domingo, 12 de julho de 2009

romance e mulher

Não há felicidade:
esperança é que abre a janela do lindo dia...
esperança do dia ser lindo para dar a bucetinha!
Life, Liberty and the pursuit of Happiness.

suficiente não é bastante

O que é que basta?
Eu vejo a última cara que fazem os moribundos
É só viver e amar, com o corpo
pele com pele é mais
ou
É só abraçar a dor, e fazer, dela, fantasiar, o mundo maior, o mundo do amor
Concluo: as duas opções se interligam, a vida não é essência pura
os dois amores o homem tem
Eu vejo ainda... Eu vejo a última cara que fazem os moribundos...
O que é que basta?
Eu vi, eu consegui ver,
entendi, tive uma intuição factível
do que podia ser
o que basta.
Mas esqueci!
plin
e esqueci:
o olhar parou fitando a postura dos móveis
e eu finalmente senti a brisa, que era o que me esfriava
E eu via,
eu via a última cara que fazem os moribundos...
A mão estendida?
A boca, entreaberta, balbucia?
Os olhos vidrados denunciam, suplicam?
É tudo dentro de um hospital, treva e branco?
- Sim, eu vi, eu via, eu vejo
a última cara que fazem os moribundos...
Seja lá o que é que é que veem perder - o poder querer!
O quê?
O que basta?
Morrer não basta?

Minha cama de solteiro

Como estar sozinho é mesmo estar sozinho...
deitar
mirar a janela
e não ter ninguém olhando pra você da cama; olho no olho na altura do travesseiro, deitados...

Não, não há ninguém tampouco sentado na cadeira da escrivaninha
fumando um cigarro ou um beque, me rolando, sob essa iluminação suave das oito horas nubladas da manhã...

Você não cruzou as pernas na cadeira e procurou com a mão, tórrida, tenaz, meus pés, subindo pelas minhas pernas por baixo dos lençóis, se desligando do nada que fazia entediado na internet, enquanto eu fumava...

Você não levantou, saiu do quarto e voltou, como eu imaginava que você faria
descabelado
arrumado para dormir
mas remexido, deitando e não conseguindo pregar os olhos, ligado

você não veio, em seguida, com essa cara de quem não vai dormir nunca, porque não é preciso sonhar, prender meus olhares aos seus, e deitar-se comigo, só para ficarmos observando, lassos, deslumbrados, as dobras e frissões no lençol pastel amainado, você deslizando a pontinha dos seus dedos pela superfície do meu corpo - é a lânguida manhã cinza, que instiga...

Não, não há você, não há! e eu fito, então, a parede, em silêncio, encostada a cabeça no travesseiro, inoculado, inexpressivo; é que não há mais combustível...

É que poucas vezes eu te sonhei assim, tão claro, tão palpável, tão latente, tão verossímil...
durante um amanhecido
virado
sem sono
antes-de-dormir
como agora...

Ah!
e a língua estala dentro da boca saboreando um gosto... o gosto do nada...
de ninguém!

pareço errado pra me justificar?

Se toda vez que eu
começasse
eu não me perguntasse
o quê?
nem
por quê?
nem
por onde?
talvez eu nunca chegasse
a pensar
no quão obsoleto
é esse prerrequisito
da expressão.
Queria
nunca mais
ter que pedir licença...

quarta-feira, 8 de julho de 2009

emp(r)estado

marcado de seguro:
sou a cama macia onde pode estar o desdém com a vida
e ele está finalmente emaranhado em meus lençóis
e como queria poder dizer que são maus lençóis!
porque ele finalmente me pegou de braços abertos
talvez desprevenido,
sim, desprevenido, mas só por agora, como justificativa pra essa prerrogativa
como se eu fosse um lugar pra ficar,
quisesse ceder um espaço
com esses meus braços abertos que não eram pra ele (pra quem?)
mas há sensação de invasão
de que estou sendo abusado
minhas artimanhas e minhas prestezas subjugadas ao favor
que acabo fazendo
que numa euforia de momento
num pico de algum hormônio
eu deixei, eu permiti de alguma forma como algum contrato social
mas o que é é aquilo que é, ainda mais agora; e só me resta lamentar...
porque de fato ele está ali
e mais se parece um velho de pijamas
já vestido para dormir, como um anúncio do indesejado adeus lisérgico
que sempre vem,
à espera do momento em que a letargia tornar-se-á perene
expulsará as visitas
e deixará, recolhidos, aqueles que tiveram a "sorte" de ficar.
Nós que ficamos.
como se só ele estivesse encorpado dessa sorte
de certa forma dono da situação
realizada a sua vontade
e eu tivesse que ser a fonte
justo quem não suporta essa letargia acompanhado
de um de pijamas...
contrariado...
esse fim finado em terminar
que coloca em evidência quem vai restar ao lado de quem
quando o que é dá evidências, passa por cima das possibilidades, maltratando o sujeito com seu fim em si mesmo
e eu não quero nenhum velho de pijamas olhando pela porta entreaberta
para saber o que é que há com tudo
não quero amanhã ter a angústia de levantar do sonho dividida com alguém - tendo que automaticamente ser superada.
Um deserto, e uma cobra me seca enroscada
ao se esparramar na minha
casa
na minha
casa...

terça-feira, 7 de julho de 2009

cuidado com poetas

Certa vez Pessoa escreveu que o poeta era um fingidor e justificou brilhantemente sua heteronimia, além de metaforizar sobre todas as mais diferentes posições que cada humano, demasiado humano, pode ter sobre aspectos da vida. Pessoa fez uma grande e crítica análise sobre as restrições da linguagem quanto à verdade. Isso tudo foi, sem dúvida alguma, magnífico, mas permito-me utilizar desse verso "O poeta é um fingidor" com outra conotação. Talvez um pouco mais rodrigueano que ele, observo o fingimento do poeta em sua vida cotidiana. É preciso ter cuidado com os poetas! Normalmente escasquetados com as coisas do mundo, os poetas sempre podem recorrer à sua poesia - e talvez isso possa se estender a mais formas de expressão artística, não sei dizer... Sempre que sente vontade, o poeta despeja em sua arte toda a sua indignação, seu sofrimento: poesia é quase que um ritual de confissão. Dissimulado, incapaz muitas vezes de legitimar seus moralismos - não importa de qual time - na vida real, o poeta corre, recorre à poesia: evacua e dá a descarga; xinga camuflado; vive mascarado. Se todos sentem a mesma vontade que o poeta, não posso afirmar, muito embora acredite piamente nisso; mas o que há de terrível e de temível nos poetas é a sua capacidade ardilosa de executar esses pensamentos pecaminosos de alguma forma, expô-los, gerar a fofocada interminável a respeito do mundo, das coisas e das pessoas, e seus modos, potências e atos; que aterrorizaram o poeta, o fizeram recolher-se e reconhecer nas tramas da vida as falhas éticas de todos, justamente aquilo que faz questão de expor. Pode-se, sim, considerar o poeta um lobo-mau. É ele quem futuca a ferida, quem fala o que todos pensam mais profundamente, secretamente; ou o que é tão absurdo que chega a machucar, que chega a ser imoral! E quanto àqueles que se reconhecem nas poesias, o poeta lhes instiga a um voyeurismo sado-mazoquista, insuportável, eterno, etéreo - uma mania - e que poderia nunca ter começado, acreditam, se nada ele tivesse dito.

É preciso estar de olho! Os poetas se dissimulam, fingem tão completamente serem pertencentes à vida normal; mas quando menos se espera, eis que lançam-lhe um tapa na cara poetizado, e você se sente traído!

sexta-feira, 3 de julho de 2009

entediado, convocado à sublimação: em busca do belo.

em mim
um monte gestos
texturas
presenças
esfriam acalorando
tédio e vontade
e eu estou sublime...
fui recolhido ao sublime -
o resultado final da obra
me é belo
a qualidade da autoridade
é o que me encanta
em qualquer trabalho:

me presto a tentar também, tal qual,
e me sinto no estado
me digo no estado
sublimado
instigado pelo que vi belo-trabalhado
engasgado
soterrado
isolado pela espontaneidade com que me atrai esse sublime...
(sublime, belo, belo, sublime, sublime, belo...)
(e eu meio que acabo me sentindo assim mesmo - dupla hermenêutica)
qualquer vestígio de fim
é justificativa para ser alguém.
vontade
é.
sublime estou, eu quero
belo será, eu quero