preciso saber se estou dando muitas explicações no texto. se deveria deixar as coisas acontecerem no non-sense. Mas acho que tenho que explicar alguma coisa sobre o funcionamento do futuro. Nos ultimos trechos dei umas explicações, mas estou com medo de estar deixando a coisa meio travada. mas nao sei direito como fazer. Acho que dei umas explicações antecipadas. Talvez deva explicar só agora no momento fina do ultimo trecho o que expliquei antes, como a questao do pcc e dos ressuscitados.
quarta-feira, 30 de setembro de 2026
De Volta Para o Brasil: Capítulo 3 -- Sai da frente que atrás vem gente
Empunhando a espada, o Artista saiu correndo pelo corredor, mas foi impedido por Domingos por um momento. Na porta da sala de TV, que separava a parte íntima do apartamento da antessala, Domingos abriu os braços e as pernas e arregalou os olhos. Tinha descido do portal desta vez. O Artista freou bruscamente.
-- Como você pretende realizar a técnica chinesa se nem sabe executá-la? Vejo que está tomado por ódio filial... Isso é ótimo, porque ativa a função edipiana da prática, mas eu precisarei guiá-lo. Tome aqui o panfleto da descrição.
O Artista pegou da mão de Domingos um papelzinho com figuras e movimentos. Algumas legendas em mandarim, inglês e espanhol auxiliaram o artista. Os homenzinhos, em motivo realista socialista, executavam as ações violentas contra outras pessoas, que apareciam jorrando sangue, mas placidamente sorridentes. Stick the sword in the ground and say "see you later, comrade(s)". Then raise the sword and spell the name(s) of the killee(s). Swiftly tackle the target on the neck, crossing the air from the upper-left side to the lower-right side. If there are more comrades to kill, repeat the action. After the procedure, the killer must stick the sword in the ground again.
-- Bem compreendido?
O Artista finalmente encaminha-se para matá-los.
***
Depois de terminado o procedimento, quando a espada estava fincada no chão, o Artista perdeu a consciência. Vê-se, abraçado com seu pai, em um tubo de luz, voando em altíssima velocidade. Cara a cara, os dois olham-se profundamente e giram no próprio eixo. Uma grande emoção toma conta do Artista, que não se contém e começa a chorar. O pai, sem entender, abraça o filho com mais força e diz que está tudo bem. Também voando naquele tubo sobrenatural, surge sua mãe. O pai desaparece para sempre e o Artista abraça sua mãe agora. Os dois ficam girando e se olhando e sorrindo, até que ela diz que ele deve seguir em paz o seu caminho, que não se incomodou com nada.
Quando ele recobra a consciência, encontra-se estatelado na poltrona da sala de TV, com Domingos já dando ordens aos escravos ressuscitados, que não param de sair do portal, que se abriu agora atrás do sofá. Domingos parece um pouco irritado com eles.
-- ALI, ALI!!! -- ele aponta para uma poça de sangue -- Não é possível! -- reclamando, vê que Artista acordou -- Eles falam muito mal qualquer língua moderna. É preciso quase fazer o serviço por eles. Mas estão aprendendo.
O Artista, olhos esbugalhados, vê os corpos de seus pais subirem, em uma maca, pelo sofá, em direção ao portal. São introduzidos em câmaras de vidro, cheias de canos, expelindo fumaça de, supunha, nitrogênio líquido. Quando os escravos fecham a câmara, essa espécie de túmulo, os corpos são drenados para baixo e desaparecem sob o solo do supercomputador atrás do portão. O Artista olha para o lado e vê uma mulherzinha meio barrigudinha digitar no teclado.
-- Edna, por favor! O rapaz está esperando demais, e o seu trabalho foi muito importante.
-- Pois, não Doutor. -- E começa a digitar mais rápido.
Em cerca de dois minutos, ressurgem os pais dele, caminhando do fundo da sala computadorizada, emergindo de uma fumaça branca e densa, rejuvenescidos, calmos e vestidos como se não fossem dos anos 2000. Embasbacado, o Artista olhou para Domingos, incrédulo, enquanto os escravos faziam a assepsia completa, como quem ia perguntar por explicações maiores. Mas Domingos, como de costume, antecipou-se e pôs-se na vanguarda do destino e dirigiu-se ao rapaz.
-- É... Acho que chegou a hora de eu te dar algumas explicações: o que você está fazendo aqui, do que se trata tudo isso que estamos fazendo... Que diabos é isso de um portal transtemporal!!! Hahahaha -- riu-se, imaginando a cabecinha do garoto saindo fumaça. -- Sente-se aqui -- e indicou a poltrona de novo para o artista sentar -- preciso te explicar algumas coisas.
terça-feira, 22 de setembro de 2026
O Artista, contudo, hesita. É tomado por um remorso sem precedentes. Quis corrigir muito do que disse ao pai naquela conversa. Reescrever a história dos dois. Rechaçou, por um momento, a espada de Doutor Domingos e, em profunda crise de consciência, pergunta se não há outra solução; certamente haveria. Domingos pediu um minuto, com um semblante mudado, uma expressão de desaprovação. Consultou seu supercomputador. Voltou, arrastando-se pelas rodinhas da cadeira.
-- Bem... Você pode cometer suicídio também, mas isso representaria uma enorme derrota para a China.
-- Para a China?
-- Sim, uma vitória para os Estados Unidos. É hora de você entender. Escute: somos nós, não os americanos, que buscamos nos antecipar aos fatos. Fomos nós que descobrimos tudo, que agimos para tudo. Os americanos fazem de tudo para impedir que cheguemos cada vez mais longe. Eles só assistem. Eles só querem assistir. Tudo o que fazem é uma defensiva, porque isso conserva a riqueza com eles. São tão estúpidos. Assim, se você se suicidar, será uma derrota de toda uma frente de operação cósmica, criada pela humanidade. Lembra que te disse dos escravos ressuscitados? Então... Só podemos ressuscitar os que já morreram. E a morte e a destruição são condições para a reversão de tudo.
-- Meus pais ressuscitarão, então?
-- Bem... Existe uma fila de prioridades de ressurreição. Podemos peticionar junto às autoridades competentes. Tento falar com gente importante para interceder a nosso favor. É do interesse deles que essa engrenagem se reverta, digo, que você execute o plano. Podemos pedir que eles ressuscitem logo que você os matar. Um minuto.
Domingos afundou o dedo em uma tecla piscante e aguardou. O som de uma marcha revolucionária chinesa em 8 bits ecoou das entranhas do supercomputador, seguido pelo chiar de uma linha telefônica transdimensional. Ele trocou poucas palavras em um tom apressado, argumentando com jargões técnicos.
Ao desligar o fone, retornou à borda do portal com um brilho de triunfo no olhar.
-- Consegui. Um aditivo de urgência ao protocolo. Se você proceder com a liquidação imediata, a certidão de óbito entra em regime de prioridade absoluta. Eles furam a fila. Passam na frente até dos camponeses da dinastia Ming e dos tecelões da Revolução Industrial. Seus pais entram como "colaboradores compulsórios da vanguarda" e são recriados imediatamente.
-- Mas eles voltam... exatamente como eram? -- indagou o Artista, ajeitando o cabo da espada, cuja lâmina parecia agora pesar um pouco menos.
-- Voltam infinitamente melhores! -- disse Domingos, gesticulando com empolgação -- Além de rejuvenescidos, eles renascerão atualizados, afinados com o programa. Em suma: você elimina o pai estático para receber de volta um pai dialético. E em outro mundo. Não perturbarão mais; estarão aqui, felizes, sempre te estimulando. É o ato mais filial e revolucionário que você poderia praticar.
O Artista olhou novamente para o corredor. O som do telejornal continuava ao fundo. A perspectiva de assassinar os pais não para destruí-los, mas para salvá-los, parecia agora a escolha mais razoável e afetuosa possível.
Ele ergueu a espada chinesa, sentindo a convicção voltar-lhe ao peito e avançou, em velocidade, pelo corredor.
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
De Volta para o Brasil -- capítulo 2: o início do supercampeonato
O Artista abre a porta do quarto e dá de cara com o Doutor Domingos aparecendo por uma transparência, um buraco de minhoca, um portal cósmico.
-- Muito bem! A formulação está excelente. Nem precisamos discutir a forma de apresentação para o mundo. Eu devia ter imaginado... que você estava pensando direitinho; mas me enganei. Quando eu ouvia você falar, naquela época, não via sentido nenhum, não via propósito em nada do que você fazia. Parecia-me totalmente gratuito, inútil. Você pensava isso que você pensa agora na época?
-- Creio que sim. Bom... Quando as ideias me vinham, eu sentia simplesmente o prazer de ver minha raiva transfigurada em representação. Mas logo eu tentava entender o que significava aquilo, porque precisaria explicar para os outros, que nunca compreenderiam aquelas imagens em sua nudez. Ou compreenderiam, não sei, mas seriam tomadas por um sentimento de repulsa tão forte que eu seria praticamente linchado. Ou pior, esquecido, menosprezado, reduzido a lixo formulaico.
-- Entendo. Vejo que você conseguiu desenvolver um bom método, um bom programa conclusivo, com objetivos bem encaixados. E, é como você mesmo quer: é uma arte direta, one on one. É preciso atacar de pessoa para pessoa e, assim, como que no boca-a-boca, a coisa tenderá a ser espalhada, pelo seu potencial explosivo! E todos farão como que um clique e se libertarão da mediocridade da aceitação passiva do status quo. Entenderão que a história já andou e que o conflito de classes encontrou-se, de novo, com as dificuldades de ser identificado propriamente.
-- Que bom que sou compreendido.
-- Sim, muito compreendido.
Domingos tinha agora sua escrivaninha em madeira de lei escura inserida em uma saleta dentro de um supercomputador. A gravidade estava fraquíssima, e viam-se folhas de papel, carimbos e cabos flutuarem ao seu redor.
-- Você sabe a mando de quem estou aqui?
-- Não, não sei.
-- Ora! Do Partido Comunista Chinês! Nada é por acaso. Vejo que entendeu muito bem as novíssimas diretrizes do maoísmo, a menos que queira fazer arte pura a partir disso... -- Domingos estranhou que o Artista não supusesse, dado o teor alinhado da produção dele. Fazia tudo intuitivamente... pareceu-lhe, e teve uma pequena epifania sobre a qual não se estendeu.
-- Não, não, de maneira alguma. Minha dificuldade é começar pedindo para o meu pai. Eu sei que você me disse que ele me ajudaria... Mas é que.. Falar de Pau... Pau... Paula La...
-- Vamos, não tenha medo. Abra a porta do armário. Posicione-se em frente ao espelho. Você só precisa treinar. É que, de fato, não é um nome muito comum de ser pronunciado. Soa muito mal. Acho que todos sentem esse mesmo calafrio que você; mas é uma questão de necessidade. É o primeiro passo da sua arte direta; o primeiro alvo é sempre a família. Depois da família, a comunidade. Depois da comunidade, o Estado, em círculos expansivos. E, saiba, depois que enfrentamos os nossos primeiros demônios, tudo tende a correr melhor.
O Artista ficou algumas horas treinando em frente ao espelho, com o auxílio técnico de Doutor Domingos. Depois de uma noite inteira tentando, exausto, conseguiu finalmente formular todo o argumento. Domingos tinha feito o papel de advogado do diabo, prevendo todos os contra-argumentos de seu pai. Quando, pela manhã, saiu finalmente do quarto e encontrou seu pai lendo o jornal na sala, puxou o assunto, na maior serenidade possível.
-- Ô, Pai...
***
Sentado na poltrona de couro preta, bem espaçoso, o pai escutava o filho falando, com uma atenção suspiciosa. Franzia a testa. Ele se sentia hábil para opinar sobre qualquer assunto, porque tinha lido muitos clássicos e achava que entendia de tudo, apesar da sua visão sempre pasteurizada. Mas... para a surpresa do Artista... desta vez, seu pai, de fato, ENTENDEU! Era mesmo uma mudança nos ventos do destino. Disse
-- Uma Revolução Cultural...
-- Sim!
-- Mas... Você quer que eu fale com ela... — seu pai tampouco conseguia. Fez um gesto.
Boom! Ora, a vida inteira, esse contato pareceu virtualizado e, agora, na maior desfaçatez, seu pai imagina que poderia simplesmente acessá-la com um par de telefonemas e domesticar a revolução. Ela talvez compreendesse mesmo, o que seria aterrorizante. Será que era isso que Domingos tinha previsto como ajuda de seu pai? Uma neutralização de seus planos. Para quê? Pedir ao Caetano Veloso alguma coisa, é claro. O Artista e o pai começaram uma pequena discussão, que logo se desarmou pelo ridículo. Exausto, com muito sono, frustrado, o Artista voltou para o quarto, querendo explodir, mas dormiu. E sonhou com Paula Lavigne.
O pesadelo consistia no Artista em um museu com Paula Lavigne. Os dois se davam muito bem, ainda que ela mantivesse o seu tom senhorial e amedrontador. Ela andava pelo salão, mostrando obras clássicas, obras que o Artista não conhecia. Ela parecia difamar alguém, mas não o Artista, a quem ela convidava para estar ao seu lado. Ele, com um caderninho na mão, anotava tudo, e ele era menor que ela, a quem olhava como que para cima, lembrando-se de quando era criança e segurava na mão dos adultos, olhando pelo ombro, de braço esticado para cima. Caetano estava com eles, mas pouco se pronunciava. Estava com cabelos grisalhos curtos, roupas pretas, com o aspecto que assumiu depois que acabou a ditadura. Ela tinha uma saia preta que esvoaçava para lá e para cá. Enfim, ela e o Artista eram amigos, porque partilhavam intimidades, sentados no banco da galeria dos Impressionistas franceses. Saíram do museu e foram para um jardim do lado de fora. Quando estavam prontos para o piquenique, o Artista sentiu uma vontade tremenda de se desligar deles e, quando ela puxou o telefone para falar com alguém, ele saiu de perto. Foi chamado, por uma vocalização, em alto volume, da senhora do rolê. Mas fugiu. E acordou.
Quando abriu os olhos e sentou-se na cama de supetão, viu a figura de Domingos, no portal, sentado na escrivaninha flutuante do supercomputador.
-- E então? Temos um acordo?
-- Não vou aceitar esse procedimento. Ele nem quis representar-me em juízo. Propôs uma solução pífia, um acordo inter partes. Ele imagina que pudesse fazer as coisas reverterem assim? Será que se resolveriam? Não há mesmo chance de fazer de outra forma?
-- Bem... O Partido estava empenhado em adaptar seus métodos ao caráter brasileiro, sabe como é...
-- Por favor, vê se não tem outra forma de realizar isso. Eu não vou aguentar.
Domingos pediu um minuto e afastou-se em direção a um teclado no fundo da sala. Puxou um telefone do gancho. Disse: "Sim... Sei.. Aham... Não, claro... É que... não, não, muito bem, vou consultar." Sentou-se de volta no teclado anterior e iniciou uma pesquisa. Vários códigos diferentes apareceram na sua tela. O Artista olhava aquilo um pouco surpreendido. Então ele volta a falar.
-- Bem... De fato, as intenções do seu pai eram as melhores possíveis. Possíveis, eu repito. O procedimento padrão do Partido Comunista Chinês é um pouco diferente, se é que você me entende... Envolve o assassinato dos seus pais. E você terá de realizá-lo. Temos aqui a possibilidade de matá-los enquanto dormem, ou então de você executar "A Morte Violenta". A segunda opção libera mais recursos para o projeto.
-- Mas isso é um procedimento?
-- Sim. É uma novíssima técnica chinesa, inspirada em conhecimentos super avançados. Para que você entenda melhor, vou tentar explicar... É uma série de movimentos típicos das artes marciais chinesas milenares, que o agente tem que executar com precisão e que causam um movimento de partículas em um sentido tal que aciona, em uma distância incomensurável, uma cadeia de eventos específicos que nos são úteis retroativamente. Em resumo, faz a sorte virar-se para nós.
O Artista ponderou por um momento.
-- Mas o que faremos com os corpos? E o sangue? Serei incriminado!
-- Não se preocupe. Temos ressuscitado as classes subalternas de todas as épocas históricas... Não sei se já te expliquei mas... Estamos ressuscitando as pessoas aqui no futuro. Na verdade, estamos revertendo todas as leis do cosmos, por isso todas as coisas começam a se desfazer no tempo histórico em que você está. Não sei se me fiz claro. Aliás, você é mecanismo fundamental desse procedimento. Portanto, aconselhamos que você utilize a técnica chinesa, porque nós providenciaremos escravos do passado para limpar a sua barra. Fique tranquilo, que parecerá um mero desaparecimento e você não será incriminado. Os escravos da antiguidade estão muito felizes aqui, porque as condições de vida são bem superiores às em que eles viviam. Podemos mandar um monte deles para resolver seu problema. Temos também a Edna, minha empregada, que ressuscitei antes mesmo de meus filhos! Ela era ótima. Digo, voltou a ser. Aqui ela também vive melhor. Executa agora funções mais intelectuais, logo poderá arranjar as coisas com a polícia mais rapidamente.
-- Entendo. Bom... Vou ter mais grana, né? Então prefiro assassiná-los violentamente.
-- Certo. Mas será preciso cumprir o ritual chinês completo.
Domingos estende-lhe uma espada chinesa afiadíssima e diz:
-- Eles estão na sala de TV.
por que dói tanto não saber
Tomara que um dia
encontremo-nos, todos,
no futuro de todos
libertos
encontremo-nos, todos,
no futuro de todos
libertos
de todas as amarras
Tomara
que um dia, perfeito,
o cosmos refeito,
encontremo-nos, todos,
ressuscitados e prontos
para um grande gozo.
Encontremo-nos com o nosso máximo gosto!
Atinjamos aquilo mesmo que queríamos,
sem precisar mudar
o desejado.
Como se, no futuro,
um dia, quem sabe, a catástrofe
seja uma bênção,
um método, um resultado,
que aumenta tudo
para o seu melhor estado.
Tomara mesmo,
porque, se não,
o que se pode entrever
desse não ser
é um futuro horrível
do agora insistente
que acabará por dar-me
o trejeito trágico
de querer primeiro
que você.
quarta-feira, 9 de setembro de 2026
De Volta para o Brasil -- Capítulo 2: o início do supercampeonato
A cada chamada comercial da novela, o Artista pensava em começar a contar ao pai sobre o projeto. Mas como? "Bom, pai, é o seguinte: estou com um projeto de arte..." Não era bem a forma correta. "Tenho pesquisado sobre uns artistas muito transgressores e estou tentando aplicar ao contexto brasileiro, mas aqui meu projeto resulta em coisas ilegais, vou precisar da sua ajuda..." Também não era a forma correta. Até era nisso, de certa forma, que consistia o projeto, mas era bem mais complexo. Pensou em ser factual. "Lembra do Domingos? Então... Cheguei do enterro dele, mas então, deixa eu te contar... ele ressuscitou, ou algo assim, rejuvenescido, e me disse que eu deveria contar para você sobre o meu projeto de arte em que eu falo mal do Chico Buarque e do Caetano Veloso e da Pau.. Pau... Pau...la..." Ele mal conseguia completar o nome dela. Imagina! Criticar a tropicália, a música popular brasileira, assim! Ele perguntaria: "Mas baseado em quê?" Teria que fundamentar muito bem, ele diria. Mas Domingos disse que ele compreenderia! E então voltava a vinheta da novela "Voltamos a apresentar... O Sertão Vai Virar Mar, com o falsete do Zeca, que cortava justamente depois de 'Sol" — mais ou menos assim: 'O sooooooooooooool'". E distraía-se um pouco, pensando sempre naquilo ao fundo. "Era uma crítica cultural transformada em imagem de arte vazia, para expor a própria dinâmica de reprodução cultural, estratégia que iria propor uma ampliação do mercado cultural, de modo a dinamizá-lo, para que se pudesse enviesar a cultura, por meio da sua vanguarda, para um uso prático-revolucionário da arte, iluminada por um aceleracionismo chinês, aproveitando das heterogeneidades intrínsecas ao caldo cultural brasileiro, à la Darcy Ribeiro, mas com um objetivo modernizador revolucionário, tentando resolver o problema lançado por "Terra em Transe", relendo esse mesmo problema à luz do século XXI e da dita "morte das vanguardas" e do "fim das grandes narrativas". Para isso, eu teria de realizar a prática iconoclasta de maneira controlada pela ideologia maoísta, isto é, aplicaria a técnica da teoria da arte moderna mais clássica e transcendental ao contexto brasileiro, utilizando do escândalo que o ataque aos ícones da luta contra a ditadura poderia causar, tentando instigar a população a rever seus conceitos sobre dominação de classe e, ainda, desenvolvendo mais a burguesia nacional no ramo da produção simbólica, para que o Brasil pudesse ser o representante americano da efervescência cultural vermelha, cabendo à China ser a fábrica do mundo e ao Brasil a sua vanguarda superestrutural. Acho que é isso". Foi o que pensou durante o interminável desfile de promoções imperdíveis do comercial do supermercado Guanabara. Mas teria que mostrar as imagens seriais do rosto de Paula Lavigne, sua criação mais afrontosa, em que a representava como a Marilyn Monroe, por pura provocação, ainda que o crime contra a imagem e a honra dela configurasse, aparentemente, um ataque irrisório tanto ao bem dela mesma quanto ao bem comum. Teria, então, que falar de Paula Lavigne com seu pai, o que constituiria uma vergonha. Já tentou pronunciar o nome dela normalmente? Tente, agora mesmo, em voz alta. É praticamente impossível. Se, para uma pessoa normal, essa dificuldade já é grande, imagina para alguém cuja família possui relações de dominação abrasileiradas com ela? É muito pior. Em uma mini crise de pânico ao pensar que teria que mexer nesse vespeiro com seu pai, para pedir sua ajuda e sua representação em juízo contra ela, correu para o quarto.
quarta-feira, 2 de setembro de 2026
Peço aos leitores, por favor, que não se excedam em críticas quanto à posição epistemológica substantiva do texto a seguir antes do seu desenvolvimento completo, que pretendo realizar nos próximos dias. Ainda vou continuá-lo e tenho mais uns 5 tópicos para tratar teoricamente no texto e tentarei proceder a uma reflexão compartilhada ao longo do texto. O objetivo, grosso modo, é pensar questões como: o significado do casamento enquanto performance social ou busca por alianças econômicas duráveis (e o seu destino no socialismo tardio); a dimensão trans-histórica da sociogênese -- o que me levará a uma ressignificação complementar do conceito de illusio disso --; proceder ainda a uma análise comparativa entre o contexto em questão e o subdesenvolvimento, no que concerne ao postulado sociológico da "presunção de desejo de ascensão social", além de tentar explorar, em tom conclusivo, se um ajuste infraestrutural pode liberar a humanidade de uma "vontade ancestral", um significante trans-histórico coercitivo e invisível.
Assinar:
Postagens (Atom)
