Por volta das 14:30 daquela quinta-feira, Zeca finalmente acorda, depois de 3 dias de "sono picotado": pela fome, pelo cansaço de dormir, pelos estímulos da casa. Na sua décima respiração acordado, os pensamentos sobre os fatos passados na última vigília tomam uma aceleração incontrolável, e seu coração dispara. Havia faltado ao ensaio; teria de ver-se com sua mãe; mas o mais importante de tudo era a necessidade de executar o plano com Gominho. A máquina do tempo existia mesmo; ele não estava delirando. Ou estava? Será que Gominho ainda estava disposto a seguir com o combinado? E a comunicação com Preta por sinais informáticos — ele não podia negar. Olhou o celular e, para alívio de sua paranoia, já havia algumas mensagens de Gominho. "Já acordou? Me avisa. Tenho boas notícias." Em taquicardia, levantou-se da cama meio acabado ainda, atônito, foi para o banheiro, mas nem escovou os dentes, por pura desatenção ao mundo: só pensava naquilo. Ouviu sua mãe falando alto, no quarto, ao telefone. Estava negociando alguma coisa. Entrou no banho, para ver se se acalmava antes de ligar para Gominho, porque o dia de hoje seria definitivo: precisava fazer alguma coisa: qualquer coisa. Pelo basculhante do prisma interno de ventilação, ouviu a conversa da sua mãe, que entrara no banheiro da suíte dela para fazer xixi. A negociação já estava conclusiva.
-- Sim, claro, Tati! Estou super dentro. Vai ser quem mais? Claudinha Leitte, Karol Conká, Jojô e... Quem mesmo? Mas quem é Lumena? Ah... sei. É, sim, pode dizer que eu aceito, sim. E sucesso no seu novo programa! E, ah, claro, obrigado por essa. Ah, Tati! Espera! O cenário vai mudar mesmo, como você disse? Ahn... Entendi. Uma mesinha de centro, mas agora sentaremos... É... Ao redor da mesinha, mas totalmente ao redor? Não vai ter uma câmera frontal? Estão estudando ainda a possibilidade; entendi. É, meio esquisito, mas é isso, né. É o que é! É claro que vai ser um sucesso! Nova temporada do Saia Justa, aqui vamos nós!!! Hahaha! Obrigado, querida. Um beijo. Nos vemos já já, né? Ah, estão esperando por mim no Projac? Ih, 16:30 em Curicica? Hahaha! Nossa, tenho que correr! Deixa eu desligar, então, que eu preciso me arrumar correndo. Obrigado, mais uma vez, Tati. Fico te devendo essa. Nos vemos, beijo. -- deu a descarga.
Então, finalmente ela tinha topado. Precisaria sair de Copacabana até o Projac, e provavelmente pegaria algum engarrafamento. Olhou o Uber, e estava dando cem reais. Caríssimo. Entrou no banho. Viu Zeca pelo basculhante e fez uma cara horrível.
-- Zeca, acelera aí, que eu preciso tomar banho também e quero água quente! O bombeiro só vem semana que vem. Vou ter que ir no Projac, mas na volta a gente conversa.
Zeca saiu do banho e voltou para o quarto. Pega o telefone e manda mensagem para Gominho. "Oi, amigo! Acordei aqui. Passo aí para a gente conversar melhor?" Gominho estava com o celular na mão e respondeu logo. "Vem, sim. Mas já traz dinheiro. Vamos ter que ir a São Paulo. Parece que vai haver uma palestra na USP sobre a máquina do tempo com os cientistas da Califórnia. A conferência começa em dois dias. Já faz logo uma malinha e vem."
Paula sai do banho, se arruma e pede o carro. Com as contas bloqueadas, prefere pagar no dinheiro. A carteira só tinha 70 reais. Vai até o armário, sobe na madeirinha do armário embutido e puxa o cofre. Duas giradas para lá, mais três para cá. Pega uma graninha. Ao lado do bolinho de notas de cem reais, estão os seus último bolinhos de dólares, algumas de suas jóias (umas de família e outras da época em que tinha grana), um monte de coisa e, entre elas, a carta que escrevera junto com Caetano para entregar a Zeca na hora certa, que estava chegando, pelo andar da carruagem. Fecha o cofre, mas não gira as roletinhas e deixa a porta do armário aberta, na pressa.

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