sob o julgo indiscriminado
do seu trabalho, da sua vida, do seu estado,
anunciam sumariamente o motivo da sua ausência
ao que para eles correto é considerado.
Mas que displiscência,
que baita incongruência!
Não se importam em ver um avexado
e ainda se sentem os reis da prudência.
quinta-feira, 31 de julho de 2008
socializando
Envolto em um bolsão de miséria,
tristeza humana, ruminante e etérea,
martirizo-me e em atos-falhos me congelo;
me retiro a pensar sem pensar o que quero.
Petulante, enxerido e mal-amado,
irritante, esbaforido e engraçado,
em perfeita arritmia com meu leito,
falo, calo, rio, perco o jeito.
Massacrado por viver todos os dias
meus castigos - o que o povo faz com galhardia -
seco a lágrima julgada hipocrisia,
recomeço e recomendo aleivosia.
tristeza humana, ruminante e etérea,
martirizo-me e em atos-falhos me congelo;
me retiro a pensar sem pensar o que quero.
Petulante, enxerido e mal-amado,
irritante, esbaforido e engraçado,
em perfeita arritmia com meu leito,
falo, calo, rio, perco o jeito.
Massacrado por viver todos os dias
meus castigos - o que o povo faz com galhardia -
seco a lágrima julgada hipocrisia,
recomeço e recomendo aleivosia.
quarta-feira, 30 de julho de 2008
Entre a cruz e caldeirinha
Crucificado entre as esbórnias
e o ativismo,
me sinto tenso num estreito istmo,
inerte, escapulido às possíveis glórias.
Não faço nada que seja de meu grado,
nem do que me ponho como dever.
Sou como um gordo porco auto-encurralado
que não se consola e volta a comer.
e o ativismo,
me sinto tenso num estreito istmo,
inerte, escapulido às possíveis glórias.
Não faço nada que seja de meu grado,
nem do que me ponho como dever.
Sou como um gordo porco auto-encurralado
que não se consola e volta a comer.
terça-feira, 29 de julho de 2008
Vida profissional
Ele saía do colégio onde dava aula, onde dava aula que nem um corno, diga-se de passagem, trabalhava muito, corrigia milhões de coisas, era professor das maiores turmas e sentia-se explorado, extremamente explorado. Era para ele ter sido um grande engenheiro, um grande alguma coisa, ele era muito inteligente, ele mesmo sabia disso, sabia do seu potencial, mas resolveu fazer o que achava legal de se fazer da vida: achou realmente que alcançaria a consagração como um escritor. Balela. Se tornou um professor de ensino médio, daqueles que não gosta do que faz, que se sente mal por ser um professor do ensino médio, que não gosta do ambiente 'escola', pois lá os preconceitos se acentuam, pois os alunos são mesmo impiedosos com ele, uns com os outros, o colégio era algo que nunca tinha gostado tanto assim, mas, a vida deu voltas e voltas e voltas e ele nunca saiu do colégio. Sempre foi sozinho no colégio, até agora, quando professor. Apesar de ter constituído família, um filho muito bonito, por sinal, apesar de não ser mais aquele cara imageticamente sozinho - tinha filhos, mulher e não precisava dar satisfações a ninguém e seria razoável se ele se comportasse estranho no ambiente de trabalho, se se isolasse, pois ele tinha família, chegaria em casa e teria seu domínio e os outros não o maldiziam, ou o maldiziam a um nível não desmoralizador. E no momento em que saía, cruzou com as suas chefes: a professora de literatura e a professora de português. As duas, as duas eram coordenadoras, uma de literatura, outra de português. As duas, as duas mandavam nele, pois ele dava aulas de português e de literatura. Ora, mas que burrice do colégio, duas coordenadoras, ganhando mais e um só professor ganhando menos. Era uma dupla exploração, uma hierarquia que nenhum lugar estava acostumado a ver, duas pessoas mandando em uma. Estavam lá as duas, a de literatura fumando o seu cigarro, bem vestida, rindo com a de português, muito bem vestida. Ele passou, mal vestido, as cumprimentou rapidamente, não queria ficar olhando para elas muito tempo, elas também não lhe davam brecha para continuar ali olhando ou falando, ou ele não sentia essa brecha. Seguiu seu caminho, nutrindo o ódio que sentia por elas, a inveja que sentia delas, a vontade puramente capitalista de estar ganhando mais e de não estar menosprezado hierarquicamente. Andou mais pela rua até onde seu carro estava estacionado, girou a chave na porta, abriu-a e sentou, segurando no volante, onde ficou por uns 2 minutos olhando para frente e pensando, pensando no que fazia da sua vida, no que escreveria sobre isso, no valor que a sua escrita tinha, se deveria continuar acreditando em ser poeta. Ligou o carro e rumou ansiosamente para casa, para seu território, ver seu filho e acariciá-lo, como quem acaricia um animal de estimação muito amado, brincar com ele, conversar com a mulher sobre muitos problemas de correçaõ de prova, nunca sobre sentir-se menor que aquelas duas filhas da puta. Elas não eram nada demais, elas não sabiam tanto quanto ele, que era poeta, literato, profundo conhecedor de filosofia, artes, história, com QI acima da média. Por que razões ele era tido como menor, pensava ele inquietantemente enquanto via o balbuciar de sua mulher que falava sobre seu dia de trabalho e ele respondia no automático. Deitou, dormiu e acordou no dia seguinte, para trabalhar, onde viu a professora de literatura fumando o seu cigarro antes de entrar, essa desgraçada ainda fuma que nem uma corna, cumprimentou com o mesmo ódio sufocado de sempre, e seguiu portão adentro motivado por um enorme suspiro.
segunda-feira, 28 de julho de 2008
uma história sobre uma possibilidade no vácuo
Sem saber direito o que fazia da vida insossa que ia levando, sem gostar nada desssa mesma vida, se desesperançou, via a morte tão próxima, parecia que já tinha vivido tudo e parecia que tudo já havia terminado. Ficou um bom tempo assim, nesse vácuo, nessa uma quase não vida, até que começou a pensar em tudo. Procurou livros e mais livros e mais livros, que os folheava, lia suas primeiras vinte ou trinta ou quarenta páginas, parecia sempre ter sabido daquilo e aquelas pessoas falavam o que ele queria ter dito. Começou a falar sobre os livros e só falava sobre os livros, até que esses livros começaram a falar de tudo. Falaram de todas as coisas que relacionavam-se com ele, com o seu vácuo. Pensou mais e pouco falava, nem falava sobre os livros, pois os livros falavam sobre ele agora. E falar sobre ele era falar sobre o vácuo, era mostrar o seu vácuo por dentro daquela posição ocupada nas suas relações. O vácuo era muito doido, havia milhares de possibilidades, milhares e milhares de possibilidades, todas dentro de um campo que era o padrão de possibilidades: isso era o que o deixava no vácuo, tudo o que tinha determinado essas tantas e tantas possibilidades. Ele queria voltar a viver, sair dessa realidade de vácuo determinado e passar a ser coisa novamente. Queria poder falar sobre coisas e não ser obrigado a falar sobre vácuo, mas como fazer? Dava trabalho. E, dizem a más línguas, continua só falando de vácuo, apesar de confessadamente não querer e militar fervorosamente pelo fim do vácuo e de suas possibilidades em esfera global.
domingo, 27 de julho de 2008
Retrospectiva Psicológica
- Outros humanos,
agindo perversos e insanos,
que me fizeram cometer o ledo engano,
de querer me juntar a vocês!
Em menos de um ano,
pensava tanto, mas tanto,
que uma vez caminhando,
afirmou-se Nietzscheano de vez.
E o tempo passava,
e nada ele aproveitava,
de dia dormia, de noite acordava,
até que foi pedir ajuda.
Era Freud quem procurava,
que em suas idéias se materializava,
que com seu método, diziam, salvava.
Mas será mesmo que alguma coisa muda?
Ele se prometia.
agindo perversos e insanos,
que me fizeram cometer o ledo engano,
de querer me juntar a vocês!
Em menos de um ano,
pensava tanto, mas tanto,
que uma vez caminhando,
afirmou-se Nietzscheano de vez.
E o tempo passava,
e nada ele aproveitava,
de dia dormia, de noite acordava,
até que foi pedir ajuda.
Era Freud quem procurava,
que em suas idéias se materializava,
que com seu método, diziam, salvava.
Mas será mesmo que alguma coisa muda?
Ele se prometia.
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