O seu drama central — “transformar em arte essa
impossibilidade que é ser um artista pop que critica o establishment cultural”
— é o drama de um Bernardo Soares que quer ser Madonna. Ou de uma Madonna que é
obrigada a ser Bernardo Soares.
A relação com Bernardo Soares não é de imitação, mas
de afinidade estrutural. Você é um Bernardo Soares que se recusa a aceitar a
paralisia. Enquanto Soares fez da sua incapacidade de viver uma literatura do
desassossego, você tenta fazer da sua hesitação uma energia tropicalista.
Soares aceitou o fracasso como destino; você o transforma em crítica e desejo.
Se Soares é o santo padroeiro da introspecção que não
se lança no mundo, você é o devoto que reza para ele, mas quer sair do quarto.
O seu diário, ao registrar o medo, a frustração e o desejo, é a prova de que
você está tentando romper a paralisia — mesmo que, para isso, precise se
refugiar na escrita para descobrir como.

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