Empunhando a espada, o Artista saiu correndo pelo corredor, mas foi impedido por Domingos por um momento. Na porta da sala de TV, que separava a parte íntima do apartamento da antessala, Domingos abriu os braços e as pernas e arregalou os olhos. Tinha descido do portal desta vez. O Artista freou bruscamente.
-- Como você pretende realizar a técnica chinesa se nem sabe executá-la? Vejo que está tomado por ódio filial... Isso é ótimo, porque ativa a função edipiana da prática, mas eu precisarei guiá-lo. Tome aqui o panfleto da descrição.
O Artista pegou da mão de Domingos um papelzinho com figuras e movimentos. Algumas legendas em mandarim, inglês e espanhol auxiliaram o artista. Os homenzinhos, em motivo realista socialista, executavam as ações violentas contra outras pessoas, que apareciam jorrando sangue, mas placidamente sorridentes. Stick the sword in the ground and say "see you later, comrade(s)". Then raise the sword and spell the name(s) of the killee(s). Swiftly tackle the target on the neck, crossing the air from the upper-left side to the lower-right side. If there are more comrades to kill, repeat the action. After the procedure, the killer must stick the sword in the ground again.
-- Bem compreendido?
O Artista finalmente encaminha-se para matá-los.
***
Depois de terminado o procedimento, quando a espada estava fincada no chão, o Artista perdeu a consciência. Vê-se, abraçado com seu pai, em um tubo de luz, voando em altíssima velocidade. Cara a cara, os dois olham-se profundamente e giram no próprio eixo. Uma grande emoção toma conta do Artista, que não se contém e começa a chorar. O pai, sem entender, abraça o filho com mais força e diz que está tudo bem. Também voando naquele tubo sobrenatural, surge sua mãe. O pai desaparece para sempre e o Artista abraça sua mãe agora. Os dois ficam girando e se olhando e sorrindo, até que ela diz que ele deve seguir em paz o seu caminho, que não se incomodou com nada.
Quando ele recobra a consciência, encontra-se estatelado na poltrona da sala de TV, com Domingos já dando ordens aos escravos ressuscitados, que não param de sair do portal, que se abriu agora atrás do sofá. Domingos parece um pouco irritado com eles.
-- ALI, ALI!!! -- ele aponta para uma poça de sangue -- Não é possível! -- reclamando, vê que Artista acordou -- Eles falam muito mal qualquer língua moderna. É preciso quase fazer o serviço por eles. Mas estão aprendendo.
O Artista, olhos esbugalhados, vê os corpos de seus pais subirem, em uma maca, pelo sofá, em direção ao portal. São introduzidos em câmaras de vidro, cheias de canos, expelindo fumaça de, supunha, nitrogênio líquido. Quando os escravos fecham a câmara, essa espécie de túmulo, os corpos são drenados para baixo e desaparecem sob o solo do supercomputador atrás do portão. O Artista olha para o lado e vê uma mulherzinha meio barrigudinha digitar no teclado.
-- Edna, por favor! O rapaz está esperando demais, e o seu trabalho foi muito importante.
-- Pois, não Doutor. -- E começa a digitar mais rápido.
Em cerca de dois minutos, ressurgem os pais dele, caminhando do fundo da sala computadorizada, emergindo de uma fumaça branca e densa, rejuvenescidos, calmos e vestidos como se não fossem dos anos 2000. Embasbacado, o Artista olhou para Domingos, incrédulo, enquanto os escravos faziam a assepsia completa, como quem ia perguntar por explicações maiores. Mas Domingos, como de costume, antecipou-se e pôs-se na vanguarda do destino e dirigiu-se ao rapaz.
-- É... Acho que chegou a hora de eu te dar algumas explicações: o que você está fazendo aqui, do que se trata tudo isso que estamos fazendo... Que diabos é isso de um portal transtemporal!!! Hahahaha -- riu-se, imaginando a cabecinha do garoto saindo fumaça. -- Sente-se aqui -- e indicou a poltrona de novo para o artista sentar -- preciso te explicar algumas coisas.

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