Entendemos que a realidade produtiva funciona como base de toda sociedade. Devemos agora compreender como ocorre o fetichismo da mercadoria pela visão subjetiva do processo. Já se entende que os homens produzem e consomem, resultando na importância que se dá ao sistema produtivo. O dever agora é explicar o que as mercadorias despertam nos sujeitos, isto é, que motivações individuais os seres humanos, biológicos, encontram na mercadoria para que possam querer apropriar-se dela, a fim de se enaltecerem. Para isso, é preciso pensar no poder simbólico emanado pela mercadoria, que se apodera dos seres humanos: um poder simbólico que os enaltece, que estimula e dá combustível ao seu instinto vital. Por meio da mercadoria, os homens desfrutam, exibem-se e estruturam as suas vidas e as das suas proles. O resultado biológico do fetichismo de mercadoria é que deve ser compreendido agora.
quarta-feira, 3 de janeiro de 2018
quinta-feira, 21 de dezembro de 2017
economias instintivas
Existe no triunfo uma dimensão que é econômica, mas não de uma maneira trivial, respaldada em alguma vaga noção comum de materialismo. Não é todo triunfante que, de imediato, adquire a recompensa monetária pelo que fez de bom. A dimensão simbólica, essa que não é obrigatoriamente monetária, segue, no entanto, uma lógica econômica específica, que não deixa de ser material. Os benefícios conseguidos pelo triunfo simbólico, ainda que não sejam necessariamente monetários, possuem uma lógica materialista específica. Além da cooperação com o triunfante em virtude do reconhecimento do feito, que acarreta em si benefícios como "casa, comida e roupa lavada", o triunfo garante um benefício à sobrevivência do tipo individual por uma via transgeracional. Protegidos os seus herdeiros pela história da sua família e pelos capitais simbólicos de toda ordem adquiridos, como até mesmo a beleza, e, ironicamente, a amabilidade e o savoir-vivre, o gen individual alcança o benefício máximo, instintivo, que é distinto do ganho monetário - podendo também somar-se a ele. A sensação de satisfação quando alcançado o triunfo de qualquer ordem simbólica, aí incluídos também o dinheiro, a união com os belos e os bons e os benefícios honoríficos de toda ordem, é a prova cabal de que o benefício da aquisição do poderio simbólico segue uma lógica econômica que visa algo maior, de mais longo prazo, de um comportamento residual: a imortalidade do seu tipo. Nenhum invejoso é invejoso apenas do dinheiro. Nenhuma vitória é somente monetária. Nenhum amor correspondido é resultado de um cálculo tão realista... Mas seguem uma lógica de preservação biológica, que implica em uma economia relacional, que necessita também de desenvolvimento econômico-produtivo, mas em uma segunda instância. O desenvolvimento econômico-produtivo apenas permite a perpetuação no longo prazo das batalhas simbólicas -- e por isso é tão importante, mesmo que não seja a economia monetária propriamente dita o seu motor principal. O que acontece é que o indíviduo biológico responde a muitos estímulos instintivos. Procurar, portanto, primeiro nas motivações econômico-produtivas as disputas dos seres humanos por benefícios materiais sociobiológicos é insuficiente. Chegar-se-á a elas, mas partindo de um outro ponto de vista. É preciso analisar a motivação materialista do ponto de vista individual subjetivo, mas comum a todos os indivíduos, tão evidente quanto imperceptível: os indivíduos da espécie humana seguem os seus instintos reprodutivos, por exemplo, o nutricional, assim como muitos outros, que são facetas de um mesmo instinto geral pulverizado, que é o instinto vital, o impulso vital, a força do gen, que orienta a motivação econômica biológica das relações humanas de facto: nos vínculos criados pelos afetos, pelo amor, pelas amizades, pelas associações, etc -- e pelas peleias também. Em outras palavras, instintivamente, os indivíduos balanceiam, de acordo com suas percepções simbólicas acerca da capitalização simbólica dos outros, aquilo que lhes será, segundo a percepção deles, subjetiva, da realidade objetiva das suas próprias vidas, benéfico. Os indivíduos buscam se associar a valores que permitirão a perpetuação do seu próprio tipo transgeracionalmente, por meio dos seus sentimentos: tudo isso é instintivo, inevitável e imperceptível a nós mesmos; e justamente por ser inevitável e imperceptível é que é instintivo. As brigas, os conflitos, a inveja, o amor, o apego, a amizade, são fruto disso, dessa economia biológica simbólica em disputa, que tem na economia produtiva o seu substrato, o seu meio de execução, mas uma economia produtiva que "alimenta" de bens os indivíduos imersos em batalhas simbólicas instintivas, que seguem a lógica individualista-subjetiva materialista biológica -- em outras palavras, que seguem o materialismo histórico apurado, kantiano, fenomenológico -- ou, o que vale dizer, o materialismo crítico.
sexta-feira, 1 de dezembro de 2017
vida e morte tragédia
O problema entre o trágico e o pós-trágico perfeito consiste na sempre provável incapacidade de superação da tragédia pelo limite que a condição de mortais nos impõe. Basta imaginarmo-nos como seres imortais, que perceberemos uma medida de tempo infinita para que se resolva qualquer problema. O conhecimento, assim, torna-se útil. A questão toda entre o trágico e o pós-trágico então é com a morte, que nos impede de superar os erros, e de antever os próximos no longo prazo. O modo de vida trágico, que ainda concebe a morte como limitadora da vida, tem de ser substituído para que a humanidade possa solucionar-se, e somente assim a arte poderá superar a tragédia. A arte só será verdadeiramente apreciável quando alto-produto de uma sociedade de indivíduos que possuam imortalidade terrena, corporal, secular. Somente então a arte terá capacidade de experimentar a verdadeira forma pós-morte-da-tragédia.
sábado, 21 de outubro de 2017
sobre a cura
Não digo que todos pensem assim, mas há uma tendência a se crer, "com respaldo na teoria psicanalítica", que aquilo que o super-ego evidencia como perigoso ao lançar mão do recalque do desejo seja a mais pura fantasia. O próprio método da psicanálise pode levar a pensar dessa forma, uma vez que o paciente, individualmente, deve enfrentar o trauma e provar para si mesmo a possibilidade de realização do desejo. Há um certo risco aí, que é o de não se levar em conta o funcionamento social humano, que muitas vezes impede as pessoas de realizarem suas vontades. É como se a psicanálise tentasse fazer os indivíduos repetirem incansavelmente uma busca, "dando murros numa porta até que ela se abra". Sob o risco de "dar murros em pontas de faca", o indivíduo deveria ir incessantemente atrás de seu instinto primitivo, até que ele se cumpra, e o paciente se deságue. Quantos desejos uma pessoa consegue realizar na vida e quantos ela não chega nem a conseguir desejar, por estar ainda buscando a superação de traumas para a realização de um antigo? O melhor seria poder viver em mundo em que as pessoas se realizam com mais facilidade, para que novos desejos surjam cada vez mais, para que sejam realizados, infinitamente... O que eu gostaria de evidenciar aqui é que o próprio tratamento psicanalítico segue uma lógica de uma espécie de conformismo quanto à ordem social vigente. O paciente se explica para seu analista que buscará, pelos meios do paciente, reverter a sua condição recalcada e encaminhá-lo à realização de suas aspirações recônditas. A psicanálise talvez não dê conta, e talvez seja o espaço aqui da sociologia, de um tratamento total da sociedade. É difícil pensar um verdadeiro tratamento psicanalítico que almeje resolver o problema do paciente apenas pelo caminho da cura individual. É quase como um exercício repetitivo que buscará desqualificar as impressões individuais dos sujeitos, furtando-lhes a realidade, e apresentando o mundo como um paraíso limpo e pronto para que se alcancem os anseios. O que seria a cura pela psicanálise, senão a reintrodução de um indivíduo na luta perpétua pela realização dos seus quereres, mesmo que lhe custe a denegação daquilo que o fez retroceder? Uma cura completa dos indivíduos deve buscar a transformação da sociedade em uma que permita aos sujeitos realizarem mais e mais suas amibições. Não sei ao certo que caminhos deva tomar essa transformação, mas creio que passará pela educação. Não é comum de se ouvir que quem faz análise esta pagando alguém para aprender a lidar com pessoas que deveriam, elas, estar fazendo análise: é assim que eu entendo, às vezes, a verdade do tratamento psicanalítico.
segunda-feira, 28 de agosto de 2017
segunda-feira, 21 de agosto de 2017
amor camuflado
eu não sei se quero sair sozinho,
ou ficar amigo dos outros.
amigos, amigos, negócios à parte,
ou não.
no mundo perfeito,
não se dará um perdido,
o toco (de louco),
pros outros na luta.
nem haverá os perdidos,
os loucos,
precisando dos poucos (dos outros),
de ajuda.
pena não termos chegado lá ainda...
pena não termos chegado lá ainda...
uns ainda somam, e outros ainda subtraem:
pesado, em nós, um pecante horror;
pelo outro, então, um maligno amor:
um amor engraçado,
um horror camuflado,
que nos ensinam a multiplicar,
pra não dividir,
porque é isso aí...
porque é isso aí...
ou ficar amigo dos outros.
amigos, amigos, negócios à parte,
ou não.
no mundo perfeito,
não se dará um perdido,
o toco (de louco),
pros outros na luta.
nem haverá os perdidos,
os loucos,
precisando dos poucos (dos outros),
de ajuda.
pena não termos chegado lá ainda...
pena não termos chegado lá ainda...
uns ainda somam, e outros ainda subtraem:
pesado, em nós, um pecante horror;
pelo outro, então, um maligno amor:
um amor engraçado,
um horror camuflado,
que nos ensinam a multiplicar,
pra não dividir,
porque é isso aí...
porque é isso aí...
quarta-feira, 16 de agosto de 2017
a força do impulso vital
O desejo de perpetuação do próprio gen individual de cada ser humano (impulso vital) não é dotado de todo o domínio da verdade. Ela esconde-se atrás de um illusio que determina por onde o gen deve atacar. Se o legado e a vida após a morte representavam o illusio do gen de antes da modernidade, a própria força do gen, pela lógica do erro e do acerto, ampliou a acumulação do conhecimento conforme a sociedade foi crescendo de tamanho e atualizou a noção contemporânea de verdade: o aumento de uma comunidade impulsiona a capacidade que a humanidade tem de percepção da realidade, e a verdade se torna progressivamente mais clara, quanto maiores são as bibliotecas; para que mais gens se perpetuem, a ciência se desenvolve mais, chegando o conhecimento humano a um ponto em que o ateísmo e o medo da morte encerram a vida além-mundo, a ideia de legado e até a importância instintiva da transgeracionalidade genética. Nasce o desejo instintivo pela imortalidade na Terra, e ocorre o desenvolvimento do conflito entre duas razões básicas, que inauguram o mundo pós-deus: a razão para a imortalidade terrena e a razão para a vida única. O instinto humano de preservação da vida, observando-se a sociedade como um todo, se percebe mais facilmente - e com força dominante -, tendo a expectativa média de vida apenas se alongado com o progresso técnico e científico. Essa parece ser a tendência da humanidade em seu conjunto, perseguir a razão instintiva, da imortalidade. Mas os artistas decadentistas, por outro lado, talvez dos poucos que experimentaram a razão da vida única, mostram a latência dessa razão, cada vez mais percebida no drama "microscópico" da vida cotidiana, e que parece ser mais racional, sabendo-se da improbabilidade de se alcançar a imortalidade no prazo de uma vida atual. Esse me parece ser o embate ideológico estruturante desde que a humanidade passou pelos séculos das luzes e das dores: filisteísmo, longevidade e imortalidade de um lado e decadentismo, hedonismo e tragédia da vida de outro.
Assinar:
Postagens (Atom)
