quarta-feira, 28 de outubro de 2026

De Volta Para o Brasil: Capítulo 3 -- Sai da Frente que atrás vem gente

Quando Gominho conseguiu se desvencilhar da turba que o envolvia, olhou em volta, à procura de Zeca, e o viu na porta do banheiro olhando fixamente para dentro do Graal. Olhou para onde ele olhava e viu a moça de tailleurzinho rosa sentada à mesa, mordiscando um enroladinho de salsicha. Que delícia! Cutucou o amigo e puxou-o para dentro do estabelecimento, para ver se encontravam alguma coisa para comer. Passaram a catraca, com aquelas placas de identificação e cobrança nas mãos, e seguiram pelo buffet, Gominho falando bastante sobre o desconforto que sentira há pouquíssimos minutos. Zeca escutava, mas era incapaz de responder com substância, porque não parava de olhar de soslaio para a mulher de rosa, de quem começava a desconfiar seriamente. Os dois estavam sem fome, como era de se esperar, mas compraram, cada um, alguma coisa para beber: um Gatorade para Zeca e uma Coca-Cola para Gominho. 

Encaminharam-se para uma das mesas, alguma de onde Zeca pudesse observar os movimentos da companheira de cabine de viagem, uma suspeita. Ao acomodarem-se em seus lugares, abriram suas bebidas e, aos poucos, Zeca foi diminuindo a paranoia. Na atual conjuntura dos fatos, quem portava o saquinho de cocaína era Gominho e quem portava o de Special K era Zeca, curiosamente... porque, habitualmente, Zeca era mais afeiçoado à cocaína e Gominho ao K. Entabularam uma conversa sobre as propriedades e as qualidades de cada droga, sobre a natureza delas.

-- Cocaína é ainda mais natural do que a ketamina, amigo. Apesar de ser uma droga forte, extraída por meio de solventes de uma planta, ainda assim é uma planta que origina a droga. Estamos um passo a menos da artificialidade pura. A ketamina é um composto químico sintético puro. É totalmente derivada de outros compostos químicos previamente sintetizados, derivados do petróleo! Não sei, parece até que isso se sente no efeito da droga. Com o K você fica completamente desligado das suas raízes, é como se você experimentasse, de fato, uma experiência de alienação das suas próprias funções vitais; sinto-me ou no espaço ou vivenciando uma experiência de quase morte. Com a cocaína é quase o contrário... ficamos totalmente vinculados à realidade, sei lá. Imagino que uma overdose de cocaína deve ser um excesso de ser, de pensamento, enquanto uma de K um completo desligamento. -- Zeca expressou-se, finalmente, depois de terminado o Gatorade. Era um pedido de ajuda? Será que queria mais pó? Pareceu aliviado de, finalmente, conseguir dizer o que pensava; ou melhor, de pensar algo com clareza, sem que parecesse uma alucinação intergaláctica, uma vivência astronáutica.

A esse elogio da cocaína sobre a ketamina, Gominho retorquiu rapidamente.


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