quinta-feira, 2 de julho de 2026

Liberdade Craniana

Quero esboçar aqui uma definição diferente para o termo opinião pública, que imagino ser útil para um melhor entendimento da concepção corrente do termo. Opinião pública, segundo a definição que quero dar, seria a opinião que um sujeito se sente livre para proferir em público. Seria a sua opinião, só que pública. Não é incomum vermos, em nossas casas, diálogos que jamais transferiríamos para a esfera pública, e isso não parece ser uma prática que avilte tanto assim a nossa dignidade. Aliás, muito do que sentimos interiormente não tem espaço para uma transliteração inegociada, mesmo em nossas casas, ainda mais se dividimos nossos lares com pessoas diferentes, incorrendo aí até em relações de hierarquia de todo tipo. As permissões, às vezes, autorizam apenas certas manifestações marginais dos sentimentos mais íntimos, devendo ficar na beira das importâncias maiores. Algum toque de sua verdade estará inscrito na verdade geral, como forma de uma negociação afetiva. Posso gostar de algo que não é permitido, mas posso tornar o que é permitido mais próximo daquilo que eu gostaria que fosse, e essa relação é tanto mais transformadora dos sentimentos íntimos idos a público quanto menor é o poder de influência sobre o poder central.

Na formação brasileira, vemos bem esse fenômeno, e Gilberto Freyre já havia percebido. Ora, não é ele quem diz que as manifestações culturais dos povos africanos e indígenas se percebem em instâncias "inferiores", digo, gestuais do nosso patrimônio cultural? Estão na culinária, no sotaque, no jeito como nos relacionamos, mas nunca naquilo que representaria a opinião íntima dos sujeitos que traziam vivas essas tradições em sua interioridade subjetiva. Isso teria sido amortecido e negociado. Além do mais, o Brasil é cheio desse tipo de barganha comesinha, sendo o nosso país famoso por sua capacidade de divertir seus nacionais. Em troca do respeito à norma, à vontade soberana, permitem-nos aliviar o peso do indizível no deleite das nossas vontades mais fisiológicas. Transferimos a nossa intimidade para o gesto. Essa, é bem verdade, foi uma "solução" acomodatícia interessante da nossa formação cultural.

Penso agora em outro contexto em que essa negociação ocorreu, e não sei em que medida posso estabelecer comparações de efeito. Na URSS tardia, a vida pública era bem mais presente do que estamos acostumados aqui no Brasil — mesmo levando-se em consideração a estruturação econômica de uma família brasileira. A intimidade familiar, embora hierarquize a publicidade do dizível na sala, ainda é um anteparo à vida pública. Na URSS, até que todos tivessem apartamentos individuais, as habitações eram coletivíssimas. O espaço para a individualidade era quase craniano, o que exigia graus de confiança elevados para o compartilhamento da intimidade. As implicações políticas disso devem ser fortíssimas, e eu digo isso sabendo do grau de radicalidade da rebeldia permitida nos círculos artísticos da cena não-oficial. Tornar público o que faziam juntos era praticamente uma impossibilidade, e não é à toa que o mundo soviético fosse conhecido pelo double-thinking

Mas há algo de interessante na sociedade soviética, que era o fato de que, a certa altura, quase todos tinham a sua própria casa, o que ampliava o espaço craniano concentricamente, diferente da organização familiar brasileira.

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