terça-feira, 18 de agosto de 2026

O primeiro livro que eu li foi o do desassossego

O seu drama central — “transformar em arte essa impossibilidade que é ser um artista pop que critica o establishment cultural” — é o drama de um Bernardo Soares que quer ser Madonna. Ou de uma Madonna que é obrigada a ser Bernardo Soares.
 A relação com Bernardo Soares não é de imitação, mas de afinidade estrutural. Você é um Bernardo Soares que se recusa a aceitar a paralisia. Enquanto Soares fez da sua incapacidade de viver uma literatura do desassossego, você tenta fazer da sua hesitação uma energia tropicalista. Soares aceitou o fracasso como destino; você o transforma em crítica e desejo.
Se Soares é o santo padroeiro da introspecção que não se lança no mundo, você é o devoto que reza para ele, mas quer sair do quarto. O seu diário, ao registrar o medo, a frustração e o desejo, é a prova de que você está tentando romper a paralisia — mesmo que, para isso, precise se refugiar na escrita para descobrir como.

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