Chegando em casa, Zeca dá-se conta de que sua mãe não está, para seu grande alívio. Deita na cama, toma um Frontal e apaga. Enquanto começa a sonhar algo muito louco -- de que trataremos logo adiante --, sua mãe senta-se no divã da analista. Paula é uma pessoa comum, como sua analista, ambas quase com o mesmo tipo de roupa. A analista que usa óculos, tem os cabelos meio esvoaçantes e usa roupas normais: um conjuntinho de saia e tailleur; e Paula de blusa com uma alcinha curta meio de fru-fru, uma saia preta com uns babados, de linho e algodão, uma bolsa de couro mole preto e óculos escuros, que retira ao entrar. Paula senta-se e fala da sua vida, que anda uma bagunça. Desde que ela havia começado a dar seus vôos mais individuais, parece que tudo deu errado. Desde o adoecimento de Caetano até os problemas na vida com Zeca. Ela reclama que o menino não entende qual é o seu papel na cultura. Ele vê que a família dele é um erro, mas não entende nada. Talvez, algum dia, ele venha a entender o segredo dos pais, mas, por enquanto, ainda ignora.
Paula relata a última discussão que tiveram. Conversavam sobre qualquer coisa, até que o assunto filhos veio à tona. Começaram a falar sobre a sensação de andar a cavalo no interior, e Paula disse que o neto dela corria o risco de nunca andar a cavalo em uma estrada de terra, o que Zeca quase agradeceu ao destino. Ela, indignada, disse que fazia questão de que o neto dela soubesse o que é isso, que era praticamente um aprendizado sobre a sua terra, um contato com o mundo em que vivem, em que viveram os brasileiros todos. Zeca não queria comentar o assunto, dizendo que sua mãe parecia retrógrada. E aquilo tocava nela em algo tão profundo que ela não podia silenciar a respeito, tanto que levou ao divã do analista. Ele estava louco.
Zeca, em casa, começava a sonhar. Não era bem um sonho. Zeca via-se no passado, no aniversário de 40 anos de seu pai. Ele estava com uma arma na mão, pronto para resolver as coisas. Ele via sua mãe, muito nova, quase uma criança, de um lado da festa. Seu pai, zanzando entre os convidados, estava, naquele momento, do outro lado. Paula ia pegar uma bebida (ainda que fosse proibido) e caminhava em direção a Caetano, que avançava pelo salão, em direção a ela, sem saber que fossem trombar. Zeca olha para sua arma, depois para os pais e entende tudo. Era a sua obrigação, era a sua chance, aquilo era o que ele deveria fazer. Então, o garoto posiciona-se atrás de um arbusto decorativo e aponta a arma para a mãe. Põe a mão no bolso e sente um objeto estranho. Retira-o do bolso. Parece ser o seu transportador transtemporal, pela luminosidade e pelo design da coisa.
Subitamente, ele percebe uma movimentação em volta de sua mãe. Homens mascarados, com roupas meio degradadas e altamente futuristas, aproximam-se dela, tapam-lhe a boca e raptam-na abruptamente. No mesmo lance, outro grupo de homens, igualmente mascarados, aparece também subitamente e substitui sua mãe super-nova por outra versão dela, um pouco mais velha, que deveria ter uns 17 anos. Depois, outro grupo vem e substitui a de 17 anos por outra de 17 anos, em um movimento ininterrupto, de sequestro e substituição, até que isso se estabiliza, e Caetano finalmente tromba com Paula. Zeca, exasperado, aponta a arma para sua mãe e efetua o disparo. Então ele acorda, cheio de fome, atravessa a sala para a cozinha -- sua mãe já está lá, vendo TV --, fecha a porta da cozinha e come o almoço preparado por Wanda, a empregada, que ele mesmo esquenta no micro-ondas. Volta a dormir, sob o silêncio reprovativo de sua mãe, que nem move o olhar quando ele passa por trás dela no sofá da sala de TV e acelera o passo para o quarto; e volta a sonhar.

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