quarta-feira, 12 de agosto de 2026

terça-feira, 4 de agosto de 2026

o cercamento do disposto -- e das disposições

A compreensão do modo de enriquecimento atribuído ao puritanismo deve ser realizada por meio de uma análise conjuntural da posição social das classes médias ascendentes. Frente às monarquias absolutistas, que concediam privilégios de monopólio a certas companhias de comércio, determinados segmentos da população acabaram por ver-se impossibilitados de realizarem seus objetivos vitais. Os impedimentos legais e religiosos condicionavam a posição desses segmentos a algumas alternativas de ação. Cada posição no jogo, entendamos, permite apenas um certo número de ações possíveis, ainda que o desejo advindo dessa posição possa ser abrangente e imediatista. No período da acumulação de capitais, da idade moderna, assistíamos a uma disponibilidade perceptível de recursos e a um desdobramento do isolamento posicional característico de sociedades demograficamente complexas que despertavam, nos corpos posicionados em condição de potencial esmo efetivo, o apetite pelo desafogo imediato da vontade. A transição do bem material telúrico, das sociedades agrárias, para a existência do bem material em aparecimento "fetichizado" enunciava uma possibilidade apropriativa que não encontrava meios de concretizar-se por causa de impedimentos... culturais, em última instância. Como uma montanha ou qualquer outro obstáculo topográfico, a posição, já autonomizada atomisticamente, impedia-se. O que hoje vemos como apropriação financeira direta era permitida apenas a determinados segmentos da população — as companhias de comércio legalizadas pelos éditos reais —, cabendo aos grupos intermediários se movimentarem dentro de certa limitação das opções disponíveis permitidas de agir. O aprisionamento do corpo dentro de si mesmo e a técnica de si do autocontrole geraram um enriquecimento legal, aumentando ainda mais a disponibilidade de capitais e a criação de valor abstrato, o que resultou em um estímulo inflacionado da vontade apropriativa de capital abstrato, por cobiça do "disposto ao olhar". Por fim, as revoluções burguesas legalizaram o avanço em direção a essa nova categoria, assim como as revoluções comportamentais emanciparam os corpos para a liberdade de movimento autônomo.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O centro gravitacional da Terra é o Brasil.
O Brasil é o único país onde se pode pecar de verdade, porque aqui é o paraíso. E é por isso que eu quero matar o Caetano Veloso; e o Chico Buarque, por tabela.

domingo, 2 de agosto de 2026

Lúcio Costa fez o plano de ocupação da Barra da Tijuca e do Recreio dos Bandeirantes. O que isso quer dizer?

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Fechado em seu quarto, Paula despede-se de Zeca em tom faraônico (Ramsés contra Moisés). Ele apronta as coisas, como pedido por Gominho. De fato, a viagem seria longa, porque Zeca não pretendia mais voltar em casa, muito menos ouvir as reclamações de sua mãe, menos ainda ouvi-la falar de seus planos de recuperação de seu posto. A contratação pela Rede Globo, por meio do canal GNT, era um ponto na história. Ela iria voltar a disputar as cabeças do estamento e definir os rumos da cultura nacional; ela também. Talvez a solução mesmo fosse criar uma emissora de televisão, e ela tinha todo o cacife para isso, antes da queda. A porta da sala, mais grossa, bate forte, e Zeca vê-se finalmente sozinho; ou quase: não fosse pela Wanda passando roupa no quarto de empregada.

sobre a autonomia da posição

A liberdade da posição deve apresentar-se mesmo como uma consequência da alienação. Se pensarmos nos termos marxistas da alienação do trabalho, teremos que o resultado positivo desse fenômeno é o que ele chama de "fetiche" nas relações. Ora, o fetiche é o que, segundo Marx, permite que acreditemos na simples possibilidade imediata da vontade. A mercadoria, enquanto objeto pronto, que passou por todas as relações de produção, autoriza essa espécie de ilusão da não intermediação. O indivíduo é, portanto, uma ilusão proporcionada pela alienação do trabalho, porque ele fetichiza as possibilidades de realização da vontade. Basta que se tenha dinheiro o suficiente para que seus desejos desaguem no gozo.

Não entender o que Marx aponta com isso não é necessariamente liberdade, sejamos claros. Depois da sua longa divagação sobre o capitalismo e o fetiche, não perceber que a mercadoria é um produto de relações sociais em vultosa grandeza demográfica configuraria uma espécie de negacionismo. Mas resta algo disso, ao menos como sentimento: o autoentendimento da vontade enquanto dimensão fática. Por mais que nos entendamos como meros pontos-filtros da história total, a experiência moderna da humanidade apenas iluminou uma condição que é própria dos seres: o seu isolamento ôntico, o seu acabamento "pessoal", a sua forma individual: o principium individuationis, nos termos apolíneos fundamentais.

A vontade, então, mesmo que incorpore uma epifenomenalidade de facto, não é de jurisdição de um "direito administrativo" do cosmo. A noção de gnose, tão extensamente elaborada, não representa um império absoluto da anterioridade, nem constitui um fluxo contínuo de uma geometria imanente, pelo menos não na nova tradição filosófica brasileira. Aliás, cabe aqui certo comentário, algo crítico, sobre Bruno Latour, estimulado por essa noção de tradição brasileira que vislumbro emergir. É compreensível que se deva agradecer ao serviço desse ilustre francês por multiplicar a noção de infraestrutura, expondo-nos toda sorte de forças anteriores e vitais que operam sobre a "constituição da coisa" e, portanto, do sujeito. Em certa medida, ele nos liberta da teleologia — mas não nos liberta da epifenomenalidade: pelo menos até onde conheço de sua obra. Latour joga-nos na posicionalidade acrítica, na epifenomenalidade do caos, e ainda nos condena a um fazer leninista, justo porque não conseguiu, até agora, compreender como fazer para libertar-nos da escatologia catastrófica.

Mas o agradecimento não se encerra com esse comentário desapontado, porque, no fim das contas, ele nos agracia com essa noção complexa de posição. Com seu ideário, ele dificulta justamente a compreensão eficaz dos motivos por que a alienação deve ser combatida. Vejam bem, ele compartilha, em grande medida, do pensamento infraestruturalista de Marx, mas perde de vista a totalidade do entendimento causal da alienação, liberando a alienação da posição para que se ensaie essa espécie de elogio a ela que aqui pretendo fazer. Latour entende o isolamento do indivíduo e, assim, liberta-o para querer em paz. Os meios pelos quais o indivíduo vai realizar a sua vontade ainda são "impossíveis", no sentido de que a teia de relações infraestruturais ainda opera no nível da negociação e, em última instância, da fuga da morte. Mas é bom que entendamos que o sentido das relações é o dos objetivos individuais das vontades. E, à luz do filósofo mais nietzscheano que o Nietzsche, Leon Chestov, a ingenuidade de crer puramente que conseguiremos aquilo que queremos é que constitui o ideal máximo de saúde. Resta saber se esperamos o milagre, se fazemos feitiços ou se cremos na ciência — e na ressurreição e no gozo.