domingo, 28 de abril de 2024

materialismo abraâmico

 Mas, então, aprendemos. "Finalmente!" Ah, sim! É isso o que fazemos, aprendemos -- e não é? Mas e por que aprendemos? Porque -- queremos. Queremos, portanto. Então aprendemos, finalmente aprendemos que aprendemos e o fazemos porque queremos. De tal maneira isso se dá que, talvez, seja irrelevante o que aprendemos, uma vez que o objeto de nossa apreensão é condicionado pela nossa vontade. Nosso animal faminto come tudo em linha reta, para nutrir-se bem! Ad infinitum! E, se é assim, o céu é o limite! O céu, aquele céu, que toda a nossa tradição religiosa identificou como a origem do absoluto, acaba retornando às nossas divagações epistemológicas de modo reverso: pela força do nosso estômago, transformamos a necessidade no infinito. E fizemos isso por causa da nossa necessidade de infinito. Toco um objeto e percebo seu limite e me submeto a ele, mas lhe desejo diferente, então o transformo -- até que a morte nos separe. Então toco a morte... e a ultrapasso: logo... desfaz-se o objeto, na sua acepção... necessária? A morte, então, é o símbolo da metafísica da permanência, da metafísica como estrutura. E a vida? A vida deverá significar uma outra -- metafísica: esta, abraâmica, que toma de empréstimo a possibilidade plástica do voluntarismo de deus. Deus, este, que está morto, mas que, ao morrer, deixou, para nós, sua nova visão de mundo. Contra a metafísica do impossível, herdamos uma metafísica abraâmica, porém aplicada ao realismo. E, assim, fez-se revelar, pela obsevação interessada, o novo materialismo, contraposto ao materialismo da necessidade: o materialismo abraâmico.

segunda-feira, 8 de abril de 2024

o sentido fisiológico da geografia

Pensar a geografia como um condicionante do comportamento, da maneira que fizeram Braudel e os seus antecessores da Escola dos Anais, continua sendo necessário. Parece inegável que, no transcurso do tempo, os povos se vejam tolhidos ou estimulados, por esse ou aquele impedimento natural, ou facilitador. As contingências que a natureza local exibe despertam nos sujeitos as suas reações de ganho, de acomodação. Mas o que se passa, dentro deles, para que tal ou tal impedimento signifique a sua ação? É nesse sentido que se torna necessário observar a geografia pelo prisma fisiológico: para entender o despertar, no sujeito, das reações a ela associadas. Subsidiariamente, esse desvelamento será útil para a compreensão do que constituiria, em fundamento, a cultura para os povos -- porque, assim, perceberemos que a cultura funciona geograficamente para a fisiologia.

segunda-feira, 1 de abril de 2024

significante servil

Pouco se vê, na prática, a diferença entre alguém livre e alguém que não é. Esconder a escravidão é o primeiro desejo do escravo, porque quer, ao menos, imaginar-se livre. Quem é escravo é sempre escravo de alguém, ainda que essa condição esteja abrigada pela estrutura do sistema. A escravidão se aprende ao longo da vida, ela aparenta ser uma escolha moral, mas é uma conscrição. Todos nós somos determinados pelos nossos inconscientes a realizar ações que imaginamos ser conscientes. Sob o véu da ética, acabamos vassalos; e, de vassalos para escravos, a distância é curta. Vassalos são escravos, e escravos deixam de ser escravos para serem vassalos, no máximo, porque o perigo de viver sem nenhuma proteção no mundo constrange os sujeitos livres em direito a buscar um apoio. E, como a propriedade é sempre privada, pelo menos até agora tem sido assim, dependemos da proteção, mesmo que quase no intangível, de alguém. Uma espécie de corporação substitui a corrente, e adotamos certa conduta moral ou outra por puro apreço ao modo de organização em que nascemos. Quebrar isso é muito difícil, e os perigos da vida mostram-nos bem. Os seres livres somente o são, porque também desprezam a proteção, então não se importam em pilhar. E, assim como um assaltante pode roubar uma pobre senhora trabalhadora, que pouco tem a oferecer, os escravos da mentalidade senhorial também sofrem os reveses de um retorno para casa em uma rua mal-iluminada, de serem afanados com sutileza, nesse mundo em que a liberdade e a servidão se misturam aos olhos não treinados. A servidão pode criar pessoas bem cuidadas em aparência, mas servas.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

terça-feira, 23 de junho de 2020

quinto experimento do escrever livre

Um estranho compromisso com a automutilação, com o autoempobrecimento,
um enaltecimento da falta de cálculo, até mesmo nas questões puramente econômicas,
como as finanças pessoais.
Com uma valorização pronta da auto-honorificação, o desfrute do dinheiro torna-se um agora,
como se não o fosse ver nunca mais.
Existe uma incapacidade de poupar em quem odeia o capitalismo,
e eu não sei dizer quem vem primeiro, o ovo ou a galinha.
A verdade é que, paralelamente à tendência da pauperização e da desapropriação constante,
se manifesta um estranho impulso imediatista da vida, de autoemulação,
que não consegue controlar-se e domesticar-se;
e essa pauperização, como uma profecia autorrealizável,
apenas se cofirma.
Logicamente, a única forma possível de superar tal situação é um planejamento total, disso eu tenho certeza.
Não se podem culpar os astros e os homens por seus movimentos involuntários...
Um imprevidente de classe média que transfere seu ódio de classe aos seus filhos, por imprevidência financeira, apenas confirma as teses mais ortodoxas e sofre e inveja: um pai.
Um ex senhor de algum lugar, algum ex notável de algum rincão, deixa seus filhos desapropriados e adentra o mundo da urbanização apenas com a sua honra, sustentado por uma religiosidade nova, moderna: um bisavô.
Somos herdeiros de uma mistura: de um mito, por um lado, de que constituir família é uma condição natural, com a deserança, por outro lado, da impáfia de um progenitor sequioso de gozo, que desfrutou em seu e nosso malefício: somos, por isso, ensinados a desgostar do mundo, que nos empobrece, empobrecendo-nos; e isso, uma vez realizado o vaticínio, é mesmo a nossa única verdade a perseguir, o fatalismo --
a menos que queiramos desistir e aceitar o fim da vida sem frutos a colher,
ou que queiramos reverter o destino de uma obrigação valente - a luta -, carregando um ressentimento com o pai errado, com a família errada, com a não escolha de ter nascido.

sábado, 2 de maio de 2020

o Brasil como cultura e como política

As sucessivas retomadas da prática da Revolução de Avis, como Faoro classificou o processo de renovações pontuais e recorrentes do estamento burocrático em Portugal e, depois, no Brasil, acabaram impondo, ao longo da história, um sentido específico ao tipo de educação cívica que os candidatos à governança deveriam perseguir. A sempre renovada defesa do poder reinol, em seu pacto sucessivo com classes mais abaixo daquelas que o rei havia feito ascender na última "retomada de Avis", transfigurava-se, por assim dizer, progressivamente, para uma lapidação mais profunda dos ideais de boa-governança, se quisermos, aristotélica. Em aparência, o governo de Lisboa, do Rei, aprimorava o seu cuidado com o terceiro estado, até mesmo recrutando-o para o estamento, e criava um ideal de letramento de bacharelismo do tipo, digamos, "puro" -- um bacharelismo de elaboração da função do Estado propriamente dita. Na prática, esse novo ideal servia como uma capa que envolvia os súditos mais uma vez sob custódia do rei, calando-os, silenciando-os -- cada vez menos pela força, de cujo uso não se abria mão, e cada vez mais pela retórica nacional e popular, que tornava indizíveis determinadas críticas de cunho mais regionalista, centrifugista, das nobrezas da terra. Essa força do centro e do cetro era tão forte, e suas estruturas administrativas e políticas eram tão bem construídas, que, mesmo as chamadas forças centrífugas da composição do mando acabavam tendo de se virar ao centro para conseguirem o que necessitassem. E, como, para virar-se para o centro, uma mudança de oratória tinha de ser operacionalizada, a prática "separatista", o liberalismo radical, ou mesmo os anseios autonomistas tiveram de ser tresvalorados ao longo da história, até que se chegassem as suas necessidades políticas ao nível do legitimável do ponto de vista do centro -- um ponto de vista terceiro estadista, bonapartista, bragantino.

Estratégia de setores das elites autonomistas, o bacharelismo liberal do império, como transição para o republicanismo, que desembocará no aliancismo liberal, foi ainda um artifício emoliente de uma engrenagem que buscava hibridizar a própria cultura nacional, que já se desenhava, com os mandos e desmandos do nosso bragança particular e moderador, maquinagem que acabava fortalecendo o Estado burocrático centralizado e a unidade do território. A partir da proclamação da república, essa própria engrenagem passaria a se retroalimentar melhor, e mesmo as lideranças regionais passaram a articular esse ideal de governança, forjado, lá atrás, pelos desígnios dos Reis portugueses, para se legitimarem enquanto classe político-burocrática. De um centrufugismo regionalista, esboçou-se uma reação de caráter centralizador democrático, justamente para que se pudesse levar a cabo o bonapartista caráter do pacto Rei-terceiro estado, herança dos Avis, prática dos Bragança. Porque já se havia consolidado o bem-comum brasileiro no corpus da burocracia, ou melhor, porque o argumento do bem comum já havia penetrado o repertório filosófico da legitimação política, ao longo das gerações, mesmo que falseado por sofística, encharcando a cultura cívica e política brasileira dessa imagem bonômica de "suseranagem" do povo, surgiu esse estranho movimento varguista, de um pacto que carregava, paradoxalmente, o liberalismo em seu nome (a Aliança Liberal da Revolução de 30). E só assim se poderiam, à Bourdieu, distinguir, ambivalentemente, agora eles também, esses ex-federalistas, enquanto governantes: por um pacto in abstracto (o de sempre), com o sempre existente terceiro estado.