Mas, então, aprendemos. "Finalmente!" Ah, sim! É isso o que fazemos, aprendemos -- e não é? Mas e por que aprendemos? Porque -- queremos. Queremos, portanto. Então aprendemos, finalmente aprendemos que aprendemos e o fazemos porque queremos. De tal maneira isso se dá que, talvez, seja irrelevante o que aprendemos, uma vez que o objeto de nossa apreensão é condicionado pela nossa vontade. Nosso animal faminto come tudo em linha reta, para nutrir-se bem! Ad infinitum! E, se é assim, o céu é o limite! O céu, aquele céu, que toda a nossa tradição religiosa identificou como a origem do absoluto, acaba retornando às nossas divagações epistemológicas de modo reverso: pela força do nosso estômago, transformamos a necessidade no infinito. E fizemos isso por causa da nossa necessidade de infinito. Toco um objeto e percebo seu limite e me submeto a ele, mas lhe desejo diferente, então o transformo -- até que a morte nos separe. Então toco a morte... e a ultrapasso: logo... desfaz-se o objeto, na sua acepção... necessária? A morte, então, é o símbolo da metafísica da permanência, da metafísica como estrutura. E a vida? A vida deverá significar uma outra -- metafísica: esta, abraâmica, que toma de empréstimo a possibilidade plástica do voluntarismo de deus. Deus, este, que está morto, mas que, ao morrer, deixou, para nós, sua nova visão de mundo. Contra a metafísica do impossível, herdamos uma metafísica abraâmica, porém aplicada ao realismo. E, assim, fez-se revelar, pela obsevação interessada, o novo materialismo, contraposto ao materialismo da necessidade: o materialismo abraâmico.
domingo, 28 de abril de 2024
segunda-feira, 8 de abril de 2024
o sentido fisiológico da geografia
Pensar a geografia como um condicionante do comportamento, da maneira que fizeram Braudel e os seus antecessores da Escola dos Anais, continua sendo necessário. Parece inegável que, no transcurso do tempo, os povos se vejam tolhidos ou estimulados, por esse ou aquele impedimento natural, ou facilitador. As contingências que a natureza local exibe despertam nos sujeitos as suas reações de ganho, de acomodação. Mas o que se passa, dentro deles, para que tal ou tal impedimento signifique a sua ação? É nesse sentido que se torna necessário observar a geografia pelo prisma fisiológico: para entender o despertar, no sujeito, das reações a ela associadas. Subsidiariamente, esse desvelamento será útil para a compreensão do que constituiria, em fundamento, a cultura para os povos -- porque, assim, perceberemos que a cultura funciona geograficamente para a fisiologia.
segunda-feira, 1 de abril de 2024
significante servil
segunda-feira, 24 de agosto de 2020
terça-feira, 23 de junho de 2020
quinto experimento do escrever livre
um enaltecimento da falta de cálculo, até mesmo nas questões puramente econômicas,
como as finanças pessoais.
Com uma valorização pronta da auto-honorificação, o desfrute do dinheiro torna-se um agora,
como se não o fosse ver nunca mais.
Existe uma incapacidade de poupar em quem odeia o capitalismo,
e eu não sei dizer quem vem primeiro, o ovo ou a galinha.
A verdade é que, paralelamente à tendência da pauperização e da desapropriação constante,
se manifesta um estranho impulso imediatista da vida, de autoemulação,
que não consegue controlar-se e domesticar-se;
e essa pauperização, como uma profecia autorrealizável,
apenas se cofirma.
Logicamente, a única forma possível de superar tal situação é um planejamento total, disso eu tenho certeza.
Não se podem culpar os astros e os homens por seus movimentos involuntários...
Um imprevidente de classe média que transfere seu ódio de classe aos seus filhos, por imprevidência financeira, apenas confirma as teses mais ortodoxas e sofre e inveja: um pai.
Um ex senhor de algum lugar, algum ex notável de algum rincão, deixa seus filhos desapropriados e adentra o mundo da urbanização apenas com a sua honra, sustentado por uma religiosidade nova, moderna: um bisavô.
Somos herdeiros de uma mistura: de um mito, por um lado, de que constituir família é uma condição natural, com a deserança, por outro lado, da impáfia de um progenitor sequioso de gozo, que desfrutou em seu e nosso malefício: somos, por isso, ensinados a desgostar do mundo, que nos empobrece, empobrecendo-nos; e isso, uma vez realizado o vaticínio, é mesmo a nossa única verdade a perseguir, o fatalismo --
a menos que queiramos desistir e aceitar o fim da vida sem frutos a colher,
ou que queiramos reverter o destino de uma obrigação valente - a luta -, carregando um ressentimento com o pai errado, com a família errada, com a não escolha de ter nascido.
quarta-feira, 6 de maio de 2020
sábado, 2 de maio de 2020
o Brasil como cultura e como política
Estratégia de setores das elites autonomistas, o bacharelismo liberal do império, como transição para o republicanismo, que desembocará no aliancismo liberal, foi ainda um artifício emoliente de uma engrenagem que buscava hibridizar a própria cultura nacional, que já se desenhava, com os mandos e desmandos do nosso bragança particular e moderador, maquinagem que acabava fortalecendo o Estado burocrático centralizado e a unidade do território. A partir da proclamação da república, essa própria engrenagem passaria a se retroalimentar melhor, e mesmo as lideranças regionais passaram a articular esse ideal de governança, forjado, lá atrás, pelos desígnios dos Reis portugueses, para se legitimarem enquanto classe político-burocrática. De um centrufugismo regionalista, esboçou-se uma reação de caráter centralizador democrático, justamente para que se pudesse levar a cabo o bonapartista caráter do pacto Rei-terceiro estado, herança dos Avis, prática dos Bragança. Porque já se havia consolidado o bem-comum brasileiro no corpus da burocracia, ou melhor, porque o argumento do bem comum já havia penetrado o repertório filosófico da legitimação política, ao longo das gerações, mesmo que falseado por sofística, encharcando a cultura cívica e política brasileira dessa imagem bonômica de "suseranagem" do povo, surgiu esse estranho movimento varguista, de um pacto que carregava, paradoxalmente, o liberalismo em seu nome (a Aliança Liberal da Revolução de 30). E só assim se poderiam, à Bourdieu, distinguir, ambivalentemente, agora eles também, esses ex-federalistas, enquanto governantes: por um pacto in abstracto (o de sempre), com o sempre existente terceiro estado.
