preciso saber se estou dando muitas explicações no texto. se deveria deixar as coisas acontecerem no non-sense. Mas acho que tenho que explicar alguma coisa sobre o funcionamento do futuro. Nos ultimos trechos dei umas explicações, mas estou com medo de estar deixando a coisa meio travada. mas nao sei direito como fazer. Acho que dei umas explicações antecipadas. Talvez deva explicar só agora no momento fina do ultimo trecho o que expliquei antes, como a questao do pcc e dos ressuscitados.
quarta-feira, 30 de setembro de 2026
De Volta Para o Brasil: Capítulo 3 -- Sai da frente que atrás vem gente
Empunhando a espada, o Artista saiu correndo pelo corredor, mas foi impedido por Domingos por um momento. Na porta da sala de TV, que separava a parte íntima do apartamento da antessala, Domingos abriu os braços e as pernas e arregalou os olhos. Tinha descido do portal desta vez. O Artista freou bruscamente.
-- Como você pretende realizar a técnica chinesa se nem sabe executá-la? Vejo que está tomado por ódio filial... Isso é ótimo, porque ativa a função edipiana da prática, mas eu precisarei guiá-lo. Tome aqui o panfleto da descrição.
O Artista pegou da mão de Domingos um papelzinho com figuras e movimentos. Algumas legendas em mandarim, inglês e espanhol auxiliaram o artista. Os homenzinhos, em motivo realista socialista, executavam as ações violentas contra outras pessoas, que apareciam jorrando sangue, mas placidamente sorridentes. Stick the sword in the ground and say "see you later, comrade(s)". Then raise the sword and spell the name(s) of the killee(s). Swiftly tackle the target on the neck, crossing the air from the upper-left side to the lower-right side. If there are more comrades to kill, repeat the action. After the procedure, the killer must stick the sword in the ground again.
-- Bem compreendido?
O Artista finalmente encaminha-se para matá-los.
***
Depois de terminado o procedimento, quando a espada estava fincada no chão, o Artista perdeu a consciência. Vê-se, abraçado com seu pai, em um tubo de luz, voando em altíssima velocidade. Cara a cara, os dois olham-se profundamente e giram no próprio eixo. Uma grande emoção toma conta do Artista, que não se contém e começa a chorar. O pai, sem entender, abraça o filho com mais força e diz que está tudo bem. Também voando naquele tubo sobrenatural, surge sua mãe. O pai desaparece para sempre e o Artista abraça sua mãe agora. Os dois ficam girando e se olhando e sorrindo, até que ela diz que ele deve seguir em paz o seu caminho, que não se incomodou com nada.
Quando ele recobra a consciência, encontra-se estatelado na poltrona da sala de TV, com Domingos já dando ordens aos escravos ressuscitados, que não param de sair do portal, que se abriu agora atrás do sofá. Domingos parece um pouco irritado com eles.
-- ALI, ALI!!! -- ele aponta para uma poça de sangue -- Não é possível! -- reclamando, vê que Artista acordou -- Eles falam muito mal qualquer língua moderna. É preciso quase fazer o serviço por eles. Mas estão aprendendo.
O Artista, olhos esbugalhados, vê os corpos de seus pais subirem, em uma maca, pelo sofá, em direção ao portal. São introduzidos em câmaras de vidro, cheias de canos, expelindo fumaça de, supunha, nitrogênio líquido. Quando os escravos fecham a câmara, essa espécie de túmulo, os corpos são drenados para baixo e desaparecem sob o solo do supercomputador atrás do portão. O Artista olha para o lado e vê uma mulherzinha meio barrigudinha digitar no teclado.
-- Edna, por favor! O rapaz está esperando demais, e o seu trabalho foi muito importante.
-- Pois, não Doutor. -- E começa a digitar mais rápido.
Em cerca de dois minutos, ressurgem os pais dele, caminhando do fundo da sala computadorizada, emergindo de uma fumaça branca e densa, rejuvenescidos, calmos e vestidos como se não fossem dos anos 2000. Embasbacado, o Artista olhou para Domingos, incrédulo, enquanto os escravos faziam a assepsia completa, como quem ia perguntar por explicações maiores. Mas Domingos, como de costume, antecipou-se e pôs-se na vanguarda do destino e dirigiu-se ao rapaz.
-- É... Acho que chegou a hora de eu te dar algumas explicações: o que você está fazendo aqui, do que se trata tudo isso que estamos fazendo... Que diabos é isso de um portal transtemporal!!! Hahahaha -- riu-se, imaginando a cabecinha do garoto saindo fumaça. -- Sente-se aqui -- e indicou a poltrona de novo para o artista sentar -- preciso te explicar algumas coisas.
terça-feira, 22 de setembro de 2026
O Artista, contudo, hesita. É tomado por um remorso sem precedentes. Quis corrigir muito do que disse ao pai naquela conversa. Reescrever a história dos dois. Rechaçou, por um momento, a espada de Doutor Domingos e, em profunda crise de consciência, pergunta se não há outra solução; certamente haveria. Domingos pediu um minuto, com um semblante mudado, uma expressão de desaprovação. Consultou seu supercomputador. Voltou, arrastando-se pelas rodinhas da cadeira.
-- Bem... Você pode cometer suicídio também, mas isso representaria uma enorme derrota para a China.
-- Para a China?
-- Sim, uma vitória para os Estados Unidos. É hora de você entender. Escute: somos nós, não os americanos, que buscamos nos antecipar aos fatos. Fomos nós que descobrimos tudo, que agimos para tudo. Os americanos fazem de tudo para impedir que cheguemos cada vez mais longe. Eles só assistem. Eles só querem assistir. Tudo o que fazem é uma defensiva, porque isso conserva a riqueza com eles. São tão estúpidos. Assim, se você se suicidar, será uma derrota de toda uma frente de operação cósmica, criada pela humanidade. Lembra que te disse dos escravos ressuscitados? Então... Só podemos ressuscitar os que já morreram. E a morte e a destruição são condições para a reversão de tudo.
-- Meus pais ressuscitarão, então?
-- Bem... Existe uma fila de prioridades de ressurreição. Podemos peticionar junto às autoridades competentes. Tento falar com gente importante para interceder a nosso favor. É do interesse deles que essa engrenagem se reverta, digo, que você execute o plano. Podemos pedir que eles ressuscitem logo que você os matar. Um minuto.
Domingos afundou o dedo em uma tecla piscante e aguardou. O som de uma marcha revolucionária chinesa em 8 bits ecoou das entranhas do supercomputador, seguido pelo chiar de uma linha telefônica transdimensional. Ele trocou poucas palavras em um tom apressado, argumentando com jargões técnicos.
Ao desligar o fone, retornou à borda do portal com um brilho de triunfo no olhar.
-- Consegui. Um aditivo de urgência ao protocolo. Se você proceder com a liquidação imediata, a certidão de óbito entra em regime de prioridade absoluta. Eles furam a fila. Passam na frente até dos camponeses da dinastia Ming e dos tecelões da Revolução Industrial. Seus pais entram como "colaboradores compulsórios da vanguarda" e são recriados imediatamente.
-- Mas eles voltam... exatamente como eram? -- indagou o Artista, ajeitando o cabo da espada, cuja lâmina parecia agora pesar um pouco menos.
-- Voltam infinitamente melhores! -- disse Domingos, gesticulando com empolgação -- Além de rejuvenescidos, eles renascerão atualizados, afinados com o programa. Em suma: você elimina o pai estático para receber de volta um pai dialético. E em outro mundo. Não perturbarão mais; estarão aqui, felizes, sempre te estimulando. É o ato mais filial e revolucionário que você poderia praticar.
O Artista olhou novamente para o corredor. O som do telejornal continuava ao fundo. A perspectiva de assassinar os pais não para destruí-los, mas para salvá-los, parecia agora a escolha mais razoável e afetuosa possível.
Ele ergueu a espada chinesa, sentindo a convicção voltar-lhe ao peito e avançou, em velocidade, pelo corredor.
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
De Volta para o Brasil -- capítulo 2: o início do supercampeonato
O Artista abre a porta do quarto e dá de cara com o Doutor Domingos aparecendo por uma transparência, um buraco de minhoca, um portal cósmico.
-- Muito bem! A formulação está excelente. Nem precisamos discutir a forma de apresentação para o mundo. Eu devia ter imaginado... que você estava pensando direitinho; mas me enganei. Quando eu ouvia você falar, naquela época, não via sentido nenhum, não via propósito em nada do que você fazia. Parecia-me totalmente gratuito, inútil. Você pensava isso que você pensa agora na época?
-- Creio que sim. Bom... Quando as ideias me vinham, eu sentia simplesmente o prazer de ver minha raiva transfigurada em representação. Mas logo eu tentava entender o que significava aquilo, porque precisaria explicar para os outros, que nunca compreenderiam aquelas imagens em sua nudez. Ou compreenderiam, não sei, mas seriam tomadas por um sentimento de repulsa tão forte que eu seria praticamente linchado. Ou pior, esquecido, menosprezado, reduzido a lixo formulaico.
-- Entendo. Vejo que você conseguiu desenvolver um bom método, um bom programa conclusivo, com objetivos bem encaixados. E, é como você mesmo quer: é uma arte direta, one on one. É preciso atacar de pessoa para pessoa e, assim, como que no boca-a-boca, a coisa tenderá a ser espalhada, pelo seu potencial explosivo! E todos farão como que um clique e se libertarão da mediocridade da aceitação passiva do status quo. Entenderão que a história já andou e que o conflito de classes encontrou-se, de novo, com as dificuldades de ser identificado propriamente.
-- Que bom que sou compreendido.
-- Sim, muito compreendido.
Domingos tinha agora sua escrivaninha em madeira de lei escura inserida em uma saleta dentro de um supercomputador. A gravidade estava fraquíssima, e viam-se folhas de papel, carimbos e cabos flutuarem ao seu redor.
-- Você sabe a mando de quem estou aqui?
-- Não, não sei.
-- Ora! Do Partido Comunista Chinês! Nada é por acaso. Vejo que entendeu muito bem as novíssimas diretrizes do maoísmo, a menos que queira fazer arte pura a partir disso... -- Domingos estranhou que o Artista não supusesse, dado o teor alinhado da produção dele. Fazia tudo intuitivamente... pareceu-lhe, e teve uma pequena epifania sobre a qual não se estendeu.
-- Não, não, de maneira alguma. Minha dificuldade é começar pedindo para o meu pai. Eu sei que você me disse que ele me ajudaria... Mas é que.. Falar de Pau... Pau... Paula La...
-- Vamos, não tenha medo. Abra a porta do armário. Posicione-se em frente ao espelho. Você só precisa treinar. É que, de fato, não é um nome muito comum de ser pronunciado. Soa muito mal. Acho que todos sentem esse mesmo calafrio que você; mas é uma questão de necessidade. É o primeiro passo da sua arte direta; o primeiro alvo é sempre a família. Depois da família, a comunidade. Depois da comunidade, o Estado, em círculos expansivos. E, saiba, depois que enfrentamos os nossos primeiros demônios, tudo tende a correr melhor.
O Artista ficou algumas horas treinando em frente ao espelho, com o auxílio técnico de Doutor Domingos. Depois de uma noite inteira tentando, exausto, conseguiu finalmente formular todo o argumento. Domingos tinha feito o papel de advogado do diabo, prevendo todos os contra-argumentos de seu pai. Quando, pela manhã, saiu finalmente do quarto e encontrou seu pai lendo o jornal na sala, puxou o assunto, na maior serenidade possível.
-- Ô, Pai...
***
Sentado na poltrona de couro preta, bem espaçoso, o pai escutava o filho falando, com uma atenção suspiciosa. Franzia a testa. Ele se sentia hábil para opinar sobre qualquer assunto, porque tinha lido muitos clássicos e achava que entendia de tudo, apesar da sua visão sempre pasteurizada. Mas... para a surpresa do Artista... desta vez, seu pai, de fato, ENTENDEU! Era mesmo uma mudança nos ventos do destino. Disse
-- Uma Revolução Cultural...
-- Sim!
-- Mas... Você quer que eu fale com ela... — seu pai tampouco conseguia. Fez um gesto.
Boom! Ora, a vida inteira, esse contato pareceu virtualizado e, agora, na maior desfaçatez, seu pai imagina que poderia simplesmente acessá-la com um par de telefonemas e domesticar a revolução. Ela talvez compreendesse mesmo, o que seria aterrorizante. Será que era isso que Domingos tinha previsto como ajuda de seu pai? Uma neutralização de seus planos. Para quê? Pedir ao Caetano Veloso alguma coisa, é claro. O Artista e o pai começaram uma pequena discussão, que logo se desarmou pelo ridículo. Exausto, com muito sono, frustrado, o Artista voltou para o quarto, querendo explodir, mas dormiu. E sonhou com Paula Lavigne.
O pesadelo consistia no Artista em um museu com Paula Lavigne. Os dois se davam muito bem, ainda que ela mantivesse o seu tom senhorial e amedrontador. Ela andava pelo salão, mostrando obras clássicas, obras que o Artista não conhecia. Ela parecia difamar alguém, mas não o Artista, a quem ela convidava para estar ao seu lado. Ele, com um caderninho na mão, anotava tudo, e ele era menor que ela, a quem olhava como que para cima, lembrando-se de quando era criança e segurava na mão dos adultos, olhando pelo ombro, de braço esticado para cima. Caetano estava com eles, mas pouco se pronunciava. Estava com cabelos grisalhos curtos, roupas pretas, com o aspecto que assumiu depois que acabou a ditadura. Ela tinha uma saia preta que esvoaçava para lá e para cá. Enfim, ela e o Artista eram amigos, porque partilhavam intimidades, sentados no banco da galeria dos Impressionistas franceses. Saíram do museu e foram para um jardim do lado de fora. Quando estavam prontos para o piquenique, o Artista sentiu uma vontade tremenda de se desligar deles e, quando ela puxou o telefone para falar com alguém, ele saiu de perto. Foi chamado, por uma vocalização, em alto volume, da senhora do rolê. Mas fugiu. E acordou.
Quando abriu os olhos e sentou-se na cama de supetão, viu a figura de Domingos, no portal, sentado na escrivaninha flutuante do supercomputador.
-- E então? Temos um acordo?
-- Não vou aceitar esse procedimento. Ele nem quis representar-me em juízo. Propôs uma solução pífia, um acordo inter partes. Ele imagina que pudesse fazer as coisas reverterem assim? Será que se resolveriam? Não há mesmo chance de fazer de outra forma?
-- Bem... O Partido estava empenhado em adaptar seus métodos ao caráter brasileiro, sabe como é...
-- Por favor, vê se não tem outra forma de realizar isso. Eu não vou aguentar.
Domingos pediu um minuto e afastou-se em direção a um teclado no fundo da sala. Puxou um telefone do gancho. Disse: "Sim... Sei.. Aham... Não, claro... É que... não, não, muito bem, vou consultar." Sentou-se de volta no teclado anterior e iniciou uma pesquisa. Vários códigos diferentes apareceram na sua tela. O Artista olhava aquilo um pouco surpreendido. Então ele volta a falar.
-- Bem... De fato, as intenções do seu pai eram as melhores possíveis. Possíveis, eu repito. O procedimento padrão do Partido Comunista Chinês é um pouco diferente, se é que você me entende... Envolve o assassinato dos seus pais. E você terá de realizá-lo. Temos aqui a possibilidade de matá-los enquanto dormem, ou então de você executar "A Morte Violenta". A segunda opção libera mais recursos para o projeto.
-- Mas isso é um procedimento?
-- Sim. É uma novíssima técnica chinesa, inspirada em conhecimentos super avançados. Para que você entenda melhor, vou tentar explicar... É uma série de movimentos típicos das artes marciais chinesas milenares, que o agente tem que executar com precisão e que causam um movimento de partículas em um sentido tal que aciona, em uma distância incomensurável, uma cadeia de eventos específicos que nos são úteis retroativamente. Em resumo, faz a sorte virar-se para nós.
O Artista ponderou por um momento.
-- Mas o que faremos com os corpos? E o sangue? Serei incriminado!
-- Não se preocupe. Temos ressuscitado as classes subalternas de todas as épocas históricas... Não sei se já te expliquei mas... Estamos ressuscitando as pessoas aqui no futuro. Na verdade, estamos revertendo todas as leis do cosmos, por isso todas as coisas começam a se desfazer no tempo histórico em que você está. Não sei se me fiz claro. Aliás, você é mecanismo fundamental desse procedimento. Portanto, aconselhamos que você utilize a técnica chinesa, porque nós providenciaremos escravos do passado para limpar a sua barra. Fique tranquilo, que parecerá um mero desaparecimento e você não será incriminado. Os escravos da antiguidade estão muito felizes aqui, porque as condições de vida são bem superiores às em que eles viviam. Podemos mandar um monte deles para resolver seu problema. Temos também a Edna, minha empregada, que ressuscitei antes mesmo de meus filhos! Ela era ótima. Digo, voltou a ser. Aqui ela também vive melhor. Executa agora funções mais intelectuais, logo poderá arranjar as coisas com a polícia mais rapidamente.
-- Entendo. Bom... Vou ter mais grana, né? Então prefiro assassiná-los violentamente.
-- Certo. Mas será preciso cumprir o ritual chinês completo.
Domingos estende-lhe uma espada chinesa afiadíssima e diz:
-- Eles estão na sala de TV.
por que dói tanto não saber
Tomara que um dia
encontremo-nos, todos,
no futuro de todos
libertos
encontremo-nos, todos,
no futuro de todos
libertos
de todas as amarras
Tomara
que um dia, perfeito,
o cosmos refeito,
encontremo-nos, todos,
ressuscitados e prontos
para um grande gozo.
Encontremo-nos com o nosso máximo gosto!
Atinjamos aquilo mesmo que queríamos,
sem precisar mudar
o desejado.
Como se, no futuro,
um dia, quem sabe, a catástrofe
seja uma bênção,
um método, um resultado,
que aumenta tudo
para o seu melhor estado.
Tomara mesmo,
porque, se não,
o que se pode entrever
desse não ser
é um futuro horrível
do agora insistente
que acabará por dar-me
o trejeito trágico
de querer primeiro
que você.
quarta-feira, 9 de setembro de 2026
De Volta para o Brasil -- Capítulo 2: o início do supercampeonato
A cada chamada comercial da novela, o Artista pensava em começar a contar ao pai sobre o projeto. Mas como? "Bom, pai, é o seguinte: estou com um projeto de arte..." Não era bem a forma correta. "Tenho pesquisado sobre uns artistas muito transgressores e estou tentando aplicar ao contexto brasileiro, mas aqui meu projeto resulta em coisas ilegais, vou precisar da sua ajuda..." Também não era a forma correta. Até era nisso, de certa forma, que consistia o projeto, mas era bem mais complexo. Pensou em ser factual. "Lembra do Domingos? Então... Cheguei do enterro dele, mas então, deixa eu te contar... ele ressuscitou, ou algo assim, rejuvenescido, e me disse que eu deveria contar para você sobre o meu projeto de arte em que eu falo mal do Chico Buarque e do Caetano Veloso e da Pau.. Pau... Pau...la..." Ele mal conseguia completar o nome dela. Imagina! Criticar a tropicália, a música popular brasileira, assim! Ele perguntaria: "Mas baseado em quê?" Teria que fundamentar muito bem, ele diria. Mas Domingos disse que ele compreenderia! E então voltava a vinheta da novela "Voltamos a apresentar... O Sertão Vai Virar Mar, com o falsete do Zeca, que cortava justamente depois de 'Sol" — mais ou menos assim: 'O sooooooooooooool'". E distraía-se um pouco, pensando sempre naquilo ao fundo. "Era uma crítica cultural transformada em imagem de arte vazia, para expor a própria dinâmica de reprodução cultural, estratégia que iria propor uma ampliação do mercado cultural, de modo a dinamizá-lo, para que se pudesse enviesar a cultura, por meio da sua vanguarda, para um uso prático-revolucionário da arte, iluminada por um aceleracionismo chinês, aproveitando das heterogeneidades intrínsecas ao caldo cultural brasileiro, à la Darcy Ribeiro, mas com um objetivo modernizador revolucionário, tentando resolver o problema lançado por "Terra em Transe", relendo esse mesmo problema à luz do século XXI e da dita "morte das vanguardas" e do "fim das grandes narrativas". Para isso, eu teria de realizar a prática iconoclasta de maneira controlada pela ideologia maoísta, isto é, aplicaria a técnica da teoria da arte moderna mais clássica e transcendental ao contexto brasileiro, utilizando do escândalo que o ataque aos ícones da luta contra a ditadura poderia causar, tentando instigar a população a rever seus conceitos sobre dominação de classe e, ainda, desenvolvendo mais a burguesia nacional no ramo da produção simbólica, para que o Brasil pudesse ser o representante americano da efervescência cultural vermelha, cabendo à China ser a fábrica do mundo e ao Brasil a sua vanguarda superestrutural. Acho que é isso". Foi o que pensou durante o interminável desfile de promoções imperdíveis do comercial do supermercado Guanabara. Mas teria que mostrar as imagens seriais do rosto de Paula Lavigne, sua criação mais afrontosa, em que a representava como a Marilyn Monroe, por pura provocação, ainda que o crime contra a imagem e a honra dela configurasse, aparentemente, um ataque irrisório tanto ao bem dela mesma quanto ao bem comum. Teria, então, que falar de Paula Lavigne com seu pai, o que constituiria uma vergonha. Já tentou pronunciar o nome dela normalmente? Tente, agora mesmo, em voz alta. É praticamente impossível. Se, para uma pessoa normal, essa dificuldade já é grande, imagina para alguém cuja família possui relações de dominação abrasileiradas com ela? É muito pior. Em uma mini crise de pânico ao pensar que teria que mexer nesse vespeiro com seu pai, para pedir sua ajuda e sua representação em juízo contra ela, correu para o quarto.
quarta-feira, 2 de setembro de 2026
Peço aos leitores, por favor, que não se excedam em críticas quanto à posição epistemológica substantiva do texto a seguir antes do seu desenvolvimento completo, que pretendo realizar nos próximos dias. Ainda vou continuá-lo e tenho mais uns 5 tópicos para tratar teoricamente no texto e tentarei proceder a uma reflexão compartilhada ao longo do texto. O objetivo, grosso modo, é pensar questões como: o significado do casamento enquanto performance social ou busca por alianças econômicas duráveis (e o seu destino no socialismo tardio); a dimensão trans-histórica da sociogênese -- o que me levará a uma ressignificação complementar do conceito de illusio disso --; proceder ainda a uma análise comparativa entre o contexto em questão e o subdesenvolvimento, no que concerne ao postulado sociológico da "presunção de desejo de ascensão social", além de tentar explorar, em tom conclusivo, se um ajuste infraestrutural pode liberar a humanidade de uma "vontade ancestral", um significante trans-histórico coercitivo e invisível.
Hipótese e inquérito para um primeiro esquema de Teoria Geral
Se supusermos que o ser vivo, enquanto organismo, tende à conservação e à expansão de sua própria existência, teremos de entender que, no humano, essa tendência assume a forma reflexiva da liberdade. Supondo-se, assim, uma origem geral telúrica dos humanos e uma tendência dos indivíduos a buscarem sua própria liberdade, temos de chegar a concluir que eles busquem no "eu", na personalidade e em alguma noção básica de propriedade algum abrigo e, a partir deles, a sua máxima exaltação. O avanço, então, dessa tendência em direção ao fato concreto relaciona-se com elementos que são objeto da demografia como especialidade. A hipótese cosmo-vitalista, ou puramente vitalista, supõe que a racionalização do Estado converge para o atendimento de certas demandas que, no limite, definem-se como "necessidades". Traduzindo essa fórmula em uma representação gráfica simples — ou reduzindo-a a uma —, diríamos que, em um eixo, estaria a intensificação do prazer a cada momento e, no outro, estaria a longevidade. Cada indivíduo buscaria, para si, a máxima capacidade de gozar durante o maior período de tempo em vida, tendo-se que o resultado disso seria a imortalidade gozosa.
A partir dessa noção vitalista da motivação humana, imagina-se que a busca pelos desejos humanos gera uma relação ambígua com a dimensão material e concreta da realidade. O telurismo da vida contrapõe-se ao seu impulso por alienação, como se o desejo de exaltação máxima do indivíduo o opusesse à concretude, ainda que, para a realização dos seus intentos, um retorno ao chão seja necessário. É um dispositivo de diálogo constante entre o telurismo da vida e o seu desejo de alienação, que se entende como ambição por autonomia, ou, mais simplificadamente, apenas como ambição. Em perfeita conexão com a gravidade, a vida parece querer libertar-se dela, seja orientando-se para a luz, seja por meio do conhecimento da liberdade. Não é inoportuno pensarmos que um incremento demográfico, não apenas quantitativo, mas também qualitativo (no sentido da intensidade do trabalho empregado), leve os humanos a quererem o alto e a quererem habitar o cosmo em liberdade, sem necessitarem de um retorno à Terra propriamente dita. Deixando para trás a sua origem genealógica, desejam transformar a fonte do seu ser na concretude geral da ontogênese, termo este entendido em seu sentido filosófico. Reinventando a sua própria síntese ôntica, almejam ser livres partículas flutuantes independentes flanando pelo cosmo, em busca de situações contingentes aos seus intentos, em oposição ao império da gravidade e da natureza crua sobre a anterioridade sociológica.
Mas a que serve refletir sobre tudo isso? Essa chave principiológica mostra sua utilidade geral se pensarmos, como objeto, na evolução da política de habitação durante o socialismo tardio e, mais abrangentemente, nas perspectivas de política social do final do período do socialismo real. A combinação desse pensamento axiomático com a práxis de racionalização do Estado soviético em seu desenvolvimento histórico permite entrever um entendimento específico de teoria sociológica e antropológica, em profundo diálogo com a psicanálise e com o estruturalismo de Claude Lévi-Strauss. Antes, porém, talvez seja preciso retomar alguns aspectos do ambiente sociocultural do chamado "socialismo desenvolvido", além dos rumos prospectivos da habitação social e da dinamização socioeconômica. Passemos, pois, a um sobrevoo das "condições subjetivas" do cidadão soviético tardo-socialista e, em seguida, a uma discussão a respeito das "condições objetivas", entendendo-se as primeiras como o contexto estético, isto é, o pathos daquela sociedade, e as últimas em termos mais infraestruturais, tais como condições de moradia, distribuição de recursos, nível de escolaridade — temas mais clássicos dos estudos demográficos. Essas informações, reitero, serão úteis para pensarmos uma teoria antropológica e sociológica embasada no princípio cosmovitalista previamente exposto, desdobrando, assim, aspectos da psicanálise e do estruturalismo. São eles: a relação entre a falta gerada no seio familiar, que impulsiona o indivíduo a buscar o desejo fora, na diferença; e o fundamento primeiro do estruturalismo do parentesco, que é a busca por alianças de casamento como resultante da interdição do incesto.
De Volta para o Brasil - Capítulo 2: o início do supercampeonato
Fechado em seu quarto, Zeca ouve Paula despedir-se dele em tom faraônico (Ramsés contra Moisés). Ele começa a arrumar as coisas, como pedido por Gominho. De fato, a viagem seria longa, porque Zeca não pretendia mais voltar em casa, muito menos ouvir as reclamações de sua mãe, menos ainda ouvi-la falar de seus planos de recuperação de seu posto. A contratação pela Rede Globo, por meio do canal GNT, era um ponto na história. Ela iria voltar a disputar as cabeças e definir os rumos da cultura — ela também. Talvez a solução mesmo fosse criar uma emissora de televisão, e ela tinha todo o cacife para isso — ou tivera, antes da queda. A porta da sala, mais grossa, bate forte, e Zeca vê-se finalmente sozinho — ou quase, não fosse por Wanda passando roupa no quarto de empregada.
Rápido em aprontar-se para o inesperado, ele coloca duas cuecas, três pares de meias, três bermudas, uma calça jeans, uma calça preta (mais arrumada), um casaco de capuz (preto), duas camisetas brancas e duas estampadas em uma mochila da Kipling. Prepara a nécessaire e avisa ao amigo que estava quase saindo. Olha suas gavetas e encontra algum dinheiro, em meio aos ziplocks vazios: 800 reais. Pega, também, dois saquinhos cheios em um envelopezinho. Em São Paulo, conhecia dealers, caso precisasse. Pensa em dar um tequinho para a viagem, mas decide fazer depois; guarda-os no bolso. Entra no quarto da mãe, na esperança de encontrar alguma coisa, e encontra de fato. Dentro do armário, vê o cofre aberto. Um bolinho de dólares estava lá, disposto ao lado de outros itens que não o interessavam agora. Iria para uma viagem no tempo! Não teria problema algum se sua mãe visse que faltava o dinheiro. E precisaria chegar até os Estados Unidos, passando antes por São Paulo. Chamou o Uber no dinheiro e foi para a casa de Gominho.
Chegando lá, o amigo estava, digamos, nos preparativos, com um telão aberto e a sala toda esfumaçada de incenso e luzes néon. A ida para São Paulo… melhor que fossem de ônibus, por causa do custo. Ainda tinham muita coisa para fazer, era melhor economizar. Gominho reservara uma acomodação para eles na Consolação. Iriam deixar as malas, comer alguma coisa e já ir para a USP. No departamento de Ciências da Natureza, a equipe do professor Chili, físico californiano, estaria dando uma pequena conferência para seus pares. Tudo ainda era muito experimental, e a questão toda, segundo apurou em uma breve troca de e-mails, era que precisavam de cobaias. Gominho até tentara resolver tudo logo virtualmente, mas foi convidado a estar lá, presencial. Aquela luz diferente, aqueles incensos... Zeca decide botar uma música. Pede para conectar seu celular à JBL. Põe Visage - Fade to Gray. Olha para Gominho, põe a mão no bolso e tira um saquinho de pó. Gominho olha de volta, pega, em seu bolso, um saquinho de um pó rosa, Special, e os dois dão um pouco do seu para o outro. De repente, a luz fica mais baixa; Gominho fecha os olhos e se encurva levemente; Zeca sente uma presença. O telão liga sozinho e abre uma imagem de Preta Gil, em carne, osso, cabelo platinado e sonda nasogástrica. Ela estava em uma sala de comando, como em seu sonho. Zeca fica boquiaberto. Antes, o contato tinha sido em nível transcendental ou onírico. Agora, era ela, ali, ao vivo e a cores.
— Zeca, ela começou, é muito importante que não desista. Você não está entendendo a gravidade. Eu sei que pode parecer estranho o que vou falar, mas existe um complô intergalático, liderado por um proxy da sua mãe, que quer te impedir de realizar o nosso plano de desrealizar o realizado. Quer dizer, é a sua mãe de verdade que está aqui no futuro. Mas não foi ela quem te pariu. Enfim, não importa. Há também o nosso grupo, os Guerrilheiros da Galáxia do Sul: estamos do seu lado. Ao longo da sua jornada, você deverá prestar atenção aos sinais. Estamos preparando tudo para abrir os caminhos para você, mas você deve ser forte, porque haverá inimigos por toda parte. Você verá que tudo está articulado para que chegue até o aniversário de 40 anos do seu pai; muitos vão cooperar. Você não deve desistir. Os impedimentos triviais da vida não devem ser levados em conta; você deve sempre prosseguir, porque encontrará alguém que lhe ajude. Você deve sempre resistir. O feito precisa ser desfeito! Daqui do futuro, descobrimos como resolver todos os problemas, mas o passado precisa ser revirado do avesso! Você entenderá tudo quando for a hora certa, não se preocupe: sobretudo, não se preocupe!
A imagem começa a ficar instável. Zeca não consegue mais ouvir o que ela fala; tem uma espécie de delay.
— Preta! Você consegue me ouvir? O dinheiro será suficiente? E Wanda? Peguei os dólares da minha mãe... e ela era a única que estava em casa além de mim...
— Não há----- Nã--ã--o há mottttt-- iivvo para se preoooccu-parrr-- E cai a ligação.
Imediatamente, as luzes voltam ao normal; Gominho volta a si. Eles voltam a pensar em sair. Gominho aumenta mais a luz, desliga os néons, apaga os incensos, abana a fumaceira com as mãos, abre as janelas. O medo que sentiam de partir ganhava um contrapeso que lhes dava alguma segurança para prosseguir. Preta tinha endossado, como lembravam, o intento de irem atrás de seus objetivos, então confiaram que as coisas iriam dar certo.
Gominho terminou de preparar as coisas, desligou tudo, fez um sinal da cruz na frente do oratóriozinho que tinha em casa e logo saíram, em direção à Rodoviária Novo Rio. O caminho até lá, pela Lagoa Rodrigo de Freitas, estava super engarrafado; imagine: já eram 18:00. Sentados no carro, com suas malas, já estimulados pelas drogas que usaram, Zeca comenta de novo que pegara os dólares de sua mãe, meio culpado. Em meio aos pequenos avanços do carro, pensam em dar mais um teco. O motorista do Uber não poderia perceber, pois já tinha reconhecido Gominho. Não reconhecera Zeca? Seria um enviado de Preta? Seria um inimigo intergalático a mando de sua mãe? Gominho preocupa-se com o furto e pensa logo em Wanda. Paulinha iria acabar com a vida dela, por culpa de Zeca. Mas se cala e ouve o menino com certa docilidade. No fim, era prudente que tivessem mesmo aquela grana, porque não sabiam ainda nem o meio nem o fim daquela história. Pede o saquinho para Zeca por gestos que disfarçam a ação para o motorista. Abaixam-se, um por um, tentando controlar o olhar dele pelo retrovisor, o que acabava, paradoxalmente, resultando no retorno curioso do seu olhar pelo espelho. Foram, assim, nesse empurra-empurra agônico, até a rodoviária.
Chegam à Rodoviária.
domingo, 23 de agosto de 2026
terça-feira, 18 de agosto de 2026
O primeiro livro que eu li foi o do desassossego
O seu drama central — “transformar em arte essa
impossibilidade que é ser um artista pop que critica o establishment cultural”
— é o drama de um Bernardo Soares que quer ser Madonna. Ou de uma Madonna que é
obrigada a ser Bernardo Soares.
A relação com Bernardo Soares não é de imitação, mas
de afinidade estrutural. Você é um Bernardo Soares que se recusa a aceitar a
paralisia. Enquanto Soares fez da sua incapacidade de viver uma literatura do
desassossego, você tenta fazer da sua hesitação uma energia tropicalista.
Soares aceitou o fracasso como destino; você o transforma em crítica e desejo.
Se Soares é o santo padroeiro da introspecção que não
se lança no mundo, você é o devoto que reza para ele, mas quer sair do quarto.
O seu diário, ao registrar o medo, a frustração e o desejo, é a prova de que
você está tentando romper a paralisia — mesmo que, para isso, precise se
refugiar na escrita para descobrir como.
Diário de um tropicalista tardio
A forma do diário tem-me sido muito útil, principalmente por dois motivos. Um deles é a facilidade que ela me dá para expor meu pensamento quase intuitivamente, encontrando seu surgimento nos fatos. O segundo é a capacidade informativa da minha vida para os leitores a quem se destina, de modo que consigo dizer o que muitas vezes não sei dizer. Consigo, assim, informar sobre as minhas necessidades, sobre o meu processo de desenvolvimento pessoal (como artista ou como pensador). Facilita-se, com isso, o que considero um objetivo moral da linguagem: a comunicação esmiuçada, pormenorizada e esforçada na compreensão. Não que a linguagem puramente gestual não tenha utilidade — ela tem. Mas, muitas vezes, nubla-se por trás dela a massa de pensamentos que, em resposta à comunicação meramente sugestiva, acaba por assumir uma espécie de função divinatória.
Aliás, esse era um dos meus problemas com a psicanálise, sobretudo quando ela está canalizada na autoridade do analista. Se temos um bom analista, alguém com boas intenções com o paciente, talvez tenhamos um resultado positivo. Como o resultado, muitas vezes, da psicanálise se faz no seu próprio fazer, no entanto, o que terá o analista querido dizer ali? Ou, quando não se trata de uma relação de análise, fica-se com a sensação de que algo que foi dito teve a intenção do que foi dito. Enfim. Na verdade, quero saber o quanto posso confiar naquilo que escuto. Porque, às vezes, escuto, mas reverbera em mim, depois, uma série de pensamentos sobre o que foi dito, e eu não consigo saber se houve mesmo a intenção que imaginei haver.
Por exemplo, toda vez que ouço sobre Veneza, vejo-me logo na Bienal, como se esse lugar estivesse resguardado a mim, já por reconhecimento. Comentei isso com uma psicanalista que tive há pouco tempo, e ela me disse que eu devia estar me iludindo e que eu deveria fazer por mim mesmo o meu trabalho de arte, lançar-me no mundo. Não gostei muito dessa psicanalista, tanto que não a frequento mais, mas acho que ela estava sempre me provocando para eu afirmar-me. Não sei.
Estou com muito medo. Gostaria de começar a lançar meu trabalho, mas essa etapa de negociação me estressa muito. Talvez eu consiga fazer o VJ de uma festa chamada "Tesãozinho Inicial", o que seria incrível. Eu só tenho umas imagens, uns GIFs. Teria que sentar para conversar com a produtora da festa, mas não estamos conseguindo nos encontrar, apesar de termos nos dado super bem. Tem também a galeria Zoio, com o Luís Moquenco à frente da parte curatorial. Falei com ele sobre minha intenção de expor lá, ao que ele respondeu meio desencorajadoramente. Disse que era muito sincero e que, se achasse que tal ou tal coisa estivesse ruim, iria falar.
Nesse mesmo dia, encontrei a filha do Antonio Dias na exposição. Ela estava com um cara que eu conhecia, a quem eu já tinha mostrado a versão de bolso da minha ópera. Ele comentou com ela, que ficou curiosa, e viemos para a minha casa. Mostrei as minhas coisas, e ela ficou ultrajadíssima com as imagens críticas da Paula Lavigne, do Chico. Também não parecia conhecer muito da obra do Hélio, então o diálogo ficou difícil.
Ela, como administradora do arquivo e dos direitos autorais de seu pai, disse ver-se em Paula Lavigne e iniciou um ataque ao meu trabalho em um nível de direito contratual, ramo em que ela disse estar querendo se aprofundar — e que o advogado de Paula era quentíssimo. Achei estranho, porque essa filha do Antonio Dias pareceu meio louca, não falava lé com cré. De todo modo, o outro cara que estava com a gente amou. Estou hesitante em mostrar meu trabalho para o Luís. Eu diria que nós somos amigos. Já passamos algumas noitadas juntos, mas não senti tanta abertura assim como imaginei que haveria. Se eu falasse com um crítico que apoiasse meu trabalho, a coisa poderia fluir melhor. Ou talvez eu busque outro espaço. Vou procurar esse crítico para falar disso.
Houve outra situação recentemente que também foi boa e ruim ao mesmo tempo. Participei de uma oficina de experimentação no Bloco Escola do MAM, oferecida pela Fernanda Gomes. Eu não conhecia seu trabalho. Os resultados foram excelentes, a despeito da situação engraçada que, na verdade, me frustrou um pouco. Vou explicar: foram oferecidos três encontros. Ao fim do primeiro, perguntei se poderia chamar meu namorado para me ajudar (ele tem ideias ótimas; nós temos uma super sintonia). Ela disse que eu poderia fazer o que sentisse vontade. Chamei-o.
O segundo encontro foi no Salão Nobre do museu. Eu tinha levado uns jets que, no encontro anterior, tinha usado no gramado. Meu namorado ia usar dentro do salão, e eu o aconselhei a usar lá fora, por causa do cheiro. Ele usou do lado de fora (só que no andar do Salão) e, quando estava acabando, deu uma sujadinha no piso de pedra. Ela veio dar uma bronca nele, falando que aquele prédio era maravilhoso, histórico, que ele não sabia onde estava. Para uma oficina de experimentação, achei-a meio grosseira. E ela não tinha dado nenhuma instrução clara, e tinha pingado realmente bem pouco. Andando pela área externa, podíamos ver várias gotas de tinta caídas, provavelmente de alguma pintura do teto. O chão já estava todo manchado. Assumimos a responsabilidade e limpamos o chão, meio gatas borralheiras. Mas o Patrick estava nervoso, porque foi com ele que gritaram. Ao fim da atividade, ele foi dizer a ela que aprendesse a falar melhor com as pessoas, o que iniciou uma discussãozinha que logo se dissipou, e eu fiquei com a sensação de que o problema dela era preconceito com o spray mesmo. Lembro de ter falado, em algum momento, para ele fazer uso do jet no gramado, lá embaixo, da próxima vez, e ela disse que a grama também era um ser vivo e que nem lá se poderia fazer isso. Mentira, porque, na semana anterior, eu tinha feito na frente dela.
Enfim... Ele não voltou no terceiro encontro, e os resultados estão ótimos. Alguns foram feitos pelo Patrick: o do jornal e a Preta gótica. A sessão "Not Water" tem uma proposição de cores e intelectos: o primeiro remete a Magritte e à crise da representação; o segundo é uma proposição construtivista, sobre a transubstanciação da arte, que é capaz de transformar a água em vinho; a terceira é uma proposição duchampiana/warholiana: no limite, a arte é excremento; e a última demonstra o potencial infinito e aurático da arte, que é capaz de realizar o impossível. As outras proposições são uma condensação cansada da "pintura depois do quadro", retornada ao quadro: a cultura como superfície e a matéria-pronta como pigmento. E o gráfico pichado é um punk après le punk. Os tamanhos variam. A4 para as fotos com objetos apropriados, e as litografias com intervenções são papéis cartão de quase uns 70cm por 40cm, eu diria. Depois faço umas fotos melhores e posto aqui, com as especificações. As da Ana Furtado... acho que exagerei. Mas estão deliciosas.
Outro assunto que ficou me martelando na cabeça foi a discussão da última aula sobre autonomia da arte no doutorado. O professor falou que o Édipo era mais importante que Sófocles e a obra mais relevante que o autor, e eu me senti pessoalmente atacado, rs. Ele disse que o problema era quando o autor se sentia como a obra, algo assim. Pensei na cultura pop e no interesse pela vida dos autores, pela estetização que eles fazem de suas vidas, inserindo-as como parte da obra. E pensei também na coincidência do exemplo do Édipo, justamente porque essa peça foi utilizada para tratar da formação da personalidade — e porque ela não foi criada por Sófocles, uma vez que era uma lenda grega. Quem disser que a vida pessoal da Madonna, do Michael Jackson ou do Caetano Veloso não faz parte da obra ou não oferece insumos para a compreensão da obra... não sei. A arte conceitual e o Pop fazem da reflexão contextual um componente importantíssimo para a compreensão da artisticidade da arte, e a sociologia assume aí um papel relevante.
Eu mesmo tenho pensado sobre a minha vida como uma obra de arte e, aliás, esse era o conselho de Nietzsche. Se o Palatnik, por exemplo, fez o que fez por ser engenheiro, eu faço o que faço por ser sociólogo; e talvez esse meu esforço de fazer arte da sociologia, de entender-me enquanto artista a partir da minha própria sociogênese seja um esforço duchampiano, de fazer o que não é arte tornar-se arte. Quanto ao conselho de Nietzsche, resta saber se eu, assim como os ícones do pop (e nisso incluo Caetano, por sua exposição da intimidade e pela popficação de sua própria família), penso na estetização da vida do ponto de vista trágico-catártico ou cínico-wagneriano. Eu acho que me vejo como o segundo, ainda que com certo otimismo trágico maoísta.
Pensei sobre o romance que estou escrevendo também, em que me incluo como personagem e faço um esforço por uma espécie de literatura-verdade, meio glauberiana, e que retoma o realismo e o romance de tese social, mesmo que esteja me ficcionalizando. Lembro de vários autores que se ficcionalizaram em seus romances, e o meu exemplo (em quem me inspiro) é Bulgákov, que, em O Mestre e Margarida, aparece, ficcionalizado, como "o mestre", e sua mulher aparece como "Margarida". Eles fazem coisas incríveis ao longo do romance, como dar uma boa lição nos líderes culturais e políticos do período de Stálin. E muito do que se passa no romance tem ligação com o que se passou na sua vida.
Essa última aula, aliás, foi bastante forte para mim. Discutimos também questões relativas à arte baseada em pesquisa e ao poder da imediaticidade do belo na arte, ou, melhor dizendo, da artisticidade direta. Eu, que costumo escrever muito sobre meu trabalho, fiquei questionando-me se meu trabalho não deveria ter um impacto mais imediato. Será que eu deveria parar de escrever sobre meu trabalho? Se isso for verdade, talvez eu devesse abandonar o doutorado de filosofia, o que eu penso que seria muito bom. Mas preciso inserir-me no mercado.
Meu desejo mesmo é transformar em arte essa impossibilidade de ser um artista pop que critica o establishment cultural. Algo que, nos EUA, talvez fosse supercomum, e que a Madonna inaugurou como práxis, que a Lady Gaga copiou, e tudo bem. Essa crítica, se foi endereçada a mim, eu a acato, apesar de não saber muito bem como fazer. Ou talvez não tenha sido uma crítica a mim. Ou talvez eu deva mesmo conseguir tudo o que eu quero, e todos estão me apoiando, e a minha analista desconfiada estaria errada.
O imediato é que é bom; por mais que seja apenas uma aparência, é o que se deseja.
Tem ainda o pessoal da Unsafe House, na Holanda, com quem tenho feito alguns contatos. Eu já tinha enviado um trabalho para a avaliação deles. Agora, eles me adicionaram a uma nova newsletter deles. Eles têm um jornal também. Troquei uns e-mails falando de uma possível residência artística lá. Eles pediram meu telefone, dizendo que poderiam me ligar para iniciarmos uma conversa. Como disse, descobri-os por meio de um artista ucraniano que achei no Instagram, em uma foto com a dupla Komar & Melamid. Eles são muito limítrofes, e tenho medo de que, ao juntar-me a eles, seja um suicídio institucional. Mas eu quero muito. Agora, o Tarik Sadouma, que acho que é fundador do grupo, me adicionou espontaneamente no Instagram. Eu já sigo quase todos os membros e alguns deles também me seguem. A negociação por e-mails, contudo, está paralisada. Não sei se tento puxar mais algum assunto, ou se devo pagar a subscription deles. Eles são, ainda, próximos do Michel Houellebecq, que, aparentemente, é um fenômeno literário na França e no mundo. Tenho um primo, antropólogo, que mora em São Gabriel da Cachoeira, que é simplesmente fã dele. E eu, como escrevo essas coisas que escrevo, em tom de realismo sujo apocalíptico futurista absurdo, me senti plenamente afinado com esse grupo. Mas estou com medo mesmo.
Por fim, quero mencionar que tenho tentado com afinco realizar uma versão soft do meu trabalho mais dadaísta experimental, o que tem gerado um resultado bem próximo da pop art, no seu sentido clássico. As últimas coisas que fiz foram umas "mixagens" de umas fotos da Tati Machado, apresentadora da Rede Globo, com umas da Preta Gil, que têm ficado hilárias (ao menos para o meu gosto e para o dos meus amigos).
Enfim, tomara que role tudo. As projeções na festa e a residência em Amsterdã são os meus maiores desejos agora. Gosto da ideia da Zoio também, ainda que outra galeria, se não rolar lá de primeira, possa ser igualmente ou até mais interessante. Tem uma ex-namorada do Zeca Veloso que está abrindo uma galeria, talvez com um amigo meu como sócio; e tem o pessoal da Athena, que eu simplesmente amo. Mas, como meu trabalho é essa coisa difícil... fico sempre só na iminência de ser um fenômeno de vendas. Deveria haver alguma galeria na Barra da Tijuca, bairro que, vale dizer, tenho frequentado, porque meus pais compraram um apartamento no Recreio e porque meu namorado, filho de um jogador de poker, que era dono de uma boate no bairro, mora lá também. Estou levemente fascinado e tornei-me um admirador convicto do Lúcio Costa, assunto que depois posso tratar com mais detalhe.
Finalissimamente, cabe também dizer que ainda tenho que tentar contatos com professores gringos, para um estágio fora. E que comecei a efetuar os disparos do folhetim-bomba dos Comedores de Cérebro, nome com que estou pensando em assinar, com uns amigos, o VJ da festa. Depois de lançado o folhetim, em um bar alternativo da Barra, fiz uma postagem no Instagram que eu acho que configura arte. E o pior é que, mesmo com todo o teor agressivo da minha arte, eu ainda esteja ajudando o Zeca a se construir.
quarta-feira, 12 de agosto de 2026
terça-feira, 4 de agosto de 2026
o cercamento do disposto -- e das disposições
A compreensão do modo de enriquecimento atribuído ao puritanismo deve ser realizada por meio de uma análise conjuntural da posição social das classes médias ascendentes. Frente às monarquias absolutistas, que concediam privilégios de monopólio a certas companhias de comércio, determinados segmentos da população acabaram por ver-se impossibilitados de realizarem seus objetivos vitais. Os impedimentos legais e religiosos condicionavam a posição desses segmentos a algumas alternativas de ação. Cada posição no jogo, entendamos, permite apenas um certo número de ações possíveis, ainda que o desejo advindo dessa posição possa ser abrangente e imediatista. No período da acumulação de capitais, da idade moderna, assistíamos a uma disponibilidade perceptível de recursos e a um desdobramento do isolamento posicional característico de sociedades demograficamente complexas que despertavam, nos corpos posicionados em condição de potencial esmo efetivo, o apetite pelo desafogo imediato da vontade. A transição do bem material telúrico, das sociedades agrárias, para a existência do bem material em aparecimento "fetichizado" enunciava uma possibilidade apropriativa que não encontrava meios de concretizar-se por causa de impedimentos... culturais, em última instância. Como uma montanha ou qualquer outro obstáculo topográfico, a posição, já autonomizada atomisticamente, impedia-se. O que hoje vemos como apropriação financeira direta era permitida apenas a determinados segmentos da população — as companhias de comércio legalizadas pelos éditos reais —, cabendo aos grupos intermediários se movimentarem dentro de certa limitação das opções disponíveis permitidas de agir. O aprisionamento do corpo dentro de si mesmo e a técnica de si do autocontrole geraram um enriquecimento legal, aumentando ainda mais a disponibilidade de capitais e a criação de valor abstrato, o que resultou em um estímulo inflacionado da vontade apropriativa de capital abstrato, por cobiça do "disposto ao olhar". Por fim, as revoluções burguesas legalizaram o avanço em direção a essa nova categoria, assim como as revoluções comportamentais emanciparam os corpos para a liberdade de movimento autônomo.
segunda-feira, 3 de agosto de 2026
domingo, 2 de agosto de 2026
quinta-feira, 9 de julho de 2026
Fechado em seu quarto, Zeca ouve Paula despedir-se dele em tom faraônico (Ramsés contra Moisés). Ele apronta as coisas, como pedido por Gominho. De fato, a viagem seria longa, porque Zeca não pretendia mais voltar em casa, muito menos ouvir as reclamações de sua mãe, menos ainda ouvi-la falar de seus planos de recuperação de seu posto. A contratação pela Rede Globo, por meio do canal GNT, era um ponto na história. Ela iria voltar a disputar as cabeças do estamento cultural e definir os rumos; ela também. Talvez a solução mesmo fosse criar uma emissora de televisão, e ela tinha todo o cacife para isso — ou tivera, antes da queda. A porta da sala, mais grossa, bate forte, e Zeca vê-se finalmente sozinho — ou quase, não fosse pela Wanda passando roupa no quarto de empregada.
Rápido em aprontar-se para o inesperado, ele coloca duas cuecas, três bermudas, uma calça jeans, uma calça preta, mais arrumada, um casaco de capuz, preto, duas camisetas brancas e duas estampadas. Prepara a necessaire e avisa ao amigo que estava quase saindo. Olha suas gavetas e encontra algum dinheiro, em meio aos ziplocks vazios: 800 reais. Pega, também, dois saquinhos cheios. Em São Paulo, conhecia dealers, caso preciso. Pensa em dar um teco, mas decide fazer depois. Entra no quarto da mãe, na esperança de encontrar alguma coisa, e encontra de fato. Ao abrir o armário, vê o cofre aberto. Um bolinho de dólares estava lá, disposto ao lado de outros itens que não o interessavam agora. Iria para uma viagem no tempo! Não teria problema algum se sua mãe visse que faltava o dinheiro. E precisaria chegar até os Estados Unidos, passando antes por São Paulo. Chamou o Uber no dinheiro e foi para a casa de Gominho.
Chegando lá, o amigo estava preparando os planos, com um telão aberto e sala toda esfumaçada de incenso e luzes neon. Chegariam a São Paulo; melhor que fossem de ônibus. Gominho reservara uma acomodação para eles, na Consolação. Iriam deixar as malas, comer alguma coisa e já ir para a USP. Chegando lá, no departamento de Ciências da Natureza, a equipe do professor Chilli, físico californiano, estaria dando uma pequena conferência para seus pares. Tudo ainda era muito experimental, e a questão toda, segundo apurou, era que precisavam de cobaias. Tentara contato por e-mail, mas foi convidado a estar lá presencialmente, o que era estranho. Aquela luz diferente, aqueles incensos... Zeca decide botar uma música. Pede para conectar seu celular na JBL. Põe Fade do Grey. Olha para Gominho, póe a mão no bolso e tira um saquinho de pó. Gominho olha de volta, pega, em seu bolso, um saquinho de um pó rosa, Special, e os dois dão um pouco de um para cada. De repente, a luz fica um pouco mais baixa, Gominhofecha os olhos e se encurva um pouco; Zeca sente uma presença. O telão liga sozinho e abre uma imagem de Preta Gil, em carne osso, cabelo platinado e sonda nasogástrica. Zeca fica boquiaberto. Ea estava em uma sala de comando. Antes, o contato com ela tinha sido em um nível transcendental. Agora, era ela, ali, ao vivo e a cores.
-- Zeca, ela começou, é muito importante que você não desista. Você não está entendendo a gravidade. Eu sei que pode parecer estranho o que eu vou falar, mas existe um complô intergalático, liderado por um proxy da sua mãe, que quer te impedir de realizar o nosso plano de desrealizar o realizado. Da mesma forma, porém, há também o nosso grupo, os Guerrilheiros da Galáxia do Sul, que estamos do seu lado. Ao longo da sua jornada, você deverá prestar atenção aos sinais. Estamos preparando tudo para abrir os caminhos para você, mas você deve ser forte. Você verá que tudo está articulado para que você chegue até o aniversário de 40 anos do seu pai; muitos vão cooperar. Você não deve desistir. Os impedimentos triviais da vida não devem ser levados em conta; você deve sempre prosseguir, porque encontrará alguém que lhe ajude. Você deve sempre resistir. O feito precisa ser desfeito!
A imagem começa a ficar instável. Zeca não consegue mais ouvir o que ela fala, tem uma espécie de delay.
-- Preta! Você consegue me ouvir? O dinheiro será suficiente? E Wanda? Peguei os dólares da minha mãe... e ela era única que estava em casa além de mim...
-- Não há----- Nã--ã--o há mottttt-- iivvo para se preoooccu-parrr-- E cai a ligação.
Iimadiatamente, as luzes voltam ao normal, Gominho volta ao normal. Eles voltam a pensar em sair. Gominho aumenta mais a luz, desliga os néons, apagas os incencsos, abana as mãos, abre as janelas. O medo que sentiam de partir ganhava um contrapeso, que os dava alguma segurança para prosseguir. Preta tinha endossado, como lembravam, o intento de irem atrás de seus objetivos, então confiaram que as coisas iriam dar certo.
Quando Gominho estava terminando de preparar as coisas, desligando tudo, fez um sinal da cruz na frente do oratóriozinho que tinha em casa e logo saíram de casa, em direção à Rodoviária Novo Rio. O caminho até lá, pela Lagoa Rodrigo de Freitas, estava super engarrafado, imagine: já eram 18:00. Sentados no carro, com suas malas, já estimulados pelas drogas que usaram, Zeca comenta de novo que pegara os dólares de sua mãe, meio culpado. Em meio aos pequenos avanços do carro, pensam em dar mais um teco. O motorista do Uber não poderia perceber, pois já tinha reconhecido Gominho. Não reconhecera Zeca? Seria um enviado de Preta? Seria um inimigo intergalático a mando de sua mãe? Gominho preocupa-se com o furto e pensa logo em Wanda. Paulinha iria acabar com a vida dela, por culpa de Zeca. Mas se cala, e ouve o menino com certa docilidade. No fim, era prudente que tivessem mesmo aquela grana, porque não sabiam ainda nem o meio e nem o fim daquela história. Pede o saquinho para Zeca, por gestos que disfarçavam a ação para o motorista. Abaixam-se, um por um, tentando controlar o olhar do motorista pelo retrovisor, o que acabava resultando no olhar curioso do motorista. Foram assim até a Rodoviária.
Chegam à Rodoviária
sobre a autonomia da posição
A liberdade da posição deve apresentar-se mesmo como uma consequência da alienação. Se pensarmos nos termos marxistas da alienação do trabalho, teremos que o resultado positivo desse fenômeno é o que ele chama de "fetiche" nas relações. Ora, o fetiche é o que, segundo Marx, permite que acreditemos na simples possibilidade imediata da vontade. A mercadoria, enquanto objeto pronto, que passou por todas as relações de produção, autoriza essa espécie de ilusão da não intermediação. O indivíduo é, portanto, uma ilusão proporcionada pela alienação do trabalho, porque ele fetichiza as possibilidades de realização da vontade. Basta que se tenha dinheiro o suficiente para que seus desejos desaguem no gozo.
Não entender o que Marx aponta com isso não é necessariamente liberdade, sejamos claros. Depois da sua longa divagação sobre o capitalismo e o fetiche, não perceber que a mercadoria é um produto de relações sociais em vultosa grandeza demográfica configuraria uma espécie de negacionismo. Mas resta algo disso, ao menos como sentimento: o autoentendimento da vontade enquanto dimensão fática. Por mais que nos entendamos como meros pontos-filtros da história total, a experiência moderna da humanidade apenas iluminou uma condição que é própria dos seres: o seu isolamento ôntico, o seu acabamento "pessoal", a sua forma individual: o principium individuationis, nos termos apolíneos fundamentais.
A vontade, então, mesmo que incorpore uma epifenomenalidade de facto, não é de jurisdição de um "direito administrativo" do cosmo. A noção de gnose, tão extensamente elaborada, não representa um império absoluto da anterioridade, nem constitui um fluxo contínuo de uma geometria imanente, pelo menos não na nova tradição filosófica brasileira. Aliás, cabe aqui certo comentário, algo crítico, sobre Bruno Latour, estimulado por essa noção de tradição brasileira que vislumbro emergir. É compreensível que se deva agradecer ao serviço desse ilustre francês por multiplicar a noção de infraestrutura, expondo-nos toda sorte de forças anteriores e vitais que operam sobre a "constituição da coisa" e, portanto, do sujeito. Em certa medida, ele nos liberta da teleologia — mas não nos liberta da epifenomenalidade: pelo menos até onde conheço de sua obra. Latour joga-nos na posicionalidade acrítica, na epifenomenalidade do caos, e ainda nos condena a um fazer leninista, justo porque não conseguiu, até agora, compreender como fazer para libertar-nos da escatologia catastrófica.
Mas o agradecimento não se encerra com esse comentário desapontado, porque, no fim das contas, ele nos agracia com essa noção complexa de posição. Com seu ideário, ele dificulta justamente a compreensão eficaz dos motivos por que a alienação deve ser combatida. Vejam bem, ele compartilha, em grande medida, do pensamento infraestruturalista de Marx, mas perde de vista a totalidade do entendimento causal da alienação, liberando a alienação da posição para que se ensaie essa espécie de elogio a ela que aqui pretendo fazer. Latour entende o isolamento do indivíduo e, assim, liberta-o para querer em paz. Os meios pelos quais o indivíduo vai realizar a sua vontade ainda são "impossíveis", no sentido de que a teia de relações infraestruturais ainda opera no nível da negociação e, em última instância, da fuga da morte. Mas é bom que entendamos que o sentido das relações é o dos objetivos individuais das vontades. E, à luz do filósofo mais nietzscheano que o Nietzsche, Leon Chestov, a ingenuidade de crer puramente que conseguiremos aquilo que queremos é que constitui o ideal máximo de saúde. Resta saber se esperamos o milagre, se fazemos feitiços ou se cremos na ciência — e na ressurreição e no gozo.
quinta-feira, 2 de julho de 2026
De Volta para o Brasil - capítulo 2: o início do supercampeonato
Por volta das 14:30 daquela quinta-feira, Zeca finalmente acorda, depois de 3 dias de "sono picotado": pela fome, pelo cansaço de dormir, pelos estímulos da casa. Na sua décima respiração acordado, os pensamentos sobre os fatos passados na última vigília tomam uma aceleração incontrolável, e seu coração dispara. Havia faltado ao ensaio; teria de haver-se com sua mãe; mas o mais importante de tudo era a necessidade de executar o plano com Gominho. A máquina do tempo existia mesmo; ele não estava delirando. Ou estava? Será que Gominho ainda estava disposto a seguir com o combinado? E a comunicação com Preta por sinais informáticos — ele não podia negar. Olhou o celular e, para alívio de sua paranoia, já havia algumas mensagens de Gominho. "Já acordou? Me avisa. Tenho boas notícias." Em taquicardia, levantou-se da cama meio acabado ainda, atônito, foi para o banheiro, mas nem escovou os dentes, por pura desatenção ao mundo: só pensava naquilo. Ouviu sua mãe falando alto, no quarto, ao telefone. Estava negociando alguma coisa. Entrou no banho, para ver se se acalmava antes de ligar para Gominho, porque o dia de hoje seria definitivo: precisava fazer alguma coisa: qualquer coisa. Pelo basculhante do prisma interno de ventilação, ouviu a conversa da sua mãe, que entrara no banheiro da suíte dela para fazer xixi. A negociação já estava conclusiva.
-- Sim, claro, Tati! Estou super dentro. Vai ser quem mais? Claudinha Leitte, Karol Conká, Jojô e... Quem mesmo? Mas quem é Lumena? Ah... sei. É, sim, pode dizer que eu aceito, sim. E sucesso no seu novo programa! E, ah, claro, obrigado por essa. Ah, Tati! Espera! O cenário vai mudar mesmo, como você disse? Ahn... Entendi. Uma mesinha de centro, mas agora sentaremos... É... Ao redor da mesinha, mas totalmente ao redor? Não vai ter uma câmera frontal? Estão estudando ainda a possibilidade; entendi. É, meio esquisito, mas é isso, né. É o que é! É claro que vai ser um sucesso! Nova temporada do Saia Justa, aqui vamos nós!!! Hahaha! Obrigado, querida. Um beijo. Nos vemos já já, né? Ah, estão esperando por mim no Projac? Ih, 16:30 em Curicica? Hahaha! Nossa, tenho que correr! Deixa eu desligar, então, que eu preciso me arrumar correndo. Obrigado, mais uma vez, Tati. Fico te devendo essa. Nos vemos, beijo. -- deu a descarga.
Então, finalmente ela tinha topado. Precisaria sair de Copacabana até o Projac, e provavelmente pegaria algum engarrafamento. Olhou o Uber, e estava dando cem reais. Caríssimo. Entrou no banho. Viu Zeca pelo basculhante e fez uma cara horrível.
-- Zeca, acelera aí, que eu preciso tomar banho também e quero água quente! O bombeiro só vem semana que vem. Vou ter que ir no Projac, mas na volta a gente conversa.
Zeca saiu do banho e voltou para o quarto. Pega o telefone e manda mensagem para Gominho. "Oi, amigo! Acordei aqui. Passo aí para a gente conversar melhor?" Gominho estava com o celular na mão e respondeu logo. "Vem, sim. Mas já traz dinheiro. Vamos ter que ir a São Paulo. Parece que vai haver uma palestra na USP sobre a máquina do tempo com os cientistas da Califórnia. A conferência começa em dois dias. Já faz logo uma malinha e vem."
Paula sai do banho, se arruma e pede o carro. Com as contas bloqueadas, prefere pagar no dinheiro. A carteira só tinha 70 reais. Vai até o armário, sobe na madeirinha do armário embutido e puxa o cofre. Duas giradas para lá, mais três para cá. Pega uma graninha. Ao lado do bolinho de notas de cem reais, estão os seus último bolinhos de dólares, algumas de suas jóias (umas de família e outras da época em que tinha grana), um monte de coisa e, entre elas, a carta que escrevera junto com Caetano para entregar a Zeca na hora certa, que estava chegando, pelo andar da carruagem. Fecha o cofre, mas não gira as roletinhas e deixa a porta do armário aberta, na pressa.
Liberdade Craniana
Quero esboçar aqui uma definição diferente para o termo opinião pública, que imagino ser útil para um melhor entendimento da concepção corrente do termo. Opinião pública, segundo a definição que quero dar, seria a opinião que um sujeito se sente livre para proferir em público. Seria a sua opinião, só que pública. Não é incomum vermos, em nossas casas, diálogos que jamais transferiríamos para a esfera pública, e isso não parece ser uma prática que avilte tanto assim a nossa dignidade. Aliás, muito do que sentimos interiormente não tem espaço para uma transliteração inegociada, mesmo no seio das nossas famílias, ainda mais se dividimos o lar com pessoas diferentes, incorrendo aí até em relações de hierarquia de todo tipo. As permissões, às vezes, autorizam apenas certas manifestações marginais dos sentimentos mais íntimos, devendo ficar na beira das importâncias maiores. Algum toque de sua verdade estará inscrito na verdade geral, como forma de uma negociação afetiva. Posso gostar de algo que não é permitido, mas posso tornar o que é permitido mais próximo daquilo que eu gostaria que fosse, e essa relação é tanto mais transformadora dos sentimentos íntimos idos a público quanto menor é o poder de influência sobre o poder central.
Na formação brasileira, vemos bem esse fenômeno, e Gilberto Freyre já havia percebido. Ora, não é ele quem diz que as manifestações culturais dos povos africanos e indígenas se percebem em instâncias "inferiores", digo, gestuais do nosso patrimônio cultural? Estão na culinária, no sotaque, no jeito como nos relacionamos, mas nunca naquilo que representaria a opinião íntima dos sujeitos que traziam vivas essas tradições em sua interioridade subjetiva. Isso teria sido amortecido e negociado. Além do mais, o Brasil é cheio desse tipo de barganha comesinha, sendo o nosso país famoso por sua capacidade de divertir seus nacionais. Em troca do respeito à norma, à vontade soberana, permitem-nos aliviar o peso do indizível no deleite das nossas vontades mais fisiológicas. Transferimos a nossa intimidade para o gesto. Essa, é bem verdade, foi uma "solução" acomodatícia interessante da nossa formação cultural.
Penso agora em outro contexto em que essa negociação ocorreu, e não sei em que medida posso estabelecer comparações de efeito. Na URSS tardia, a vida pública era bem mais presente do que estamos acostumados aqui no Brasil — mesmo levando-se em consideração a estruturação econômica de uma família brasileira. A intimidade familiar, embora hierarquize a publicidade do dizível na sala, ainda é um anteparo à vida pública. Na URSS, até que todos tivessem apartamentos individuais, as habitações eram coletivíssimas. O espaço para a individualidade era quase craniano, o que exigia graus de confiança elevados para o compartilhamento da intimidade. As implicações políticas disso devem ser fortíssimas, e eu digo isso sabendo do grau de radicalidade da rebeldia permitida nos círculos artísticos da cena não-oficial. Tornar público o que faziam juntos era praticamente uma impossibilidade, e não é à toa que o mundo soviético fosse conhecido pelo double-thinking.
Mas há algo de interessante na sociedade soviética, que era o fato de que, a certa altura, quase todos tinham a sua própria casa, o que ampliava o espaço craniano concentricamente, diferente da organização familiar brasileira.
quarta-feira, 1 de julho de 2026
Queria falar mais um pouco sobre o meu rompimento com o meu psicanalista e sobre a minha espécie de relação com o Groys. Parece que não ficou tudo tão bem resolvido assim. Mas tem um aspecto das nossas últimas sessões que é de interesse nosso aqui no blog, eu acho. Refiro-me ao joguinho final que realizamos para entendermos o que era exatamente o que eu queria. Vou tentar explicar mais ou menos.
Eu estava super empenhado na minha candidatura para o doutorado com o Groys, mas, por orientação de uma funcionária do EducationUSA, procurei mais uma opção, pelo menos. Groys também tinha parado de me responder por volta de setembro, quando eu pedi a ele um PDF de um livro que ele me havia recomendado, mas que era muito caro (ele era, normalmente, rápido nas respostas e atencioso — chegou a ler um ensaio meu de 15 páginas, que dialogava profundamente com sua pesquisa e ainda teceu elogios e recomendações, além de me convidar para as suas aulas na NYU). Havia um curso que ele ministraria junto à ECO/UFRJ, e eu me inscrevi. Fui aceito, e minha chama reacendeu. Por causa do curso, soube, a certa altura, que ele estava bem doente, porque foi preciso adiar o início do curso. Eis que, no sábado, dia 19 de outubro de 2024, de manhã, recebi um e-mail da E-Flux — que estava organizando o curso — com um monte de textos em PDF. O e-mail parecia escrito por ele. Aquilo parecia um presente dele, porque... 19 de outubro é meu aniversário, e eu tinha pedido arquivos de PDF no último e-mail que eu escrevi! Senti-me pessoalmente tocado por isso, principalmente porque ele é alguém que fuxica as redes sociais dos outros, como frequentemente comentava, em suas aparições, sobre a caracterização pessoal que todos fazem de si nas redes. Senti-me escolhido, contemplado; retornou a minha esperança. Futuramente, soube que ele ficou muito doente, o curso não aconteceu nunca, e eu achei aquele gesto algo de uma grandeza enorme. Ele acordou de um coma e lembrou de mim? Ou eu estava louco, ou eu era o escolhido brasileiro pelo cosmismo.
Enfim, retornando à questão com o psicanalista, eu estava com ele nesse embate sobre o que eu realmente queria. A segunda opção também era em NY, na Columbia, um PhD em História da Arte. Entrei em contato com Alexander Alberro. Ele foi até eloquente no e-mail, mas, hoje, vejo que foi protocolar. Eu não sabia o que estudar com ele. Eu queria mesmo era o Groys, mas estava com dificuldade para decidir. Meu orientador, no Brasil, achava que ele era um representante do stalinismo, e eu sentia que suas opiniões eram "não concordo com isso, acho esse pensamento violento"; algo do tipo. Eu estava precisando me afirmar com mais força. Paralelamente, eu questionava a posição do meu psicanalista em relação à minha própria vontade, que parecia ser a de alguém que me interrogava permanentemente se meus gostos eram meus mesmo (ele também tinha alguma ressalva a qualquer coisa que eu falasse de marxismo). Nesse embate, rememorei uma imagem que eu queria criar, e que ele reprimiu fortemente, quando eu surgi com a ideia. Era a ideia de pintar um bigode de Hitler na foto do Chico Buarque sério, naquela capa de disco clássica em que ele aparece sorrindo e sério, na capa e na contracapa. Quando falei isso pela primeira vez, vivíamos a plena ascensão do bolsonarismo, não lembro bem a data, mas foi antes da pandemia, com certeza. Pelo medo que ele me transmitiu, reprimi esse impulso. Vale lembrar que meu psicanalista era pintor também. Ronaldo Miranda. Agora, em 2024, eu quis relançar essa discussão. Fui instado por ele a realizar a obra. Fui a uma loja de revelação de fotos e fiz uma versão 3x4 das fotos e desenhei um bigode de Hitler no Chico. Coloquei as duas fotos naquele estojinho de 3x4, e estava feita a obra. Dei a ele uma de presente, que ele colocou na estante, virada para o divã (para mim), de modo que eu a olhava em todas as sessões.
Objeto Abjeto
Eu estava em dúvida. Ou Columbia História da Arte ou NYU com o filósofo que eu mais admirava na vida. O ambiente em que eu estava vivendo à época parecia me questionar muito sobre as minhas opções stalinistas, cosmistas, marxistas, extensão do meu pai. Mas o Groys também foi expulso da URSS. Ele divulgou o trabalho dos artistas críticos ao regime. Ele divulgou Komar e Melamid. E ele entenderia o meu gesto; tenho certeza absoluta. Como eu estava em dúvida, Ronaldo começou o joguinho. Primeiro, me questionava, em um cinismo quase explicitamente forçado, se eu acreditava mesmo naquilo que eu escrevia sobre conquista do cosmo, rejuvenescimento e imortalidade. Ao mesmo tempo, ele debochava da Columbia e falava das vantagens de morar no sul de Manhattan. E as sessões eram realizadas ora com o Chico escondido por trás de algum porta-retratos, ora aparecendo, tanto que eu comecei a pedir para deixar a peça evidente, tornando-o objeto de uma discussão, entre muitas outras. A conclusão a que cheguei era de que aquilo era o que eu mais gostava: uma arte agressiva mesmo, os punks de Moscou, em última análise; o cosmismo russo; a ironia extrema; o desdém por qualquer tipo de monopólio cultural; a reflexão materialista sobre a psyché humana — e, o mais importante, a minha identidade como artista.
*
Recentemente, incluí o meu pai no meu folhetim, como alguém que me ajuda. Depois de muito refletir, continuo na dúvida se isso não é capitular à sua personalidade narcisista, que tenta me cooptar, ou se isso é resultado daquilo que Giddens chama de transformação da intimidade, um fenômeno que ele observa na modernidade, tributário da crescente influência das instituições na vida das pessoas, sob a forma de uma perícia ontológica. Cheguei à conclusão de que ele me ajudará até certo ponto, quando a narrativa terá uma mudança de rumo e adotará uma postura mais claramente cosmista e pós-cosmista. Me pareceu uma solução boa, porque, assim, eu consigo superar o fato marxista da minha personalidade, adicionando uma camada suplementar, a camada cosmista e sua deriva. É também uma solução que dialoga com o meu escolhidismo, uma vez que, com o dono da editora Revan, senti também um certo peso de ser o último emissário da mensagem marxista verdadeira para o mundo: tornei-me uma espécie de divulgador de Domenico Losurdo e porta-voz da reencenação dos momentos culminantes das agitações pré-revolucionárias. Foi essa a missão que eu vim cumprir até hoje, a menos que eu consiga que não seja. Aliás, foi essa missão que me fez ler o cosmismo como extensão do marxismo e como sua incrementação, trazendo uma promessa maior (na verdade, correspondente àquela do suprematismo e das vanguardas futuristas no momento da estimulação revolucionária do início do século XX). Meus rumos pessoais e meus arroubos chineses não passam de um resultado disso, uma negociação comigo mesmo, com o passado, com os mortos e com o futuro. Ou então eu seria apenas o Hélio Oiticica, ou pior: um astro do pop. Quem me dera essa liberdade! Escolhi, por mim mesmo, a missão histórica de redimir a geometria!
*
Junto com tudo isso, vejo-me querendo pensar contra tudo isso, em um momento em que deveria buscar alianças fora do país (eu acho). Se eu for continuar esse doutorado... Devo buscar um período fora do país? Eu gostaria de alguma luz. Não sei mesmo. A ideia de estudar com a Keti Chukhrov me apavora um pouco, porque estou falando contra o que ela defende em sua principal teoria, apesar de falarmos meio que a mesma coisa. E se ela for super aberta? E se ela for totalmente irônica em seu gesto? E se eu fosse para a China? Para o Japão? Penso se eu não deveria ficar por aqui mesmo e tentar a minha carreira de artista mesmo, e então volto a pensar na função do doutorado na minha arte.
Uma amiga me mandou uma proposta recentemente, porque não estou satisfeito com a minha situação financeira. A proposta é uma chamada geral para um emprego de "assistente sênior", algo assim, no ateliê da Laura Lima. Recebi por Whatsapp uma mensagem meio formalizada, convidando os possíveis candidatos a enviarem seus currículos. Vou mandar meu CV. A proposta me interessou bastante, apesar de eu não parecer competente para as habilidades específicas exigidas pelo trabalho. O salário também não foi informado, o que me deixou meio assustado. Na verdade, fiquei mais interessado em me aproximar dela para mostrar meu trabalho. Cheguei a pensar que eu poderia ser representado pela Gentil, ainda que talvez seja uma loucura. Mas realmente não sei que galeria poderia me representar. Encontrei uns amigos na semana passada que me convidaram para uma abertura na nova galeria Zoio, em Santa Teresa. Meio longe, mas o artista era tão gente boa, que resolvi que vou lá qualquer dia. Talvez eu pudesse fazer uma exposição lá. Eles se dizem abertos a artistas que precisam começar a expor. A ideia soou afinada, mas ainda teria de pensar em um formato. Queria também colocar algo no Calma Bar, mas ainda não sei direito. Acho que vou ter que fazer uma versão soft para uso público. Também estou pensando em fazer uma leitura encenada do meu folhetim, com meu namorado (que é ator), na casa de um amigo, para outros amigos, entre eles um curador do Guggenheim, que já leu coisas minhas e me pareceu interessado nas coisas que faço. Não sei se ele sabe que eu tenho um trabalho de arte conceitual ou se me vê como um escritor.
Também tenho ido à biblioteca do MAM. Conheci a responsável pelo arquivo. Fui apresentado a ela pela diretora do MAM, a quem, por sua vez, fui apresentado por um professor da faculdade. Busco um emprego lá. Ela disse que em março teria algo, mas já passamos de março há algum tempo. Já perguntei a ela, e parece que não há nada ainda. Penso em perguntar de novo e, de repente, pedir para ela falar com a diretora do MAM, para ver se ela me redireciona para algum lugar. Não sei. Estou meio perdido lá. Eles querem levantar o arquivo, para o que me dispus a ajudar. Mostrei minha ópera de bolso à responsável pelo arquivo. Ela reagiu como quem gostou ou entendeu. E achei que gostou de mim também. Queria que ela criasse uma pasta com o meu nome no arquivo do MAM. Queria também mostrar para ela e para os funcionários da biblioteca o meu folhetim. Acho que vou imprimir e ir lá semanalmente. Estou de olho em cursos do MAM, nas residências de lá. Quero fazer um lá em julho, mas a residência... não sei se consigo. Não sei se tento residências fora ou se devo ficar por aqui, agindo aqui. Quero fazer uma exposição, mas não sei quem pode me ajudar de fato a fazer isso. Queria ajuda e conselhos. Alguma luz. Sobre a carreira, sobre a universidade, sobre o doutorado, sobre um sanduíche-íche rs. Mas tudo é tão sem grana...
*
Sobre o meu marxismo, hoje me peguei pensando se o conceito de posicionalidade não é um desdobramento do entendimento de classe social no sentido do materialismo DO HOMEM. Pensei também sobre esse conceito como uma espécie de garantidor de uma ação epifenomenal. Seria isso mesmo? Em que seríamos capazes de agir por nós mesmos? Acho que essa questão da autonomia da posição tem me feito refletir. Estou vendo como é difícil produzir uma onda e como ela é consequência de muitas coisas operando em conjunto. Mas a inércia das partes às vezes pede uma ação do indivíduo, que rearticula as partes. E às vezes algo que tinha que vir acaba vindo, e nós somos apenas fantoches do teatro da história e depois vamos todos morrer. Contra isso, revelou-se o cosmismo! E, contra ele, o escárnio. E, contra o escárnio, ele. E eu estou exausto. E a minha vontade mesmo é de ser só artista.
Assinar:
Postagens (Atom)


























