiria viajar de semi-leito, Gominho imaginara. O pobre... Achou melhor comprar o leito, para evitar constrangimentos no futuro. Além do mais, no leito, dependendo de quantas pessoas embarcassem com eles, poderiam conversar mais abertamente, fechar a cortininha e continuar usando as drogas. Acomodaram-se nas suas poltranas 05 e 06, recostaram seus assentos e recomeçaram a usar os seus estimulantes. Apenas uma única mulher sentou-se na poltrona de número 01, uma moça de um tailleur cor de rosa, aparentemente acima de qualquer suspeita, mas, diante do absurdo dos fatos recentes, não conseguiram controlar seus pensamentos. O carro deu a partida, e os dois, por alguns minutos, silenciaram, conforme o ônibus começava a sair do perímetro urbano da cidade do Rio. Olharam pelas janelas, aquela paisagem horrorosa da periferia do Rio de Janeiro, mas logo anoiteceu e começaram a subir a serra da Mantiqueira falando pelos cotovelos.
Em certo ponto, o ônibus encontrou um engarrafamento horroroso. Simplesmente pararam de andar. Nervosíssimos, sem saber o que se passavam, começaram a falar alto, reclamando sobre o acontecimento. Começaram a discutir as mais alucinadas teorias sobre o engarrafamento, até que a moça de rosa esclareceu os fatos: tratava-se de uma obra de duplicação da rodovia Presidente Dutra, que já se arrastava por meses. Estava assim sempre, ela informou, uma vez que pegava aquele ônibus rotineiramente. Os dois esboçaram um semblante de compreensão, mas a moça não parou de falar imediatamente, o que os cansou muito rapidamente, porque não conseguiam controlar mais suas expressões faciais. Estavam inquietos e, em mais um engarrafamento, estavam a ponto de explodir. Um pouquinho a mais dessa. Agora um poquinho a mais dessa. Dentro do espaço isolado que cortininha criou, conversavam, faziam planos, espantavam-se, mas, acima de tudo, agoniavam-se. O tempo passava cada vez mais depressa, e eles precisavam chegar ao campus do Butantã a tempo da apresentação do professor Chili. O tempo urgia e a Sapucaí, digo, a Dutra era grande.
Quando pararam no Graal de Resende, já estavam completamente enlouquecidos e desesperados. Já eram 2 horas da manhã. Se chegassem em São Paulo sem nenhum engarrafamento, não teriam tempo de dormir. Passar pelo Airbnb reservado pro Gominho começava a tornar-se um sonho distante. Aquela parada ainda duraria mais meia hora... Mas, como estavam naquela cabine há horas e esbaforidos, levantaram-se prontamente quando o carro estacionou. A mulher de rosa saiu antes deles, e eles correram para fora para fumar. Ela foi logo para dentrod o Graal, enquanto eles ficaram na frente do ônibus. Parados, ali, em frente ao ônibus, Gominho começou a atrair a atenção dos passantes. Todos o identificavam, e ele não teve outra opção a não ser agradar ao público e tirar fotos e conversar. Na situação em que se encontravam, a interação com o público despertou sensações inauditas, e Gominho se viu, a certa altura, completamente perdido. Zeca, que via aquilo com certo desdém, afastou-se de Gominho e entro no Graal, em busca de um banheiro. Quando entrou no banheiro, fez xixi no urinol e voltou-se para o balcão da pia. Olhou pelo espelho no fundo dos seus próprios olhos, pensando que talvez todo aquele mundo deixasse de existir, caso completassem a missão, e que deveria haver alguém rondando eles, que quisesse impedi-los de executar o plano. Saiu do banheiro e viu a mulher de rosa sentada em uma das mesas, comendo o seu salgado.
