quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Hipótese e inquérito para um primeiro esquema de Teoria Geral

Se supusermos que o ser vivo, enquanto organismo, tende à conservação e à expansão de sua própria existência, teremos de entender que, no humano, essa tendência assume a forma reflexiva da liberdade. Supondo-se, assim, uma origem geral telúrica dos humanos e uma tendência dos indivíduos a buscarem sua própria liberdade, temos de chegar a concluir que eles busquem no "eu", na personalidade e em alguma noção básica de propriedade algum abrigo e, a partir deles, a sua máxima exaltação. O avanço, então, dessa tendência em direção ao fato concreto relaciona-se com elementos que são objeto da demografia como especialidade. A hipótese cosmo-vitalista, ou puramente vitalista, supõe que a racionalização do Estado converge para o atendimento de certas demandas que, no limite, definem-se como "necessidades". Traduzindo essa fórmula em uma representação gráfica simples — ou reduzindo-a a uma —, diríamos que, em um eixo, estaria a intensificação do prazer a cada momento e, no outro, estaria a longevidade. Cada indivíduo buscaria, para si, a máxima capacidade de gozar durante o maior período de tempo em vida, tendo-se que o resultado disso seria a imortalidade gozosa

A partir dessa noção vitalista da motivação humana, imagina-se que a busca pelos desejos humanos gera uma relação ambígua com a dimensão material e concreta da realidade. O telurismo da vida contrapõe-se ao seu impulso por alienação, como se o desejo de exaltação máxima do indivíduo o opusesse à concretude, ainda que, para a realização dos seus intentos, um retorno ao chão seja necessário. É um dispositivo de diálogo constante entre o telurismo da vida e o seu desejo de alienação, que se entende como ambição por autonomia, ou, mais simplificadamente, apenas como ambição. Em perfeita conexão com a gravidade, a vida parece querer libertar-se dela, seja orientando-se para a luz, seja por meio do conhecimento da liberdade. Não é inoportuno pensarmos que um incremento demográfico, não apenas quantitativo, mas também qualitativo (no sentido da intensidade do trabalho empregado), leve os humanos a quererem o alto e a quererem habitar o cosmo em liberdade, sem necessitarem de um retorno à Terra propriamente dita. Deixando para trás a sua origem genealógica, desejam transformar a fonte do seu ser na concretude geral da ontogênese, termo este entendido em seu sentido filosófico. Reinventando a sua própria síntese ôntica, almejam ser livres partículas flutuantes independentes flanando pelo cosmo, em busca de situações contingentes aos seus intentos, em oposição ao império da gravidade e da natureza crua sobre a anterioridade sociológica.

Mas a que serve refletir sobre tudo isso? Essa chave principiológica mostra sua utilidade geral se pensarmos, como objeto, na evolução da política de habitação durante o socialismo tardio e, mais abrangentemente, nas perspectivas de política social do final do período do socialismo real. A combinação desse pensamento axiomático com a práxis de racionalização do Estado soviético em seu desenvolvimento histórico permite entrever um entendimento específico de teoria sociológica e antropológica, em profundo diálogo com a psicanálise e com o estruturalismo de Claude Lévi-Strauss. Antes, porém, talvez seja preciso retomar alguns aspectos do ambiente sociocultural do chamado "socialismo desenvolvido", além dos rumos prospectivos da habitação social e da dinamização socioeconômica. Passemos, pois, a um sobrevoo das "condições subjetivas" do cidadão soviético tardo-socialista e, em seguida, a uma discussão a respeito das "condições objetivas", entendendo-se as primeiras como o contexto estético, isto é, o pathos daquela sociedade, e as últimas em termos mais infraestruturais, tais como condições de moradia, distribuição de recursos, nível de escolaridade — temas mais clássicos dos estudos demográficos. Essas informações, reitero, serão úteis para pensarmos uma teoria antropológica e sociológica embasada no princípio cosmovitalista previamente exposto, desdobrando, assim, aspectos da psicanálise e do estruturalismo. São eles: a relação entre a falta gerada no seio familiar, que impulsiona o indivíduo a buscar o desejo fora, na diferença; e o fundamento primeiro do estruturalismo do parentesco, que é a busca por alianças de casamento como resultante da interdição do incesto.

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