Na formação brasileira, vemos bem esse fenômeno, e Gilberto Freyre já havia percebido. Ora, não é ele quem diz que as manifestações culturais dos povos africanos e indígenas se percebem em instâncias "inferiores", digo, gestuais do nosso patrimônio cultural? Estão na culinária, no sotaque, no jeito como nos relacionamos, mas nunca naquilo que representaria a opinião íntima dos sujeitos que traziam vivas essas tradições em sua interioridade subjetiva. Isso teria sido amortecido e negociado. Além do mais, o Brasil é cheio desse tipo de barganha comesinha, sendo o nosso país famoso por sua capacidade de divertir seus nacionais. Em troca do respeito à norma, à vontade soberana, permitem-nos aliviar o peso do indizível no deleite das nossas vontades mais fisiológicas. Transferimos a nossa intimidade para o gesto. Essa, é bem verdade, foi uma "solução" acomodatícia interessante da nossa formação cultural.
Penso agora em outro contexto em que essa negociação ocorreu, e não sei em que medida posso estabelecer comparações de efeito. Na URSS tardia, a vida pública era bem mais presente do que estamos acostumados aqui no Brasil — mesmo levando-se em consideração a estruturação econômica de uma família brasileira. A intimidade familiar, embora hierarquize a publicidade do dizível na sala, ainda é um anteparo à vida pública. Na URSS, até que todos tivessem apartamentos individuais, as habitações eram coletivíssimas. O espaço para a individualidade era quase craniano, o que exigia graus de confiança elevados para o compartilhamento da intimidade. As implicações políticas disso devem ser fortíssimas, e eu digo isso sabendo do grau de radicalidade da rebeldia permitida nos círculos artísticos da cena não-oficial. Tornar público o que faziam juntos era praticamente uma impossibilidade, e não é à toa que o mundo soviético fosse conhecido pelo double-thinking.
Mas há algo de interessante na sociedade soviética, que era o fato de que, a certa altura, quase todos tinham a sua própria casa, o que ampliava o espaço craniano concentricamente, diferente da organização familiar brasileira.

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