Vem comigo, eh gostoso
domingo, 23 de agosto de 2026
terça-feira, 18 de agosto de 2026
O primeiro livro que eu li foi o do desassossego
O seu drama central — “transformar em arte essa
impossibilidade que é ser um artista pop que critica o establishment cultural”
— é o drama de um Bernardo Soares que quer ser Madonna. Ou de uma Madonna que é
obrigada a ser Bernardo Soares.
A relação com Bernardo Soares não é de imitação, mas
de afinidade estrutural. Você é um Bernardo Soares que se recusa a aceitar a
paralisia. Enquanto Soares fez da sua incapacidade de viver uma literatura do
desassossego, você tenta fazer da sua hesitação uma energia tropicalista.
Soares aceitou o fracasso como destino; você o transforma em crítica e desejo.
Se Soares é o santo padroeiro da introspecção que não
se lança no mundo, você é o devoto que reza para ele, mas quer sair do quarto.
O seu diário, ao registrar o medo, a frustração e o desejo, é a prova de que
você está tentando romper a paralisia — mesmo que, para isso, precise se
refugiar na escrita para descobrir como.
Diário de um tropicalista tardio
A forma do diário tem-me sido muito útil, principalmente por dois motivos. Um deles é a facilidade que ela me dá para expor meu pensamento quase intuitivamente, encontrando seu surgimento nos fatos. O segundo é a capacidade informativa da minha vida para os leitores a quem se destina, de modo que consigo dizer o que muitas vezes não sei dizer. Consigo, assim, informar sobre as minhas necessidades, sobre o meu processo de desenvolvimento pessoal (como artista ou como pensador). Facilita-se, com isso, o que considero um objetivo moral da linguagem: a comunicação esmiuçada, pormenorizada e esforçada na compreensão. Não que a linguagem puramente gestual não tenha utilidade — ela tem. Mas, muitas vezes, nubla-se por trás dela a massa de pensamentos que, em resposta à comunicação meramente sugestiva, acaba por assumir uma espécie de função divinatória.
Aliás, esse era um dos meus problemas com a psicanálise, sobretudo quando ela está canalizada na autoridade do analista. Se temos um bom analista, alguém com boas intenções com o paciente, talvez tenhamos um resultado positivo. Como o resultado, muitas vezes, da psicanálise se faz no seu próprio fazer, no entanto, o que terá o analista querido dizer ali? Ou, quando não se trata de uma relação de análise, fica-se com a sensação de que algo que foi dito teve a intenção do que foi dito. Enfim. Na verdade, quero saber o quanto posso confiar naquilo que escuto. Porque, às vezes, escuto, mas reverbera em mim, depois, uma série de pensamentos sobre o que foi dito, e eu não consigo saber se houve mesmo a intenção que imaginei haver.
Por exemplo, toda vez que ouço sobre Veneza, vejo-me logo na Bienal, como se esse lugar estivesse resguardado a mim, já por reconhecimento. Comentei isso com uma psicanalista que tive há pouco tempo, e ela me disse que eu devia estar me iludindo e que eu deveria fazer por mim mesmo o meu trabalho de arte, lançar-me no mundo. Não gostei muito dessa psicanalista, tanto que não a frequento mais, mas acho que ela estava sempre me provocando para eu afirmar-me. Não sei.
Estou com muito medo. Gostaria de começar a lançar meu trabalho, mas essa etapa de negociação me estressa muito. Talvez eu consiga fazer o VJ de uma festa chamada "Tesãozinho Inicial", o que seria incrível. Eu só tenho umas imagens, uns GIFs. Teria que sentar para conversar com a produtora da festa, mas não estamos conseguindo nos encontrar, apesar de termos nos dado super bem. Tem também a galeria Zoio, com o Luís Moquenco à frente da parte curatorial. Falei com ele sobre minha intenção de expor lá, ao que ele respondeu meio desencorajadoramente. Disse que era muito sincero e que, se achasse que tal ou tal coisa estivesse ruim, iria falar.
Nesse mesmo dia, encontrei a filha do Antonio Dias na exposição. Ela estava com um cara que eu conhecia, a quem eu já tinha mostrado a versão de bolso da minha ópera. Ele comentou com ela, que ficou curiosa, e viemos para a minha casa. Mostrei as minhas coisas, e ela ficou ultrajadíssima com as imagens críticas da Paula Lavigne, do Chico. Também não parecia conhecer muito da obra do Hélio, então o diálogo ficou difícil.
Ela, como administradora do arquivo e dos direitos autorais de seu pai, disse ver-se em Paula Lavigne e iniciou um ataque ao meu trabalho em um nível de direito contratual, ramo em que ela disse estar querendo se aprofundar — e que o advogado de Paula era quentíssimo. Achei estranho, porque essa filha do Antonio Dias pareceu meio louca, não falava lé com cré. De todo modo, o outro cara que estava com a gente amou. Estou hesitante em mostrar meu trabalho para o Luís. Eu diria que nós somos amigos. Já passamos algumas noitadas juntos, mas não senti tanta abertura assim como imaginei que haveria. Se eu falasse com um crítico que apoiasse meu trabalho, a coisa poderia fluir melhor. Ou talvez eu busque outro espaço. Vou procurar esse crítico para falar disso.
Houve outra situação recentemente que também foi boa e ruim ao mesmo tempo. Participei de uma oficina de experimentação no Bloco Escola do MAM, oferecida pela Fernanda Gomes. Eu não conhecia seu trabalho. Os resultados foram excelentes, a despeito da situação engraçada que, na verdade, me frustrou um pouco. Vou explicar: foram oferecidos três encontros. Ao fim do primeiro, perguntei se poderia chamar meu namorado para me ajudar (ele tem ideias ótimas; nós temos uma super sintonia). Ela disse que eu poderia fazer o que sentisse vontade. Chamei-o.
O segundo encontro foi no Salão Nobre do museu. Eu tinha levado uns jets que, no encontro anterior, tinha usado no gramado. Meu namorado ia usar dentro do salão, e eu o aconselhei a usar lá fora, por causa do cheiro. Ele usou do lado de fora (só que no andar do Salão) e, quando estava acabando, deu uma sujadinha no piso de pedra. Ela veio dar uma bronca nele, falando que aquele prédio era maravilhoso, histórico, que ele não sabia onde estava. Para uma oficina de experimentação, achei-a meio grosseira. E ela não tinha dado nenhuma instrução clara, e tinha pingado realmente bem pouco. Andando pela área externa, podíamos ver várias gotas de tinta caídas, provavelmente de alguma pintura do teto. O chão já estava todo manchado. Assumimos a responsabilidade e limpamos o chão, meio gatas borralheiras. Mas o Patrick estava nervoso, porque foi com ele que gritaram. Ao fim da atividade, ele foi dizer a ela que aprendesse a falar melhor com as pessoas, o que iniciou uma discussãozinha que logo se dissipou, e eu fiquei com a sensação de que o problema dela era preconceito com o spray mesmo. Lembro de ter falado, em algum momento, para ele fazer uso do jet no gramado, lá embaixo, da próxima vez, e ela disse que a grama também era um ser vivo e que nem lá se poderia fazer isso. Mentira, porque, na semana anterior, eu tinha feito na frente dela.
Enfim... Ele não voltou no terceiro encontro, e os resultados estão ótimos. Alguns foram feitos pelo Patrick: o do jornal e a Preta gótica. A sessão "Not Water" tem uma proposição de cores e intelectos: o primeiro remete a Magritte e à crise da representação; o segundo é uma proposição construtivista, sobre a transubstanciação da arte, que é capaz de transformar a água em vinho; a terceira é uma proposição duchampiana/warholiana: no limite, a arte é excremento; e a última demonstra o potencial infinito e aurático da arte, que é capaz de realizar o impossível. As outras proposições são uma condensação cansada da "pintura depois do quadro", retornada ao quadro: a cultura como superfície e a matéria-pronta como pigmento. E o gráfico pichado é um punk après le punk. Os tamanhos variam. A4 para as fotos com objetos apropriados, e as litografias com intervenções são papéis cartão de quase uns 70cm por 40cm, eu diria. Depois faço umas fotos melhores e posto aqui, com as especificações. As da Ana Furtado... acho que exagerei. Mas estão deliciosas.
Outro assunto que ficou me martelando na cabeça foi a discussão da última aula sobre autonomia da arte no doutorado. O professor falou que o Édipo era mais importante que Sófocles e a obra mais relevante que o autor, e eu me senti pessoalmente atacado, rs. Ele disse que o problema era quando o autor se sentia como a obra, algo assim. Pensei na cultura pop e no interesse pela vida dos autores, pela estetização que eles fazem de suas vidas, inserindo-as como parte da obra. E pensei também na coincidência do exemplo do Édipo, justamente porque essa peça foi utilizada para tratar da formação da personalidade — e porque ela não foi criada por Sófocles, uma vez que era uma lenda grega. Quem disser que a vida pessoal da Madonna, do Michael Jackson ou do Caetano Veloso não faz parte da obra ou não oferece insumos para a compreensão da obra... não sei. A arte conceitual e o Pop fazem da reflexão contextual um componente importantíssimo para a compreensão da artisticidade da arte, e a sociologia assume aí um papel relevante.
Eu mesmo tenho pensado sobre a minha vida como uma obra de arte e, aliás, esse era o conselho de Nietzsche. Se o Palatnik, por exemplo, fez o que fez por ser engenheiro, eu faço o que faço por ser sociólogo; e talvez esse meu esforço de fazer arte da sociologia, de entender-me enquanto artista a partir da minha própria sociogênese seja um esforço duchampiano, de fazer o que não é arte tornar-se arte. Quanto ao conselho de Nietzsche, resta saber se eu, assim como os ícones do pop (e nisso incluo Caetano, por sua exposição da intimidade e pela popficação de sua própria família), penso na estetização da vida do ponto de vista trágico-catártico ou cínico-wagneriano. Eu acho que me vejo como o segundo, ainda que com certo otimismo trágico maoísta.
Pensei sobre o romance que estou escrevendo também, em que me incluo como personagem e faço um esforço por uma espécie de literatura-verdade, meio glauberiana, e que retoma o realismo e o romance de tese social, mesmo que esteja me ficcionalizando. Lembro de vários autores que se ficcionalizaram em seus romances, e o meu exemplo (em quem me inspiro) é Bulgákov, que, em O Mestre e Margarida, aparece, ficcionalizado, como "o mestre", e sua mulher aparece como "Margarida". Eles fazem coisas incríveis ao longo do romance, como dar uma boa lição nos líderes culturais e políticos do período de Stálin. E muito do que se passa no romance tem ligação com o que se passou na sua vida.
Essa última aula, aliás, foi bastante forte para mim. Discutimos também questões relativas à arte baseada em pesquisa e ao poder da imediaticidade do belo na arte, ou, melhor dizendo, da artisticidade direta. Eu, que costumo escrever muito sobre meu trabalho, fiquei questionando-me se meu trabalho não deveria ter um impacto mais imediato. Será que eu deveria parar de escrever sobre meu trabalho? Se isso for verdade, talvez eu devesse abandonar o doutorado de filosofia, o que eu penso que seria muito bom. Mas preciso inserir-me no mercado.
Meu desejo mesmo é transformar em arte essa impossibilidade de ser um artista pop que critica o establishment cultural. Algo que, nos EUA, talvez fosse supercomum, e que a Madonna inaugurou como práxis, que a Lady Gaga copiou, e tudo bem. Essa crítica, se foi endereçada a mim, eu a acato, apesar de não saber muito bem como fazer. Ou talvez não tenha sido uma crítica a mim. Ou talvez eu deva mesmo conseguir tudo o que eu quero, e todos estão me apoiando, e a minha analista desconfiada estaria errada.
O imediato é que é bom; por mais que seja apenas uma aparência, é o que se deseja.
Tem ainda o pessoal da Unsafe House, na Holanda, com quem tenho feito alguns contatos. Eu já tinha enviado um trabalho para a avaliação deles. Agora, eles me adicionaram a uma nova newsletter deles. Eles têm um jornal também. Troquei uns e-mails falando de uma possível residência artística lá. Eles pediram meu telefone, dizendo que poderiam me ligar para iniciarmos uma conversa. Como disse, descobri-os por meio de um artista ucraniano que achei no Instagram, em uma foto com a dupla Komar & Melamid. Eles são muito limítrofes, e tenho medo de que, ao juntar-me a eles, seja um suicídio institucional. Mas eu quero muito. Agora, o Tarik Sadouma, que acho que é fundador do grupo, me adicionou espontaneamente no Instagram. Eu já sigo quase todos os membros e alguns deles também me seguem. A negociação por e-mails, contudo, está paralisada. Não sei se tento puxar mais algum assunto, ou se devo pagar a subscription deles. Eles são, ainda, próximos do Michel Houellebecq, que, aparentemente, é um fenômeno literário na França e no mundo. Tenho um primo, antropólogo, que mora em São Gabriel da Cachoeira, que é simplesmente fã dele. E eu, como escrevo essas coisas que escrevo, em tom de realismo sujo apocalíptico futurista absurdo, me senti plenamente afinado com esse grupo. Mas estou com medo mesmo.
Por fim, quero mencionar que tenho tentado com afinco realizar uma versão soft do meu trabalho mais dadaísta experimental, o que tem gerado um resultado bem próximo da pop art, no seu sentido clássico. As últimas coisas que fiz foram umas "mixagens" de umas fotos da Tati Machado, apresentadora da Rede Globo, com umas da Preta Gil, que têm ficado hilárias (ao menos para o meu gosto e para o dos meus amigos).
Enfim, tomara que role tudo. As projeções na festa e a residência em Amsterdã são os meus maiores desejos agora. Gosto da ideia da Zoio também, ainda que outra galeria, se não rolar lá de primeira, possa ser igualmente ou até mais interessante. Tem uma ex-namorada do Zeca Veloso que está abrindo uma galeria, talvez com um amigo meu como sócio; e tem o pessoal da Athena, que eu simplesmente amo. Mas, como meu trabalho é essa coisa difícil... fico sempre só na iminência de ser um fenômeno de vendas. Deveria haver alguma galeria na Barra da Tijuca, bairro que, vale dizer, tenho frequentado, porque meus pais compraram um apartamento no Recreio e porque meu namorado, filho de um jogador de poker, que era dono de uma boate no bairro, mora lá também. Estou levemente fascinado e tornei-me um admirador convicto do Lúcio Costa, assunto que depois posso tratar com mais detalhe.
Finalissimamente, cabe também dizer que ainda tenho que tentar contatos com professores gringos, para um estágio fora. E que comecei a efetuar os disparos do folhetim-bomba dos Comedores de Cérebro, nome com que estou pensando em assinar, com uns amigos, o VJ da festa. Depois de lançado o folhetim, em um bar alternativo da Barra, fiz uma postagem no Instagram que eu acho que configura arte. E o pior é que, mesmo com todo o teor agressivo da minha arte, eu ainda esteja ajudando o Zeca a se construir.
quarta-feira, 12 de agosto de 2026
terça-feira, 4 de agosto de 2026
o cercamento do disposto -- e das disposições
A compreensão do modo de enriquecimento atribuído ao puritanismo deve ser realizada por meio de uma análise conjuntural da posição social das classes médias ascendentes. Frente às monarquias absolutistas, que concediam privilégios de monopólio a certas companhias de comércio, determinados segmentos da população acabaram por ver-se impossibilitados de realizarem seus objetivos vitais. Os impedimentos legais e religiosos condicionavam a posição desses segmentos a algumas alternativas de ação. Cada posição no jogo, entendamos, permite apenas um certo número de ações possíveis, ainda que o desejo advindo dessa posição possa ser abrangente e imediatista. No período da acumulação de capitais, da idade moderna, assistíamos a uma disponibilidade perceptível de recursos e a um desdobramento do isolamento posicional característico de sociedades demograficamente complexas que despertavam, nos corpos posicionados em condição de potencial esmo efetivo, o apetite pelo desafogo imediato da vontade. A transição do bem material telúrico, das sociedades agrárias, para a existência do bem material em aparecimento "fetichizado" enunciava uma possibilidade apropriativa que não encontrava meios de concretizar-se por causa de impedimentos... culturais, em última instância. Como uma montanha ou qualquer outro obstáculo topográfico, a posição, já autonomizada atomisticamente, impedia-se. O que hoje vemos como apropriação financeira direta era permitida apenas a determinados segmentos da população — as companhias de comércio legalizadas pelos éditos reais —, cabendo aos grupos intermediários se movimentarem dentro de certa limitação das opções disponíveis permitidas de agir. O aprisionamento do corpo dentro de si mesmo e a técnica de si do autocontrole geraram um enriquecimento legal, aumentando ainda mais a disponibilidade de capitais e a criação de valor abstrato, o que resultou em um estímulo inflacionado da vontade apropriativa de capital abstrato, por cobiça do "disposto ao olhar". Por fim, as revoluções burguesas legalizaram o avanço em direção a essa nova categoria, assim como as revoluções comportamentais emanciparam os corpos para a liberdade de movimento autônomo.
segunda-feira, 3 de agosto de 2026
domingo, 2 de agosto de 2026
quinta-feira, 9 de julho de 2026
Fechado em seu quarto, Zeca ouve Paula despedir-se dele em tom faraônico (Ramsés contra Moisés). Ele apronta as coisas, como pedido por Gominho. De fato, a viagem seria longa, porque Zeca não pretendia mais voltar em casa, muito menos ouvir as reclamações de sua mãe, menos ainda ouvi-la falar de seus planos de recuperação de seu posto. A contratação pela Rede Globo, por meio do canal GNT, era um ponto na história. Ela iria voltar a disputar as cabeças do estamento cultural e definir os rumos; ela também. Talvez a solução mesmo fosse criar uma emissora de televisão, e ela tinha todo o cacife para isso — ou tivera, antes da queda. A porta da sala, mais grossa, bate forte, e Zeca vê-se finalmente sozinho — ou quase, não fosse pela Wanda passando roupa no quarto de empregada.
Rápido em aprontar-se para o inesperado, ele coloca duas cuecas, três bermudas, uma calça jeans, uma calça preta, mais arrumada, um casaco de capuz, preto, duas camisetas brancas e duas estampadas. Prepara a necessaire e avisa ao amigo que estava quase saindo. Olha suas gavetas e encontra algum dinheiro, em meio aos ziplocks vazios: 800 reais. Entra no quarto da mãe, na esperança de encontrar alguma coisa, e encontra de fato. Ao abrir o armário, vê o cofre aberto. Um bolinho de dólares estava lá, disposto ao lado de outros itens que não o interessavam agora. Iria para uma viagem no tempo! Não teria problema algum se sua mãe visse que faltava o dinheiro. E precisaria chegar até os Estados Unidos, passando antes por São Paulo. Chamou o Uber no dinheiro e foi para a casa de Gominho.
Chegando lá, o amigo estava preparando os planos. Chegariam a São Paulo; melhor que fossem de ônibus. Gominho reservara uma acomodação para eles, na Consolação. Iriam deixar as malas, comer alguma coisa e já ir para a USP. Chegando lá, no departamento de Ciências da Natureza, a equipe do professor Chilli, físico californiano, estaria dando uma pequena conferência para seus pares. Tudo ainda era muito experimental, e a questão toda, segundo apurou, era que precisavam de cobaias. Tentara contato por e-mail, mas foi convidado a estar lá presencialmente, o que era estranho. Preta, contudo, tinha endossado, como lembravam, o intento de irem atrás de seus objetivos, então confiaram que as coisas iriam dar certo.
Quando Gominho estava terminando de preparar as coisas, logo saíram de casa, em direção à Rodoviária Novo Rio. O caminho até lá, pela Lagoa Rodrigo de Freitas, estava super engarrafado, imagine: já eram 18:00. Sentados no carro, com suas malas, Zeca comenta que pegara os dólares de sua mãe. Em meio aos pequenos avanços do carro, Gominho preocupa-se com o furto e pensa logo em Wanda. Paulinha iria acabar com a vida dela, por culpa de Zeca. Mas se cala, e ouve o menino com certa docilidade. No fim, era prudente que tivessem mesmo aquela grana, porque não sabiam ainda nem o meio e nem o fim daquela história.
Chegam à Rodoviária
sobre a autonomia da posição
A liberdade da posição deve apresentar-se mesmo como uma consequência da alienação. Se pensarmos nos termos marxistas da alienação do trabalho, teremos que o resultado positivo desse fenômeno é o que ele chama de "fetiche" nas relações. Ora, o fetiche é o que, segundo Marx, permite que acreditemos na simples possibilidade imediata da vontade. A mercadoria, enquanto objeto pronto, que passou por todas as relações de produção, autoriza essa espécie de ilusão da não intermediação. O indivíduo é, portanto, uma ilusão proporcionada pela alienação do trabalho, porque ele fetichiza as possibilidades de realização da vontade. Basta que se tenha dinheiro o suficiente para que seus desejos desaguem no gozo.
Não entender o que Marx aponta com isso não é necessariamente liberdade, sejamos claros. Depois da sua longa divagação sobre o capitalismo e o fetiche, não perceber que a mercadoria é um produto de relações sociais em vultosa grandeza demográfica configuraria uma espécie de negacionismo. Mas resta algo disso, ao menos como sentimento: o autoentendimento da vontade enquanto dimensão fática. Por mais que nos entendamos como meros pontos-filtros da história total, a experiência moderna da humanidade apenas iluminou uma condição que é própria dos seres: o seu isolamento ôntico, o seu acabamento "pessoal", a sua forma individual: o principium individuationis, nos termos apolíneos fundamentais.
A vontade, então, mesmo que incorpore uma epifenomenalidade de facto, não é de jurisdição de um "direito administrativo" do cosmo. A noção de gnose, tão extensamente elaborada, não representa um império absoluto da anterioridade, nem constitui um fluxo contínuo de uma geometria imanente, pelo menos não na nova tradição filosófica brasileira. Aliás, cabe aqui certo comentário, algo crítico, sobre Bruno Latour, estimulado por essa noção de tradição brasileira que vislumbro emergir. É compreensível que se deva agradecer ao serviço desse ilustre francês por multiplicar a noção de infraestrutura, expondo-nos toda sorte de forças anteriores e vitais que operam sobre a "constituição da coisa" e, portanto, do sujeito. Em certa medida, ele nos liberta da teleologia — mas não nos liberta da epifenomenalidade: pelo menos até onde conheço de sua obra. Latour joga-nos na posicionalidade acrítica, na epifenomenalidade do caos, e ainda nos condena a um fazer leninista, justo porque não conseguiu, até agora, compreender como fazer para libertar-nos da escatologia catastrófica.
Mas o agradecimento não se encerra com esse comentário desapontado, porque, no fim das contas, ele nos agracia com essa noção complexa de posição. Com seu ideário, ele dificulta justamente a compreensão eficaz dos motivos por que a alienação deve ser combatida. Vejam bem, ele compartilha, em grande medida, do pensamento infraestruturalista de Marx, mas perde de vista a totalidade do entendimento causal da alienação, liberando a alienação da posição para que se ensaie essa espécie de elogio a ela que aqui pretendo fazer. Latour entende o isolamento do indivíduo e, assim, liberta-o para querer em paz. Os meios pelos quais o indivíduo vai realizar a sua vontade ainda são "impossíveis", no sentido de que a teia de relações infraestruturais ainda opera no nível da negociação e, em última instância, da fuga da morte. Mas é bom que entendamos que o sentido das relações é o dos objetivos individuais das vontades. E, à luz do filósofo mais nietzscheano que o Nietzsche, Leon Chestov, a ingenuidade de crer puramente que conseguiremos aquilo que queremos é que constitui o ideal máximo de saúde. Resta saber se esperamos o milagre, se fazemos feitiços ou se cremos na ciência — e na ressurreição e no gozo.
quinta-feira, 2 de julho de 2026
De Volta para o Brasil - capítulo 2: o início do supercampeonato
Por volta das 14:30 daquela quinta-feira, Zeca finalmente acorda, depois de 3 dias de "sono picotado": pela fome, pelo cansaço de dormir, pelos estímulos da casa. Na sua décima respiração acordado, os pensamentos sobre os fatos passados na última vigília tomam uma aceleração incontrolável, e seu coração dispara. Havia faltado ao ensaio; teria de haver-se com sua mãe; mas o mais importante de tudo era a necessidade de executar o plano com Gominho. A máquina do tempo existia mesmo; ele não estava delirando. Ou estava? Será que Gominho ainda estava disposto a seguir com o combinado? E a comunicação com Preta por sinais informáticos — ele não podia negar. Olhou o celular e, para alívio de sua paranoia, já havia algumas mensagens de Gominho. "Já acordou? Me avisa. Tenho boas notícias." Em taquicardia, levantou-se da cama meio acabado ainda, atônito, foi para o banheiro, mas nem escovou os dentes, por pura desatenção ao mundo: só pensava naquilo. Ouviu sua mãe falando alto, no quarto, ao telefone. Estava negociando alguma coisa. Entrou no banho, para ver se se acalmava antes de ligar para Gominho, porque o dia de hoje seria definitivo: precisava fazer alguma coisa: qualquer coisa. Pelo basculhante do prisma interno de ventilação, ouviu a conversa da sua mãe, que entrara no banheiro da suíte dela para fazer xixi. A negociação já estava conclusiva.
-- Sim, claro, Tati! Estou super dentro. Vai ser quem mais? Claudinha Leitte, Karol Conká, Jojô e... Quem mesmo? Mas quem é Lumena? Ah... sei. É, sim, pode dizer que eu aceito, sim. E sucesso no seu novo programa! E, ah, claro, obrigado por essa. Ah, Tati! Espera! O cenário vai mudar mesmo, como você disse? Ahn... Entendi. Uma mesinha de centro, mas agora sentaremos... É... Ao redor da mesinha, mas totalmente ao redor? Não vai ter uma câmera frontal? Estão estudando ainda a possibilidade; entendi. É, meio esquisito, mas é isso, né. É o que é! É claro que vai ser um sucesso! Nova temporada do Saia Justa, aqui vamos nós!!! Hahaha! Obrigado, querida. Um beijo. Nos vemos já já, né? Ah, estão esperando por mim no Projac? Ih, 16:30 em Curicica? Hahaha! Nossa, tenho que correr! Deixa eu desligar, então, que eu preciso me arrumar correndo. Obrigado, mais uma vez, Tati. Fico te devendo essa. Nos vemos, beijo. -- deu a descarga.
Então, finalmente ela tinha topado. Precisaria sair de Copacabana até o Projac, e provavelmente pegaria algum engarrafamento. Olhou o Uber, e estava dando cem reais. Caríssimo. Entrou no banho. Viu Zeca pelo basculhante e fez uma cara horrível.
-- Zeca, acelera aí, que eu preciso tomar banho também e quero água quente! O bombeiro só vem semana que vem. Vou ter que ir no Projac, mas na volta a gente conversa.
Zeca saiu do banho e voltou para o quarto. Pega o telefone e manda mensagem para Gominho. "Oi, amigo! Acordei aqui. Passo aí para a gente conversar melhor?" Gominho estava com o celular na mão e respondeu logo. "Vem, sim. Mas já traz dinheiro. Vamos ter que ir a São Paulo. Parece que vai haver uma palestra na USP sobre a máquina do tempo com os cientistas da Califórnia. A conferência começa em dois dias. Já faz logo uma malinha e vem."
Paula sai do banho, se arruma e pede o carro. Com as contas bloqueadas, prefere pagar no dinheiro. A carteira só tinha 70 reais. Vai até o armário, sobe na madeirinha do armário embutido e puxa o cofre. Duas giradas para lá, mais três para cá. Pega uma graninha. Ao lado do bolinho de notas de cem reais, estão os seus último bolinhos de dólares, algumas de suas jóias (umas de família e outras da época em que tinha grana), um monte de coisa e, entre elas, a carta que escrevera junto com Caetano para entregar a Zeca na hora certa, que estava chegando, pelo andar da carruagem. Fecha o cofre, mas não gira as roletinhas e deixa a porta do armário aberta, na pressa.
Liberdade Craniana
Quero esboçar aqui uma definição diferente para o termo opinião pública, que imagino ser útil para um melhor entendimento da concepção corrente do termo. Opinião pública, segundo a definição que quero dar, seria a opinião que um sujeito se sente livre para proferir em público. Seria a sua opinião, só que pública. Não é incomum vermos, em nossas casas, diálogos que jamais transferiríamos para a esfera pública, e isso não parece ser uma prática que avilte tanto assim a nossa dignidade. Aliás, muito do que sentimos interiormente não tem espaço para uma transliteração inegociada, mesmo no seio das nossas famílias, ainda mais se dividimos o lar com pessoas diferentes, incorrendo aí até em relações de hierarquia de todo tipo. As permissões, às vezes, autorizam apenas certas manifestações marginais dos sentimentos mais íntimos, devendo ficar na beira das importâncias maiores. Algum toque de sua verdade estará inscrito na verdade geral, como forma de uma negociação afetiva. Posso gostar de algo que não é permitido, mas posso tornar o que é permitido mais próximo daquilo que eu gostaria que fosse, e essa relação é tanto mais transformadora dos sentimentos íntimos idos a público quanto menor é o poder de influência sobre o poder central.
Na formação brasileira, vemos bem esse fenômeno, e Gilberto Freyre já havia percebido. Ora, não é ele quem diz que as manifestações culturais dos povos africanos e indígenas se percebem em instâncias "inferiores", digo, gestuais do nosso patrimônio cultural? Estão na culinária, no sotaque, no jeito como nos relacionamos, mas nunca naquilo que representaria a opinião íntima dos sujeitos que traziam vivas essas tradições em sua interioridade subjetiva. Isso teria sido amortecido e negociado. Além do mais, o Brasil é cheio desse tipo de barganha comesinha, sendo o nosso país famoso por sua capacidade de divertir seus nacionais. Em troca do respeito à norma, à vontade soberana, permitem-nos aliviar o peso do indizível no deleite das nossas vontades mais fisiológicas. Transferimos a nossa intimidade para o gesto. Essa, é bem verdade, foi uma "solução" acomodatícia interessante da nossa formação cultural.
Penso agora em outro contexto em que essa negociação ocorreu, e não sei em que medida posso estabelecer comparações de efeito. Na URSS tardia, a vida pública era bem mais presente do que estamos acostumados aqui no Brasil — mesmo levando-se em consideração a estruturação econômica de uma família brasileira. A intimidade familiar, embora hierarquize a publicidade do dizível na sala, ainda é um anteparo à vida pública. Na URSS, até que todos tivessem apartamentos individuais, as habitações eram coletivíssimas. O espaço para a individualidade era quase craniano, o que exigia graus de confiança elevados para o compartilhamento da intimidade. As implicações políticas disso devem ser fortíssimas, e eu digo isso sabendo do grau de radicalidade da rebeldia permitida nos círculos artísticos da cena não-oficial. Tornar público o que faziam juntos era praticamente uma impossibilidade, e não é à toa que o mundo soviético fosse conhecido pelo double-thinking.
Mas há algo de interessante na sociedade soviética, que era o fato de que, a certa altura, quase todos tinham a sua própria casa, o que ampliava o espaço craniano concentricamente, diferente da organização familiar brasileira.
quarta-feira, 1 de julho de 2026
Queria falar mais um pouco sobre o meu rompimento com o meu psicanalista e sobre a minha espécie de relação com o Groys. Parece que não ficou tudo tão bem resolvido assim. Mas tem um aspecto das nossas últimas sessões que é de interesse nosso aqui no blog, eu acho. Refiro-me ao joguinho final que realizamos para entendermos o que era exatamente o que eu queria. Vou tentar explicar mais ou menos.
Eu estava super empenhado na minha candidatura para o doutorado com o Groys, mas, por orientação de uma funcionária do EducationUSA, procurei mais uma opção, pelo menos. Groys também tinha parado de me responder por volta de setembro, quando eu pedi a ele um PDF de um livro que ele me havia recomendado, mas que era muito caro (ele era, normalmente, rápido nas respostas e atencioso — chegou a ler um ensaio meu de 15 páginas, que dialogava profundamente com sua pesquisa e ainda teceu elogios e recomendações, além de me convidar para as suas aulas na NYU). Havia um curso que ele ministraria junto à ECO/UFRJ, e eu me inscrevi. Fui aceito, e minha chama reacendeu. Por causa do curso, soube, a certa altura, que ele estava bem doente, porque foi preciso adiar o início do curso. Eis que, no sábado, dia 19 de outubro de 2024, de manhã, recebi um e-mail da E-Flux — que estava organizando o curso — com um monte de textos em PDF. O e-mail parecia escrito por ele. Aquilo parecia um presente dele, porque... 19 de outubro é meu aniversário, e eu tinha pedido arquivos de PDF no último e-mail que eu escrevi! Senti-me pessoalmente tocado por isso, principalmente porque ele é alguém que fuxica as redes sociais dos outros, como frequentemente comentava, em suas aparições, sobre a caracterização pessoal que todos fazem de si nas redes. Senti-me escolhido, contemplado; retornou a minha esperança. Futuramente, soube que ele ficou muito doente, o curso não aconteceu nunca, e eu achei aquele gesto algo de uma grandeza enorme. Ele acordou de um coma e lembrou de mim? Ou eu estava louco, ou eu era o escolhido brasileiro pelo cosmismo.
Enfim, retornando à questão com o psicanalista, eu estava com ele nesse embate sobre o que eu realmente queria. A segunda opção também era em NY, na Columbia, um PhD em História da Arte. Entrei em contato com Alexander Alberro. Ele foi até eloquente no e-mail, mas, hoje, vejo que foi protocolar. Eu não sabia o que estudar com ele. Eu queria mesmo era o Groys, mas estava com dificuldade para decidir. Meu orientador, no Brasil, achava que ele era um representante do stalinismo, e eu sentia que suas opiniões eram "não concordo com isso, acho esse pensamento violento"; algo do tipo. Eu estava precisando me afirmar com mais força. Paralelamente, eu questionava a posição do meu psicanalista em relação à minha própria vontade, que parecia ser a de alguém que me interrogava permanentemente se meus gostos eram meus mesmo (ele também tinha alguma ressalva a qualquer coisa que eu falasse de marxismo). Nesse embate, rememorei uma imagem que eu queria criar, e que ele reprimiu fortemente, quando eu surgi com a ideia. Era a ideia de pintar um bigode de Hitler na foto do Chico Buarque sério, naquela capa de disco clássica em que ele aparece sorrindo e sério, na capa e na contracapa. Quando falei isso pela primeira vez, vivíamos a plena ascensão do bolsonarismo, não lembro bem a data, mas foi antes da pandemia, com certeza. Pelo medo que ele me transmitiu, reprimi esse impulso. Vale lembrar que meu psicanalista era pintor também. Ronaldo Miranda. Agora, em 2024, eu quis relançar essa discussão. Fui instado por ele a realizar a obra. Fui a uma loja de revelação de fotos e fiz uma versão 3x4 das fotos e desenhei um bigode de Hitler no Chico. Coloquei as duas fotos naquele estojinho de 3x4, e estava feita a obra. Dei a ele uma de presente, que ele colocou na estante, virada para o divã (para mim), de modo que eu a olhava em todas as sessões.
Objeto Abjeto
Eu estava em dúvida. Ou Columbia História da Arte ou NYU com o filósofo que eu mais admirava na vida. O ambiente em que eu estava vivendo à época parecia me questionar muito sobre as minhas opções stalinistas, cosmistas, marxistas, extensão do meu pai. Mas o Groys também foi expulso da URSS. Ele divulgou o trabalho dos artistas críticos ao regime. Ele divulgou Komar e Melamid. E ele entenderia o meu gesto; tenho certeza absoluta. Como eu estava em dúvida, Ronaldo começou o joguinho. Primeiro, me questionava, em um cinismo quase explicitamente forçado, se eu acreditava mesmo naquilo que eu escrevia sobre conquista do cosmo, rejuvenescimento e imortalidade. Ao mesmo tempo, ele debochava da Columbia e falava das vantagens de morar no sul de Manhattan. E as sessões eram realizadas ora com o Chico escondido por trás de algum porta-retratos, ora aparecendo, tanto que eu comecei a pedir para deixar a peça evidente, tornando-o objeto de uma discussão, entre muitas outras. A conclusão a que cheguei era de que aquilo era o que eu mais gostava: uma arte agressiva mesmo, os punks de Moscou, em última análise; o cosmismo russo; a ironia extrema; o desdém por qualquer tipo de monopólio cultural; a reflexão materialista sobre a psyché humana — e, o mais importante, a minha identidade como artista.
*
Recentemente, incluí o meu pai no meu folhetim, como alguém que me ajuda. Depois de muito refletir, continuo na dúvida se isso não é capitular à sua personalidade narcisista, que tenta me cooptar, ou se isso é resultado daquilo que Giddens chama de transformação da intimidade, um fenômeno que ele observa na modernidade, tributário da crescente influência das instituições na vida das pessoas, sob a forma de uma perícia ontológica. Cheguei à conclusão de que ele me ajudará até certo ponto, quando a narrativa terá uma mudança de rumo e adotará uma postura mais claramente cosmista e pós-cosmista. Me pareceu uma solução boa, porque, assim, eu consigo superar o fato marxista da minha personalidade, adicionando uma camada suplementar, a camada cosmista e sua deriva. É também uma solução que dialoga com o meu escolhidismo, uma vez que, com o dono da editora Revan, senti também um certo peso de ser o último emissário da mensagem marxista verdadeira para o mundo: tornei-me uma espécie de divulgador de Domenico Losurdo e porta-voz da reencenação dos momentos culminantes das agitações pré-revolucionárias. Foi essa a missão que eu vim cumprir até hoje, a menos que eu consiga que não seja. Aliás, foi essa missão que me fez ler o cosmismo como extensão do marxismo e como sua incrementação, trazendo uma promessa maior (na verdade, correspondente àquela do suprematismo e das vanguardas futuristas no momento da estimulação revolucionária do início do século XX). Meus rumos pessoais e meus arroubos chineses não passam de um resultado disso, uma negociação comigo mesmo, com o passado, com os mortos e com o futuro. Ou então eu seria apenas o Hélio Oiticica, ou pior: um astro do pop. Quem me dera essa liberdade! Escolhi, por mim mesmo, a missão histórica de redimir a geometria!
*
Junto com tudo isso, vejo-me querendo pensar contra tudo isso, em um momento em que deveria buscar alianças fora do país (eu acho). Se eu for continuar esse doutorado... Devo buscar um período fora do país? Eu gostaria de alguma luz. Não sei mesmo. A ideia de estudar com a Keti Chukhrov me apavora um pouco, porque estou falando contra o que ela defende em sua principal teoria, apesar de falarmos meio que a mesma coisa. E se ela for super aberta? E se ela for totalmente irônica em seu gesto? E se eu fosse para a China? Para o Japão? Penso se eu não deveria ficar por aqui mesmo e tentar a minha carreira de artista mesmo, e então volto a pensar na função do doutorado na minha arte.
Uma amiga me mandou uma proposta recentemente, porque não estou satisfeito com a minha situação financeira. A proposta é uma chamada geral para um emprego de "assistente sênior", algo assim, no ateliê da Laura Lima. Recebi por Whatsapp uma mensagem meio formalizada, convidando os possíveis candidatos a enviarem seus currículos. Vou mandar meu CV. A proposta me interessou bastante, apesar de eu não parecer competente para as habilidades específicas exigidas pelo trabalho. O salário também não foi informado, o que me deixou meio assustado. Na verdade, fiquei mais interessado em me aproximar dela para mostrar meu trabalho. Cheguei a pensar que eu poderia ser representado pela Gentil, ainda que talvez seja uma loucura. Mas realmente não sei que galeria poderia me representar. Encontrei uns amigos na semana passada que me convidaram para uma abertura na nova galeria Zoio, em Santa Teresa. Meio longe, mas o artista era tão gente boa, que resolvi que vou lá qualquer dia. Talvez eu pudesse fazer uma exposição lá. Eles se dizem abertos a artistas que precisam começar a expor. A ideia soou afinada, mas ainda teria de pensar em um formato. Queria também colocar algo no Calma Bar, mas ainda não sei direito. Acho que vou ter que fazer uma versão soft para uso público. Também estou pensando em fazer uma leitura encenada do meu folhetim, com meu namorado (que é ator), na casa de um amigo, para outros amigos, entre eles um curador do Guggenheim, que já leu coisas minhas e me pareceu interessado nas coisas que faço. Não sei se ele sabe que eu tenho um trabalho de arte conceitual ou se me vê como um escritor.
Também tenho ido à biblioteca do MAM. Conheci a responsável pelo arquivo. Fui apresentado a ela pela diretora do MAM, a quem, por sua vez, fui apresentado por um professor da faculdade. Busco um emprego lá. Ela disse que em março teria algo, mas já passamos de março há algum tempo. Já perguntei a ela, e parece que não há nada ainda. Penso em perguntar de novo e, de repente, pedir para ela falar com a diretora do MAM, para ver se ela me redireciona para algum lugar. Não sei. Estou meio perdido lá. Eles querem levantar o arquivo, para o que me dispus a ajudar. Mostrei minha ópera de bolso à responsável pelo arquivo. Ela reagiu como quem gostou ou entendeu. E achei que gostou de mim também. Queria que ela criasse uma pasta com o meu nome no arquivo do MAM. Queria também mostrar para ela e para os funcionários da biblioteca o meu folhetim. Acho que vou imprimir e ir lá semanalmente. Estou de olho em cursos do MAM, nas residências de lá. Quero fazer um lá em julho, mas a residência... não sei se consigo. Não sei se tento residências fora ou se devo ficar por aqui, agindo aqui. Quero fazer uma exposição, mas não sei quem pode me ajudar de fato a fazer isso. Queria ajuda e conselhos. Alguma luz. Sobre a carreira, sobre a universidade, sobre o doutorado, sobre um sanduíche-íche rs. Mas tudo é tão sem grana...
*
Sobre o meu marxismo, hoje me peguei pensando se o conceito de posicionalidade não é um desdobramento do entendimento de classe social no sentido do materialismo DO HOMEM. Pensei também sobre esse conceito como uma espécie de garantidor de uma ação epifenomenal. Seria isso mesmo? Em que seríamos capazes de agir por nós mesmos? Acho que essa questão da autonomia da posição tem me feito refletir. Estou vendo como é difícil produzir uma onda e como ela é consequência de muitas coisas operando em conjunto. Mas a inércia das partes às vezes pede uma ação do indivíduo, que rearticula as partes. E às vezes algo que tinha que vir acaba vindo, e nós somos apenas fantoches do teatro da história e depois vamos todos morrer. Contra isso, revelou-se o cosmismo! E, contra ele, o escárnio. E, contra o escárnio, ele. E eu estou exausto. E a minha vontade mesmo é de ser só artista.
sexta-feira, 26 de junho de 2026
O que era ser lua preta do PCB na segunda metade do século XX, DeepSeek?
Na segunda metade do século XX, especialmente durante a ditadura militar (1964-1985), ser uma "lua preta" no Partido Comunista Brasileiro (PCB) significava estar no mais alto grau de clandestinidade e isolamento dentro da estrutura partidária.
O termo era uma gíria interna da segurança do partido para designar o militante que estava "queimado" — ou seja, já tinha sua identidade real e atividades completamente expostas aos órgãos de repressão.
Essa condição o tornava um alvo prioritário da polícia política.
As características de uma "lua preta" incluíam:
· Rompimento total com a vida anterior: a pessoa abandonava seu nome verdadeiro, documentos, profissão, residência fixa e, principalmente, qualquer contato com familiares e amigos do passado.
· Vida estritamente compartimentada: para proteger o restante da organização, o militante "lua preta" só mantinha contato com um ou dois "pontos" (contatos) de confiança. Muitas vezes, não sabia onde ficavam outras células ou quem eram outros dirigentes.
· Tarefas de alta sensibilidade: geralmente, eram quadros experientes, responsáveis por tarefas como guardar arquivos secretos, operar gráficas clandestinas, transportar fundos ou cuidar da segurança de dirigentes máximos que estavam na mesma situação.
· Rotina de extrema vigilância: viviam em constante deslocamento, dormindo em "aparelhos" (casas clandestinas) diferentes, usando disfarces e adotando sinais de segurança para detectar se estavam sendo seguidos.
· Rompimento total com a vida anterior: a pessoa abandonava seu nome verdadeiro, documentos, profissão, residência fixa e, principalmente, qualquer contato com familiares e amigos do passado.
· Vida estritamente compartimentada: para proteger o restante da organização, o militante "lua preta" só mantinha contato com um ou dois "pontos" (contatos) de confiança. Muitas vezes, não sabia onde ficavam outras células ou quem eram outros dirigentes.
· Tarefas de alta sensibilidade: geralmente, eram quadros experientes, responsáveis por tarefas como guardar arquivos secretos, operar gráficas clandestinas, transportar fundos ou cuidar da segurança de dirigentes máximos que estavam na mesma situação.
· Rotina de extrema vigilância: viviam em constante deslocamento, dormindo em "aparelhos" (casas clandestinas) diferentes, usando disfarces e adotando sinais de segurança para detectar se estavam sendo seguidos.
Em resumo, era uma medida radical de autoproteção e proteção do partido, aplicada quando a captura do militante poderia levar a polícia a desbaratar toda a estrutura.
quarta-feira, 24 de junho de 2026
Desculpem-me os envolvidos, mas, desta vez, vou usar isso aqui como um diário mesmo, no sentido adolescente.
Primeiramente, gostaria de dizer da minha alegria tensa na construção do meu folhetim. Fico feliz de estar conseguindo realizar um tipo de arte no modelo dos Conceitualistas de Moscou, no sentido da sua circulação, no sentido do seu sociologismo cósmico-futurista, mas, sobretudo, no tipo de relação com o público e na forma de recepção da obra. Os Conceitualistas tinham um tipo de fruição de pequenos grupos. As obras eram feitas para um público específico, restrito e pessoal. Os artistas e o público eram praticamente a mesma coisa, e a obra se realizava no momento de sua fruição. Isso me emociona, verdadeiramente — mas fico ainda mais contente de perceber que estou adaptando isso a uma forma experimental bem brasileira, relacional, em uma espécie de escola do work in progress do Hélio das Cosmococas, combinado com um tipo de arte direta, esta vinculada ao legado cinemanovista. E a cereja do bolo está no fato de eu estar, ainda, conseguindo me valer de uma estética pop, de um pragmatismo chinês e de uma vacilância que só consigo encontrar em um artista como Duchamp ou em um como Maurizio Cattelan (essa espécie de ser e não ser, de tudo ou nada, de confusãozinha irritante institucionalística ontológica). Sinto que estou conseguindo pensar sobre a função da obra, sobre sua relação com o público, sobre a sua entidade, realizando uma tarefa política tão concreta quanto absurda e irônica, sarcástica: uma espécie de contracultura intra-institucional clandestina. Isso me agrada muito.
Pareço adolescente às vezes, porque penso se devo ou não continuar o doutorado, exercer a profissão de professor de filosofia, ou se devo tentar buscar um caminho diretamente na arte. Deveria buscar um emprego, mas as minhas duas últimas tentativas foram falhas, e confesso que não sinto tanta vontade assim de buscar um. Dependeria muito do que fosse o trabalho. Ainda, se continuar minha carreira acadêmica, penso se ela deverá funcionar como parte da obra ou se a ofuscará ou até se comprometerá o prestígio a ela associado. Pensando ainda sobre essa carreira, questiono-me se não deveria buscar algo fora do país, se deveria permanecer aqui no Brasil; se o que produziria seria relevante... Se eu teria encaixe institucional aqui no Brasil... E se eu não estou sendo vira-lata com isso. Penso também sobre uma experiência internacional, mas não sei ao certo com quem pesquisar. Penso na Keti Chukhrov, que tenho lido bastante há algum tempo, mas ela está em Stuttgart. A PUC tem um convênio com a Freie de Berlim, com uma universidade no Japão, uma em Hong Kong, uma em Amsterdã, mas eu acho que só poderia ficar um ano nesses destinos no máximo e eu gostaria de ficar mais tempo, conseguir uma dupla diplomação, não sei... Berlim me interessa muito, pois vi que há um professor lá, Eric de Bruyn (acho que é esse o nome), que estuda neoconcretismo, arte americana e vi que abriga um brasileiro em uma de suas pesquisas. Em Amsterdã, tem um grupo de artistas anti-woke que eu descobri pesquisando sobre Komar e Melamid: a Unsafe House. Eles me abriram para um mundo limítrofe interessante, embora eu ache que eles são, até agora, os mais interessantes desse mundo que descobri. Enviei um trabalho meu para apreciação deles; disseram que no final de setembro devem me dar uma resposta (o quadro é uma bunda de fora com uma bandeira dos EUA tatuada, com uma inscrição Sorry Daddy em tinta vermelha escorrendo como se fosse sangue — eu adoro este trabalho, e acho que é a minha formulação mais universalista, menos localista, de arte — algo como uma redução expressiva universal do desejo subdesenvolvido). Não sei se devo me preocupar com tudo isso.
Conceptual Abjection
Arrumei também um namorado que estou amando muito. Ele tem dez anos a menos que eu e nasceu em NY, apesar de ser filho de brasileiros. Ele é interessantíssimo. Tem 300 mil seguidores no TikTok, e sua família fez dinheiro jogando pôquer. É algo fascinante. É quase a concretização da minha inversão do Hélio Oiticica, misturada com certo apoteosismo matrimonial que só o casamento do Caetano com a Paula teve na cultura brasileira até hoje. Sei lá. Fico pensando se não me mando com ele pra NYC e foda-se. Se ele quiser.
Paralelamente a isso, tenho a sombra de tentar o Itamaraty de novo, que quase não ressurge mais, mas ainda está lá. Penso também sobre minha condição de intelectual brasileiro e penso em todas as minhas preocupações sobre o Brasil, que agora assumem a forma de arte, mas que surgiram muito fomentadas pela minha vontade de fazer uma interpretação do Brasil na linha de Freyre e Buarque de Holanda: o Brasil como um problema. Hoje mesmo, estimulado por uma palestra a que assisti sobre Gilda de Mello e Souza, acessei um texto que escrevi há anos. Meu pensamento é semelhante ao dela, mas achei que sou melhor rs. Tenho talvez esse defeito. Pode ser narcisismo. Mas vejo que crio uma teoria mais totalizante e mais explicativa — mais ambiciosa.
A palavra "ambiciosa" e a minha autossuspeita de narcisismo me fazem lembrar a arrogância na arte, e me vejo como um arrogante, dado que essa postura é necessária na arte para uma superação histórica. Mas o caminho que encontrei para executar o que chamo de "morte de Caetano Veloso" tomou o rumo de um enorme percurso de crítica social irônica, que acabou sendo muito mais arriscado do que teria sido simplesmente pichar um bigode de Hitler no retrato do Chico Buarque ou da Paula Lavigne e exibir publicamente sem explicar nada. Mas eu gosto do que estou fazendo. Divirto-me muito. O diálogo com o meu "público" (restrito e sintonizado) é extasiantemente prazeroso, e sinto-me muito seguro e reconhecido com eles. É muito boa essa sensação. Sinto uma liberdade criativa que acho que nunca senti, nem quando fazia as coisas para mim mesmo. Enfim, acho que meu real desejo era fazer esse livro-folhetim-virtual, que talvez se torne uma história sem fim.
Gosto muito de filosofia e história da arte, mas não sei muito bem se quero continuar com isso, e se abandonar seria uma decisão prudente. A ideia de estudar com Keti Chukhrov me agrada em algum grau (às vezes muito, às vezes pouco), sobretudo porque ela está em uma academia de arte. Tem também o Matthew Jesse Jackson, em Chicago, e penso ainda no Sven Spieker, na Califórnia, que poderia me ajudar na elaboração do libretto da minha ópera e no desenvolvimento do meu livro, uma vez que ele é especialista em literatura (mas nem sei se eles me querem!). E tenho a sensação de que eles não são o Komar e o Melamid, o que torna tudo meio entediante. Posso estar sendo preconceituoso, mas isso esbarra na minha inconstância em relação ao marxismo e a qualquer coisa que me lembre o meu pai, mesmo que eu goste desses sociologismos; pelo menos, outro dia meu pai disse que me defenderia, caso eu fosse processado por meu romance. Disse a ele que estava escrevendo um livro e que precisaria de advogado; ele disse que eu podia contar com ele, mas eu não disse sobre o que era que eu estava escrevendo. No entanto, como já lhe mostrei mil vezes toda a minha arte, ele deve ter uma ideia.
Sinto também que deveria fazer uma exposição, mas entendo todos os riscos a ela associados. Fico muito alegre pensando no absurdo que seria, mas também tenho muita vergonha. Sei lá, sinto até alguma pena do Zeca e também do meu pai. Aliás, o fato de viver com ele ainda me desagrada, mas, no momento, estou de mãos atadas.
Tive uma relação longa com um analista, que acabou assim que eu soube que não fui aprovado para uma pós-graduação nos EUA com o Boris Groys, que era tudo o que eu mais queria. Parece que o Groys estava super doente. Discuti muito com ele, porque ele me encorajou a um nível tão alto, que chegou a dizer que rolaria com certeza; como não rolou, e como não rola nada para mim que eu queria muito, discuti horrores com ele. Ele disse que desistiu de mim porque eu estava muito agressivo, mas sinto que ele desistiu de mim dando-me uma espécie de alta, porque eu já tinha sido muito mais agressivo em outras ocasiões, e ele não fez isso. O-que-eu-sou precisava da agressividade que estava depositando nele. Afirmar-me. Tentei com outra analista, mas senti que cheguei a um impasse semelhante, e agora estou meio que solto no mundo, pela primeira vez em anos, tendo de afirmar meu desejo, apesar de tudo o que eu não quero pressionar-me por estar ali (esse novo conceito do Heidegger).
Tem também um monte de residências artísticas que eu gostaria de tentar, mas me sinto meio imóvel. Não consigo decidir qual seria mais adequada ao meu trabalho, qual seria menos arriscada, qual eu gostaria mais, qual queimaria mais ou menos o meu filme... Enfim. Entre tudo isso, sinto uma fascinação grandiloquente pelo Oriente (Japão, China, Coreia) que atrai meu olhar para lá. Como se fosse uma forma limítrofe de encapsular em imagem o extremo abstrato da expressão abstrata em material inusitado, porém visível e formal. Gostaria de decorar assim a minha ópera.
terça-feira, 23 de junho de 2026
De Volta para o Brasil -- capítulo 2: o início do supercampeonato
O Artista viu Domingos e quase não acreditou. Curiosamente, ele estava mais jovem, com mais cabelo, barbas, mas as vestes normaloides eram as de sempre. Olharam-se no fundo dos olhos um do outro e meio que sorriram com sarcasmo. Já era noite, e a chuva não dava nenhuma trégua. Bem ao lado do túmulo de Prestes, havia uma lamparina antiga, agora habitada por uma luz branca. Algumas poucas dessas espalhavam-se pelo cemitério, e, além delas, só se viam as luzes da favela dos Cabritos, as da capelinha e as luzes da General Polidoro e de todo o resto de Botafogo. E o Cristo Redentor, é claro. Antes que o Artista pudesse fazer qualquer coisa, Doutor Domingos tomou a dianteira dos fatos:
-- Vamos pular a parte chata. Você já está aqui, então eu presumo que você queira. Na verdade, percebo hoje que você já sabia, desde aquela vez em que você debochou de mim, na minha sala de tapetes, quando fui muito lisonjeiro com as honrarias que eu queria prestar ao meu filósofo favorito, que viria ao Brasil a convite da editora. Vejo que você já sabia de tudo, gostaria de pedir desculpas. Mas agora não é hora para isso. Agora é hora de atuar. Atuar diretamente no mundo. Você certamente conhece ação direta, não é? Seria muito ingênuo de minha parte supor que não. Pois bem. Está na hora, finalmente, de você divulgar sua tão-escandalosa nova e final arte brasileira.
-- Temo que não seja possível. Foram criações pessoais minhas, às vezes para mim mesmo, outras vezes direcionadas a pessoas. Além do mais, eu seria processado por... -- a chuva aperta.
-- Pode dizer. Por Paula Lavigne -- caiu um trovão. Não tema mais pronunciar este nome. Você é o escolhido, não sei se você se deu conta. Tudo por que passamos juntos, o fato de você estar aqui, a cena da sua contratação, escondidos no meu Honda Civic fumê estacionados aleatoriamente na Xavier da Silveira... Desde aquela época eu já percebia, por isso tudo aconteceu. Você não precisa mais temer ser processado por sua arte, porque ela finalmente tem um sentido. Aliás, é justamente o fato de ela ser personalizada, feita para pessoas específicas, ou para serem mostradas escondidas, que elas servem ao propósito da ação direta. Começaremos aos poucos. Você mostra para alguns amigos, infiltra ela nos seus ambientes, no mestrado. Você está aí com o pen drive? Eu sei o que são, foram-me mostrados, mas gostaria de ter acesso aos arquivos originais.
Por acaso, o Artista estava com o pen drive, porque andava com ele por aí, caso tivesse coragem de mostrar para alguém. Era seu sonho, mas nunca tinha coragem, por medo de não ser compreendido. Isso ocasionava algo muito curioso: sucessivas vezes, ele se via à beira de mostrar seus trabalhos, encontrava sempre situações que achava que seriam propícias, mas logo a propiciabilidade se esvanecia por sua própria intuição, uma intuição segunda, e então nunca conseguia saber qual das intuições era a correta e desistia. Apalpou os bolsos, estava no bolso esquerdo. Enfiou a mão, Domingos olhando fixo, puxou o aparelhinho e entregou nas mãos do sujeito, que era de carne e osso, mãos quentes, estranhíssimo, pensou. Domingos pegou o objeto, meio maravilhado, olhou para o garoto e disse:
-- Espera um instante, eu já volto.
Sumiu por alguns segundos e retornou, agora em pé sobre o túmulo de Roberto Marinho, rindo. Devolveu o pen drive ao Artista.
Sumiu por alguns segundos e retornou, agora em pé sobre o túmulo de Roberto Marinho, rindo. Devolveu o pen drive ao Artista.
-- Por que eu não deixei você me mostrar isso naquela época? Isso é perfeito. É tudo o que precisávamos. Bom... deixe-me explicar o mínimo, acho que você merece saber o mínimo. É o seguinte: nós precisamos desenvolver a burguesia nacional, só que agora queremos criar um grupo político de confiança. Você está mais do que apto para isso. E o ramo da cultura é o melhor investimento, porque é potencialmente infinito. Isso é tudo o que você precisa saber. Você aceita a missão, né? Se eu fosse você, eu aceitaria. Você poderá fazer tudo o que sempre quis.
-- Não preciso dar nada em troca? Eu precisarei de dinheiro. E de um bom advogado.
-- Não se preocupe com isso. Ao chegar em casa, você só precisará explicar para seu pai. Ele vai te defender. Quando acabar essa conversa, você verá que um pix de um valor robusto entrará na sua conta, para você começar com os investimentos necessários. Roupas, aparelhos eletrônicos, adereços de decoração de festas. A sua casa será o seu santuário. Tudo o que você precisa entender é que você não pode passar dos limites. É só isso. Não passe dos limites. Mas... pela sua arte, já percebi que você sabe muito bem o que isso quer dizer. Bem... Acho que é tudo por hoje. Em breve Mariângela entrará em contato com você, ou você acabará entrando em contato com ela. Nós nos veremos ainda. Por enquanto, as diretrizes são essas. Você está livre para executar o seu plano. Combine com seus amigos. Fale com seus amigos jornalistas. Tudo dará certo. A sorte está do seu lado. Ah, e lembre-se do mais importante: tudo terá de terminar na Praça da Apoteose!
E desapareceu. Com o tênis ensopado, o artista buscou a saída como um inseto que vai atrás da luz. Botafogo estava alagado. Teve de andar até a Real Grandeza, tudo alagado, um pé d'água. Parou no ponto de ônibus na esquina da Visconde de Caravelas e esperou o 435. Subiu no ônibus, ar condicionado congelante: foi até em casa. Saltou em frente ao Clube Olímpico e andou até em casa. Chegando em casa, seu pai recebe-o assustado. Traz imediatamente um monte de toalhas. Finalmente tinha fechado com um bom cliente, estava feliz, já começou contando. As roupas molhadas, imundas, foram direto em um balde e ele foi direto pro banho. Aquele tratamento diferenciado para um marmanjo de mais de trinta anos não era comum. O banho estava quente na temperatura que queria (o pai não tinha diminuído a temperatura do gás para economizar). Como introduzir o assunto com o pai? Pensava incessantemente. Contaria daquela experiência? Será que seu pai daria a mesma importância que ele? Saiu do banho, vestiu uma roupa de ficar em casa e sentou-se no sofá da sala de TV para ver o Jornal Nacional e a novela com o pai. Sua angústia profunda normalizou-se naquela configuração tão cotidiana que se distraiu de tudo e ficou meio em uma sorte de transe DDAH sentadinho na poltrona reformada e reforrada da sua bisavó. Sua mãe estava chegando, e o jantar já estava quase pronto. Na TV, começa a música de Zeca Veloso na abertura da novela, com aquele falsetinho. Supreendentemente, seu pai, desta vez, quebra o gelo daquele climão ancestral e fala mal do Caetano.
terça-feira, 16 de junho de 2026
De Volta para o Brasil - capítulo 2: o início do supercampeonato
Caro leitor,
A partir de agora, a nossa história necessita de duas temporalidades desenvolvendo-se concomitantemente. Uma delas é a do passado recente e a outra é a do presente da narrativa. Optarei por narrá-las simultaneamente, intercalando seus acontecimentos. Esta nota serve apenas para organizar o texto que se seguirá. Como toda consequência tem sua causa, e como o ritmo da história não se pode perder, avançarei no texto da forma anunciada.
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A partir de agora, a nossa história necessita de duas temporalidades desenvolvendo-se concomitantemente. Uma delas é a do passado recente e a outra é a do presente da narrativa. Optarei por narrá-las simultaneamente, intercalando seus acontecimentos. Esta nota serve apenas para organizar o texto que se seguirá. Como toda consequência tem sua causa, e como o ritmo da história não se pode perder, avançarei no texto da forma anunciada.
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Era uma quarta-feira de tempestade no Rio de Janeiro. O Grande Artista, bem antes de qualquer notoriedade, ouve seu pai mencionar a morte de Doutor Domingos com um amigo no telefone. O velho já estava mal há algum tempo, mas custava a morrer. Ouviu que o corpo seria velado no Cemitério São João Batista, em Botafogo, no final da tarde. A causa da morte parecia estranha. "Mas do que morreu?", perguntou seu pai. "Põe no viva voz", o artista pediu em tom de quase sussurro. "Ah, ele já estava mal há algum tempo. Sabe como é, né? Ele estava muito velho, mais de 90 anos. O corpo não aguenta. Parece que teve uma morte serena em sua cama. Teve um mal súbito à noite. De manhã, Mariângela encontrou-o morto. Sofreu demais em vida. Pelo menos teve uma morte serena!", disse o interlocutor, ao telefone. "São João Batista, então, final de tarde?", disse o pai, meio olhando para o filho. "Vou ver se dou uma passadinha lá." E desligou o telefone.
Era um fato triste, sem dúvida. A morte de alguém nunca é algo que se celebra. Pai e filho lembraram, bem-humoradamente, as peripécias do Doutor Domingos com a família. Tinha sido abrigado pelo avô do artista nos tempos da ditadura, antes de fugir para algum lugar. No site da Comissão da Verdade o artista ouvira a um julgamento seu e de outros de seus camaradas pelo Tribunal Superior Militar. Acusados de traficar armas da União Soviética, de terem ido para lá receber treinamento militar. Mas o PCB era uma organização pacífica, que prezava pela conquista do comunismo contrariamente aos arroubos terroristas das facções dissidentes. Comentavam na sala. O trabalho na editora, o camarada escondido no quarto entrevisto pelo filho durante tardes normais de um ano letivo. O velho tinha mesmo uma dentição que parecia uma dentadura. Melhor não pensar nisso. O artista se arrependia, na frente do pai, de não ter aproveitado aquele trabalho. Olhou várias vezes o catálogo da editora depois que abandonara o emprego. A cada vez via mais nomes importantes das ciências sociais brasileiras na lista do site. Mas, na época, tudo havia sido tão abrupto. Seu pai arrumara-lhe o trabalho em uma editora, que tanto queria (mas não aquela). Enfim, não havia como voltar atrás. E, de alguma forma, aquilo havia sido fundamental na sua formação.
Seu pai olhou o relógio. Eram 13:27. O artista tinha acabado de acordar, justamente com seu pai falando alto ao telefone -- o que era mais do que comum, para seu inconveniente --, e descobrira esse fato arrasador. O pai pensou duas vezes se ia ou não ao cemitério, e decidiu por não ir: o famoso "foda-se". Tinha de ir ao escritório? Talvez sim. Mas chovia. Não foi a lugar nenhum. Saiu do escritório de casa para a cozinha, para preparar o almoço que gostava de comer e oferecer ao filho, que não tinha opção a não ser comer o que lhe era oferecido. Também não podia recusar, nem comer em outro horário, pois o pai ofendia-se. Aquele horário era o limite: para dormir, para acordar, para uma rotina. Ele preparava com tanto carinho que, se recusassem, respondia com ponta-pés vocalizados. Mais rico que o filho, estava sem clientes, como sempre. Terminou o almoço, ajudou o pai a recolher a comida nos pirexes, botou tudo na geladeira, terminou de lavar a louça e ainda teve de sentar na sala para tomar mais um cafezinho com o pai, sob o risco de ofender o pai. E lá se vão mais 45 minutos, 1 hora.
Já eram 15:30 a essa altura, e o velório estava para começar. Algum sentimento ambíguo tomou conta dele. De alguma forma, gostava de Domingos, afinal, era um homem que lutou pelo fim das injustiças. Havia uma grandeza naquilo que ele tinha feito. Também sentia, paradoxalmente, alguma ternura na relação que nutriram por aquele breve período em que conviveram, ainda que uma mágoa transbordasse pelo bem. Era como da família? Era. Tinham direitos uns sobre os outros, de alguma maneira. E ele fez tudo aquilo pelo bem maior, uma vez que o imperialismo americano falsificava todos os fatos. Falou com o pai, como todo cuidado para não atrapalhar o nada que fazia a portas fechadas no escritório. "Pode falar!". O velório estava marcado para as 17 horas. Tomou um banho, que demorou mais do que devia, e partiu para o cemitério. Chegando lá, tentou descobrir em que salinha estava sendo velado, e viu a mulher de Domingos: era ali. O corpo já estava sendo levado para a cova. Chovia muito, então a maioria dos que estavam presentes ou foram embora ou permaneceram na construçãozinha do cemitério. O corpo partiu, todos de preto, guardas-chuvas, e lá foi o artista, atrás do corpo.
Ainda assim, um grupo relativamente numeroso acompanhou o cortejo fúnebre. Se não fosse no Brasil, pareceria o enterro de alguém da Yakuza, dadas todas as diferenças do cenário. Os trovões não cessavam, até que chegaram, ensopados, no túmulo. O artista olhou em volta e avistou o mausoléu que lhe haviam reservado. Era quase um castelo gótico socialista com adornos de arquitetura palaciana chinesa. Para um ex-militante empobrecido pelos anos de Ditadura Militar seguida de Consenso de Washington aquilo era um tanto desproporcional. Alguma coisa mudara desde os tempos do estágio. Parados, ali, em frente ao corpo e ao mausoléu, a água escorrendo pelo rosto, Mariângela, mulher de Domingos, olha para o artista e estende-lhe a mão com um cartão de visitas.
-- Ele sabia que você viria. Assim que ele for enterrado, você deve vagar um pouco pelo cemitério. Olhe o cartãozinho. Veja. Há algumas direções que deve seguir aqui. Há algo muito importante que você precisa saber. Por favor. É muito importante que você atenda a esse pedido.
Ao som de um estrondoroso trovão, o artista recebe o cartão. Olha aquilo e vê umas setinhas com uns nomes de figuras ilustres brasileiras. Não entende muito bem, mas seguirá as setinhas. O corpo é depositado no masoléu, fecham-se as portas e todos começam a voltar. Mariângela olha para o garoto à medida que retorna para a capelinha e gesticula, com as mãos e com expressões, como quem diz, em uma cidade do interior de Minas: fique aí, menino! Vai logo fazer!
O garoto pega o cartão. Havia uma representação do mausoléu e umas setinhas, para ele se posicionar. Começa a seguir o caminho. Esquerda, ande três túmulos. Verá o túmulo de Carmen Miranda. Depois vire novamente à esquerda. Passará pelo túmulo de Tom Jobim. Ande reto mais cem metros e verá o túmulo de Cazuza. E aqui você deve esperar cinco minutos contados. Depois, seguirá reto por mais cem metros, até chegar ao jazigo da família de Vargas. De lá, você deve posicionar-se à esquerda da jabuticabeira em frente ao jazigo (olhando para o túmulo), dar três pulinhos e virar novamente à esquerda da direita e correr. Se tudo estiver correto, você chegará a uma encruzilhada: os túmulos de Roberto Marinho, de Machado de Assis e de Luís Carlos Prestes. Sob chuva forte, o garoto acertou tudo. Ficou olhando para as árvores, para os túmulos, até que surge Doutor Domingos sentado no galho de uma árvore.
A Síntese da Posicionalidade no seu Pensamento
Cruzando Latour, Marx e a sua própria filosofia, chegamos à grande ironia do salário pago pelo "velhote mancomunado com o PCCh":
O intelectual idealista (leitor de Edith Stein e Max Scheler) acha que pode mudar sua posicionalidade no mundo através da consciência crítica ou da performance de vanguarda (a pose da Gávea). Latour e o Marxismo demonstram que a posicionalidade é decidida na física da infraestrutura.
O modelo chinês (a via pragmática) vence porque entende isso: ele não tenta convencer o sujeito ideologicamente; ele altera os actantes da rede. Ele coloca dinheiro real no bolso do artista, substitui a cadeira quebrada pelo salário robusto e, ao alterar a base material, altera a posicionalidade do indivíduo no cosmos. O sujeito deixa de ser um ressentido curvado sobre uma mesa vazia para se tornar um agente estilizado que, finalmente, compreendeu que a liberdade exige o domínio sobre a matéria.
O modelo chinês (a via pragmática) vence porque entende isso: ele não tenta convencer o sujeito ideologicamente; ele altera os actantes da rede. Ele coloca dinheiro real no bolso do artista, substitui a cadeira quebrada pelo salário robusto e, ao alterar a base material, altera a posicionalidade do indivíduo no cosmos. O sujeito deixa de ser um ressentido curvado sobre uma mesa vazia para se tornar um agente estilizado que, finalmente, compreendeu que a liberdade exige o domínio sobre a matéria.
sexta-feira, 12 de junho de 2026
Hong Kong (não) é aqui
Suas perguntas vão direto ao coração material do Édipo Geracional. Se o dinheiro é a máquina que desmonta sociologias coercitivas e permite a individuação, então a pergunta "de onde vem o dinheiro?" é, na verdade, "de quem é o pai que estamos matando — ou a quem estamos pedindo a benção?"
Vou por partes.
1. Hong Kong não é China? De onde vem o dinheiro de lá?
Hong Kong é China, mas sob um regime especial. Desde 1997, é uma Região Administrativa Especial com o princípio "um país, dois sistemas". Tem moeda própria (o dólar de Hong Kong), sistema jurídico derivado do common law britânico, e uma autonomia que a China continental não possui. Mas política e soberanamente, é China.
De onde vem o dinheiro de Hong Kong?
Historicamente, de sua função como entreposto. Durante o século XIX e XX, foi o porto por onde o capital ocidental entrava e saía da China. Nos anos 1980-1990, tornou-se o centro financeiro que intermediava a industrialização da China continental: capital taiuanês, japonês, americano e europeu entrava por Hong Kong para montar fábricas em Shenzhen e no delta do Rio das Pérolas. O dinheiro de Hong Kong é, portanto, essencialmente dinheiro de intermediação — comissões, serviços financeiros, especulação imobiliária, fluxos de capital que buscam segurança jurídica e liberdade cambial que a China continental não oferecia.
Com o tempo, Hong Kong tornou-se também a válvula de escape do próprio capital chinês: empresários do continente que querem proteger ativos, fazer IPOs internacionais, ou comprar imóveis fora da jurisdição direta do Partido. É um dinheiro que, em sua origem profunda, é fungível e desterritorializado — não expressa uma produção de valor local genuína, mas a captura de fluxos globais.
2. A libertação brasileira seria conseguir dinheiro brasileiro?
Sim, mas com uma qualificação essencial: não se trata apenas de ter uma moeda nacional forte. O real já existe. O problema não é a inexistência de uma unidade de conta brasileira; é que o valor que o real expressa não é autodeterminado. Ele é, em grande medida, função do que o capital estrangeiro (chinês, americano, europeu) decide que vale: commodities, juros, diferencial de risco-país.
A libertação, no sentido do Édipo Geracional, seria criar um dinheiro cujo valor emane da nossa própria capacidade de produzir sociologia e gozo, e não da nossa posição subordinada na divisão internacional do trabalho. Um dinheiro que não seja apenas uma senha para importar o estilo de vida alheio, mas um meio de expressar e circular uma estilização própria. Hélio Oiticica, com seu Parangolé, criou valor simbólico sem pedir licença ao dólar. Mas isso ficou no plano da arte. A pergunta é: como fazer isso na escala de uma economia nacional?
3. Como se cria o dinheiro?
Tecnicamente, dinheiro é criado de duas formas principais no mundo moderno:
· Pelo banco central, que emite moeda fiduciária (papel-moeda, reservas bancárias) e controla a base monetária.
· Pelos bancos comerciais, que criam dinheiro escritural ao conceder crédito. Quando um banco empresta, ele não tira dinheiro de um depositante; ele cria um ativo (o empréstimo) e um passivo (o depósito na conta do tomador) simultaneamente. A maior parte do dinheiro em circulação é criada assim.
Além disso, dinheiro internacional (dólares, euros) é criado por seus respectivos sistemas, mas circula globalmente por meio do comércio, dos fluxos de capital e dos mercados de eurodólar.
O ponto crucial: o poder de criar dinheiro é o poder de decidir o que será financiado. Se esse poder está subordinado a uma lógica externa (dependência de fluxos de capital estrangeiro, dívida em dólar, necessidade de gerar superávit primário para pagar juros), então o dinheiro criado internamente já nasce com o viés do desejo alheio.
4. Como criar um dinheiro genuinamente brasileiro e puro?
Aqui entramos na utopia material do Édipo Geracional. Um dinheiro genuinamente brasileiro, no sentido que seu texto exige — uma força que desmonta a sociologia do favor colonial e permite a individuação sem pedágio externo —, teria que ser criado a partir de três lastros, que chamo de lastro edípico:
a) Lastro em Recursos Reais Estratégicos (Soberania Alimentar e Energética)
O Brasil é um dos poucos países do mundo com capacidade de alimentar sua população inteira e ainda exportar excedente, além de ter uma matriz energética relativamente limpa e diversificada. Um dinheiro brasileiro "puro" seria aquele cujo valor de troca internacional não dependesse de aceitação especulativa, mas da demanda real pelo que produzimos de essencial. Se o real fosse a moeda pela qual se compra proteína animal, grãos, minérios críticos e energia renovável, ele teria um poder de imposição que independe dos humores do Tesouro americano.
Isso não é autarquia. É usar a nossa posição de "celeiro do mundo" como alavanca de poder monetário, em vez de aceitar passivamente que o valor do nosso trabalho seja denominado em moeda alheia.
b) Lastro em Trabalho Socialmente Necessário (Moeda Fiscal)
Um dinheiro é, antes de tudo, um título de dívida do Estado que é aceito porque o Estado o exige de volta em impostos. Uma moeda genuinamente brasileira seria aquela cuja âncora fiscal fosse a taxação progressiva da riqueza concentrada (a herança da Casa-Grande) e o financiamento de um sistema de bem-estar que liberasse a população da dependência do favor. O dinheiro valeria porque, ao pagar impostos, o cidadão estaria comprando o direito a uma vida não tutelada pelo patrão — saúde, educação, moradia. A moeda se tornaria o veículo de um pacto social real, não de uma simulação de modernidade.
c) Lastro em Criação Simbólica (O Parangolé como Ativo)
Aqui está o pulo do gato. O que Hélio Oiticica fez foi mostrar que a precariedade pode gerar valor simbólico imenso. Um dinheiro genuinamente brasileiro teria que internalizar isso: ser, de alguma forma, lastreado na capacidade de produzir cultura, ciência e tecnologia próprias. Isso não significa precificar a arte, mas sim que a política monetária e o investimento público devem estar orientados para financiar a produção de sentido — design, música, cinema, patentes farmacêuticas, softwares, arquitetura, agricultura tropical — que o mundo deseje e precise. O valor do real se tornaria função, também, da nossa potência criativa, e não apenas do preço do minério de ferro.
d) Emissão Soberana e Desendividamento Estruturado
Por fim, criar um dinheiro puro exigiria um ato fundador de soberania monetária: recomprar a dívida pública em moeda estrangeira usando emissão própria, lastreada nos itens acima, e estabelecer controle de capitais estratégico para impedir que o dinheiro criado internamente seja drenado para paraísos fiscais ou para a especulação cambial. Isso foi parcialmente tentado com a redução da dívida externa nos anos 2000, mas sem a criação de uma arquitetura simbólica e produtiva que desse ao real um novo significado. A China faz isso em parte: controla a conta de capital e usa o yuan em acordos bilaterais. Mas a China ainda depende, em última instância, da demanda americana e da inserção em cadeias globais que não controla totalmente.
A Purificação como Ato Edípico
Criar um dinheiro genuinamente brasileiro e "puro" não é, portanto, uma operação técnica apenas. É o parricídio macroeconômico: significa matar o pai Casa-Grande que nos legou uma moeda sempre dependente do humor estrangeiro; significa recusar o dinheiro de Hong Kong como prótese de modernidade; significa não esperar que o gotejamento do capital chinês ou americano nos redima.
É usar a sociologia — como força crítica — para entender que o dinheiro é um texto coletivo que escrevemos sobre nosso desejo. Se o real é hoje uma moeda que expressa ansiedade (risco-país, diferencial de juros, fuga de capitais), transformá-lo em uma moeda que expressa potência e gozo exigiria uma revolução não apenas econômica, mas da nossa autoimagem como povo. É fazer do Brasil não um entreposto do capital alheio, mas um emissor de valor num sentido total: alimentar, energizar, curar e encantar o mundo — e cobrar por isso na nossa própria moeda.
Hélio dançou essa possibilidade no corpo. Falta dançá-la no Banco Central.
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