sexta-feira, 3 de abril de 2026

De Volta para o Brasil. Capítulo 1: Coisa Nenhuma

Completamente arruinada, Paula Lavigne negocia com alguns artistas, oferecendo tudo o que pode para conseguir a sua parceria. O artista, depois do encontro, conversa um pouco com seus empresários, e decide que vai buscar uma outra produtora. Ela reclama no almoço, e Zeca escuta, em tom condescendente, como o de seu pai, e ela sai sempre meio furiosa. Depois de literalmente infernizar a vida das pessoas à mesa, ocupa-se de todo o mal. Caetano está moribundo em uma UTI, e Zeca não para de cheirar. Meia hora conversando com a empregada e Zeca diz que vai sair — só volta depois de 5 dias. Ela, entre uma palavra e outra no Iphone, percebe que ele sairia... e não voltaria a tempo para o ensaio. Zeca, de fato, encontra seus amigos da Escola Parque, mas, ao terceiro dia, acaba em um after-hours eterno em um apartamento de umas pessoas quaisquer. 

Mesmo com tudo o que se passa na sua família, não é isso que o aflige. Ele está preocupado é com o tamanho que as proporções tomaram. Aos olhos de hoje, ele pensa, por mais que no Supremo Tribunal Federal esteja garantido que a relação de seus pais não foi nada demais, aquilo de que ele acabou tornando-se produto é algo abominável. Ele identifica momentos específicos em que tudo poderia ter sido diferente. Se houvesse uma máquina do tempo... Talvez eu recomeçasse tudo de um momento em que nada teria como dar errado. É isso que aflige o garoto: ele, desesperado de pó, pensando sem parar, totalmente à parte da ingênua vivência dos presentes, sentado em um sofá de uma sala de estar incompreensível de desconhecidos, em um apartamento esquisito no alto da Rua Viúva Lacerda, no Humaitá, enquanto todos meio que festejavam ao som de uma JBL.

Do nada, como sempre, ele entra numa nóia e decide que precisa imediatamente partir do after. Nem bem se despede do dono da casa, que abre a porta com um jeito meio "então tá bom", e se vê diante de uma portinhola do prédio, com algumas graminhas saindo do rejunte do meio-fio com a calçadinha propriamente dita. Também sem nenhuma razão muito clara, ao descer a ladeira de paralelepípedos, com o sol torando, começa a vasculhar, afoito, seus contatos, em busca de alguém de confiança: faz sinal para um táxi amarelo mesmo, meio afobado, meio mimado (Chevrolet Prisma, ar-condicionado — "toca pro inferno, motorista!"). Liga para Gominho e pede abrigo. Ele, logicamente, oferece a sua casa em plenas 3:30 da tarde de uma terça-feira, e senta-se no sofá, recepcionando a visita inesperada. O menino estava mesmo estranho, mas e daí? Os problemas são os problemas, e todos têm os seus; e ele ainda sente pena do garoto. Depois de tentar expor suas ideias para Gominho, eles entendem, por sugestão do anfitrião, que precisavam buscar alguma forma de comunicação com Preta no outro mundo. Ainda sustentando a conversa, Gominho levanta-se e começa a preparar o ambiente enquanto Zeca observa tagarelando aflito. Santamente calmo no meio dessa conversa, Gominho comenta que, em algum lugar da Califórnia, existe um grupo de cientistas e filósofos que estão desenvolvendo uma máquina do tempo. Segundo ele, por seus saberes tradicionais, o fato dos dois estarem, agora, interessados nisso — e de ter aparecido conteúdo relacionado nos seus celulares — era um sinal de Preta que Zeca tinha percebido na atmosfera do seu tempo. E eles não podiam deixar essa faísca perder-se como um átimo no tempo-espaço.

Sem nem mesmo perceber enquanto Gominho condicionava a sala, os dois já estavam imersos naquela ambience rosa e metálica que dera início ao transe futurístico mais encantador da vida do jovem tropicalista. Sabiam que Preta estava lá, em todos os seus pensamentos, apenas por saberem. Enfim, em meio a algumas sessões de contato futuro-espiritual com Preta, eles conseguem fechar um raciocínio e entendem qual é o único interesse deles enquanto seres humanos habitantes conscientes desse pedaço de rocha flutuante no cosmo: tentar voltar no tempo e desfazer tudo aquilo que criou o garoto: o casamento de seus pais. E eles iriam ajudá-lo nisso, os amigos Preta e Gominho. Era difícil, sim, eles entendiam a gravidade; afinal, ele deixaria de ter sequer existido. Além do fato de que seus pais seguiriam suas vidas nessa realidade paralela e, sabendo de quem se tratava os dois, não sei se teria um jeito para tudo dar certo no final. Realmente... E ele ainda incorporava a própria distopia da tropicália, antes exuberante em Preta Gil, agora assombrando-lhe a carreira.

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