Torna-se fundamental, então, explicar as raízes econômicas do sucedido desde a formação do Estado Novo até a criação da UDN e a realização do golpe civil-militar de 64. Não se esqueça o nome de Revolução dado pelos seus idealizadores, muito menos a sua origem política. Por que seriam eles revolucionários? Muito bem: como bons sociólogos, ingenuamente reivindicavam para si o poder político com interesse de redistribuir para os setores médios um dado poder econômico que desses setores teria sido furtado. Mas não teria sido o mesmo motivo aquele que inspirou a Revolução de 30? Eu diria que sim: sublimada a inveja para o nome de "bem-comum brasileiro", as elites dissidentes que teriam se organizado em volta de Vargas buscariam a redistribuição de um excedente gerado pelo café paulista. Não digo que elas se tratassem de setores pobres, mas de setores empobrecidos, em decadência. Talvez não seja muito indigno dizer que as elites que fundaram a moderna tradição brasileira invejassem a crescente burguesia paulista. A maturação desse sentimento, por experimentarem a decadência de seu patrimônio diante de atividades econômicas já pouco lucrativas ao longo de toda a Primeira República (talvez desde 1808...), se converteu em um ideário de bem comum brasileiro -- e em pura cultura brasileira. Pois bem: redistribuir-se-ia o excedente paulista por toda extensão do território brasileiro; e ainda se criaria uma classe média urbana, brasileira, até então ínfima e pouco expressiva politicamente. Pronto: esse setor médio, ele também invejoso ao fim do primeiro Varguismo, se organizaria em torno dos líderes dissidentes do próprio regime de Vargas (Dutra e Góis Monteiro), para realizar a nova Revolução Brasileira. Surgiu no sentimento de inveja das classes médias brasileiras em relação às elites oligárquicas que se beneficiaram do Varguismo o apoio político -- e no revanchismo paulista o embasamento econômico. A Revolução de 30 capitalizou-se dos setores médios com apoio econômico das elites dissidentes. 1964 seria um movimento análogo, de capitalização políticas nos setores médios ressentidos com o isolamento do poder na era Vargas, mas com apoio econômico da elite paulista: e, assim, criou-se uma nova cultura brasileira. Fiat Lux -- e faça-se a Rede Globo. Resta ainda saber melhor as raízes do ressentimento médio com o politburo varguista, e para isso será preciso analisar melhor a constituição da classe média brasileiro no sentido da genealogia demográfica: método que provavelmente reconhecerá nos setores médios urbanos os primos pobres das oligarquias dissidentes de 30. E como conseguiriam as classes médias, apoiadas pela burguesia paulista agora -- portanto impedidas de expropriá-la --, o poder econômico de que teriam sido furtadas? Poupança externa, importação alta, às custas imediatistas e "existencialistas" da nossa frágil balança comercial. A Guerra-Fria teve um papel de roupagem ideológica fundamental para esse processo, tendo os interesses dessa classe social assumido o discurso da necessidade americana de maneira instintiva, fisiológica: foi-lhes garantida a História que queriam, e alguma vingança.
quarta-feira, 29 de março de 2017
terça-feira, 14 de março de 2017
dialetica do historiador e do sociólogo
Ora, como não poderá o olhar individual atrapalhar a análise dos fenômenos sociais pelo sociólogo? Posso, aqui, demonstrar a maneira mais recorrente de "deturpação sociológica do universalismo verdadeiro": o sociólogo frequentemente assume como sentimento de verdade um injustiçamento que tenha vivido. O seu olhar de uma única vida, que não pôde observar o todo do desenvolvimento da humanidade, nem para o passado, nem para o futuro, eclipsa a verdade total contida na epistemologia da eternidade e da longa duração. Existencialmente, o sociólogo estará em seu direito ao dizer a seguinte verdade: a de que interessar-lhe-á mais a verdade da circunscrição do seu olhar e do seu tempo do que a eterna, porque a morte lhe furtará, incondicionalmente, a manipulação do conhecimento para o seu proveito. Nisso consiste a percepção de um injustiçamento, até. Mas a questão toda é que o alvoroço sociológico em si tem que estar incluído no olhar de longo termo, nos processos ininterruptos de resolução dos conflitos econômicos -- e está: o individualismo da morte existencial, embora eclipse a verdade total, não a esconde totalmente, sendo a sociologia um evento particular e, por vezes, paradoxal e incompreendido, mas inevitável para o desenvolvimento pleno da sociedade em direção ao seu aprimoramento. Então, se o sociólogo, a um primeiro olhar, pode parecer conservador ou impreciso ao observar a sociedade do seu ponto de vista de inspiração injustiçada ingenuamente egoísta, estará servindo de matéria-prima para uma análise mais aprofundada, calcada em uma epistemologia eternalista, por estar agindo como propulsionador dos conflitos que vão mettre à jour o paradigma da análise. O caso da emergência do poder simbólico contra o economicismo me vem como um bom exemplo dessa dicotomia suscitada pela sociologia, na história do desenvolvimento ideológico da disciplina. O poder simbólico como argumento sociológico contra o economicismo, sustentado pelos marxistas, pelos braudelianos. A formação do Grupos de Trabalho de Pensamento Social Brasileiro na Anpocs, de crítica sociológica aos intelectuais brasileiros do modernismo, consiste em outro exemplo. Embora possam ser lidos como à direita, igualmente não estarão à esquerda aqueles novos analistas da sociedade que não reconhecerem a capitalização que geraram às suas famílias, que poderão desse capital se beneficiar para obter recursos, numa nova configuração do capitalismo brasileiro. A fundação da UDN, convocando as classes médias urbanas e setores ressentidos do interior do governo Vargas, é outro exemplo desse tipo de olhar sociológico: mesmo que tenha desembocado no golpe militar de 64, a crítica do (res)sentimento urbano deverá ser percebida como reflexo das transformações das estruturas produtiva e distributiva brasileiras. O sociólogo produz conteúdo sofisticado que cabe ao historiador analisar dialeticamente -- onde, fatalmente, encontrará um substrato econômico.
sexta-feira, 10 de março de 2017
os sentimentos animais, que nos proporcionam químicas, podem ser chamados por nomes diferentes dos que seriam os seus verdadeiros. alguém pode ficar chateado e dizer que não ficou diante de um grupo, de um amigo ou até mesmo do psicanalista - que há de pescar a tristeza do chateado. Imagino que comunidades inteiras possam denominar sentimentos eclipsando-os com outros significados, como chateado, que quer dizer na verdade triste. Por que haveria ele de ser chateado?...
terça-feira, 7 de fevereiro de 2017
por uma teoria otimista da ingenuidade das vanguardas
Um filósofo poderia dizer que o impedimento de conhecer aquilo que corresponde à verdade verdadeira é inerente à condição humana, de sujeitos do conhecimento. E que, por meio de uma escolha, todo sujeito sai da dúvida e parte para a ação, executando aquilo que imagina ser o seu ato consciente. A essa informação, o arqueólogo poderá adicionar uma certa contribuição estatística, fazendo notar uma dada padronização das atitudes dos homens, por sempre se ver em face de alguns modelos de sociedade e de alguns modelos de desenvolvimento de sociedades. E o historiador, por sua vez, perceberá, no decorrer dos fatos, com um olhar em retrospectiva, quais foram os enganos cometidos para que a história não se desenrolasse para o lado mais desejável do ponto de vista ético-moral. Já o sociólogo talvez cometa um "engano desenganado": por observar a forma como o desenvolvimento real da história se apresenta no presente e observar as consequências do passado sem se ater a ele com a devida importância, o sociólogo se dá conta mais fortemente dos problemas imediatos, daquelas injustiças percebidas pelo senso-comum -- e por isso pode aplicar seu conhecimento para a sua natureza política. Todo político nas sociedades humanas tem o seu lado sociólogo, isto é, busca no presente as raízes de toda injustiça, mesmo que se apóie, em alguma medida, nas transformações do passado para fins explicativos. E toda vanguarda, por seu teor político qualquer que seja, apresenta na sua origem uma manifestação de conteúdo sociológico. Aquilo que a expressão "noblesse oblige" designa, ou seja, a importância política que adquirem aqueles que se incumbem de tarefas sociais como as de proteção e de generosidade tem sua origem na ação política altruísta advinda da percepção sociológica de um pensamento vanguardista. Por exemplo: num bando de caçadores-coletores em vias de se desmembrar, aquele que percebe o distanciamento crescente de indivíduos do bando em relação aos benefícios da caça auferidos por seus líderes se incumbirá do papel de liderar uma dissidência, ocasionando uma diáspora; assim como os líderes das vanguardas revolucionárias se incumbirão da tarefa de procurar revolver a sociedade para que as demandas dos marginalizados sejam atendidas em detrimento dos mais poderosos. O discurso de bem-comum, sempre atualizado pelo novo olhar dos novos sociólogos políticos, servirá como uma nova eclosão dos conflitos sociais -- ou dos conflitos de classes sociais. E, embora os historiadores e arqueólogos tentem mostrar as raízes de tal sentimento sociologizante e político, a inevitabilidade das percepções sociológicas é, na verdade, o reflexo necessário dos desdobramentos de longa duração do caminhar da história. No caso da história da URSS, para que se veja melhor a coisa, aquelas elites que se conformaram após uma atualização da sociedade com a estatização de toda a esfera produtiva foram acusadas por percepções sociológicas que tiveram como resultado a Perestroika: uma sociedade insatisfeita com a forma como a estrutura produtiva marginalizava alguns e beneficiava outros, mesmo que o dinheiro já não existisse mais em tanta quantidade. Se a instituição da URSS teria sido um avanço ao abolir a propriedade privada e ao tornar o interesse estatal superior aos interesses individuais do ponto de vista econômico, a Perestroika seria a atualização desse avanço, promovendo mais acesso das classes subalternas daquele regime à participação política e econômica, além de denunciar o privilégio das elites burocráticas. O curioso de se observar é que essas atualizações progressistas e éticas de reconformação do corpus moral e produtivo das sociedades são sempre motivadas por indivíduos cuja abordagem sobre a realidade é de tom sociologizante. Mais curioso ainda é observar que suas ações, na verdade, representam apenas uma consequência de um grande movimento histórico que se observa na longa duração: eles são as espumas, as ingênuas espumas das ondas, que são consequência de um grande movimento de marés, que se dá numa profundeza tão profunda que o homem ainda não teria conseguido afundar para descobrir. Peões - ou melhor: cavalos da história total, os sociólogos possuem uma força ingênua, que move a sua esfera consciente, mas cujo subconsciente é povoado por toda sorte de determinantes estruturais, anteriores, exteriores, econômicas, biológicas, químicas, físicas e metafísicas. Agora, portanto, já posso dizer: a consequência histórica do dever nobre desses sociólogos, até que surjam outros para atualizarem dada história da luta de classes, provavelmente será a incorrência numa injustiça histórica atrás da outra, com longos intervalos de anos, transformando os antigos defensores do bem-comum em privilegiados de "nobreza de espada", até que o bem-comum assuma finalmente a sua forma perfeita e total na vida social, concretizando-se o discurso que o enuncia. Todo sociólogo crê que já a encontrou, e lutará pela sua completude, com a ingenuidade de um louvável bom homem, político; mas um filósofo talvez o diga, como uma consciência conservadora e fútil, que a sua escolha de verdade não executará o fim a que se propõe, o da justiça total; e um historiador arqueólogo talvez diga que a raíz do problema é mais profunda. Não devemos dar ouvido nenhum aos filósofos, pois os humanos já conhecem a genética, o espaço e pesquisam bastante bem o fundo do mar: e, por isso, ouçamos melhor os historiadores arqueólogos, sem que eles nos deixem escapar a agudeza da observação quasi intuitiva.
terça-feira, 31 de janeiro de 2017
esboço de solução da equação sócio-existencial
Todo sociólogo deve ter um pouco de historiador braudeliano e todo historiador deve ter um pouco de sociólogo. Afirmo isso do ponto de vista existencial, para que suas análises não pendam nem para a paixão nem para o distanciamento aristocrático. Qual é o sociólogo que pode querer abrir mão de sua razão presentificada por uma visão do todo, inumana? Da mesma forma, seria insuportável para o historiador da longa duração se ele não reconhecesse na própria vida uma sociologia do que o oprime, em sua existência finita. Proponho, para o debate que aqui suscito, a criação de dois conceitos fundadores dessas ideias, ainda um esboço: são esses a sociologia do tempo mortal e a sociologia do tempo eterno. No domínio da sociologia do tempo mortal, as análises do poderio simbólico de uns sobre os outros se evidenciam mais do que os problemas estruturais-economicos. Já para a sociologia do tempo eterno, o importante é compreender aquilo de mais inconsciente do comportamento humano, as verdades estruturais sobre os movimentos da humanidade. Um militante marxista ou mesmo um fascista ou um nazista se atém à sociologia do tempo eterno. A transformação social completa é, normalmente, a preocupação principal desse sociólogo, por ser mais importante a resolução dos problemas sociais gerais; esse sociólogo observa a vida humana por viés analítico divino, total, exteriorizado, e é na sua aproximação com o positivismo e com o construtivismo social que pode assustar os sociólogos do tempo mortal. Já esses últimos, os do tempo mortal, que podem ser orientados politicamente para o anarquismo ou para o liberalismo, observam atos que exigem que se aproprie das vidas individuais - e, portanto, da sua própria - como condenatórios, como elementos de dominação. É por isso que se diz que uma militância política por ideal de uma ciência social do tempo eterno pode resultar num sentimento de dominação presentificado, uma vez que os indivíduos preferirão a realização dos seus impulsos vitais e dos seus desejos à canalização dos seus esforços para um bem que não identifiquem o retorno em vida. A realização das utopias sociais, para a sociologia do tempo mortal, é um esforço hercúleo, e a adesão total aos postulados políticos das sociologias do tempo eterno só poderiam se tornar desejáveis com a promessa da imortalidade pelos projetos macrossociais que propõem -- pois tudo se acerta no longo prazo, se não estivermos mortos. A sociologia do tempo eterno, por outro lado, é a verdade superior, e os analistas mortais são obrigados a reconhecê-la, embora se esforcem para atentar para os problemas que a negligência da realidade dos atores como desejosos de suas vidas gera ao justo existencial. (talvez aqui esteja esboçado também o fundamento da separação entre udenistas e socialistas brasileiros).
terça-feira, 6 de dezembro de 2016
Dezembro
Querer o suicídio não cala os meus maiores problemas. A verdade do marxismo se confunde com um desejo estranho de não compactuar com ele. Sou movido por uma vontade forte de reconhecer os problemas em tudo, inclusive na verdade justa de Marx. Se se pudesse ter completado o objetivo ulterior que Stálin se empenhou em completar, eu talvez não estivesse aqui tendo essa reflexão. Se o imperialismo não tivesse criado essa espécie de necessidade de aceitação dos seus termos... Sou gritado por um sentimento irrestrito de injustiçamento, e meu psicanalista caçoa de mim. Como tenho vontade de dizer que sou poeta, acabo escrevendo, muito para fugir da tarefa de dizer o material e certo e de ter que entrar em conflito com o impossível de ser derrotado. O capitalismo é horrível, eu vejo, eu sinto; assim como também sinto que transformá-lo, superá-lo é uma tarefa possível do ponto de vista matemático-científico. A distribuição dos bens igualmente, a socialização dos meios de produção: todos os homens possuem as mesmas estruturas subconscientes que apenas precisam ser estimuladas de modo a não se ter que agir levianamente com os outros para que se obtenha o gozo individual. Imediatamente salto para a sociedade perfeita e penso com alegria nos verdadeiros sentimentos que poderiam vir a surgir, mas logo tenho um certo medo de que a beleza pura ainda me fará sentir inveja. Escondo-me de novo num pensamentinho burguês, num desejo lírico entristecido, como se me bastasse voltar sete casas no jogo e não ver essa jaula de ferro que nos oprime a continuar trabalhando para os outros, a continuar nos massacrando, furtando-nos a juventude e o ócio sem nem nos oferecer a vida eterna. Todo homem nasce bom, a sociedade que corrompe; mas também toda vida nasce imortal, e a natureza que prova o contrário. Eu observo, mortal, a casa mais luxuosa dos outros, os movimentos espúrios inacreditáveis dos materialistas imorais, a inevitabilidade da vontade de poder humana, resultando em que todos se acham em uma corrida nociva rumo ao topo da hierarquia de prestígio. Eu permaneço um pouco atônito, com certa desconfiança portanto, procurando olhar no fundo dos olhos de uns poucos e poder crer na verdadeira amizade. Eu também me vejo, um tanto comigo frustrado, preso num estranho mecanismo: sugado para cima pelo desejo e para baixo pela culpa; deixo um vácuo atrás de mim, conforme avanço, e busco comer frutos mais gostosos ali acima, querendo-me crer justo e merecedor de conquistas. Se eu tivessee um lago onde remar um pouco no frio, e se essa ação me acalmasse o espírito a ponto de não pensar mais na sucessão infindável dos progenitores por suas proles, no tempo avançando sobre o meu organismo e na sujeira verdadeira de uma cidade grande no hemisfério sul... Eu tenho uma amiga que é muito azul, da cor de seus próprios olhos, e sua tristeza, embora sofrida, me chama atenção pelo som tranquilo de sua poesia; mas permanecemos um tanto distantes, mesmo quando nos vemos, por tamanha verdade que o nosso encontro promove, embora silenciemos, juntos, as sociologias que nos impedem de termos um lirismo conservador: porque estranha ou infelizmente (para o destino do mundo) conseguimos tê-lo. Eu e ela, que buscamos ainda a poesia, permanecemos maquinizados pela eterna iminência do apocalipse moderno, sem que isso nos impeça de reconhecer o amor e o sentimento que só o azul salvou em tempos de melancólicas noites neometálicas.
sábado, 28 de maio de 2016
O suicídio metafórico de Vargas (o Llosa) ou A morte (e a morte) de Antônio Brasileiro
Vamos dizer que começou bem mais cedo,
Em um início, onde tudo era benigno e fazia sentido,
Até que fomos perdendo a capacidade de ser bom.
Eu estava sentado no meio fio da atual rua Morais e Vale, conversando com alguém às cinco da manhã de uma festa,
Com um copo descartável na mão, uma calça jeans, uma bota, um casaco de camurça e uma camiseta amarela.
Era uma noite divertida de Maio, e as estrelas no céu se percebiam por este algo de cintilante no astral que preenchia a ambiance.
Eu saquei um revólver do bolso,
ali,
na festa.
Meu casaco de camurça queria se matar ao som de Cazuza;
Uma casa com cheiro de café recém feito e móveis de madeira mineira se afundava na escuridão de seus livros;
E só mesmo um alucinógeno para fazer flamejar uma bandeira colorida naquele meio fio.
O revólver lantejou, e uma estrela cadente refletiu nele.
O céu roxo, o brilho-anti-brilho da constante universal,
a lama no chão, camurça e whisky.
(Star Wars - Rubem Fonseca + Nelson Rodrigues)
Mao Tsé Tung nunca morou em Estocolmo, e nem Estocolmo é Berlim;
Livros marxistas-leninistas voavam se desprendendo de uma estante de jacarandá;
As estrelas tinham vencido, e a loucura era maior que o certo.
No meio dessa conversa, com um amigo brigado, meio mendigo de preto com acessórios metálicos,
enfiei o revólver dentro da boca depois de lhe confessar em voz alta e estranha alguma coisa.
Desisti da solidão da madeira mineira, do café e de seus livros
Desisti de Buenos Aires, esse estranho destino (mas lembrei dela).
Desisti de vez para deixar o roxo e as estrelas vencerem e reinarem em meu lugar.
"Eu perdi um amor que me deixava roxo de ver estrelas e não posso mais tê-lo", foi o que mais ou menos eu disse a esse amigo no meio fio antes de tudo.
"Não sou mais ninguém."
Fantasiado de século XXI, na atualíssima rua Morais e Vale, em nome da paz e do gozo, pela harmonia do cosmos: desisto!
E um buquê de flores sai, verde e amarelo, por detrás do meu crânio, disfarçando a matéria cinzenta e o sangue que se espalhavam pela estreita testada da calçada; era como um convite dos Anjos para integrar perpetuamente a energia escura.
E os legistas, ao encontrarem o meu corpo em meio a uma multidão estarrecida e alienada,
encontrariam algo deixado escrito num guardanapo de papel:
"Deixo a vida para libertar o esquecimento!
para a realeza inglesa ver a minha linhagem perder a última batalha!
para poder ser carnaval de novo!
-- e um novo milênio um dia..."
Em um início, onde tudo era benigno e fazia sentido,
Até que fomos perdendo a capacidade de ser bom.
Eu estava sentado no meio fio da atual rua Morais e Vale, conversando com alguém às cinco da manhã de uma festa,
Com um copo descartável na mão, uma calça jeans, uma bota, um casaco de camurça e uma camiseta amarela.
Era uma noite divertida de Maio, e as estrelas no céu se percebiam por este algo de cintilante no astral que preenchia a ambiance.
Eu saquei um revólver do bolso,
ali,
na festa.
Meu casaco de camurça queria se matar ao som de Cazuza;
Uma casa com cheiro de café recém feito e móveis de madeira mineira se afundava na escuridão de seus livros;
E só mesmo um alucinógeno para fazer flamejar uma bandeira colorida naquele meio fio.
O revólver lantejou, e uma estrela cadente refletiu nele.
O céu roxo, o brilho-anti-brilho da constante universal,
a lama no chão, camurça e whisky.
(Star Wars - Rubem Fonseca + Nelson Rodrigues)
Mao Tsé Tung nunca morou em Estocolmo, e nem Estocolmo é Berlim;
Livros marxistas-leninistas voavam se desprendendo de uma estante de jacarandá;
As estrelas tinham vencido, e a loucura era maior que o certo.
No meio dessa conversa, com um amigo brigado, meio mendigo de preto com acessórios metálicos,
enfiei o revólver dentro da boca depois de lhe confessar em voz alta e estranha alguma coisa.
Desisti da solidão da madeira mineira, do café e de seus livros
Desisti de Buenos Aires, esse estranho destino (mas lembrei dela).
Desisti de vez para deixar o roxo e as estrelas vencerem e reinarem em meu lugar.
"Eu perdi um amor que me deixava roxo de ver estrelas e não posso mais tê-lo", foi o que mais ou menos eu disse a esse amigo no meio fio antes de tudo.
"Não sou mais ninguém."
Fantasiado de século XXI, na atualíssima rua Morais e Vale, em nome da paz e do gozo, pela harmonia do cosmos: desisto!
E um buquê de flores sai, verde e amarelo, por detrás do meu crânio, disfarçando a matéria cinzenta e o sangue que se espalhavam pela estreita testada da calçada; era como um convite dos Anjos para integrar perpetuamente a energia escura.
E os legistas, ao encontrarem o meu corpo em meio a uma multidão estarrecida e alienada,
encontrariam algo deixado escrito num guardanapo de papel:
"Deixo a vida para libertar o esquecimento!
para a realeza inglesa ver a minha linhagem perder a última batalha!
para poder ser carnaval de novo!
-- e um novo milênio um dia..."
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