-- Muito bem! A formulação está excelente. Nem precisamos discutir a forma de apresentação para o mundo. Eu devia ter imaginado... que você estava pensando direitinho; mas me enganei. Quando eu ouvia você falar, naquela época, não via sentido nenhum, não via propósito em nada do que você fazia. Parecia-me totalmente gratuito, inútil. Você pensava isso que você pensa agora na época?
-- Creio que sim. Bom... Quando as ideias me vinham, eu sentia simplesmente o prazer de ver minha raiva transfigurada em representação. Mas logo eu tentava entender o que significava aquilo, porque precisaria explicar para os outros, que nunca compreenderiam aquelas imagens em sua nudez. Ou compreenderiam, não sei, mas seriam tomadas por um sentimento de repulsa tão forte que eu seria praticamente linchado. Ou pior, esquecido, menosprezado, reduzido a lixo formulaico.
-- Entendo. Vejo que você conseguiu desenvolver um bom método, um bom programa conclusivo, com objetivos bem encaixados. E, é como você mesmo quer: é uma arte direta, one on one. É preciso atacar de pessoa para pessoa e, assim, como que no boca-a-boca, a coisa tenderá a ser espalhada, pelo seu potencial explosivo! E todos farão como que um clique e se libertarão da mediocridade da aceitação passiva do status quo. Entenderão que a história já andou e que o conflito de classes encontrou-se, de novo, com as dificuldades de ser identificado propriamente.
-- Que bom que sou compreendido.
-- Sim, muito compreendido.
Domingos tinha agora sua escrivaninha em madeira de lei escura inserida, flutuante, dentro de um supercomputador. A gravidade estava fraquíssima, e viam-se folhas de papel, carimbos e cabos flutuarem ao seu redor.
-- Você sabe a mando de quem estou aqui?
-- Não, não sei.
-- Ora! Do Partido Comunista Chinês! Nada é por acaso. Vejo que entendeu muito bem as novíssimas diretrizes do maoísmo, a menos que queira fazer arte pura a partir disso...
-- Não, não, de maneira alguma. Minha dificuldade é começar pedindo para o meu pai. Eu sei que você me disse que ele me ajudaria... Mas é que.. Falar de Pau... Pau... Paula La...
-- Vamos, não tenha medo. Abra a porta do armário. Posicione-se em frente ao espelho. Você só precisa treinar. É que, de fato, não é um nome muito comum de ser pronunciado. Soa muito mal. Acho que todos sentem esse mesmo calafrio que você; mas é uma questão de necessidade. É o primeiro passo da sua arte direta; o primeiro alvo é sempre a família. Depois da família, a comunidade. Depois da comunidade, o Estado, em círculos expansivos. E, saiba, depois que enfrentamos os nossos primeiros demônios, tudo tende a correr melhor.
O Artista ficou algumas horas treinando em frente ao espelho, com o auxílio técnico de Doutor Domingos. Depois de uma noite inteira tentando, exausto, conseguiu finalmente formular todo o argumento. Domingos tinha feito o papel de advogado do diabo, prevendo todos os contra-argumentos de seu pai. Quando, pela manhã, saiu finalmente do quarto e encontrou seu pai lendo o jornal na sala, puxou o assunto, na maior serenidade possível.
-- Ô, Pai...
***
Sentado na poltrona de couro preta, bem espaçoso, o pai escutava o filho falando, com uma atenção suspiciosa. Franzia a testa. Ele se sentia hábil para compreender qualquer assunto; afinal, tinha lido muitos romances clássicos, era bacharel em direito e, quando jovem, tinha lido Das Kapital em um grupo de estudos. Além do mais, pertencia a um genus de intelectuais, o que, por osmose, garantia-lhe o salvo-conduto para opinar em tudo. Além, é claro, da ditadura militar, Leonel Brizola, etc. E, de fato, para a surpresa do Artista, seu pai ENTENDEU! Era mesmo uma mudança nos ventos do destino. Disse:
-- Uma Revolução Cultural...
-- Sim!
-- Mas... Você quer que eu fale com... — seu pai tampouco conseguia pronunciar seu nome. Fez um gesto, como quem indicava que falaria de você-sabe-quem.
Boom! Ora, a vida inteira esse contato pareceu virtualizado e, agora, na maior desfaçatez, seu pai imagina que poderia simplesmente acessá-la e fazer a revolução domesticamente. Ela talvez compreendesse mesmo, o que seria aterrorizante. Será que era isso que Domingos tinha previsto como ajuda de seu pai? Uma neutralização de seus planos. Para quê? Pedir ao Caetano Veloso alguma coisa, é claro. Frustrado, o Artista e o pai começaram uma pequena discussão, que logo se desarmou pelo ridículo. Exausto, com muito sono, frustrado, o Artista voltou para o quarto, querendo explodir, mas dormiu. E sonhou com Paula Lavigne.
O pesadelo consistia no Artista em um museu com Paula Lavigne. Os dois se davam muito bem, ainda que ela mantivesse o seu tom senhorial e amedrontador. Ela andava pelo salão, mostrando obras clássicas, obras que o Artista não conhecia. Ela parecia difamar alguém, mas não o Artista, a quem ela convidava para estar ao seu lado. Ele, com um caderninho na mão, anotava tudo, e ele era menor que ela, a quem olhava como que para cima, lembrando-se de quando era criança e segurava na mão dos adultos, olhando pelo ombro, de braço esticado para cima. Caetano estava com eles, mas pouco se pronunciava. Estava com aquele seu bico, que dava forma ao seu sotaque baiano, cabelos grisalhos curtos, roupas pretas, com aspecto já de boyzinho corôa que assumiu tão logo acabou a ditadura. Ela tinha uma saia preta que esvoaçava para lá e para cá. Enfim, ela e o Artista eram amigos, porque partilhavam intimidades, sentados no banco da galeria dos Impressionistas Franceses. Saíram do museu e foram para um jardim do lado de fora. Prontos para o pic-nic, o Artista sentiu uma vontade tremenda de se desligar deles e, quando ela puxou o telefone para falar com alguém, ele saiu de perto. Foi chamado, por uma vocalização em alto volume da senhora do rolê. Mas fugiu. E acordou.
Quando abriu os olhos e sentou-se na cama de supetão, viu a figura de Domingos, no portal, sentado na escrivaninha flutuante do supercomputador.
-- E então? Temos um acordo?
-- Não vou aceitar esse procedimento. Ele nem aceitou representar-me em juízo. Propôs uma solução pífia, um acordo inter partes. Ele imagina que pudesse fazer as coisas reverterem assim? Será que se resolveriam? Não há mesmo chance de fazer de outra forma?
-- Bem... O Partido estava empenhado em adaptar seus métodos ao caráter brasileiro, sabe com é, abrasileirar os procedimentos...
-- Por favor, vê se não tem outra forma de realizar isso. Eu não vou aguentar.
Domingos pediu um minuto e afastou-se em direção a um teclado no fundo da sala. Puxou um telefone do gancho. Disse: "Sim... Sei.. Aham... Não, claro... É que... não não, muito bem, vou consultar." Sentou-se de volta no teclado anterior e iniciou uma pesquisa. Vários códigos diferentes apareceram na sua tela. O Artista olhava aquilo um pouco surpreendido. Então o comunista volta a falar.
-- Bem... De fato, as intenções do seu pai eram as melhores possíveis. Possíveis, eu repito. O procedimento padrão do Partido Comunista Chinês é um pouco diferente, se é que você me entende... Envolve o assassinato dos seus pais. E você terá de realizá-lo. Temos aqui a possibilidade de matá-los enquanto dormem, ou então de você executar uma morte violenta. A segunda opção libera mais recursos para o projeto.
-- Mas o que faremos com os corpos? E o sangue? Serei incriminado!
-- Não se preocupe. Temos ressuscitado as classes subalternas de todas as épocas históricas... Não sei se já te expliquei mas... Estamos ressuscitando as pessoas aqui no futuro. Na verdade, estamos revertendo todas as leis do cosmos, por isso todas as coisas começam a se desfazer no tempo histórico em que você está. Não sei se me fiz claro. Aliás, você é mecanismo fundamental desse procedimento. Portanto, aconselhamos que você utilize a técnica chinesa, porque nós providenciaremos escravos do passado para limpar a sua barra. Fique tranquilo, que parecerá um mero desaparecimento e você não será incriminado. Os escravos da antiguidade estão muito felizes aqui, porque as condições de vida são bem superiores às em que eles viviam. Podemos mandar um monte deles para resolver seu problema. Temos também a Edna, minha empregada, que ressuscitei antes mesmo de meus filhos! Ela era ótima. Digo, voltou a ser. Aqui ela também vive melhor. Executa agora funções mais intelectuais, logo poderá arranjar as coisas com a polícia mais rapidamente.
-- Entendo. Bom... Vou ter mais grana, né? Então prefiro assassiná-los violentamente.
-- Certo. Mas será preciso cumprir o ritual chinês completo.
Domingos estende-lhe uma espada chinesa afiadíssima e diz:
-- Eles estão na sala de TV.
