quarta-feira, 9 de setembro de 2026

De Volta para o Brasil -- Capítulo 2: o início do supercampeonato

A cada chamada comercial da novela, o Artista pensava em começar a contar ao pai sobre o projeto. Mas como? "Bom, pai, é o seguinte: estou com um projeto de arte..." Não era bem a forma correta. "Tenho pesquisado sobre uns artistas muito transgressores e estou tentando aplicar ao contexto brasileiro, mas aqui meu projeto resulta em coisas ilegais, vou precisar da sua ajuda..." Também não era a forma correta. Até era nisso, de certa forma, que consistia o projeto, mas era bem mais complexo. Pensou em ser factual. "Lembra do Domingos? Então... Cheguei do enterro dele, mas então, deixa eu te contar... ele ressuscitou, ou algo assim, rejuvenescido, e me disse que eu deveria contar para você sobre o meu projeto de arte em que eu falo mal do Chico Buarque e do Caetano Veloso e da Pau.. Pau... Pau...la..." Ele mal conseguia completar o nome dela. Imagina! Criticar a tropicália, a música popular brasileira, assim! Ele perguntaria: "Mas baseado em quê?" Teria que fundamentar muito bem, ele diria. Mas Domingos disse que ele compreenderia! E então voltava a vinheta da novela "Voltamos a apresentar... O Sertão Vai Virar Mar, com o falsete do Zeca, que cortava justamente depois de 'Sol" — mais ou menos assim: 'O sooooooooooooool'". E distraía-se um pouco, pensando sempre naquilo ao fundo. "Era uma crítica cultural transformada em imagem de arte vazia, para expor a própria dinâmica de reprodução cultural, estratégia que iria propor uma ampliação do mercado cultural, de modo a dinamizá-lo, para que se pudesse enviesar a cultura, por meio da sua vanguarda, para um uso prático-revolucionário da arte, iluminada por um aceleracionismo chinês, aproveitando das heterogeneidades intrínsecas ao caldo cultural brasileiro, à la Darcy Ribeiro, mas com um objetivo modernizador revolucionário, tentando resolver o problema lançado por "Terra em Transe", relendo esse mesmo problema à luz do século XXI e da dita "morte das vanguardas" e do "fim das grandes narrativas". Para isso, eu teria de realizar a prática iconoclasta de maneira controlada pela ideologia maoísta, isto é, aplicaria a técnica da teoria da arte moderna mais clássica e transcendental ao contexto brasileiro, utilizando do escândalo que o ataque aos ícones da luta contra a ditadura poderia causar, tentando instigar a população a rever seus conceitos sobre dominação de classe e, ainda, desenvolvendo mais a burguesia nacional no ramo da produção simbólica, para que o Brasil pudesse ser o representante americano da efervescência cultural vermelha, cabendo à China ser a fábrica do mundo e ao Brasil a sua vanguarda superestrutural. Acho que é isso". Foi o que pensou durante o interminável desfile de promoções imperdíveis do comercial do supermercado Guanabara. Mas teria que mostrar as imagens seriais do rosto de Paula Lavigne, sua criação mais afrontosa, em que a representava como a Marilyn Monroe, por pura provocação, ainda que o crime contra a imagem e a honra dela configurasse, aparentemente, um ataque irrisório tanto ao bem dela mesma quanto ao bem comum. Teria, então, que falar de Paula Lavigne com seu pai, o que constituiria uma vergonha. Já tentou pronunciar o nome dela normalmente? Tente, agora mesmo, em voz alta. É praticamente impossível. Se, para uma pessoa normal, essa dificuldade já é grande, imagina para alguém cuja família possui relações de dominação abrasileiradas com ela? É muito pior. Em uma mini crise de pânico ao pensar que teria que mexer nesse vespeiro com seu pai, para pedir sua ajuda e sua representação em juízo contra ela, correu para o quarto.









falar sobre modernização conservadora e roberto schwarz??

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