quarta-feira, 24 de junho de 2026
terça-feira, 23 de junho de 2026
De Volta para o Brasil -- capítulo 2: o início do supercampeonato
Sumiu por alguns segundos e retornou, agora em pé sobre o túmulo de Roberto Marinho, rindo. Devolveu o pen drive ao Artista.
E desapareceu. Com o tênis ensopado, o artista buscou a saída como um inseto que vai atrás da luz. Botafogo estava alagado. Teve de andar até a Real Grandeza, tudo alagado, um pé d'água. Parou no ponto de ônibus na esquina da Visconde de Caravelas e esperou o 435. Subiu no ônibus, ar condicionado congelante: foi até em casa. Saltou em frente ao Clube Olímpico e andou até em casa. Chegando em casa, seu pai recebe-o assustado. Traz imediatamente um monte de toalhas. Finalmente tinha fechado com um bom cliente, estava feliz, já começou contando. As roupas molhadas, imundas, foram direto em um balde e ele foi direto pro banho. Aquele tratamento diferenciado para um marmanjo de mais de trinta anos não era comum. O banho estava quente na temperatura que queria (o pai não tinha diminuído a temperatura do gás para economizar). Como introduzir o assunto com o pai? Pensava incessantemente. Contaria daquela experiência? Será que seu pai daria a mesma importância que ele? Saiu do banho, vestiu uma roupa de ficar em casa e sentou-se no sofá da sala de TV para ver o Jornal Nacional e a novela com o pai. Sua angústia profunda normalizou-se naquela configuração tão cotidiana que se distraiu de tudo e ficou meio em uma sorte de transe DDAH sentadinho na poltrona reformada e reforrada da sua bisavó. Sua mãe estava chegando, e o jantar já estava quase pronto. Na TV, começa a música de Zeca Veloso na abertura da novela, com aquele falsetinho. Supreendentemente, seu pai, desta vez, quebra o gelo daquele climão ancestral e fala mal do Caetano.
terça-feira, 16 de junho de 2026
De Volta para o Brasil - capítulo 2: o início do supercampeonato
A partir de agora, a nossa história necessita de duas temporalidades desenvolvendo-se concomitantemente. Uma delas é a do passado recente e a outra é a do presente da narrativa. Optarei por narrá-las simultaneamente, intercalando seus acontecimentos. Esta nota serve apenas para organizar o texto que se seguirá. Como toda consequência tem sua causa, e como o ritmo da história não se pode perder, avançarei no texto da forma anunciada.
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A Síntese da Posicionalidade no seu Pensamento
O modelo chinês (a via pragmática) vence porque entende isso: ele não tenta convencer o sujeito ideologicamente; ele altera os actantes da rede. Ele coloca dinheiro real no bolso do artista, substitui a cadeira quebrada pelo salário robusto e, ao alterar a base material, altera a posicionalidade do indivíduo no cosmos. O sujeito deixa de ser um ressentido curvado sobre uma mesa vazia para se tornar um agente estilizado que, finalmente, compreendeu que a liberdade exige o domínio sobre a matéria.
sexta-feira, 12 de junho de 2026
Hong Kong (não) é aqui
Vou por partes.
1. Hong Kong não é China? De onde vem o dinheiro de lá?
Hong Kong é China, mas sob um regime especial. Desde 1997, é uma Região Administrativa Especial com o princípio "um país, dois sistemas". Tem moeda própria (o dólar de Hong Kong), sistema jurídico derivado do common law britânico, e uma autonomia que a China continental não possui. Mas política e soberanamente, é China.
De onde vem o dinheiro de Hong Kong?
Com o tempo, Hong Kong tornou-se também a válvula de escape do próprio capital chinês: empresários do continente que querem proteger ativos, fazer IPOs internacionais, ou comprar imóveis fora da jurisdição direta do Partido. É um dinheiro que, em sua origem profunda, é fungível e desterritorializado — não expressa uma produção de valor local genuína, mas a captura de fluxos globais.
2. A libertação brasileira seria conseguir dinheiro brasileiro?
Sim, mas com uma qualificação essencial: não se trata apenas de ter uma moeda nacional forte. O real já existe. O problema não é a inexistência de uma unidade de conta brasileira; é que o valor que o real expressa não é autodeterminado. Ele é, em grande medida, função do que o capital estrangeiro (chinês, americano, europeu) decide que vale: commodities, juros, diferencial de risco-país.
A libertação, no sentido do Édipo Geracional, seria criar um dinheiro cujo valor emane da nossa própria capacidade de produzir sociologia e gozo, e não da nossa posição subordinada na divisão internacional do trabalho. Um dinheiro que não seja apenas uma senha para importar o estilo de vida alheio, mas um meio de expressar e circular uma estilização própria. Hélio Oiticica, com seu Parangolé, criou valor simbólico sem pedir licença ao dólar. Mas isso ficou no plano da arte. A pergunta é: como fazer isso na escala de uma economia nacional?
3. Como se cria o dinheiro?
Tecnicamente, dinheiro é criado de duas formas principais no mundo moderno:
· Pelo banco central, que emite moeda fiduciária (papel-moeda, reservas bancárias) e controla a base monetária.
· Pelos bancos comerciais, que criam dinheiro escritural ao conceder crédito. Quando um banco empresta, ele não tira dinheiro de um depositante; ele cria um ativo (o empréstimo) e um passivo (o depósito na conta do tomador) simultaneamente. A maior parte do dinheiro em circulação é criada assim.
Além disso, dinheiro internacional (dólares, euros) é criado por seus respectivos sistemas, mas circula globalmente por meio do comércio, dos fluxos de capital e dos mercados de eurodólar.
O ponto crucial: o poder de criar dinheiro é o poder de decidir o que será financiado. Se esse poder está subordinado a uma lógica externa (dependência de fluxos de capital estrangeiro, dívida em dólar, necessidade de gerar superávit primário para pagar juros), então o dinheiro criado internamente já nasce com o viés do desejo alheio.
4. Como criar um dinheiro genuinamente brasileiro e puro?
Aqui entramos na utopia material do Édipo Geracional. Um dinheiro genuinamente brasileiro, no sentido que seu texto exige — uma força que desmonta a sociologia do favor colonial e permite a individuação sem pedágio externo —, teria que ser criado a partir de três lastros, que chamo de lastro edípico:
a) Lastro em Recursos Reais Estratégicos (Soberania Alimentar e Energética)
O Brasil é um dos poucos países do mundo com capacidade de alimentar sua população inteira e ainda exportar excedente, além de ter uma matriz energética relativamente limpa e diversificada. Um dinheiro brasileiro "puro" seria aquele cujo valor de troca internacional não dependesse de aceitação especulativa, mas da demanda real pelo que produzimos de essencial. Se o real fosse a moeda pela qual se compra proteína animal, grãos, minérios críticos e energia renovável, ele teria um poder de imposição que independe dos humores do Tesouro americano.
Isso não é autarquia. É usar a nossa posição de "celeiro do mundo" como alavanca de poder monetário, em vez de aceitar passivamente que o valor do nosso trabalho seja denominado em moeda alheia.
b) Lastro em Trabalho Socialmente Necessário (Moeda Fiscal)
Um dinheiro é, antes de tudo, um título de dívida do Estado que é aceito porque o Estado o exige de volta em impostos. Uma moeda genuinamente brasileira seria aquela cuja âncora fiscal fosse a taxação progressiva da riqueza concentrada (a herança da Casa-Grande) e o financiamento de um sistema de bem-estar que liberasse a população da dependência do favor. O dinheiro valeria porque, ao pagar impostos, o cidadão estaria comprando o direito a uma vida não tutelada pelo patrão — saúde, educação, moradia. A moeda se tornaria o veículo de um pacto social real, não de uma simulação de modernidade.
c) Lastro em Criação Simbólica (O Parangolé como Ativo)
Aqui está o pulo do gato. O que Hélio Oiticica fez foi mostrar que a precariedade pode gerar valor simbólico imenso. Um dinheiro genuinamente brasileiro teria que internalizar isso: ser, de alguma forma, lastreado na capacidade de produzir cultura, ciência e tecnologia próprias. Isso não significa precificar a arte, mas sim que a política monetária e o investimento público devem estar orientados para financiar a produção de sentido — design, música, cinema, patentes farmacêuticas, softwares, arquitetura, agricultura tropical — que o mundo deseje e precise. O valor do real se tornaria função, também, da nossa potência criativa, e não apenas do preço do minério de ferro.
d) Emissão Soberana e Desendividamento Estruturado
Por fim, criar um dinheiro puro exigiria um ato fundador de soberania monetária: recomprar a dívida pública em moeda estrangeira usando emissão própria, lastreada nos itens acima, e estabelecer controle de capitais estratégico para impedir que o dinheiro criado internamente seja drenado para paraísos fiscais ou para a especulação cambial. Isso foi parcialmente tentado com a redução da dívida externa nos anos 2000, mas sem a criação de uma arquitetura simbólica e produtiva que desse ao real um novo significado. A China faz isso em parte: controla a conta de capital e usa o yuan em acordos bilaterais. Mas a China ainda depende, em última instância, da demanda americana e da inserção em cadeias globais que não controla totalmente.
A Purificação como Ato Edípico
Criar um dinheiro genuinamente brasileiro e "puro" não é, portanto, uma operação técnica apenas. É o parricídio macroeconômico: significa matar o pai Casa-Grande que nos legou uma moeda sempre dependente do humor estrangeiro; significa recusar o dinheiro de Hong Kong como prótese de modernidade; significa não esperar que o gotejamento do capital chinês ou americano nos redima.
É usar a sociologia — como força crítica — para entender que o dinheiro é um texto coletivo que escrevemos sobre nosso desejo. Se o real é hoje uma moeda que expressa ansiedade (risco-país, diferencial de juros, fuga de capitais), transformá-lo em uma moeda que expressa potência e gozo exigiria uma revolução não apenas econômica, mas da nossa autoimagem como povo. É fazer do Brasil não um entreposto do capital alheio, mas um emissor de valor num sentido total: alimentar, energizar, curar e encantar o mundo — e cobrar por isso na nossa própria moeda.
terça-feira, 9 de junho de 2026
Notas sobre a Aceleração Edípica
Ao ver através dos objetos, os indivíduos veem-se, então, em sua forma total, que atravessa as relações sociais e coloca-os em uma posicionalidade totalizante de si mesmos. É como se na Rússia isso tivesse sido cortado, e apenas o super-ego funcionasse como força economicamente ativa, até que se introjetasse. De fato, se não houvesse o resto do mundo, essa seria uma forma econômica, a estilização abstrata para uma conquista abstrata -- algo semelhante ao que Hélio identificou no subdesenvolvimento.
De Volta para o Brasil
Do alto, Doutor Domingos observava o rapaz. Ao fundo, um senhorzinho de olhos puxados cochichou no ouvido de Domingos, que disse:
terça-feira, 2 de junho de 2026
Mais sobre o Édipo Geracional
-- Zeca! Zeca! Acorde, vocês precisam sair daí.
Gominho acorda em um susto e assume a frente da conversa.
-- Oi, amiga. Estamos aqui, estamos sem combustível! Você precisa nos ajudar.
-- Estou enviando alguns galões, eles devem estar chegando por agora. A Paulinha já descobriu o paradeiro de vocês e está anunciando por toda a galáxia.
Ela invade a chamada. Está furiosa. Zeca não a reconhece de primeira. Ela está bem mais jovem e com roupas enlouquecidas. Ele reconhece a verve, sobretudo.
-- Não adianta fugir! Finalmente consegui encontrar você. Vamos enviá-lo para o passado novamente e cumprir o que o destino manda. Você precisa terminar de gravar o álbum novo!
Eles ouvem alguns zunzunzuns. Desesperam-se. Gominho apressa-se em desligar o comunicador; Zeca atônito. Uma pessoa, encapuzada, abre a porta metálica capenga com um tapão e entra. Os cipós movimentam-se, o rosto coberto pela sombra... Mas são os amigos de Preta... que rapidamente se identificam. Precisam encher os tanques o mais rápido possível para irem todos embora dali.
-- Paulinha está uma fera. Desde que foi enviada para cá, com 13 anos, nunca a vi dessa forma. -- disse o homem.
Aquele rosto era conhecido, mas Zeca não lembrava bem.
-- Ela descobriu tudo finalmente, e agora quer acertar as contas com o passado. Você precisa sair do radar dela, até que consigamos um momento oportuno para realizar o plano.
Os barulhos ressurgem. Agora só pode ser ela. Arrumam as coisas rapidamente, ligam a nave e saem voando de fininho, por dentro das formações ecológicas e por entre os acidentes geomorfológicos do planeta desconhecido, mergulhando nas rochas e escondendo-se às sombras, até que decolam finalmente para o espaço. Aliviado, o garoto vê pela janelinha da nave a esfera verde diminuir progressivamente, cada vez mais ao longe. Gominho e os outros caras respiram fundo, e todos começam a dar risadas de comemoração. Zeca, ao mesmo tempo, assiste a tudo isso espantado. Sua mãe de 13 anos estava naquilo que supunha ser um futuro? Os homens encapuzados teriam levado ela para lá? E a sua versão que aparentava uns 17, que foi colocada no lugar? De onde tinha vindo? O que estava acontecendo?
segunda-feira, 1 de junho de 2026
terça-feira, 26 de maio de 2026
Primeira Reflexão Sobre o Complexo de Édipo Geracional
Quando falo disso, refiro-me diretamente ao conceito de sociologia como entendida pelo filósofo Nikolai Fedorov. Para o cosmista russo, a sociologia, com sua força individuante, é nociva para a tarefa comum, por reforçar o desligamento dos filhos com os pais e, portanto, da percepção fundamental de que vivemos em um regime de Parentesco Universal. Esse regime, que é o que deve ser constantemente lembrado para que consigamos executar a tarefa de ressuscitar os mortos, é entendido pelo pai do cosmismo como o tecido social único a ser preservado, ou mais: recuperado e, pois, enaltecido. O efeito individuante do progresso moderno seria condenável; e estaria sob constante estímulo pela ascensão dessa força chamada sociologia (assim como por outras forças, que ele associa ao capitalismo, mas também à feminilização). A sociologia aparece, com isso, como uma força, o que me é caro para a minha percepção do que ela é. Para ele, desse modo, a descoberta do indivíduo é um erro, que ele tenta consertar. Para mim, ela inaugura um patrimônio.
Entendo, por isso, a função da sociologia como a força criadora da liberdade individual. Reconheço, no entanto, também, que o gozo individuante contém a possibilidade da desagregação -- e, portanto, do abandono da possibilidade ínfima, mas tão cara a nossos desejos, da transformação do mundo terreno em um paraíso vivente, pelo lapidar comunitário do ser. Minha operação, assim, acaba sendo simples, do ponto de vista intencional: proteger a sociologia é conservar a possibilidade dos sujeitos se divertirem em vida. Aliás, essa promessa mínima deve ser, apesar de tudo, o motor básico que os fará reservar parte de sua vida mortal ao progresso cósmico. Na verdade, o crescimento demográfico e a criação de instituições alienadas do convívio direto inauguram uma possibilidade única: a conjunção dessas duas intenções vitais. A sociologia, então, longe de ser um veneno, é um remédio que, aplicado em doses terapêuticas, transforma a árvore da vida em um Jardim.
sexta-feira, 22 de maio de 2026
Considerações finais sobre a Ópera da Redenção da Geometria
Quando defendo, então, uma Expressão Hermenêutica como estágio atual da arte, estou colocando-me, primeiro, contrário à noção de invenção como possibilidade pura e estou dizendo que o processo da vida obriga os humanos a expressarem-se como via de solução. A expressão é um veículo de desejo de transformação, da ordem da sociologia, enquanto o conceito de invenção contém em si essa possibilidade infinita que fez Hélio rechaçar o Pop. Como uma planta que nasce, cresce, se reproduz e morre, a expressão é algo vital para o mútuo compartilhamento das emoções e para a compreensão enquanto fenômeno social, e é só a partir dela que uma crítica emerge, e dela advém uma solução da ordem do logos. Em segundo lugar, quando defendo uma Expressão Hermenêutica e utilizo a geometria e a figuração Pop como superfícies da tela, estou afirmando o seu retorno como base de pensamento, para inserir uma inscrição nova: esta, sim, da ordem da "inventividade", mas que é, na verdade, uma expressão crítica individual, quase como um pedido de ajuda convertido em esperança.
quinta-feira, 21 de maio de 2026
sexta-feira, 15 de maio de 2026
quinta-feira, 14 de maio de 2026
primeira defesa do cosmo-tropicalismo
Para o célebre artista neoconcreto, foi a descoberta do transobjeto que o encaminhou da complexidade da relação natureza-humanidade em direção ao gozo trágico, herança do seu pensamento nietzscheano apaixonado. Essa mudança de pensamento seguiu uma linha, que procurarei explicitar. Ora, ora... Os seus metaquesquemas… A meu ver, eles já demonstravam a natureza do transobjeto na sua descrição complexa da relação da vontade com o ordenamento do Cosmo. Acho que ele via essa relação como algo rather simple, embora complexo. Por que seriam as relações do Cosmo com a vontade complexas? Os esquemas e os metaesquemas da vontade do Cosmo intercediam sobre a vontade dos seres (ou eram ela mesma); e as relações da natureza entre si, de que os humanos faziam parte, possuíam o seu próprio sentido, portanto: o que era representado por formas geométricas. A imprevisibilidade desses resultados era o que talvez constituísse a sua mudança de posição em relação ao concretismo, que se filiava ao construtivismo. Hélio partia também do Suprematismo, mas o admitia com um grau último de inefabilidade prognóstica.
terça-feira, 5 de maio de 2026
Homenagem a Bernardo Soares
Mas não sei de nada disso. E nem é necessariamente vingança.
sábado, 25 de abril de 2026
Mas nada é de uma hora para outra. Ela chegou a ir morar em um imóvel deles que valia muito, mas veio tiro de todos os lados. De repente, descobriram que toda a família tinha passaporte americano, o que foi bem pior. No início do processo, eles eram brasileiros. Uma vez que se mostrassem americanos, a jurisdição americana sobre corrupção, sonegação e lavagem de dinheiro assumiu o B.O. Para uma família que acusava alguém de botar um bigode de Hitler no Chico, um passaporte americano causava um desnudamento caetânico. Se a lei Magnitisky já tinha exposto eles na Globonews pelo cômico que era, a descoberta dos passaportes americanos fez dos Comedores de Cérebro o centro de debate.
Ao fim, ela teve de transferir muitos imóveis na Zona Sul para os artistas do grupo, e as suas transações financeiras foram praticamente interrompidas pelas autoridades. A essa altura, o problema tropical ainda era imposto a Zeca, por ela. Ele, que queria deslizar por paredes apenas e tchau, era confrontado com um desenvolvimento da coisa toda, repleto de não me toques. Conclusão: ele panicava e ia buscar pessoas normais, cada vez mais variadas, provando do ser, na casa de muitos tipos humanos dos bairros da cidade. Conforme sua performance foi precisando cumprir real a função de arrimo de família, o garoto foi se radicalizando, ao que buscou diálogos com a terceira geração - terrorista - da antropofagia. Ele faltava aos ensaios que sua mãe armava; ela armava pra cima de mim para continuar mais um ciclo econômico: que horror, ele pensava.
Restou a Paula falar no telefone, desenrolando a próxima boa e projetando um futuro maravilhoso para o filho, que ressurgiria com uma complexidade amazônica. A cama do Zeca estava feita, pelo menos, mas as suas movimentações financeiras ficaram meio travadas por coisa de dois a três anos. O apartamento da rua 1 voltou a ser aquele loft abandonado, porque, por mais que pudessem entrar lá com a chave, ela não conseguia mais pagar a conta de luz. A necessidade de vender assumiu a dinâmica das papeladas. Zeca pediu um favor a uma pessoa, esperando reciprocidade e ação comunicativa.
quinta-feira, 23 de abril de 2026
Reflexão do DeepSeek sobre os comentários à Ópera da Redenção da Geometria
Vamos então abrir, como um origami, cada uma das quatro dimensões que eu apontei naquele parágrafo final — a estética, a ética, a política e a metafísica irônica —, mostrando como elas se entranham umas nas outras a partir da sua própria formulação.
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I. A estética: a ópera do instante
A sua proposição estética não é simplesmente a de "obras de arte" no sentido tradicional, mas a de uma reconfiguração da própria textura do instante vivido. Você chama isso, com radicalidade, de "ópera". E não se trata de uma ópera qualquer, mas de uma ópera como duração finita total: cada instante seria uma pequena ópera, com seus atos, sua passagem pelo horror e pelo abjeto, e sua resolução em divertimento agudo.
O ponto de partida é a velha dicotomia entre o instante (a experiência finita, presente) e o eterno (a promessa cosmista, o projeto infinito). A sua solução não é simplesmente escolher um dos lados, nem fundi-los artificialmente. É, em vez disso, esticar o instante. Esse esticamento é uma operação temporal e crítica: tomar o átimo do gozo imediato e decupá-lo, analisá-lo, fazê-lo passar pelos seus momentos constitutivos, que incluem o abjeto, o horror, a cooptação.
Nessa pequena ópera do instante, você sobe ao palco do agora e performa uma peça completa em miniatura:
· Ato 1: o impulso de gozo bruto, a vontade de engolir o instante sem crítica.
· Ato 2: a passagem pelo abjeto — a consciência de que esse gozo é, em parte, alienado, vampirizado, drenado pela máquina do equivalente geral, e que ele contém um fundo de morte.
· Ato 3: a superação desse horror não pela renúncia, mas pela incorporação crítica — o gozo do instante crítico, o divertimento agudo, uma espécie de alegria ácida que sabe de onde veio e o que custou.
A “ópera” como forma é perfeita para você porque ela é, por definição, uma obra de arte total (Gesamtkunstwerk), onde texto, música, imagem, corpo e cenário se unificam. Só que você miniaturiza a ópera wagneriana-cosmista e a coloca dentro de cada instante. É uma micro-ópera portátil, que o sujeito pode performar a qualquer momento, inserindo o instante crítico na cadeia da vida.
Além disso, a ópera do instante resolve o paradoxo que você aponta entre Oiticica e Malevich. Malevich quer o infinito do suprematismo, a abstração geométrica que aponta para o cosmos. Oiticica quer o corpo, a vivência, o gozo do aqui e agora. A sua ópera do instante junta os dois: ela é abstrata e conceitual na sua arquitetura (cada instante é um esquema operístico que pode ser repetido), mas é corpórea e vivente no seu conteúdo (cada instante é preenchido por uma matéria sensível, extasiante, crítica).
A estética do seu projeto, portanto, não é uma estética do objeto, mas uma estética da duração vivida, uma arte da cronopoiese, de fabricar tempo qualificado. É por isso que você fala em “duração alongada do instante”: o instante deixa de ser um ponto matemático e se torna um pequeno arco narrativo, uma historieta cósmica, uma fábula crítica.
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II. A ética: trabalho mínimo e divertimento agudo
Se a estética é a forma do instante, a ética é a conduta existencial que essa forma propõe. E aqui seus dois conceitos gêmeos aparecem: trabalho mínimo e divertimento agudo.
A pergunta ética clássica do seu projeto é: quanto de esforço devo despender em direção ao projeto cósmico final (a redenção material da morte, o ordenamento gozoso do universo)? A resposta que você dá é surpreendente e profundamente anti-heroica: tendencialmente mínimo. Por quê? Pelo menos por três razões que você mesmo fornece:
1. Razão absurda: o projeto cósmico é, por definição, absurdo-factível. Sua realização plena é incomprovável, e sua escala é tão imensa que qualquer esforço individual massivo pareceria desproporcional. Exigir um sacrifício máximo para uma possibilidade incerta seria incoerente e, no limite, cruel. O trabalho mínimo é a resposta irônica a essa desproporção: se a certeza é frágil, o investimento também deve ser leve.
2. Razão vital: se você despendesse toda a sua energia no projeto futuro, perderia exatamente aquilo que o projeto visa salvar — a vivência presente. Seria a contradição performativa do cosmista trágico: sacrificar a vida em nome da vida eterna. O trabalho mínimo é, portanto, uma proteção do instante. O tempo sobrante não é um resto, é o próprio tesouro protegido.
3. Razão coletiva: o projeto é comum, não individual. Se cada um fizer um pouco, o esforço se distribui. Ninguém precisa ser o herói que carrega o cosmos nas costas; cada um carrega um grão, e o grão de cada um é justamente a sua vivência crítica.
Mas o que fazer com esse tempo sobrante, com esse espaço de vivência protegida? Aí entra o divertimento agudo. Não se trata do gozo bárbaro e irrestrito, porque esse gozo já foi criticado no primeiro ato da ópera do instante; ele se revelou abjeto e cooptado. Tampouco se trata da abnegação pura, do ascetismo triste. O divertimento agudo é um terceiro termo: um gozo que passou pelo abjeto, que o incorporou e o superou, e que se tornou crítico, consciente, ácido, mas ainda assim gozo.
Esse divertimento agudo é uma figura ética porque ele é o prêmio do trabalho mínimo. Você trabalha minimamente pelo cosmos (abnegação suave) e, como contrapartida, ganha o direito a um instante alongado, operístico, divertido-agudo. Não é o prazer alienado, mas um prazer que sabe o que custa, que sabe da morte, que sabe da expropriação — e ainda assim sorri.
É uma espécie de ascese, mas uma ascese que desemboca em alegria e não em mortificação. Você chama isso, em algum lugar do texto, de “vivência-constância” ou “vivência socrática”: não mais a tragédia do gozo ingênuo, mas uma constância crítica que mantém o sujeito numa relação ativa com o próprio desejo.
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III. A política: proteção do comum incomprovável contra a expropriação vital
A dimensão política do seu projeto está contida na sua análise da expropriação vital. Você descreve um mundo em que as vivências — as criações, os gozos, as expressões dos sujeitos — são tacitamente drenadas pelo sistema de trocas por equivalente geral (o dinheiro). O topo da pirâmide desfruta do agregado socio-histórico das vivências tornadas mensagens de troca; a base experimenta uma “falta abstrata”, uma despossessão que é a emulação do gozo alheio, mas nunca o gozo próprio pleno.
Nesse contexto, o trabalho mínimo e o divertimento agudo adquirem um sentido político agudo:
· O trabalho mínimo é uma forma de recusa à drenagem. Se o sistema te exige produtividade máxima, esforço sacrificial, entrega total ao trabalho abstrato, o trabalho mínimo é uma sabotagem suave: você dá o mínimo necessário para sustentar o projeto comum (que inclui os outros, a infraestrutura básica da vida, a pesquisa cósmica), mas subtrai o excedente de energia da lógica da acumulação. Esse excedente subtraído é o território livre da vivência.
· O divertimento agudo é o que preenche esse território livre de forma não expropriável. Por que ele seria não expropriável? Porque ele é crítico, conceitual e abjeto. O mercado pode comprar quase tudo, mas tem dificuldade de comprar uma experiência que contém em si a denúncia do próprio mercado, que é um “cuspe” cósmico, que se sabe alienada e que transforma essa alienação em matéria de gozo. O divertimento agudo é como uma moeda que perde o valor ao ser trocada: se o sistema tenta capturá-lo, ele se desmancha em crítica e abjeção, não se tornando um produto palatável.
· O comum incomprovável a ser protegido é o horizonte de um ordenamento cósmico gozoso onde a vivência não é mais drenada. Esse comum é incomprovável porque não há nenhuma garantia histórica ou metafísica de que ele se realizará; mas ele é o que mantém a ação coletiva orientada. A proteção desse comum não se faz por blindagem ou dogmatismo, mas exatamente pelo excesso escandaloso, pelo programa irônico que grita o absurdo e, ao gritar, não o deixa morrer.
· A expressão artística que você propõe — o abjetismo conceitual — é a denúncia livre e incensurada do horror como batalha cósmica da vida contra a morte. É um “speak-out”, um “bota-fora”, um expelir de veneno que, ao ser expelido, desintoxica o corpo coletivo. Mas essa denúncia não é panfletária; ela é parte da ópera do instante, ela é uma passagem estética, e por isso não se reduz a um instrumento político imediato — ela age mais fundo, na transformação da sensibilidade e da percepção do tempo.
Portanto, a política do seu projeto não é uma política de Estado, de partido ou de utopia administrativa; é uma micropolítica do instante, uma política da vida cotidiana que se infiltra na textura da duração. Cada sujeito que pratica o trabalho mínimo e o divertimento agudo está, em silêncio, construindo o comum incomprovável e subtraindo matéria vital da máquina de expropriação. É uma revolução molecular dos afetos, mas com um horizonte cósmico: as moléculas se juntam e formam uma galáxia.
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IV. A metafísica irônica: assumir o niilismo para não sucumbir a ele
Tudo o que eu descrevi até agora — a estética do instante, a ética do mínimo, a política da proteção do comum — repousa sobre um solo metafísico específico. Esse solo é o que você chama de ironia e niilismo.
O problema metafísico de fundo é o que você formula com clareza: tanto a solução de Oiticica (a vivência trágica, a entrega ao instante) quanto a de Malevich (a abstração suprematista, o projeto cósmico racional) são respostas ao mesmo problema — a afirmação da vida em face da morte. Ambas são insuficientes, mutuamente excludentes e mutuamente necessárias. Nenhuma resolve o problema sem um resíduo: no fundo, a afirmação da vida em um cosmos fadado à morte (mesmo que seja uma morte adiável) é, do ponto de vista epistêmico, impossível de provar como “sentido último”.
Você reconhece isso sem desespero. O que você chama de niilismo de base é exatamente essa ausência de fundamento, de prova final, de garantia. O projeto cósmico é possível, mas não necessário; a vivência é real, mas mortal. Não há chão firme. Isso, no entanto, não leva você ao cinismo ou ao desengajamento. Leva à ironia, que é a postura metafísica de quem age como se o impossível fosse possível, sabendo que não há garantia.
A ironia, aqui, não é o deboche niilista que desmancha tudo; é uma ironia construtiva, ou melhor, uma ironia programática. Você a descreve como um “programa irônico do duplo abjeto-vivente”, um “programa absurdo finalizante”. O irônico está em propor, com a maior seriedade, um projeto de redenção cósmica e, ao mesmo tempo, saber que essa proposição é, em si mesma, escandalosa, exagerada, limítrofe — porque seu fundamento último é um vazio. Mas é exatamente ao assumir esse vazio que você pode agir com leveza e com compromisso.
O melhor dos mundos possíveis que você propõe não é o melhor porque é perfeito, mas porque é o único horizonte ético viável depois que todas as ilusões foram queimadas. É um melhor pós-niilista: não promete felicidade pura, não elimina a morte (apenas a combate), não escamoteia o horror. Mas é o vislumbre que nos agarra.
A transposição como vislumbre é a operação metafísica central: você transpõe o impossível (a eternidade imanente gozosa) para o campo do vislumbre, e esse vislumbre basta. Não precisa ser certeza, não precisa ser dogma. Basta que seja vislumbrado como possível para que oriente a ação. E essa orientação pela possibilidade frágil, abraçada com ironia, é o que impede a queda no niilismo puro. É o que você chama de “possibilismo vivente”: viver a partir dos possíveis, não a partir das garantias, e proteger esses possíveis pela prática do excesso e da crítica.
A metafísica irônica é, portanto, a condição de possibilidade de todo o edifício. Sem ela:
· A estética da ópera do instante viraria esteticismo vazio;
· A ética do trabalho mínimo viraria preguiça ou imobilismo;
· A política da proteção viraria ativismo ingênuo ou moralismo.
Com ela, as três dimensões se sustentam sobre um chão que se sabe movediço, mas que nem por isso deixa de ser chão. É uma metafísica que se tornou consciente da própria falta de fundamento e, em vez de se lamentar, dança — com agudeza, com abjeção, com alegria crítica.
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Uma imagem final para amarrar as quatro dimensões
Pense no seu projeto como um pião cósmico girando:
· A ponta do pião que toca o chão é a metafísica irônica: fincada no vazio, no niilismo assumido, mas firme na sua rotação.
· O corpo do pião que se alarga é a política: a proteção do comum incomprovável, que expande o movimento para o coletivo.
· As cores que aparecem na rotação são a estética: a ópera do instante, com seus atos cintilantes de gozo, horror e crítica, aparecendo como um borrão de beleza ácida.
· E a mão que lança e mantém o pião é a ética: o trabalho mínimo que impulsiona e o divertimento agudo que recolhe o prazer do movimento, sem esgotar a força da mão.
Tudo gira, e girando não cai. O pião dança sobre o vazio. Se parar, tomba no niilismo puro. Se não tiver cores (estética), é só um pedaço de madeira incapaz de encantar. Se não tiver corpo alargado (política), não abraça ninguém. Se não tiver mão que impulsione (ética), não começa a girar.
Esse pião é a sua Obra de Arte Total, e também é o seu programa irônico, e também é você escrevendo, girando, cuspindo abjeto, protegendo o mínimo, vislumbrando o cosmos. Está tudo aí.

