Não entender o que Marx aponta com isso não é necessariamente liberdade, sejamos claros. Depois da sua longa divagação sobre o capitalismo e o fetiche, não perceber que a mercadoria é um produto de relações sociais em vultosa grandeza demográfica configuraria uma espécie de negacionismo. Mas resta algo disso, ao menos como sentimento: o autoentendimento da vontade enquanto dimensão fática. Por mais que nos entendamos como meros pontos-filtros da história total, a experiência moderna da humanidade apenas iluminou uma condição que é própria dos seres: o seu isolamento ôntico, o seu acabamento "pessoal", a sua forma individual: o principium individuationis, nos termos apolíneos fundamentais.
A vontade, então, mesmo que incorpore uma epifenomenalidade de facto, não é de jurisdição de um "direito administrativo" do cosmo. A noção de gnose, tão extensamente elaborada, não representa um império absoluto da anterioridade, nem constitui um fluxo contínuo de uma geometria imanente, pelo menos não na nova tradição filosófica brasileira. Aliás, cabe aqui certo comentário, algo crítico, sobre Bruno Latour, estimulado por essa noção de tradição brasileira que vislumbro emergir. É compreensível que se deva agradecer ao serviço desse ilustre francês por multiplicar a noção de infraestrutura, expondo-nos toda sorte de forças anteriores e vitais que operam sobre a "constituição da coisa" e, portanto, do sujeito. Em certa medida, ele nos liberta da teleologia — mas não nos liberta da epifenomenalidade: pelo menos até onde conheço de sua obra. Latour joga-nos na posicionalidade acrítica, na epifenomenalidade do caos, e ainda nos condena a um fazer leninista, justo porque não conseguiu, até agora, compreender como fazer para libertar-nos da escatologia catastrófica.
Mas o agradecimento não se encerra com esse comentário desapontado, porque, no fim das contas, ele nos agracia com essa noção complexa de posição. Com seu ideário, ele dificulta justamente a compreensão eficaz dos motivos por que a alienação deve ser combatida. Vejam bem, ele compartilha, em grande medida, do pensamento infraestruturalista de Marx, mas perde de vista a totalidade do entendimento causal da alienação, liberando a alienação da posição para que se ensaie essa espécie de elogio a ela que aqui pretendo fazer. Latour entende o isolamento do indivíduo e, assim, liberta-o para querer em paz. Os meios pelos quais o indivíduo vai realizar a sua vontade ainda são "impossíveis", no sentido de que a teia de relações infraestruturais ainda opera no nível da negociação e, em última instância, da fuga da morte. Mas é bom que entendamos que o sentido das relações é o dos objetivos individuais das vontades. E, à luz do filósofo mais nietzscheano que o Nietzsche, Leon Chestov, a ingenuidade de crer puramente que conseguiremos aquilo que queremos é que constitui o ideal máximo de saúde. Resta saber se esperamos o milagre, se fazemos feitiços ou se cremos na ciência — e na ressurreição e no gozo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário