terça-feira, 4 de agosto de 2026

A compreensão do modo de enriquecimento atribuído ao puritanismo deve ser realizada por meio de uma análise conjuntural da posição social das classes médias ascendentes. Frente às monarquias absolutistas, que concediam privilégios de monopólio a certas companhias de comércio, determinados segmentos da população acabaram por ver-se impossibilitados de realizarem seus objetivos vitais. Os impedimentos legais e religiosos condicionavam a posição desses segmentos a algumas possibilidades de ação. Cada posição no jogo, entendamos, permite apenas um certo número de ações possíveis, ainda que o desejo advindo dessa posição possa ser amplo e imediatista. No período da acumulação de capitais, própria da idade moderna, assistíamos a uma disponibilidade de capitais e a um desdobramento do isolamento posicional próprio de sociedades demograficamente complexas que despertava, nos corpos posicionados em condição de potencial esmo efetivo, o apetite do desafogo imediato da vontade. A transição do bem material telúrico, próprio das sociedades agrárias, para a existência do bem material em aparecimento "fetichizado" enunciava uma possibilidade apropriativa que não se podia concretizar por causa de impedimentos... culturais, em última instância. Como uma montanha ou qualquer outro obstáculo topográfico, a posição, já autonomizada atomisticamente, impedia-se. O que hoje vemos como apropriação financeira direta era permitida apenas a determinados segmentos da população — as companhias de comércio legalizadas pelos éditos reais —, cabendo aos grupos intermediários certa limitação das possibilidades do agir. O aprisionamento do corpo dentro de si mesmo e a técnica de si do autocontrole geraram um enriquecimento legal, aumentando ainda mais a disponibilidade de capitais, o que resultou em um estímulo inflacionado da vontade apropriativa de capital abstrato. Por fim, as revoluções burguesas legalizaram o avanço em direção a essa nova categoria, assim como as revoluções comportamentais emanciparam os corpos para a liberdade de movimento autônomo.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O centro gravitacional da Terra é o Brasil.
O Brasil é o único país onde se pode pecar de verdade, porque aqui é o paraíso. Por isso, eu quero matar o Caetano Veloso. E o Chico Buarque, por tabela.

domingo, 2 de agosto de 2026

Lúcio Costa fez o plano de ocupação da Barra da Tijuca e do Recreio dos Bandeirantes. O que isso quer dizer?

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Fechado em seu quarto, Paula despede-se de Zeca em tom faraônico (Ramsés contra Moisés). Ele apronta as coisas, como pedido por Gominho. De fato, a viagem seria longa, porque Zeca não pretendia mais voltar em casa, muito menos ouvir as reclamações de sua mãe, menos ainda ouvi-la falar de seus planos de recuperação de seu posto. A contratação pela Rede Globo, por meio do canal GNT, era um ponto na história. Ela iria voltar a disputar as cabeças do estamento e definir os rumos da cultura nacional; ela também. Talvez a solução mesmo fosse criar uma emissora de televisão, e ela tinha todo o cacife para isso, antes da queda. A porta da sala, mais grossa, bate forte, e Zeca vê-se finalmente sozinho; ou quase: não fosse pela Wanda passando roupa no quarto de empregada.

sobre a autonomia da posição

A liberdade da posição deve apresentar-se mesmo como uma consequência da alienação. Se pensarmos nos termos marxistas da alienação do trabalho, teremos que o resultado positivo desse fenômeno é o que ele chama de "fetiche" nas relações. Ora, o fetiche é o que, segundo Marx, permite que acreditemos na simples possibilidade imediata da vontade. A mercadoria, enquanto objeto pronto, que passou por todas as relações de produção, autoriza essa espécie de ilusão da não intermediação. O indivíduo é, portanto, uma ilusão proporcionada pela alienação do trabalho, porque ele fetichiza as possibilidades de realização da vontade. Basta que se tenha dinheiro o suficiente para que seus desejos desaguem no gozo.

Não entender o que Marx aponta com isso não é necessariamente liberdade, sejamos claros. Depois da sua longa divagação sobre o capitalismo e o fetiche, não perceber que a mercadoria é um produto de relações sociais em vultosa grandeza demográfica configuraria uma espécie de negacionismo. Mas resta algo disso, ao menos como sentimento: o autoentendimento da vontade enquanto dimensão fática. Por mais que nos entendamos como meros pontos-filtros da história total, a experiência moderna da humanidade apenas iluminou uma condição que é própria dos seres: o seu isolamento ôntico, o seu acabamento "pessoal", a sua forma individual: o principium individuationis, nos termos apolíneos fundamentais.

A vontade, então, mesmo que incorpore uma epifenomenalidade de facto, não é de jurisdição de um "direito administrativo" do cosmo. A noção de gnose, tão extensamente elaborada, não representa um império absoluto da anterioridade, nem constitui um fluxo contínuo de uma geometria imanente, pelo menos não na nova tradição filosófica brasileira. Aliás, cabe aqui certo comentário, algo crítico, sobre Bruno Latour, estimulado por essa noção de tradição brasileira que vislumbro emergir. É compreensível que se deva agradecer ao serviço desse ilustre francês por multiplicar a noção de infraestrutura, expondo-nos toda sorte de forças anteriores e vitais que operam sobre a "constituição da coisa" e, portanto, do sujeito. Em certa medida, ele nos liberta da teleologia — mas não nos liberta da epifenomenalidade: pelo menos até onde conheço de sua obra. Latour joga-nos na posicionalidade acrítica, na epifenomenalidade do caos, e ainda nos condena a um fazer leninista, justo porque não conseguiu, até agora, compreender como fazer para libertar-nos da escatologia catastrófica.

Mas o agradecimento não se encerra com esse comentário desapontado, porque, no fim das contas, ele nos agracia com essa noção complexa de posição. Com seu ideário, ele dificulta justamente a compreensão eficaz dos motivos por que a alienação deve ser combatida. Vejam bem, ele compartilha, em grande medida, do pensamento infraestruturalista de Marx, mas perde de vista a totalidade do entendimento causal da alienação, liberando a alienação da posição para que se ensaie essa espécie de elogio a ela que aqui pretendo fazer. Latour entende o isolamento do indivíduo e, assim, liberta-o para querer em paz. Os meios pelos quais o indivíduo vai realizar a sua vontade ainda são "impossíveis", no sentido de que a teia de relações infraestruturais ainda opera no nível da negociação e, em última instância, da fuga da morte. Mas é bom que entendamos que o sentido das relações é o dos objetivos individuais das vontades. E, à luz do filósofo mais nietzscheano que o Nietzsche, Leon Chestov, a ingenuidade de crer puramente que conseguiremos aquilo que queremos é que constitui o ideal máximo de saúde. Resta saber se esperamos o milagre, se fazemos feitiços ou se cremos na ciência — e na ressurreição e no gozo. 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

De Volta para o Brasil - capítulo 2: o início do supercampeonato

Por volta das 14:30 daquela quinta-feira, Zeca finalmente acorda, depois de 3 dias de "sono picotado": pela fome, pelo cansaço de dormir, pelos estímulos da casa. Na sua décima respiração acordado, os pensamentos sobre os fatos passados na última vigília tomam uma aceleração incontrolável, e seu coração dispara. Havia faltado ao ensaio; teria de haver-se com sua mãe; mas o mais importante de tudo era a necessidade de executar o plano com Gominho. A máquina do tempo existia mesmo; ele não estava delirando. Ou estava? Será que Gominho ainda estava disposto a seguir com o combinado? E a comunicação com Preta por sinais informáticos — ele não podia negar. Olhou o celular e, para alívio de sua paranoia, já havia algumas mensagens de Gominho. "Já acordou? Me avisa. Tenho boas notícias." Em taquicardia, levantou-se da cama meio acabado ainda, atônito, foi para o banheiro, mas nem escovou os dentes, por pura desatenção ao mundo: só pensava naquilo. Ouviu sua mãe falando alto, no quarto, ao telefone. Estava negociando alguma coisa. Entrou no banho, para ver se se acalmava antes de ligar para Gominho, porque o dia de hoje seria definitivo: precisava fazer alguma coisa: qualquer coisa. Pelo basculhante do prisma interno de ventilação, ouviu a conversa da sua mãe, que entrara no banheiro da suíte dela para fazer xixi. A negociação já estava conclusiva.

-- Sim, claro, Tati! Estou super dentro. Vai ser quem mais? Claudinha Leitte, Karol Conká, Jojô e... Quem mesmo? Mas quem é Lumena? Ah... sei. É, sim, pode dizer que eu aceito, sim. E sucesso no seu novo programa! E, ah, claro, obrigado por essa. Ah, Tati! Espera! O cenário vai mudar mesmo, como você disse? Ahn... Entendi. Uma mesinha de centro, mas agora sentaremos... É... Ao redor da mesinha, mas totalmente ao redor? Não vai ter uma câmera frontal? Estão estudando ainda a possibilidade; entendi. É, meio esquisito, mas é isso, né. É o que é! É claro que vai ser um sucesso! Nova temporada do Saia Justa, aqui vamos nós!!! Hahaha! Obrigado, querida. Um beijo. Nos vemos já já, né? Ah, estão esperando por mim no Projac? Ih, 16:30 em Curicica? Hahaha! Nossa, tenho que correr! Deixa eu desligar, então, que eu preciso me arrumar correndo. Obrigado, mais uma vez, Tati. Fico te devendo essa. Nos vemos, beijo. -- deu a descarga.

Então, finalmente ela tinha topado. Precisaria sair de Copacabana até o Projac, e provavelmente pegaria algum engarrafamento. Olhou o Uber, e estava dando cem reais. Caríssimo. Entrou no banho. Viu Zeca pelo basculhante e fez uma cara horrível.

-- Zeca, acelera aí, que eu preciso tomar banho também e quero água quente! O bombeiro só vem semana que vem. Vou ter que ir no Projac, mas na volta a gente conversa.

Zeca saiu do banho e voltou para o quarto. Pega o telefone e manda mensagem para Gominho. "Oi, amigo! Acordei aqui. Passo aí para a gente conversar melhor?" Gominho estava com o celular na mão e respondeu logo. "Vem, sim. Mas já traz dinheiro. Vamos ter que ir a São Paulo. Parece que vai haver uma palestra na USP sobre a máquina do tempo com os cientistas da Califórnia. A conferência começa em dois dias. Já faz logo uma malinha e vem."

Paula sai do banho, se arruma e pede o carro. Com as contas bloqueadas, prefere pagar no dinheiro. A carteira só tinha 70 reais. Vai até o armário, sobe na madeirinha do armário embutido e puxa o cofre. Duas giradas para lá, mais três para cá. Pega uma graninha. Ao lado do bolinho de notas de cem reais, estão os seus último bolinhos de dólares, algumas de suas jóias (umas de família e outras da época em que tinha grana), um monte de coisa e, entre elas, a carta que escrevera junto com Caetano para entregar a Zeca na hora certa, que estava chegando, pelo andar da carruagem. Fecha o cofre, mas não gira as roletinhas e deixa a porta do armário aberta, na pressa.