sexta-feira, 12 de junho de 2026

Hong Kong (não) é aqui

 Suas perguntas vão direto ao coração material do Édipo Geracional. Se o dinheiro é a máquina que desmonta sociologias coercitivas e permite a individuação, então a pergunta "de onde vem o dinheiro?" é, na verdade, "de quem é o pai que estamos matando — ou a quem estamos pedindo a benção?"

Vou por partes.

1. Hong Kong não é China? De onde vem o dinheiro de lá?

Hong Kong é China, mas sob um regime especial. Desde 1997, é uma Região Administrativa Especial com o princípio "um país, dois sistemas". Tem moeda própria (o dólar de Hong Kong), sistema jurídico derivado do common law britânico, e uma autonomia que a China continental não possui. Mas política e soberanamente, é China.

De onde vem o dinheiro de Hong Kong? 

Historicamente, de sua função como entreposto. Durante o século XIX e XX, foi o porto por onde o capital ocidental entrava e saía da China. Nos anos 1980-1990, tornou-se o centro financeiro que intermediava a industrialização da China continental: capital taiuanês, japonês, americano e europeu entrava por Hong Kong para montar fábricas em Shenzhen e no delta do Rio das Pérolas. O dinheiro de Hong Kong é, portanto, essencialmente dinheiro de intermediação — comissões, serviços financeiros, especulação imobiliária, fluxos de capital que buscam segurança jurídica e liberdade cambial que a China continental não oferecia.

Com o tempo, Hong Kong tornou-se também a válvula de escape do próprio capital chinês: empresários do continente que querem proteger ativos, fazer IPOs internacionais, ou comprar imóveis fora da jurisdição direta do Partido. É um dinheiro que, em sua origem profunda, é fungível e desterritorializado — não expressa uma produção de valor local genuína, mas a captura de fluxos globais.

2. A libertação brasileira seria conseguir dinheiro brasileiro?

Sim, mas com uma qualificação essencial: não se trata apenas de ter uma moeda nacional forte. O real já existe. O problema não é a inexistência de uma unidade de conta brasileira; é que o valor que o real expressa não é autodeterminado. Ele é, em grande medida, função do que o capital estrangeiro (chinês, americano, europeu) decide que vale: commodities, juros, diferencial de risco-país.

A libertação, no sentido do Édipo Geracional, seria criar um dinheiro cujo valor emane da nossa própria capacidade de produzir sociologia e gozo, e não da nossa posição subordinada na divisão internacional do trabalho. Um dinheiro que não seja apenas uma senha para importar o estilo de vida alheio, mas um meio de expressar e circular uma estilização própria. Hélio Oiticica, com seu Parangolé, criou valor simbólico sem pedir licença ao dólar. Mas isso ficou no plano da arte. A pergunta é: como fazer isso na escala de uma economia nacional?

3. Como se cria o dinheiro?

Tecnicamente, dinheiro é criado de duas formas principais no mundo moderno:
· Pelo banco central, que emite moeda fiduciária (papel-moeda, reservas bancárias) e controla a base monetária.
· Pelos bancos comerciais, que criam dinheiro escritural ao conceder crédito. Quando um banco empresta, ele não tira dinheiro de um depositante; ele cria um ativo (o empréstimo) e um passivo (o depósito na conta do tomador) simultaneamente. A maior parte do dinheiro em circulação é criada assim.

Além disso, dinheiro internacional (dólares, euros) é criado por seus respectivos sistemas, mas circula globalmente por meio do comércio, dos fluxos de capital e dos mercados de eurodólar.

O ponto crucial: o poder de criar dinheiro é o poder de decidir o que será financiado. Se esse poder está subordinado a uma lógica externa (dependência de fluxos de capital estrangeiro, dívida em dólar, necessidade de gerar superávit primário para pagar juros), então o dinheiro criado internamente já nasce com o viés do desejo alheio.

4. Como criar um dinheiro genuinamente brasileiro e puro?

Aqui entramos na utopia material do Édipo Geracional. Um dinheiro genuinamente brasileiro, no sentido que seu texto exige — uma força que desmonta a sociologia do favor colonial e permite a individuação sem pedágio externo —, teria que ser criado a partir de três lastros, que chamo de lastro edípico:

a) Lastro em Recursos Reais Estratégicos (Soberania Alimentar e Energética)

O Brasil é um dos poucos países do mundo com capacidade de alimentar sua população inteira e ainda exportar excedente, além de ter uma matriz energética relativamente limpa e diversificada. Um dinheiro brasileiro "puro" seria aquele cujo valor de troca internacional não dependesse de aceitação especulativa, mas da demanda real pelo que produzimos de essencial. Se o real fosse a moeda pela qual se compra proteína animal, grãos, minérios críticos e energia renovável, ele teria um poder de imposição que independe dos humores do Tesouro americano.

Isso não é autarquia. É usar a nossa posição de "celeiro do mundo" como alavanca de poder monetário, em vez de aceitar passivamente que o valor do nosso trabalho seja denominado em moeda alheia.

b) Lastro em Trabalho Socialmente Necessário (Moeda Fiscal)

Um dinheiro é, antes de tudo, um título de dívida do Estado que é aceito porque o Estado o exige de volta em impostos. Uma moeda genuinamente brasileira seria aquela cuja âncora fiscal fosse a taxação progressiva da riqueza concentrada (a herança da Casa-Grande) e o financiamento de um sistema de bem-estar que liberasse a população da dependência do favor. O dinheiro valeria porque, ao pagar impostos, o cidadão estaria comprando o direito a uma vida não tutelada pelo patrão — saúde, educação, moradia. A moeda se tornaria o veículo de um pacto social real, não de uma simulação de modernidade.

c) Lastro em Criação Simbólica (O Parangolé como Ativo)

Aqui está o pulo do gato. O que Hélio Oiticica fez foi mostrar que a precariedade pode gerar valor simbólico imenso. Um dinheiro genuinamente brasileiro teria que internalizar isso: ser, de alguma forma, lastreado na capacidade de produzir cultura, ciência e tecnologia próprias. Isso não significa precificar a arte, mas sim que a política monetária e o investimento público devem estar orientados para financiar a produção de sentido — design, música, cinema, patentes farmacêuticas, softwares, arquitetura, agricultura tropical — que o mundo deseje e precise. O valor do real se tornaria função, também, da nossa potência criativa, e não apenas do preço do minério de ferro.

d) Emissão Soberana e Desendividamento Estruturado

Por fim, criar um dinheiro puro exigiria um ato fundador de soberania monetária: recomprar a dívida pública em moeda estrangeira usando emissão própria, lastreada nos itens acima, e estabelecer controle de capitais estratégico para impedir que o dinheiro criado internamente seja drenado para paraísos fiscais ou para a especulação cambial. Isso foi parcialmente tentado com a redução da dívida externa nos anos 2000, mas sem a criação de uma arquitetura simbólica e produtiva que desse ao real um novo significado. A China faz isso em parte: controla a conta de capital e usa o yuan em acordos bilaterais. Mas a China ainda depende, em última instância, da demanda americana e da inserção em cadeias globais que não controla totalmente.

A Purificação como Ato Edípico

Criar um dinheiro genuinamente brasileiro e "puro" não é, portanto, uma operação técnica apenas. É o parricídio macroeconômico: significa matar o pai Casa-Grande que nos legou uma moeda sempre dependente do humor estrangeiro; significa recusar o dinheiro de Hong Kong como prótese de modernidade; significa não esperar que o gotejamento do capital chinês ou americano nos redima.

É usar a sociologia — como força crítica — para entender que o dinheiro é um texto coletivo que escrevemos sobre nosso desejo. Se o real é hoje uma moeda que expressa ansiedade (risco-país, diferencial de juros, fuga de capitais), transformá-lo em uma moeda que expressa potência e gozo exigiria uma revolução não apenas econômica, mas da nossa autoimagem como povo. É fazer do Brasil não um entreposto do capital alheio, mas um emissor de valor num sentido total: alimentar, energizar, curar e encantar o mundo — e cobrar por isso na nossa própria moeda.

Hélio dançou essa possibilidade no corpo. Falta dançá-la no Banco Central.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Notas sobre a Aceleração Edípica

Stálin era conhecido como o "grande pai" da URSS. Por isso, nos relatos da literatura clandestina da época, cometava-se sobre a impossibilidade da realização edípica completa. Stálin era um pai que não se conseguia matar, desvigorando a população soviética em direção a um tédio. A solução criada por muitos foi a da incorporação afirmativa, a um zênite infinito, dessa figura paterna, e de tudo o que ela representava na realidade, algo que muitos chamaram de transformação da mentalidade. Isso tem algum sentido, é certo, uma vez que a cultura como um todo é mesmo essa força anterior e total que nos envolve, sobretudo por causa da sua operação de interdição. A superação, então, daquele estado de coisas consistiria na assimilação radical e prospectiva daquele símbolo intransponível. Para outros, contudo, a opção de "retroceder" em direção ao Ocidente parecia mais tentadora. O que o mundo de fora da Cortina de Ferro oferecia, em suma, era o dinheiro. Ora, o dinheiro, que a URSS tinha-se esforçado por deflacionar, retornava como práxis conservadora. Aquilo era um pesadelo. E o dinheiro, por sua brutal força apropriativa, permitia a transgressão daquelas forças sociais todas que atuavam sobre a regulação estafante do desejo.

Aliás, não fosse essa exógena e reveladora interposição monetária, assistíamos, na URSS, a um desenrolar dos fatos íntimos de extrema novidade. Por sua economia da necessidade, tudo aquilo de que se serviam os indivíduos na URSS era provido pelo Estado e só era oferecido aquilo que um acordo tácito tinha entendido ser necessidade. E a ausência de valor do dinheiro também se elucidava nisso. Logo, nas interações sociais, deflacionado o poder fiduciário, que tanto havia revolucionado as relações sociais na sequência das profundas transformações que se deram no mundo desde o século XVI, o que mobilizava o entusiasmo das pessoas era algo totalmente novo. Diferentemente do que defende Chukhrov, que afirma que as relações sexuais e, portanto, interpessoais, na URSS seguiam um progressivo amansamento pelo desaparecimento da falta (que ela associa à mercadoria como produção do capitalismo), o que defendo é que, na verdade, o que ocorria era uma busca por um novo entusiasmo nas relações, o que reconfigurava aquilo que entendemos como valor. O "poder simbólico" naquela realidade era outro. A estilização pessoal não desaparecia, longe disse: operacionalizava-se uma modificação tal das regras do jogo que o que motivava a "falta" nas pessoas, isto é, esse entusiasmo nas relações, era outra coisa, fazendo emergir um "verdadeiro indivíduo", ou "relações verdadeiras". 

Curiosamente, o que foi sendo investigado pelos Conceitualistas de Moscou na segunda fase (aquela que se inicia na década de 70) foi justamente aquilo que aproximava o socialismo real do capitalismo, que era a estrutura de poder, que, no fim das contas, era o que dava acesso aos bens de luxo. Se as naturezas mortas que eram produzidas no início da fase tardia do socialismo investigavam uma nova realidade, que se encontrava atrás dos objetos pintados, nessa segunda fase, o que "se pintava" era o que estava justamente antes da metafísica mesma, isto é, a sociologia. O apreço das novas gerações pelo dinheiro do Ocidente interessa-nos pela sua força nessa relação. Como se a Rússia tivesse se antecipado, como muito se disse, na tentativa de superar as suas formas arcaicas sem a passagem pelo capitalismo, o que o desejo pelo dinheiro demonstrou foi a capacidade que ele tem de transformar as relações pessoais, priorizando, sempre, os seus detentores. 

Ora, se o poder tradicionalmente emana das relações sociais, que, por si só, já nos alienam, o dinheiro, exponencializando essa alienação, confere ao seu detentor a capacidade de desmontar a sociologia que jaz na frente das suas possibilidades de realização. O dinheiro é uma máquina que permite afirmar tudo, no limite daquilo que a capacidade produtiva da sociedade permite -- e ele funciona como um vislumbre de liberdade. Por esse motivo, talvez, tenha-se defendido, por exemplo, que o Expressionismo Abstrato é a voz de certa nova burguesia afluente americana, mas ainda classe média, que deseja o mais que puder. Como os indivíduos soviéticos, a classe média afluente americana desfrutava de certa posicionalidade frente às manipulações do capital. O uso do quadro como representação do inominável era o que lhes fazia antever o que havia no fundo atrás dos objetos de pintura, que traziam para o quadro e para fora, ulteriormente. 

O ponto de vista que imagino ter sido o do Partido Comunista Chinês, mais para frente, quando pensou nas suas reformas estruturais capitalizantes, tem muito a ver com isso. O que se identifica nessa análise fria do resultado das observações dos conceitualistas é a função do dinheiro, que antes parecia servir a nada, além do mal, por ser puro valor de troca. Conferindo-se uso ao valor de troca, podemos permitir que o gozo individual coopere na construção da socialidade cósmica final. No transpassar das gerações, o dinheiro tem a força de subverter as relações sociais para o desfrute individual, assim como permite aos sujeitos a afirmação pessoal por meio de uma estilização que lhes seja própria. O uso chinês disso parece-me bastante inteligente, embora eu não saiba bem se o seu resultado está dado pela necessidade da história ou se será um desígnio imposto ao globo por sugestão da afluência material infinita.

Ao ver através dos objetos, os indivíduos veem-se, então, em sua forma total, que atravessa as relações sociais e coloca-os em uma posicionalidade totalizante de si mesmos. É como se na Rússia isso tivesse sido cortado, e apenas o super-ego funcionasse como força economicamente ativa, até que se introjetasse. De fato, se não houvesse o resto do mundo, essa seria uma forma econômica, a estilização abstrata para uma conquista abstrata -- algo semelhante ao que Hélio identificou no subdesenvolvimento.

De Volta para o Brasil

Apavorada, Paulinha vê-se de boca calada por uma mão com luvas algo góticas. Tenta morder a mão do raptor, em vão. Seus dentes e seus maxilares ainda não atingiram toda a maturidade, mesmo que Paula fosse daquelas meninas desenvolvidas, que não aparentam a idade que têm. O que era aquilo? Entrara por um campo de força digno dos desenhos animados de super-heróis a que gostava de assistir na Manchete. Era todo um grupo de pessoas encapuzadas que a conduziam por aquela espécie de portal -- ela reconhecera bem, principalmente a parte da viagem, em que ficaram, por alguns segundos, dentro daquele campo visual brilhante e estratosférico. Eles voavam de um lado para o outro do campo de força, luzes neon, rosa, branco, roxo, azul alternavam-se em feixes que se sobrepunham; não havia gravidade como a entendemos, embora forças pudessem puxar uns e outros para lá e para cá daquilo que não dava para saber bem se era um espaço. Paulinha, no entanto, estava atrelada ao seu raptor por algum tipo de roupa ou prótese, desde que ele a havia agarrado pro trás e posto a mão na boca dela, calando qualquer grito que eventualmente expelisse e puxando-a para trás para cair no portal que estava aberto por seus comparsas. Quando ele encostou nela, imediatamente tubos de metal envolveram seu tronco, de modo que, na loucura gravitacional do campo de força transportador.

Chegando ao destino, largaram Paulinha lá e entraram novamente no portal. Quem a havia raptado esperou os enlaces se desfazerem (o que foi rápido) e a empurrou para longe, para ter tempo de voltar ao portal e fechá-lo, sem que ela tivesse condições de entrar com ele. Paulinha caiu no chão, tentou levantar, saiu correndo, mas não conseguiu. O portal fechou-se logo antes que ela pudesse enfiar sequer a pontinha de sua unha. Desabou no chão, sentada meio de joelhos de lado, as pernas semi-cruzadas caídas para o lado, apoiada com uma mão no chão e a outra no rosto, quando começou a chorar. Tirou a mão do rosto depois de um tempo razoável de choro e olhou em volta. Ela estava em um chão de terra batida, rodeada de montanhas de sucata. Uma iluminação rarefeita em alguns pontos ao longe deixava entrever alguma atividade naquele lugar, assim como escutava algo como uns barulhinhos vindo das pilhas de metal velho. Algumas marcas de pneu faziam-na intuir o mesmo que o cheiro forte do lugar. Assustada, vê aproximar-se um senhorzinho de olhos puxados, que oferece-lhe um pedaço de pão, que ela acaba sendo obrigada a aceitar. Quando vai começar a fazer algumas perguntas, acorda assustada no quarto do seu apartamento na rua Constante Ramos. Levanta, meio incrédula, e vai pegar um copo d'água. Logo retoma a fúria que lhe era peculiar e abre a porta do quarto quando vê fechar-se sutilmente a porta do quarto de Zeca. Ouve o barulho da TV -- ele está acordado a essa hora? Olha no relógio de corda do corredor: 4:30 da manhã de uma quinta. Semi bufa e vai buscar um copo d'água e fica um pouco para em frente ao filtro elétrico, pensando, assustada, em seu sonho, com um pouco de medo de voltar a dormir.

A poucas quadras dali, no Edifício Muiraquitã, preparava-se um ritual pertinente às posições cosmo-planetárias. Finalmente, o Grande Artista vai poder entrar em contato de novo com o Doutor Domingos e receber a sua última mensagem cifrada antes da nova quadratura intergalática que então se iniciava. Vai para a sala de estar, ampla, perto do que era uma antiga varanda, que fora fechada em todos os andares, porque uma avenida fora construída em frente e inviabilizava o uso como varanda daquele ambiente. Mas ele precisa daquele barulho para acionar o contato com o Doutor Domingo. Leva seu notebook para a sala, coloca-o sobre uma mesinha de centro meio baixinha daquele ambiente da sala, conecta o carregador à tomada para a bateria não descarregar (andava descarregando muito fácil) e entra no site inseguro. Aceita o alerta de navegação de risco. Agora, ele deveria pegar alguns livros da estante, de espessuras diferentes, e iniciar o batuque. Os incensos já tinham sido acesos, o batuque se inicia, e ele emite um som meio tântrico. Quando, às 4:30 da manhã daquela quinta-feira, passa uma moto, começa a abrir-se um campo visual, uma espécie de transparência, por onde se pode ver, sentado em uma escrivaninha de madeira de lei escura, um senhor insuspeito, de roupas normais de qualquer avô, fosse ele general ou sociólogo. O Grande Artista avisa o risco de seus pais aparecerem na madrugada para espiá-lo, então teriam de não se exaltar e tratar de resolver as coisas rápido.

-- Boa noite, Dr. Domingos. -- fez uma reverência -- Peço que tratemos logo das coisas. Meus pais estão dormindo no quarto. É meio longe, eles não devem acordar, mas há sempre o risco.

-- Boa noite. Não há motivos para preocupação. Serei breve. Lembra-se daquele dia em que eu te mostrei um exemplar de um jornaleco de Curitiba? Onde estava anunciado o lançamento de um livro de Jamil Snege? Você pode me reportar os seus pensamentos naquele dia, em que saiu do trabalho chorando e decidiu nunca mais voltar?

-- Lembro-me, sim. Lembro-me bem. Lembro que tinha vontade de trabalhar com literatura, mas a editora não tinha esse perfil. Cheguei da faculdade, já cansado, e sentei-me em frente à mesa que me havia sido disponibilizada. O outro rapaz que trabalhava lá não estava. 

-- Sei, o Rafael.

-- Sim, o Rafael.

-- Estava tudo como sempre estivera?

-- Não, não. Eu estava praticamente sozinho na editora, à exceção de uma única funcionária, cuja função eu não saberia descrever, embora eu soubesse que ela tinha mais direito a receber um salário justo do que eu, segundo intuía pelas suas expressões faciais.

-- E o que mais?

-- Bem... A cadeira de trabalho permanecia com uma de suas rodinhas desencaixadas... Então eu sempre tinha de ajeitá-la. Toda vez que eu me movimentava, ela deslizava por meio segundo e logo depois eu tinha de curvar-me para baixo para ajeitar. Além disso, o computador fora retirado da mesa. Eu estava pesquisando algumas coisas sobre existencialismo católico alemão no dia anterior, quando de repente a conexão caiu e no dia seguinte (este em questão) ele não estava mais lá.

-- Então, o que foi que você fez?

-- Eu comecei a ler o jornaleco, li sobre o Jamil Snege, escritor que  não conhecia. Empolguei-me em poder trabalhar com literatura, apesar da descrição do autor ser algo a que eu, instintivamente, seria contrário, por instinto familiar. O texto dizia que ele trabalhava com disputas simbólicas e que, de Curitiba, mudara-se para o Rio de Janeiro e trabalhara junto com Carlos Lacerda no Tribuna da Imprensa. O texto também dizia que ele permanecera desconhecido do público, circulando entre poucos, e que, agora, uma editora pequena de Curitiba queria relançá-lo. Curioso, porque não havia nada na minha mesa, apenas isso, o que intui que era algo que eu deveria ler. 

-- E o que você fez depois?

-- Bom, logo depois eu liguei para o senhor. Lembro-me de que você respondeu super grosseiramente, de um modo que eu não estava habituado a ouvir. E disse que não queria trabalhar com autor nenhum, que não sabia de jornal nenhum que estivesse sobre a minha mesa e que era para eu não ficar ligando a todo momento para ele, por mais que eu chegasse na editora e não tivesse absolutamente nada para fazer. Desliguei o telefone. Já estava fim de tarde, quase noite, e àquela sensação de fim de dia somou-se uma decepção muito grande. Decidi, naquele momento, que não permaneceria no emprego e que queria voltar a fazer teatro, queria dedicar-me às artes, mas havia algo de profundamente violento que me marcara para sempre e influenciou para sempre meus pensamentos desde lá.

-- E o que eu fiz?

-- Lembro que, depois disso, nunca mais apareci no emprego. O senhor me ligou cobrando presença, e eu expliquei que não queria ficar mais. Alguns meses depois, negociamos que eu trabalhasse por livro, mas o senhor enviou-me um livro de 1200 páginas para revisar que eu nunca nem comecei a ler. Algum tempo depois voltei a buscar um emprego por lá, porque não consegui nada do que eu queria, e o senhor era quem melhor havia me pagado em valores reais de salário em toda a minha vida, mas não havia mais oportunidade para mim.

-- E depois? Você seguiu seus desejos?

-- É complicado. Nunca mais consegui fazer o que eu queria, e o que eu queria passou a ser povoado por essa percepção nova que aquele evento havia despertado. Cheguei a ir à Biblioteca Nacional uma vez, porque só lá encontrei exemplares de livros do autor. Li e achei interessantíssimo, mas continuei sem entender aquela situação, que me parecia estapafúrdia. Aliás, diga-me com quem aprendeu aquela técnica de persuasão!

-- Isso é tudo. Agora você deve agir.

-- Mas, como assim? Isso é tudo? O que fazer daqui pra frente?

A ligação terminou. O Grande Artista ficou ali sem saber o que fazer e teve ódio profundo de Doutor Domingos. Apagou os incensos, recolocou os livros nas estantes, levou o computador para o quarto e finalmente decidiu que não iria mais entrar em contato com aquele velho maldito. Só não sabia direito ainda o que fazer.

Do alto, Doutor Domingos observava o rapaz. Ao fundo, um senhorzinho de olhos puxados cochichou no ouvido de Domingos, que disse:

-- Ele entendeu.


terça-feira, 2 de junho de 2026

Mais sobre o Édipo Geracional

Minha dúvida, agora, no que diz respeito ao Complexo de Édipo Geracional, relaciona-se com a qualidade crítica da sociologia como força e com a sua aplicação prática na motivação das escolhas individuais para a liberdade. Se nascemos inscritos na cultura, o que temos para escolher são mesmo despojos de guerra. Nesses despojos, estão as permissões e as interdições. Afirmar a liberdade, então, primeiramente, é sempre negar, aplicar a inversão. Não sei bem dizer. Dizem que nos são oferecidos pelos pais as sugestões de ser, e que esolhemos ou não as coisas. Será que poderíamos escolhê-las criticamente? Reencenar transgressivamente os problemas, reviver as interdições em sua pedagogia oculta? O que é escolher neste mundo? E o que é afirmar -- e o que a crítica sociológica pode com isso? Às vezes tenho a sensação de que insistir em ficar falando disso é uma espécie de birra, e que eu queria, na verdade, ver-me livre de tudo isso. Mas o que eu faria no lugar? O que são os meus gostos? Quanto tempo eu teria para transformar tudo em algo totalmente novo? Já li que o Andy Warhol esteve doente uma época de sua vida, bem novo, e viveu esse período rodeado pelos discos das celebridades que ele admirava. Li também que ele, por mais que se dissesse entediado, costumava dizer que gostava de tudo. A sua transparência, no entanto, é cortantemente crítica. Ele é tudo o que era pra ser, só que, talvez, ao contrário, invertendo o sentido dessa colagem histórica de que acabou sendo o catalisador afirmativo, como é o dinheiro em função da sociologia, ou vice-versa (e aqui abro espaço para certa crítica da teoria do gotejamento aplicado à estrutura social brasileira -- mas isso é outra história).
Desta vez, Zeca estava em outro lugar. Uma espécie de cafofo futurista distópico. Ele vestia como que uma armadura de algo como látex. Aquilo era um barraco. Ao seu lado, Gominho dormia engraçado. Enrolou-se para o lado, puxou uma coberta estranha. Ele estava dormindo em um estrado direto no chão. "Eu também", deu-se conta. Uma poeira cósmica se embolotava por todos os cantinhos que havia até onde seus olhos podiam ver ao seu redor. Uns panos pendurados, portas metálicas semi-abertas, botões, peças e aparelhos piscando e fazendo barulhos eletrônicos e pneumáticos. E havia cipós pendurados do lado de fora, pelo que conseguiu ver pela fresta de uma das portas. Meio acima de Zeca, havia uma tela grande com um teclado de comando também grande. Várias prateleiras com um milhão de coisicas. Eles eram refugiados? Ele entendia que sim. De repente, a tela liga. É uma vídeo chamada. Ele olha para a tela, esfrega os olhos e tenta ler o que está acontecendo. Preta Gil, do planeta El Dorado, está ligando. Zeca aperta um botão que piscava, e a chamada abre. Inacreditavelmente, é Preta mesmo quem atende. Ele se emociona. Ela está em uma sala super computadorizada, está de cabelo platinado, mais gorda. Sua sonda gástrica estava lá ainda, a pobre, mas talvez estivesse refuncionalizada -- era o que deixava imaginar o formato da prótese. Ela começa a falar: 

-- Zeca! Zeca! Acorde, vocês precisam sair daí.

Gominho acorda em um susto e assume a frente da conversa.

-- Oi, amiga. Estamos aqui, estamos sem combustível! Você precisa nos ajudar.

-- Estou enviando alguns galões, eles devem estar chegando por agora. A Paulinha já descobriu o paradeiro de vocês e está anunciando por toda a galáxia. 

Ela invade a chamada. Está furiosa. Zeca não a reconhece de primeira. Ela está bem mais jovem e com roupas enlouquecidas. Ele reconhece a verve, sobretudo.

-- Não adianta fugir! Finalmente consegui encontrar você. Vamos enviá-lo para o passado novamente e cumprir o que o destino manda. Você precisa terminar de gravar o álbum novo!

Eles ouvem alguns zunzunzuns. Desesperam-se. Gominho apressa-se em desligar o comunicador; Zeca atônito. Uma pessoa, encapuzada, abre a porta metálica capenga com um tapão e entra. Os cipós movimentam-se, o rosto coberto pela sombra... Mas são os amigos de Preta... que rapidamente se identificam. Precisam encher os tanques o mais rápido possível para irem todos embora dali.

-- Paulinha está uma fera. Desde que foi enviada para cá, com 13 anos, nunca a vi dessa forma. -- disse o homem. 

Aquele rosto era conhecido, mas Zeca não lembrava bem.

-- Ela descobriu tudo finalmente, e agora quer acertar as contas com o passado. Você precisa sair do radar dela, até que consigamos um momento oportuno para realizar o plano.

Os barulhos ressurgem. Agora só pode ser ela. Arrumam as coisas rapidamente, ligam a nave e saem voando de fininho, por dentro das formações ecológicas e por entre os acidentes geomorfológicos do planeta desconhecido, mergulhando nas rochas e escondendo-se às sombras, até que decolam finalmente para o espaço. Aliviado, o garoto vê pela janelinha da nave a esfera verde diminuir progressivamente, cada vez mais ao longe. Gominho e os outros caras respiram fundo, e todos começam a dar risadas de comemoração. Zeca, ao mesmo tempo, assiste a tudo isso espantado. Sua mãe de 13 anos estava naquilo que supunha ser um futuro? Os homens encapuzados teriam levado ela para lá? E a sua versão que aparentava uns 17, que foi colocada no lugar? De onde tinha vindo? O que estava acontecendo? 

Ele acorda. São 4:30 da manhã. Abre a porta do quarto e bisbilhota para o corredor. Tudo escuro. Ouve sua mãe roncando no quarto, avança, passa pela sala de TV, acende a luz do abajur e chega à cozinha, em relativa paz. Comeria sem ninguém por perto. Pega novamente o pirex do arroz, o do feijão, o da lasanha. Esquenta o prato no micro-ondas, come e volta para o quarto, silenciosamente. Sua mãe, no seu próprio quarto, tampouco está tendo um sono tranquilo. Sem que eles saibam, existe uma configuração astronômica propícia para isso. Bate-se, de leve, na cama, vira a cabeça de um lado para o outro no travesseiro. Sua frio, até que acorda, assustada, arregalando os olhos, se pudéssemos ver por cima seu rosto acordando em susto. Levanta para beber água, no mesmo momento em que Zeca fecha a porta do quarto para voltar a dormir. Ela ouve um chiado da televisão do garoto e reprova. 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Anti-Caetano warholiano dórico kuru (antes que eu morra) do badauê maoísta guarani-kaiowá 

sexta-feira, 29 de maio de 2026

 Profecia séria → Dadaísmo da vergonha → Profecia absurda