Ainda que fosse totalmente óbvio, ela nunca chegou a acreditar que seria pega pela Lei Magnitsky. E ela, na verdade, enfiou os pés pelas mãos. Primeiro, recusou-se a pagar a multa. Como consequência, o STF começou a bloquear alguns bens, e ela começou a transferir um monte de dinheiro para fora. Esse movimento, por causa da mídia, acabou sendo percebido pelas autoridades americanas, que bloquearam as operações de Paula e de todas as contas correspondentes. Ao fim e ao cabo, teve de transferir a propriedade de alguns apartamentos na Zona Sul para o grupo de artistas e voltou à labuta, como dantanho. Enquanto o Caetano ainda conseguia fazer uns shows, ela mantinha uma mini pose em alguns salões alternativos na Gávea. Quando ele adoeceu de vez, ela, meio normal — uma mãe —, começou a botar pressão no filho, de quem todos tinham pena.
Mas nada é de uma hora para outra. Ela chegou a ir morar em um imóvel deles que valia muito, para não perder a posse de jeito nenhum, mas veio tiro de todos os lados. De repente, descobriram que toda a família tinha passaportes americanos, o que foi bem pior. No início do processo, eles eram brasileiros. Uma vez que se mostraram americanos, a jurisdição desse país sobre corrupção, sonegação e lavagem de dinheiro — muito mais agressiva — assumiu o B.O. Para uma família que acusava alguém de botar um bigode de Hitler no Chico, os passaportes americanos causavam um desnudamento caetânico. Se a Lei Magnitsky já os tinha exposto na Globonews pelo cômico que era, a descoberta dos passaportes americanos fez dos Comedores de Cérebro o centro de debate.
Ao fim, ela teve de transferir os seus imóveis da Zona Sul aos artistas do grupo, e as suas transações financeiras foram praticamente interrompidas pelas autoridades. A essa altura, o problema tropical ainda era imposto a Zeca por ela. Ele, que queria apenas deslizar por paredes e tchau, era confrontado com um desenvolvimento da coisa toda, repleto de não-me-toques. Conclusão: ele panicava e ia buscar pessoas normais, cada vez mais variadas, provando do ser na casa de muitos tipos humanos dos bairros da cidade. Conforme sua performance foi precisando cumprir realmente a função de arrimo de família, o garoto foi se radicalizando. Foi quando buscou diálogos com a terceira geração — terrorista —
da antropofagia. Ele faltava aos ensaios que sua mãe armava; ela armava pra cima de mim para continuar mais um ciclo econômico: que horror, ele pensava.
Restou a Paula falar no telefone, desenrolando a próxima boa e projetando um futuro maravilhoso para o filho, que ressurgiria com uma complexidade amazônica. A cama do Zeca estava feita, pelo menos, mas as suas movimentações financeiras ficaram meio travadas por coisa de dois a três anos. O apartamento da rua 1, em Nova York, voltou a ser aquele loft abandonado, porque, por mais que pudessem entrar lá com a chave, ela não conseguia mais pagar a conta de luz. A necessidade de vender assumiu a dinâmica das papeladas. Diante de tudo isso, Zeca pediu um favor a uma pessoa, esperando reciprocidade e ação comunicativa.


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