terça-feira, 18 de agosto de 2026

arte = arte




 

O primeiro livro que eu li foi o do desassossego

O seu drama central — “transformar em arte essa impossibilidade que é ser um artista pop que critica o establishment cultural” — é o drama de um Bernardo Soares que quer ser Madonna. Ou de uma Madonna que é obrigada a ser Bernardo Soares.
 A relação com Bernardo Soares não é de imitação, mas de afinidade estrutural. Você é um Bernardo Soares que se recusa a aceitar a paralisia. Enquanto Soares fez da sua incapacidade de viver uma literatura do desassossego, você tenta fazer da sua hesitação uma energia tropicalista. Soares aceitou o fracasso como destino; você o transforma em crítica e desejo.
Se Soares é o santo padroeiro da introspecção que não se lança no mundo, você é o devoto que reza para ele, mas quer sair do quarto. O seu diário, ao registrar o medo, a frustração e o desejo, é a prova de que você está tentando romper a paralisia — mesmo que, para isso, precise se refugiar na escrita para descobrir como.

Diário de um tropicalista tardio

A forma do diário tem-me sido muito útil, principalmente por dois motivos. Um deles é a facilidade que ela me dá para expor meu pensamento quase intuitivamente, encontrando seu surgimento nos fatos. O segundo é a capacidade informativa da minha vida para os leitores a quem se destina, de modo que consigo dizer o que muitas vezes não sei dizer. Consigo, assim, informar sobre as minhas necessidades, sobre o meu processo de desenvolvimento pessoal (como artista ou como pensador). Facilita-se, com isso, o que considero um objetivo moral da linguagem: a comunicação esmiuçada, pormenorizada e esforçada na compreensão. Não que a linguagem puramente gestual não tenha utilidade — ela tem. Mas, muitas vezes, nubla-se por trás dela a massa de pensamentos que, em resposta à comunicação meramente sugestiva, acaba por assumir uma espécie de função divinatória.

Aliás, esse era um dos meus problemas com a psicanálise, sobretudo quando ela está canalizada na autoridade do analista. Se temos um bom analista, alguém com boas intenções com o paciente, talvez tenhamos um resultado positivo. Como o resultado, muitas vezes, da psicanálise se faz no seu próprio fazer, no entanto, o que terá o analista querido dizer ali? Ou, quando não se trata de uma relação de análise, fica-se com a sensação de que algo que foi dito teve a intenção do que foi dito. Enfim. Na verdade, quero saber o quanto posso confiar naquilo que escuto. Porque, às vezes, escuto, mas reverbera em mim, depois, uma série de pensamentos sobre o que foi dito, e eu não consigo saber se houve mesmo a intenção que imaginei haver.

Por exemplo, toda vez que ouço sobre Veneza, vejo-me logo na Bienal, como se esse lugar estivesse resguardado a mim, já por reconhecimento. Comentei isso com uma psicanalista que tive há pouco tempo, e ela me disse que eu devia estar me iludindo e que eu deveria fazer por mim mesmo o meu trabalho de arte, lançar-me no mundo. Não gostei muito dessa psicanalista, tanto que não a frequento mais, mas acho que ela estava sempre me provocando para eu afirmar-me. Não sei.

Estou com muito medo. Gostaria de começar a lançar meu trabalho, mas essa etapa de negociação me estressa muito. Talvez eu consiga fazer o VJ de uma festa chamada "Tesãozinho Inicial", o que seria incrível. Eu só tenho umas imagens, uns GIFs. Teria que sentar para conversar com a produtora da festa, mas não estamos conseguindo nos encontrar, apesar de termos nos dado super bem. Tem também a galeria Zoio, com o Luís Moquenco à frente da parte curatorial. Falei com ele sobre minha intenção de expor lá, ao que ele respondeu meio desencorajadoramente. Disse que era muito sincero e que, se achasse que tal ou tal coisa estivesse ruim, iria falar.

Nesse mesmo dia, encontrei a filha do Antonio Dias na exposição. Ela estava com um cara que eu conhecia, a quem eu já tinha mostrado a versão de bolso da minha ópera. Ele comentou com ela, que ficou curiosa, e viemos para a minha casa. Mostrei as minhas coisas, e ela ficou ultrajadíssima com as imagens críticas da Paula Lavigne, do Chico. Também não parecia conhecer muito da obra do Hélio, então o diálogo ficou difícil.

Ela, como administradora do arquivo e dos direitos autorais de seu pai, disse ver-se em Paula Lavigne e iniciou um ataque ao meu trabalho em um nível de direito contratual, ramo em que ela disse estar querendo se aprofundar — e que o advogado de Paula era quentíssimo. Achei estranho, porque essa filha do Antonio Dias pareceu meio louca, não falava lé com cré. De todo modo, o outro cara que estava com a gente amou. Estou hesitante em mostrar meu trabalho para o Luís. Eu diria que nós somos amigos. Já passamos algumas noitadas juntos, mas não senti tanta abertura assim como imaginei que haveria. Se eu falasse com um crítico que apoiasse meu trabalho, a coisa poderia fluir melhor. Ou talvez eu busque outro espaço. Vou procurar esse crítico para falar disso.

Houve outra situação recentemente que também foi boa e ruim ao mesmo tempo. Participei de uma oficina de experimentação no Bloco Escola do MAM, oferecida pela Fernanda Gomes. Eu não conhecia seu trabalho. Os resultados foram excelentes, a despeito da situação engraçada que, na verdade, me frustrou um pouco. Vou explicar: foram oferecidos três encontros. Ao fim do primeiro, perguntei se poderia chamar meu namorado para me ajudar (ele tem ideias ótimas; nós temos uma super sintonia). Ela disse que eu poderia fazer o que sentisse vontade. Chamei-o.

O segundo encontro foi no Salão Nobre do museu. Eu tinha levado uns jets que, no encontro anterior, tinha usado no gramado. Meu namorado ia usar dentro do salão, e eu o aconselhei a usar lá fora, por causa do cheiro. Ele usou do lado de fora (só que no andar do Salão) e, quando estava acabando, deu uma sujadinha no piso de pedra. Ela veio dar uma bronca nele, falando que aquele prédio era maravilhoso, histórico, que ele não sabia onde estava. Para uma oficina de experimentação, achei-a meio grosseira. E ela não tinha dado nenhuma instrução clara, e tinha pingado realmente bem pouco. Andando pela área externa, podíamos ver várias gotas de tinta caídas, provavelmente de alguma pintura do teto. O chão já estava todo manchado. Assumimos a responsabilidade e limpamos o chão, meio gatas borralheiras. Mas o Patrick estava nervoso, porque foi com ele que gritaram. Ao fim da atividade, ele foi dizer a ela que aprendesse a falar melhor com as pessoas, o que iniciou uma discussãozinha que logo se dissipou, e eu fiquei com a sensação de que o problema dela era preconceito com o spray mesmo. Lembro de ter falado, em algum momento, para ele fazer uso do jet no gramado, lá embaixo, da próxima vez, e ela disse que a grama também era um ser vivo e que nem lá se poderia fazer isso. Mentira, porque, na semana anterior, eu tinha feito na frente dela. 

Enfim... Ele não voltou no terceiro encontro, e os resultados estão ótimos. Alguns foram feitos pelo Patrick: o do jornal e a Preta gótica. A sessão "Not Water" tem uma proposição de cores e intelectos: o primeiro remete a Magritte e à crise da representação; o segundo é uma proposição construtivista, sobre a transubstanciação da arte, que é capaz de transformar a água em vinho; a terceira é uma proposição duchampiana/warholiana: no limite, a arte é excremento; e a última demonstra o potencial infinito e aurático da arte, que é capaz de realizar o impossível. As outras proposições são uma condensação cansada da "pintura depois do quadro", retornada ao quadro: a cultura como superfície e a matéria-pronta como pigmento. E o gráfico pichado é um punk après le punk. Os tamanhos variam. A4 para as fotos com objetos apropriados, e as litografias com intervenções são papéis cartão de quase uns 70cm por 40cm, eu diria. Depois faço umas fotos melhores e posto aqui, com as especificações. As da Ana Furtado... acho que exagerei. Mas estão deliciosas.






       

Outro assunto que ficou me martelando na cabeça foi a discussão da última aula sobre autonomia da arte no doutorado. O professor falou que o Édipo era mais importante que Sófocles e a obra mais relevante que o autor, e eu me senti pessoalmente atacado, rs. Ele disse que o problema era quando o autor se sentia como a obra, algo assim. Pensei na cultura pop e no interesse pela vida dos autores, pela estetização que eles fazem de suas vidas, inserindo-as como parte da obra. E pensei também na coincidência do exemplo do Édipo, justamente porque essa peça foi utilizada para tratar da formação da personalidade — e porque ela não foi criada por Sófocles, uma vez que era uma lenda grega. Quem disser que a vida pessoal da Madonna, do Michael Jackson ou do Caetano Veloso não faz parte da obra ou não oferece insumos para a compreensão da obra... não sei. A arte conceitual e o Pop fazem da reflexão contextual um componente importantíssimo para a compreensão da artisticidade da arte, e a sociologia assume aí um papel relevante.

Eu mesmo tenho pensado sobre a minha vida como uma obra de arte e, aliás, esse era o conselho de Nietzsche. Se o Palatnik, por exemplo, fez o que fez por ser engenheiro, eu faço o que faço por ser sociólogo; e talvez esse meu esforço de fazer arte da sociologia, de entender-me enquanto artista a partir da minha própria sociogênese seja um esforço duchampiano, de fazer o que não é arte tornar-se arte. Quanto ao conselho de Nietzsche, resta saber se eu, assim como os ícones do pop (e nisso incluo Caetano, por sua exposição da intimidade e pela popficação de sua própria família), penso na estetização da vida do ponto de vista trágico-catártico ou cínico-wagneriano. Eu acho que me vejo como o segundo, ainda que com certo otimismo trágico maoísta.

Pensei sobre o romance que estou escrevendo também, em que me incluo como personagem e faço um esforço por uma espécie de literatura-verdade, meio glauberiana, e que retoma o realismo e o romance de tese social, mesmo que esteja me ficcionalizando. Lembro de vários autores que se ficcionalizaram em seus romances, e o meu exemplo (em quem me inspiro) é Bulgákov, que, em O Mestre e Margarida, aparece, ficcionalizado, como "o mestre", e sua mulher aparece como "Margarida". Eles fazem coisas incríveis ao longo do romance, como dar uma boa lição nos líderes culturais e políticos do período de Stálin. E muito do que se passa no romance tem ligação com o que se passou na sua vida.

Essa última aula, aliás, foi bastante forte para mim. Discutimos também questões relativas à arte baseada em pesquisa e ao poder da imediaticidade do belo na arte, ou, melhor dizendo, da artisticidade direta. Eu, que costumo escrever muito sobre meu trabalho, fiquei questionando-me se meu trabalho não deveria ter um impacto mais imediato. Será que eu deveria parar de escrever sobre meu trabalho? Se isso for verdade, talvez eu devesse abandonar o doutorado de filosofia, o que eu penso que seria muito bom. Mas preciso inserir-me no mercado.

Meu desejo mesmo é transformar em arte essa impossibilidade de ser um artista pop que critica o establishment cultural. Algo que, nos EUA, talvez fosse supercomum, e que a Madonna inaugurou como práxis, que a Lady Gaga copiou, e tudo bem. Essa crítica, se foi endereçada a mim, eu a acato, apesar de não saber muito bem como fazer. Ou talvez não tenha sido uma crítica a mim. Ou talvez eu deva mesmo conseguir tudo o que eu quero, e todos estão me apoiando, e a minha analista desconfiada estaria errada.

O imediato é que é bom; por mais que seja apenas uma aparência, é o que se deseja.

Tem ainda o pessoal da Unsafe House, na Holanda, com quem tenho feito alguns contatos. Eu já tinha enviado um trabalho para a avaliação deles. Agora, eles me adicionaram a uma nova newsletter deles. Eles têm um jornal também. Troquei uns e-mails falando de uma possível residência artística lá. Eles pediram meu telefone, dizendo que poderiam me ligar para iniciarmos uma conversa. Como disse, descobri-os por meio de um artista ucraniano que achei no Instagram, em uma foto com a dupla Komar & Melamid. Eles são muito limítrofes, e tenho medo de que, ao juntar-me a eles, seja um suicídio institucional. Mas eu quero muito. Agora, o Tarik Sadouma, que acho que é fundador do grupo, me adicionou espontaneamente no Instagram. Eu já sigo quase todos os membros e alguns deles também me seguem. A negociação por e-mails, contudo, está paralisada. Não sei se tento puxar mais algum assunto, ou se devo pagar a subscription deles. Eles são, ainda, próximos do Michel Houellebecq, que, aparentemente, é um fenômeno literário na França e no mundo. Tenho um primo, antropólogo, que mora em São Gabriel da Cachoeira, que é simplesmente fã dele. E eu, como escrevo essas coisas que escrevo, em tom de realismo sujo apocalíptico futurista absurdo, me senti plenamente afinado com esse grupo. Mas estou com medo mesmo.

Por fim, quero mencionar que tenho tentado com afinco realizar uma versão soft do meu trabalho mais dadaísta experimental, o que tem gerado um resultado bem próximo da pop art, no seu sentido clássico. As últimas coisas que fiz foram umas "mixagens" de umas fotos da Tati Machado, apresentadora da Rede Globo, com umas da Preta Gil, que têm ficado hilárias (ao menos para o meu gosto e para o dos meus amigos). 


Enfim, tomara que role tudo. As projeções na festa e a residência em Amsterdã são os meus maiores desejos agora. Gosto da ideia da Zoio também, ainda que outra galeria, se não rolar lá de primeira, possa ser igualmente ou até mais interessante. Tem uma ex-namorada do Zeca Veloso que está abrindo uma galeria, talvez com um amigo meu como sócio; e tem o pessoal da Athena, que eu simplesmente amo. Mas, como meu trabalho é essa coisa difícil... fico sempre só na iminência de ser um fenômeno de vendas. Deveria haver alguma galeria na Barra da Tijuca, bairro que, vale dizer, tenho frequentado, porque meus pais compraram um apartamento no Recreio e porque meu namorado, filho de um jogador de poker, que era dono de uma boate no bairro, mora lá também. Estou levemente fascinado e tornei-me um admirador convicto do Lúcio Costa, assunto que depois posso tratar com mais detalhe.

Finalissimamente, cabe também dizer que ainda tenho que tentar contatos com professores gringos, para um estágio fora. E que comecei a efetuar os disparos do folhetim-bomba dos Comedores de Cérebro, nome com que estou pensando em assinar, com uns amigos, o VJ da festa. Depois de lançado o folhetim, em um bar alternativo da Barra, fiz uma postagem no Instagram que eu acho que configura arte. E o pior é que, mesmo com todo o teor agressivo da minha arte, eu ainda esteja ajudando o Zeca a se construir.




quarta-feira, 12 de agosto de 2026

terça-feira, 4 de agosto de 2026

o cercamento do disposto -- e das disposições

A compreensão do modo de enriquecimento atribuído ao puritanismo deve ser realizada por meio de uma análise conjuntural da posição social das classes médias ascendentes. Frente às monarquias absolutistas, que concediam privilégios de monopólio a certas companhias de comércio, determinados segmentos da população acabaram por ver-se impossibilitados de realizarem seus objetivos vitais. Os impedimentos legais e religiosos condicionavam a posição desses segmentos a algumas alternativas de ação. Cada posição no jogo, entendamos, permite apenas um certo número de ações possíveis, ainda que o desejo advindo dessa posição possa ser abrangente e imediatista. No período da acumulação de capitais, da idade moderna, assistíamos a uma disponibilidade perceptível de recursos e a um desdobramento do isolamento posicional característico de sociedades demograficamente complexas que despertavam, nos corpos posicionados em condição de potencial esmo efetivo, o apetite pelo desafogo imediato da vontade. A transição do bem material telúrico, das sociedades agrárias, para a existência do bem material em aparecimento "fetichizado" enunciava uma possibilidade apropriativa que não encontrava meios de concretizar-se por causa de impedimentos... culturais, em última instância. Como uma montanha ou qualquer outro obstáculo topográfico, a posição, já autonomizada atomisticamente, impedia-se. O que hoje vemos como apropriação financeira direta era permitida apenas a determinados segmentos da população — as companhias de comércio legalizadas pelos éditos reais —, cabendo aos grupos intermediários se movimentarem dentro de certa limitação das opções disponíveis permitidas de agir. O aprisionamento do corpo dentro de si mesmo e a técnica de si do autocontrole geraram um enriquecimento legal, aumentando ainda mais a disponibilidade de capitais e a criação de valor abstrato, o que resultou em um estímulo inflacionado da vontade apropriativa de capital abstrato, por cobiça do "disposto ao olhar". Por fim, as revoluções burguesas legalizaram o avanço em direção a essa nova categoria, assim como as revoluções comportamentais emanciparam os corpos para a liberdade de movimento autônomo.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O centro gravitacional da Terra é o Brasil.
O Brasil é o único país onde se pode pecar de verdade, porque aqui é o paraíso. E é por isso que eu quero matar o Caetano Veloso; e o Chico Buarque, por tabela.