domingo, 1 de março de 2026

Confissão II

Recentemente, soube da morte de Sérgio Miceli Pessoa de Barros, sociólogo brasileiro de inquestionável relevância. Mais do que imaginaria, fui fortemente impactado pela notícia. Os motivos de meu padecimento são muitos e se superpõem, porque revelam algo do fundo das minhas intenções intelectuais. Meu contato com a obra do autor foi atravessado por admiração e deboche, compreensão e revolta, descortinamento e ultraje, dada a persistente agudeza de suas críticas quase escatológicas. Esse típico intelectual brasileiro dedicou uma vida inteira ao escrutínio das relações entre intelectuais e poder. E o sulco final da teoria de Miceli, sobrenome que usava profissionalmente, não é nem de longe a mera desautorização dos intelectuais do Modernismo, apesar de ser-lhe uma aparência marcante. Sua tarefa é outra, mais dura ainda, e de dupla face: de um lado, está o que há de mais evidente em suas teorias, que é essa espécie de identificação genealógica e econômica, de relativa longa duração, das origens desses intelectuais, esboçando uma teoria de tipos sociais; do outro lado -- que é a faceta de suas constatações que mais me angustia --, está a conclusão virtualmente inalienável de que qualquer atividade que preze por autonomia depende de recursos pecuniários para sustentar sua liberdade. E minha angústia justifica-se por isso: porque, de acordo com ele, não existe autonomia de fato, apenas uma negociação. Partamos, então, de Miceli, para realizar a minha segunda confissão, recente impulso literário meu, que se revelou preocupado com as questões relativas ao antagonismo entre liberdade e condições objetivas.

Enfrentemos, pois, a primeira das principais conclusões desse notável sociólogo, com o devido escrutínio de um herdeiro intelectual que, edipianamente, quer quebrar suas correntes. Talvez eu nunca admitisse minha filiação, se ele já não estivesse morto, o que revela ainda mais o caráter psicanalítico dessa aventura escritoral. É que escrever seu nome na primeira frase de um texto e assumi-lo como mestre acarreta uma intranquila vergonha meio paranoide. Mas vamos aos poucos, pois queremos atacar ambas as mencionadas facetas, ainda que eu precise sublinhar, ou reanunciar, o meu problema -- recém-descoberto, aliás -- com a noção de condições objetivas, que domina a sua teoria, por sua própria filiação institucional. Miceli, mesmo que orientado por Pierre Bourdieu, também pertenceu à escola marxista da USP -- a qual, provavelmente, reforçou o determinismo na análise super-estrutural que esperada de um discípulo do mór sociólogo francês. As condições objetivas... esse must have do marxismo ortodoxo e do sociologismo... coincidem mesmo elas com a noção dialética do materialismo histórico? Isso eu talvez deva ter de denunciar em sua teoria, ou até em toda a sociologia como disciplina autônoma! Essa pobre ciência dos pobres, essa plebeia ciência dos incapazes: ela não sabe (ou talvez saiba), mas, em sua masoquista volúpia, ela serve a descortinar o olhar para, justamente, transmitir a possibilidade da liberdade. E o seu erro (ou talvez seja esse o seu acerto), caros sociólogos, é crer que a mudança só é plenamente possível em níveis estruturantes estruturais estruturadores: e esse é o meu medo das condições objetivas: que venham a assolar-me para sempre em vida!

Comecemos, então: logo ao saber de sua morte, comuniquei aos colegas que conheciam seu trabalho. Mas, cabe mencionar que, antes de escrever-lhes, lembrei-me do tipo estranho de divertimento que com eles tive comentando-o: um gozo histérico e escárnico simultaneamente: era assim o deleite provocado por suas investigações. (Aliás, desconfio que fosse esse mesmo o desejado efeito rebote de sua ressentida psicologia reversa do horror na teoria materialista das elites.) Enfim, comuniquei aos meus amigos e sugeri-lhes prestar-lhe uma homenagem, gesto que também cumpri: assistir a uma entrevista concedida ao Cpdoc, escola em que me formei em ciências sociais, nas pessoas de uma professora e uma colega de faculdade minhas. A professora Helena Bomeny, em seu micelismo radical, começa de forma protocolar, previsível -- implacável: pergunta-lhe sobre sua origem familiar e seu sobrenome. Ora, Miceli oculta o "Pessoa de Barros" de seu sobrenome -- ou quase o faz. Escolhe o nome de sua mãe, filha de imigrantes italianos; e condena o pai à condição de descendente de uma degenerada linhagem do Vale do Paraíba, que pouco contribuiu para a sua vida, em um enquadramento que soa como abandono parental.

Imediatamente, como é comum com as ideias mais insistentes, veio-me um pensamento muito forte, que já venho construindo há algum tempo e que complementa o meu projeto maior de interpretação do Brasil. É uma reflexão sobre o papel dos imigrantes europeus no Império e na primeira metade do século XX, em que defendo que a sua função serviu a fins que ultrapassam a simples análise economicista, que põe muito peso na substituição da mão de obra. Esse episódio da nossa história deveria, segundo imagino, ter o racismo como principal viés de análise, mas essa investigação precisa ser feita com uma lupa específica — a das aspirações dos considerados sujeitos: como vejo, a escassez de mulheres brancas, já revelada nos estudos de Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala, encontra mais um de seus resultados. Agora talvez maximizada pelo fundamento da antropologia estrutural de Claude Lévi-Strauss, essa busca por parcerias de casamento se aplica aqui abrasileiradamente -- e como é comum esse fenômeno do abrasileiramento de tudo em nosso país! Mas sigamos: uma vez finda a escravidão, diante dessa nova civilidade emergente e inaudita, resultado da progressiva fatuidade do liberalismo que antes apenas servia aos senhores, a população branca brasileira, essa franja decaída dos ciclos econômicos controlados por uma elite financeira aristocratizante, vê o risco de somar-se aos negros -- mesmo em família. Antevendo tal problema global da sociedade, nosso grande patrono e patriarca Habsburgo resolve lubrificar sua engrenagem pacificadora. Sua grande árvore genealógica tecida na corte carioca precisa de um colchão, de uma reserva demográfica, que faça a ligadura entre essa pós-nobreza neo-proletária pequeno-burguesificante e o elemento negro. O efeito cascata da grande família brasileira é melhor do que o risco de uma proletarização absoluta, que resultaria em um neo-haitinismo com tinturas de trama de corte. Uma revolução estava sempre à espreita nessa grande fazenda falida que era o Brasil, e o estopim poderia vir de um ressentimento aristocrático.

Sérgio Miceli Pessoa de Barros representa, personifica essa consequência. Os setores falidos dos ciclos econômicos deveriam ser vistos em sua nobreza pelo estado brasileiro, e os elementos externos deveriam, como sempre, contribuir com alguma coisa nesse casamento arranjado de amálgama parentálico.

concluir com a transição para o capital cultural: capitalismo brasileiro, hebe, sentido do rio de janeiro

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Confissão I

Como toda boa confissão, escrevo em um momento de agonia, que logo desqualifico, por tratar-se daquilo que atualmente convencionou chamar-se de ansiedade. A iminência da derrota é uma expectativa dos que esperam -- mas, mesmo assim, duvido do quanto de liberdade posso ter eu. Tornar-se quem se é: essa é uma tarefa da vontade pura?

Questiono-me se devo querer ser quem sou ou se posso ser quem quero. É claro que meus gostos são amplos, mas, ao mesmo tempo, a percepção de que sou constantemente criticado faz-me pensar naquilo que me formou. Na verdade, sinto que fui criticado e que, ao mesmo tempo, me foi oferecido usufruir de certa liberdade que meus gostos anteriores não permitiam e talvez eu deva esquecer boa parte de tudo o que construí, por tratar-se de uma contenção dos meus verdadeiros desejos. Todo o meu arsenal teórico, que consigo levar a radiais expansivos: não passam dos anteparos ao meu gozo. Reafirmo que me foi oferecido um outro estilo de vida, mas as condições objetivas não permitem, por enquanto, ultrapassar o limite do que posso para o que quero. Provavelmente, devo explicar por que não posso fazer o que quero, ainda que essa minha criação nova seja perfeitamente compreensível e altamente elaborada: porque ela constitui um crime ou algo muito próximo disso, ainda que o bem que a sua criminalidade avilte não passe mesmo da ordem do avilte.

Concomitantemente, devo confessar, também, que esse questionamento surgiu de uma sessão de psicanálise, em que me questionava se deveria abandonar minhas teorias e passar para o campo da arte logo de uma vez e professar a liberdade direta -- sem precisar justificá-la com toda a minha teleologia ontológica do materialismo crítico, sem precisar respaldá-la com toda a minha nova teoria geral das sociedades, sem a minha nova teoria do Brasil. Se eu pudesse simplesmente escarnecer do passado e afirmar-me, sem precisar dizer que o afirmar-me é a base ontológica que justifica o materialismo histórico vitalista. Não gostaria de precisar tresvalorar Fichte e Descartes por uma orientação feuerbachiana: gostaria apenas de fazer, como aprendi com o primeiro filósofo de que gostei. (Então me lembro que também esse filósofo me foi apresentado por uma escola que frequentei.) Talvez seja jogar tempo fora pensar sobre isso, mas ainda continuo pensando se não afirmar quem sou não pode significar afirmar que eu quero ser. Mas, como disse, foram promessas que me fizeram descortinar essa possibilidade, e os meios de existência e execução da minha nouvelle vie jouissante ainda não me foram concedidos: tornar-me um artista de desfrute ácido.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

O adestramento do povo por um Rei bonapartista gera, no longo prazo, uma cultura popular

Suponhamos que um rei, como foi o caso dos portugueses, fosse, inicialmente, o proprietário dos reinos que conquistou. Em oposição ao que se dava com reis da “idade média tradicional”, a formação das suas nobrezas seria algo especial. Se, nas sociedades por excelência do Ocidente medieval, a relação de suserania do rei era um acordo de cavalheiros, nos domínios da Reconquista, a dos nobres era, antes, uma vassalagem. Enquanto no território do medievalismo tradicional as nobrezas locais detinham o seu poder por reconhecimento, mais ou menos legítimo, de proteção – e delegavam fração de sua soberania aos reis –, nos estados da Reconquista, esses senhorios foram criações artificiais para reproduzir as relações telúricas e atávicas do dito modelo tradicional europeu, que surgiu após a desintegração do Império Romano. Enfim, aquela história.

Nos povos ibéricos, a questão da propriedade do Estado pelos herdeiros do rei-líder na Reconquista tem, então, mais consequências do que podemos imaginar. Tendo-se o reinado instituído, o poder foi distribuído entre os mais próximos da empreitada militar, forjando-se uma nobreza em instância inferior; e esses senhores foram designados também plenipotenciariamente, da mesma forma que o rei, por sua atipicidade e artificialidade constitutivas. No entanto, por mais que o método fosse a nomeação, o objetivo da sua criação era o enraizamento, para reproduzir, ainda que distorcida e controladamente, um modelo chancelado pela cristandade sacro-romana – a norma. Enfim, o poder concedido às instâncias intermediárias (as nobrezas de terra regionais) teve um resultado demográfico semelhante ao do florescimento natural dos povos originários do medievo ocidental sobre a população que governavam – mas apenas semelhante: porque as novas localidades não tinham povos autóctones; todas funcionavam como colônias. A designação do poder a essa camada nobilitada a posteriori e a permissão de tutela dos níveis ainda mais inferiores – a plebe – criaram um povo inerme abaixo dos eleitos pelo rei. Como a população verdadeiramente autóctone deveria ser exterminada ou assimilada (árabes, mouros e gentios), o povo que se formava abaixo da nobreza começou a desenvolver uma singularidade cultural determinada pelas geopolíticas do momento, que eram menos macroscópicas do que as dos tabuleiros das nações da atualidade.

A grande questão do “bonapartismo” do rei português resulta de que essa segunda classe inferior se formou sem muitos vínculos tradicionais com os senhores que a governavam diretamente. Diante do fenômeno moderno dos reinos-nação, essa nova camada tornou-se um povo novo, que se conformava, de certo modo, como massa de manobra do rei. Deixe-me explicar: como o rei nomeou as nobrezas locais por causa da sua “propriedade” do estado, as populações locais, na prática, estavam mais inclinadas a lhe servirem do que os súditos aos seus reis na Europa medieval de então; ou estavam mais propícias a trair as recém-formadas nobrezas artificiais da terra do que nos territórios feudais propriamente ditos, em que a autoridade havia sido assentada pelo atomismo do alto-medievo. E os reis portugueses, assim como os espanhóis, imagino, aproveitaram-se disso. Raymundo Faoro defende que Portugal tinha mecanismos de nobilitação por  serviços prestados ao rei português, o que lotava as suas cortes de membros da plebe; além de organismos de formação de burocracia, que também aristocratizavam a gente. Esses elementos da nova população formada ajudavam os reis a submeter novamente as nobrezas que paulatinamente se enraizavam no modelo de reprodução artificial da legitimação social medieval. Jogando para o povo, como legítimos Bonapartes, os reis usavam o seu poder central -- que, nas monarquias absolutas tardias, foi lentamente negociado -- com muito mais ágio, porque detinham muito mais influência cultural do que as nobrezas locais.

A formação de um povo nacional acima de um povo regional talvez tenha primeiramente ocorrido na península Ibérica. O motivo disso é que essa plebe amorfa era, na prática, um povo à disposição: tanto do rei quanto da nobreza recém-formada, a depender da melhor oferta. A capacidade de traição desses indivíduos era maior do que nas relações de vassalagem que justamente serviram de modelo para o sistema da Reconquista. O bonapartismo, portanto, do rei português era apenas uma perspicácia -- disputada com os nobres -- no entendimento da formação demográfica do seu próprio território: instituiu-se um povo, e não relações de dependência territorial-econômica. A formação de uma cultura, isto é, de elementos simbólicos que os faziam se reconhecerem como pertencentes a essa mesma parcela de interesses “culturais”, foi fomentada pelo próprio governo real, na forma de uma cultura de Estado. 

Mas o que deve ser principalmente retido disso não é que a formação de uma cultura estatal seja sinônimo de cultura popular. O que há de fundamental nessa dinâmica entre rei, nobreza designada e povo é que o desenvolvimento de uma cultura popular foi a consequência dessa disposição da plebe. Se defendemos, até aqui, que a dita raia miúda parecia inclinar-se mais ao rei, talvez seja por seu poder de barganha. A noção mais importante de tudo isso é que, na prática, o rei só conseguiu a atração do povo por causa do enraizamento fraco. Em outras palavras, o que isso significa é que este era um povo solto, que estava disponível para ser cooptado por quem quer que fosse. Nesse sentido, a disputa pelo povo, que se dava entre os nobres e o rei, pautava-se muito mais por interesses comesinhos do que por índole ou ética cavalheiresca. Esse povo solto, então, comportava-se como que à espera dos seus benefícios, como que em uma frivolidade praçã

Imagens da Ópera de Apartamento "A Reincarnação do Lixo Tóxico Despachado Pro Sol"

Pós-Óperatórium

In Situ

Álbum Micro-Ópera mais portátil

 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

sexto experimento do escrever livre

Se entendi tudo errado.
Se aqueles que imaginei quererem o bem eram desacreditados ou apenas enganados por seus medos e covardias de dizer que não queriam.
Se só eu mesmo porto a verdadeira crítica.
Então devo pensar: meu abjeto é erro, é eros.
Mas não acredito em nada disso.
Acredito que a minha sofisticação é resultado de cinismos humanizados,
e que meu desejo é realmente real.
Até porque, é melhor o melhor do que o pior,
assim como é melhor um socialismo trabalhado pelo capitalismo. 
Mas eu não sei.
Talvez eu não queira e só queira.
Queira mesmo e desonre a todos. 
E a praia do Rio de Janeiro perderia seu sentido.
Ainda devo pensar.

sábado, 3 de janeiro de 2026

o outrismo do outro

se tudo aquilo que penso desfaz em sua verdade, talvez eu esteja fadado a desquestionar-me de mim.

O que digo? Sou tudo aquilo de melhor que toda a humanidade poderia produzir? O mais puro intelectual, herdeiro de toda verdade, que não a assume, mas a reconhece como resultado de sua própria percepção enquanto ser humano inscrito na sua história. 

minha instancialidade histórica seria tudo menos perpétua, mas seria verdadeira --- por negar a personalidade humana de pessoas incomprováveis.

Como matar Caetano Veloso

 Existe uma dimensão do pensamento de Keti Chukhrov que talvez seja questionável. Embora eu reconheça que a sua crítica ao conceito de alienação da chamada teoria francesa tenha fundamento, eu me questiono se o que ela denomina "superação do capitalismo pela alienação" como um projeto do pensamento francês de maio de 68 não seja uma necessidade do capitalismo. Ou melhor, talvez o desejo de alienação, a que ela se refere, seja uma necessidade crítica do pensamento anticapitalista, até que o capitalismo seja superado. Penso isso "de um ponto de vista chinês", isto é, de um ponto de vista de que o esgarçamento da relação da necessidade criada do capitalismo é um processo obrigatório da crítica constante ao capitalismo, que tem de ser recorrentemente atualizada.
 
Peguemos o caso brasileiro. A luta de classes no brasil, no século XXI, pode confundir muito analistas objetivos, assim como muitos daqueles que imaginam que a luta de classes possa ser percebida. Eu, como sou adepto desta teoria (que na verdade é a verdadeira teoria objetiva), entendo que o único passo para a atualização do sentimento de classe social que a atual conjuntura economico politica permita é uma que pode ser lida como uma reinvenção formalista da alienação -- na arte. Se bem entendo o pensamento de Chukhrov, que imagine ser afeito ao ponto de vista Fedoroviano sobre a luta de classes, a superação das classes sociais não se resolve pelo estimulação recorrente do que ela chama de "replique interminável da criação das necessidades capitalistas". Entendo isso muito bem, é claro, caso a superação do capitalismo se desse em nível global. 

Se o capitalismo fosse superado em nível global, a produção econômica, comunalizada, iria finalmente direcionar-se ao seu objetivo desalienante, heideggeriano, no sentido mais groysiano que consigo imaginar. E eu mesmo concordo com isso. Mas, do ponto de vista realista, o desenvolvimento das forças produtivas sob o capitalismo, ao realizar a tal "reprodução das necessidades criadas", produz um tipo de objeto que a economia socialista não teria condição de superar. É como se a economia socialista fosse um esquema de produção que produz, justamente por dipsensar o lucro, para sujeitos que não seriam mais seduzidos pelo tipo de produção libidinal do capitalismo. E isso, na verdade, enquanto o capitalismo perdura, é uma espécie de necessidade, que desenvolve cognitivamente a psiqué humana, ainda que, se o capitalismo fosse superado anteriormente, esse conhecimento talvez fosse inútil. 

Considerando haver alguma teleologia na relação entre a luta de classes e o desenvolvimento da forças produtivas, esse meu pensamento faz sentido. E, em esse pensamento fazendo sentido, o conhecimento passivo do ser, anterior ao desenilvimento ativo, que transforma o espaço, como do ponto de vista suprematista-soviético, torna-se uma vantagem ao futuro do socialismo global. Eu sei que parece não fazer sentido, sobretudo por causa do significado das "necessidades criadas". É claro, porque, se elas são criadas, elas inexistem, e uma transformação do sentido da produção eliminaria essa "clivagem", em direção a um descobrimento das necessidades reais da humanidade.

Contudo, a prática realista da vida demonstra que, enquanto o socialismo não for global, e o tipo de produção nap for alterado universalmenete, a unica possibilidade do "socialismo" competir libidnalmente com o capitalismo é a reprodução assistida do seu mesmo mecanismo. Aliás, se analisarmos bem, a arte é o principal exemplo disso, justamente o que Keti criticaria como "formalismo". Peguemos o caso brasileiro... Talvez nem seja o melhor exemplo, porque a tropicália foi tudo menos uma investida de superação do capitalismo. Mas suponhamos que os ícones que agora identificamos como de esquerda no Brasil (essa espécia de frente ampla do tropicalismo com setores da esquerda ultra moderada brasileira) não pudessem ser dessacralizados. Supinhamos, portanto, que esse impedimento representasse um acordo com uma teoria estética anticapitalista, nos moldes de Keti. Assitiríamos ao desfile de uma burguesia nacionalista do tipo mais camuflado possível.

Não deveríamos, nós, atores revolucionários, questionar o seu desejo de status quo? Não deveríamos apelar, nós, do povo, por uma nova intepretação da luta de classes, que passaria, é lógico, por uma reinterpretação "alienante" do cenário cultural e, portanto, produzir uma arte "formalista" do ponto de vista crítica?