que sairei do banheiro com pendências
abstinências
isso todos sabem
não há o que negar
o barulho agudo me levanta
agudo
e eu me iludo
sonolento
sonhador
que eu não vou seguir firme e forte
porque firme e forte é para os fracos
eu acho que vou simplesmente
que tenho que ir simplesmente
porque se for pra ser tough
vai ser ruim
melhor ir assim
indo
na minha ilusão
terça-feira, 11 de novembro de 2008
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Justify your love
Uma história que começa assim deve falar de amor. O amor entre todas as pessoas do mundo, todas as pessoas do mundo conseguem amar, por mais feias que as pessoas sejam. Incomodado desde que saíra de casa, fui caminhando pela rua e observei como todos nós nos dispomos a amar a qualquer custo. Uma mulher, gordinha, mal-vestida, meio paraíba, no telefone parecia estar falando com o amado no telefone e ele estava perto. Ela não sabia onde ele estava, mas estava por perto, e eles tentavam encontrar-se na rua. Até que se encontraram. Ela era feia e ele também. Ela sabia que era feia e ele também. Como sei que sabiam. Bom, ela tentava de todas as formas melhorar o que ela sabia que não melhorava. Cabelo pintado, bijuterias aos montes, calças de marcas bregas, com cortes feios, assim como as camisa, que também tinham estampas horríveis, mas tudo na intenção de melhora - tudo apertadinho, tudo tentando ressaltar nela alguma coisa que ela não tinha e queria ter. E ele, bom, ele sabia e parecia querer confirmar por suas vestes, sem a hipocrisia da amada, vestindo-se do mais normal possível, calça preta e camisa social branca, ele era branquelo, bigode preto, fora de forma, oleoso, estranho. Sabe, ele não era, nem ela, o tipo de gente que você olha e diz que atrai. O amor de pessoas feias não é amor, eu não consigo ver assim, é vontade de amar elevada à enésima potência, em que n é o número máximo que aquela pessoa consegue atingir sem entrar em desespero. Desesperou, amou gente feia. Estou com medo de estar sendo preconceituoso ou na verdade não esteja com essa preocupação - existe também a corrente que diz que isso não é preconceito, é só uma análise do que o sistema injusto nos impõe como verdade. O que importa é que gente feia que se ama não tem amor próprio. A falta extrema que sente em si os impede de querer procurar o amor de verdade, uma pessoa realmente escolhida dentro de todas as possibilidades, e não uma escolha dentro de um campo de possibilidades restrito. Mesmo desesperados, os desejosos de amar são preguiçosos e sem auto-confiança. Não aprimoram-se, não se amam, não buscam o melhor pra si, buscam o que cala, o que parece resolver agora. Gente feia namorando, além de feio, eu acho que não é verdadeiro, é uma forçação de barra forte a que muitos se submetem por praticarem a máxima que diz que é impossível ser feliz sozinho. Mas eu prefiro outra: antes só do que mal acompanhado.
pai e filho
Era mais um causo mal-resolvido, continuação de outros causos mal-resolvidos, que sempre terminavam por tentar se resolver numa conversa, numa exposição de pensamentos, de achismos. Nunca concordaram. O que ocorria era que cada um falava o que achava certo, os dois compreendiam e não concordavam um com o outro, mas achavam por bem fazer que sim com seus semblantes, com os movimentos verticais de cabeça, indo e voltando, tudo para não brigarem mais, para oficializarem um fim de mal-entendido, que se perpetuava. Era na cozinha, um em pé, outro sentado, expondo metáforas, pois o que se conversava era tão intimista que se falassem da verdade, ela pareceria tão pequena... Seria pequena e definitiva: o verdadeiro ponto da discussão era um tema divisor de águas na contemporaneidade. Para que não discordassem, deixavam a verdade, que era simples e pequena, intocada, metaforizada, e assim poderiam compreender e não poderiam discordar. Se dissessem o que era que acontecia realmente, se formariam os partidos, cada um iria para o que pensava e babal, cada um prum lado, cada vida na sua, cada tristeza enorme para cada lado e o pior, desvendariam o que os fazia conversar sobre outras coisas, por estar em suspenso as origens. O mal apercebido, o mal pros olhos abertos, não seria saudável, saberiam dele o tempo todo, palavras doem e marcam, magoam, nada seria como antes, nada poderia voltar a ser como antes, nada jamais poderia ser tentado esquecer novamente. Por isso que enquanto um falava, o outro olhava para o azulejo, cheio de ranhuras, anti-derrapante, geladeira brastemp, começava a desenhar num bloquinho de anotações pro telefone que ficava ali perto. E quando este se calava, o que continuava a falar prolongava-se mais, ia além nas suas metáforas, falava como se tivesse segurando um microfone de ouro, que amasse muito, e falaria tudo o que aquele campo semântico puxava em sua mente para não soltá-lo, coisas que provavelmente ao que ouvia em pé ofendia, mesmo que permanecesse calado. De repente irrompia-se de sei silêncio e esboçava falar algumas coisas, umas confirmações, ponderaçõeszinhas pequenas, que não interferiam no pensamento total de quem falava, porque interromper dava muito trabalho, ir contra, argumentar dava muito trabalho - argumentar poderia trazer a necessidade da verdade à tona, o que arruinaria tudo. O assunto pareceu acabado quando o que falava mais percebeu sua monologuisse. Entediar quando falava de intimismo não era o que se pretendia e, se acontecia, deveria parar, beber seu copo d’água pós-janta e seguir para a sala de TV, assistir à sua novela, clichê, como ele mesmo dizia, enquanto o que ouvia em pé permaneceu na cozinha, sentou numa cadeira lá e continuou um pouco, tomando fôlego para chegar-se junto, na sala de TV, aturar a novela, que falaria das universalidades da forma mais idiotizante do mundo; e iriam se reconhecer, os dois, em um daqueles papéis bobos, irritantes. O sono lhe tomou conta como pretexto inconsciente para levantar-se e rumar para o quarto. Dormir e amanhã era mais um mesmo dia.
Dormiu, acordou com o despertador que, em seu sonho, se confundia com um martelo de tribunal martelando a banca, pipipipipi. Era o despertador mesmo, que o fez levantar, reconhecer o mundo, censurar o sonho, mijar, escovar os dentes em frente ao espelho e sair. Girou a maçaneta enquanto acreditava que as coisas iriam sanar, que as oportunidades para ele não paravam de se abrir, que ele era, era... era o que mesmo? E desceu o elevador pelo qual esperava e não aguentava esperar.
Dormiu, acordou com o despertador que, em seu sonho, se confundia com um martelo de tribunal martelando a banca, pipipipipi. Era o despertador mesmo, que o fez levantar, reconhecer o mundo, censurar o sonho, mijar, escovar os dentes em frente ao espelho e sair. Girou a maçaneta enquanto acreditava que as coisas iriam sanar, que as oportunidades para ele não paravam de se abrir, que ele era, era... era o que mesmo? E desceu o elevador pelo qual esperava e não aguentava esperar.
sábado, 1 de novembro de 2008
dor-teimosia
Saber, saber, saber, saber, saber
saber o que foi aquilo que senti outro dia
que me fez bradar faíscas brutas,
esbravejar tolices, atos-falhos, falei o que não queria
as tais vontades escuras
desconhecidas amargurar
que saíram pelo ar que sai da boca
passando pela traquéia, que vibrarva forte
eu gritava.
Mas foi pedido.
O meu berro de socorro,
ao mesmo tempo em que espantava,
era o berro mascote
era ícone do que eu representava
era a imagem que se tinha de tudo esvaindo
mesmo longe de ser as verdadeiras causas
Então
náuseas
lancinantes olhares perturbadores
desconfortável lembrança sempre presente
meu nódulo
e eu não sei o que é
o que o trouxe para cá
por que fez isso comigo
Não é nada disso
é um erro qualquer na minha vida
no que fizeram com o meu dia-a-dia
se é que não era eu que fazia
Saber, saber, saber, saber, saber
maldita dor-teimosia
saber o que foi aquilo que senti outro dia
que me fez bradar faíscas brutas,
esbravejar tolices, atos-falhos, falei o que não queria
as tais vontades escuras
desconhecidas amargurar
que saíram pelo ar que sai da boca
passando pela traquéia, que vibrarva forte
eu gritava.
Mas foi pedido.
O meu berro de socorro,
ao mesmo tempo em que espantava,
era o berro mascote
era ícone do que eu representava
era a imagem que se tinha de tudo esvaindo
mesmo longe de ser as verdadeiras causas
Então
náuseas
lancinantes olhares perturbadores
desconfortável lembrança sempre presente
meu nódulo
e eu não sei o que é
o que o trouxe para cá
por que fez isso comigo
Não é nada disso
é um erro qualquer na minha vida
no que fizeram com o meu dia-a-dia
se é que não era eu que fazia
Saber, saber, saber, saber, saber
maldita dor-teimosia
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
cinza com azul e rosa claro
A tristeza é gradativa e seu último estágio é a tristeza absoluta: quando não se consegue mais pensar, enumerar, cogitar possíveis motivos para que ela exista, pois tudo o que se figurava como causa dela já não se vislumbra como verdade. A tristeza, em seu ápice, onde estou, é a pura tristeza, somente ela, envolta nela, ruminante por ser ela, incompreensível, estanque. É nesse momento que eu abdico da poesia, que sempre me ajudou no livre pensamento, nas divagações, nas acertivas, nas conclusões. É na poesia que eu vejo mais fácil. Mas a prosa é quem me faz continuar, me faz discorrer. Somente na prosa acho que poderei expressar a grandeza e a continuidade etérea desse sentimento tão claro agora pra mim. Eu sou a tristeza como pessoa, já não choro mais, já não espero mais, já não mudo mais nada nem procuro nada para mim. Os tempos de lágrimas passaram e eu estou no ponto, no ponto de um suicídio que não virá porque não quero. É o ponto de encontro entre as impossibilidades e a realidade, um par perfeito para a propagação desse mal em mim. Minha cabeça não lateja, meus fluxos sanguíneos encontraram aonde parar e coagularam-me sorumbático. Não há droga no mundo mais depressora, me sinto minguado, muito mais que um bêbado. Mais que incompreensão, já passei dessa fase, mais que choro desesperado, mais que esperança em processo de corrosão. Sou tristeza e ponto.
acho que matei o amor
Me redimir é o que está em questão
e não sei nem se estou errado
nem se o antagonismo entre meus argumentos
e meus sentimentos
expressam a essência da minha miséria
Miséria minha
mais do que de quem me criou
mas o que eu quero é não me redimir
não é nem ter certeza de nada
Sem a confiança de ninguém
sem o diálogo
sem a ajuda necessária dos meus entes até-agora-não-sei-se-queridos
Minha pungência é verve gratuita
mas só é gratuita sob o referencial do momento
acúmulo de vida é que me fez gritar
acúmulo de discrepâncias me fez confundir
Vocês me fizeram confundir os meus erros
com os seus
as minhas mágoas com as suas incertezas
com as suas esperanças
e a minha esperança secou
junto com as lágrimas
e com o desejo de ficar tudo bem entre nós
me tornei perdido
que mesmo se eu tivesse o tão humilde libertador javitudo na Glória
morando sozinho, meu espacinho,
ainda seria tão infeliz
quanto sendo posseiro do meu quarto
com direito a idas e vindas da cozinha e da sala de televisão
Não quero formar meu próprio espetáculo
nem fazer parte do seu
quem dera se eu pudesse matar deus em tempos de sua tão clara ressurreição
quem dera se o dia raiasse e meus hormônios fervilhassem
por todo o meu corpo
em um felicidade inquestionável
quem dera se eu fosse uma estrela, de um sistema em que não tivesse vida inteligente
sem nenhum espectador
e não sei nem se estou errado
nem se o antagonismo entre meus argumentos
e meus sentimentos
expressam a essência da minha miséria
Miséria minha
mais do que de quem me criou
mas o que eu quero é não me redimir
não é nem ter certeza de nada
Sem a confiança de ninguém
sem o diálogo
sem a ajuda necessária dos meus entes até-agora-não-sei-se-queridos
Minha pungência é verve gratuita
mas só é gratuita sob o referencial do momento
acúmulo de vida é que me fez gritar
acúmulo de discrepâncias me fez confundir
Vocês me fizeram confundir os meus erros
com os seus
as minhas mágoas com as suas incertezas
com as suas esperanças
e a minha esperança secou
junto com as lágrimas
e com o desejo de ficar tudo bem entre nós
me tornei perdido
que mesmo se eu tivesse o tão humilde libertador javitudo na Glória
morando sozinho, meu espacinho,
ainda seria tão infeliz
quanto sendo posseiro do meu quarto
com direito a idas e vindas da cozinha e da sala de televisão
Não quero formar meu próprio espetáculo
nem fazer parte do seu
quem dera se eu pudesse matar deus em tempos de sua tão clara ressurreição
quem dera se o dia raiasse e meus hormônios fervilhassem
por todo o meu corpo
em um felicidade inquestionável
quem dera se eu fosse uma estrela, de um sistema em que não tivesse vida inteligente
sem nenhum espectador
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