quarta-feira, 13 de junho de 2018
domingo, 3 de junho de 2018
complexo jus naturalis
As árvores tinham uma folhagem às vezes grossa, às vezes fina, mas a mata, de todo, era volumosa e densa, e bastava um olhar para um lado e para outro que qualquer um já podia perder-se, caso quisesse continuar o caminho. A mãe estava lá, com seus filhos, amamentando um, em uma pequena clareira que abriu com algum trabalho. Não que estivesse a todo momento alerta contra predadores, mas o estava de todo modo. Era preciso que eles crescessem logo para que dispensassem finalmente a sua ajuda e fossem buscar suas vidas sozinhos, cada um por si, sem olhar para trás. Uma vez saídos dos braços da mãe, correriam para dentro da floresta em busca de parceiros sexuais, de alimentos, e se esqueceriam para sempre dos seus progenitores. Esqueciam até mesmo suas feições, sua espécie, e todos na floresta, no futuro de todos os sujeitos, são seus potenciais inimigos, parceiros e alimentos, em um anonimato noturno e cricrilante que sucede o desenvolvimento biológico de todos. A mesma lambida que retirou a placenta comendo-a para o bem mútuo é a mordida da alimentação faminta, do cerco da caça, o começo e o fim. Um dos filhos partia, outro nascia, outra tinha suas crias.
Ranure já se encontrava a se perder pelas folhagens densas da floresta, enquanto abria espaço sozinho por entre a galhada para movimentar-se em direção a algum norte vital. Farejava, certamente, andava, escutava, seguia. Talvez se esquecesse recorrentemente, mas se lembrava vagamente de um vínculo afetivo quebrado pela lei da natureza, quando teve que partir por força maior de seu clã matriarcal por ter, provavelmente, tornado-se excedente. Crescera e podia partir, naturalmente, na medida em que novos iguais nasciam da mesma mãe. Fora em busca da continuidade para fora do que podia sua mãe e encontrara por aí seres como ele mesmo, sozinhos e viventes, a entrar na água de um rio e a se alimentar do seu.
Um pequeno bando com uns filhotes era presa fácil, e quanto mais cedo se pudesse torná-los fortes o suficiente para irem, menos danosa se tornava a caminhada a esmo dos clãs matriarcais. Quanto mais fortes se tornavam os filhotes, eles também exigiam mais e, certa hora, rebelavam-se e partiam com um rancor que alimentava perpetuamente o seu egoísmo como um mecanismo fisiológico. Iam arrastando-se pelas folhagens, a grunhir de ódio e lágrimas, até passarem a primeira noite sozinhos, e a segunda, e a terceira, indefinidamente, até que se esqueciam: e apenas haviam tornado-se ótimos. Todos os seres que passavam por eles eram o mesmo, e nenhum vínculo se estabelecia nos moldes do amor parental presente apenas na pequena infância.
O olhar pelo plano divino via esses seres ali caminhando como átomos em movimento por um espaço de território restrito, indivíduos de um mesmo tipo, a procurar e procurar, em círculos. A mãe de um não era mais nada dele no médio prazo, podendo-se observar uma porção de mães que já haviam se alimentado de seus filhos adultos, e adultos que já se haviam alimentado da continuidade das famílias que foram forçados a abandonar. Ranure mesmo agora limpava as patas de sangue da fácil presa, que era uma mãe com seus filhotes, que saboreava especialmente, embora sentisse algo sobre-animal que se assemelhava a um mal-estar provocado por um fantasma de memória que poderia fazê-lo querer constituir um abrigo mais duradouro, porque aquela caça tinha sido consequência de alguns dias de fome grave; e até hoje achava injusto ter tido que ser expulso por ter sido excedente, consequência dessa mesma fome, que era fruto da falta, que fora imposta, a todas os seres da floresta, sob a forma empírica e existencial da restrição -- ou da interdição -- materna.
Ranure já se encontrava a se perder pelas folhagens densas da floresta, enquanto abria espaço sozinho por entre a galhada para movimentar-se em direção a algum norte vital. Farejava, certamente, andava, escutava, seguia. Talvez se esquecesse recorrentemente, mas se lembrava vagamente de um vínculo afetivo quebrado pela lei da natureza, quando teve que partir por força maior de seu clã matriarcal por ter, provavelmente, tornado-se excedente. Crescera e podia partir, naturalmente, na medida em que novos iguais nasciam da mesma mãe. Fora em busca da continuidade para fora do que podia sua mãe e encontrara por aí seres como ele mesmo, sozinhos e viventes, a entrar na água de um rio e a se alimentar do seu.
Um pequeno bando com uns filhotes era presa fácil, e quanto mais cedo se pudesse torná-los fortes o suficiente para irem, menos danosa se tornava a caminhada a esmo dos clãs matriarcais. Quanto mais fortes se tornavam os filhotes, eles também exigiam mais e, certa hora, rebelavam-se e partiam com um rancor que alimentava perpetuamente o seu egoísmo como um mecanismo fisiológico. Iam arrastando-se pelas folhagens, a grunhir de ódio e lágrimas, até passarem a primeira noite sozinhos, e a segunda, e a terceira, indefinidamente, até que se esqueciam: e apenas haviam tornado-se ótimos. Todos os seres que passavam por eles eram o mesmo, e nenhum vínculo se estabelecia nos moldes do amor parental presente apenas na pequena infância.
O olhar pelo plano divino via esses seres ali caminhando como átomos em movimento por um espaço de território restrito, indivíduos de um mesmo tipo, a procurar e procurar, em círculos. A mãe de um não era mais nada dele no médio prazo, podendo-se observar uma porção de mães que já haviam se alimentado de seus filhos adultos, e adultos que já se haviam alimentado da continuidade das famílias que foram forçados a abandonar. Ranure mesmo agora limpava as patas de sangue da fácil presa, que era uma mãe com seus filhotes, que saboreava especialmente, embora sentisse algo sobre-animal que se assemelhava a um mal-estar provocado por um fantasma de memória que poderia fazê-lo querer constituir um abrigo mais duradouro, porque aquela caça tinha sido consequência de alguns dias de fome grave; e até hoje achava injusto ter tido que ser expulso por ter sido excedente, consequência dessa mesma fome, que era fruto da falta, que fora imposta, a todas os seres da floresta, sob a forma empírica e existencial da restrição -- ou da interdição -- materna.
segunda-feira, 7 de maio de 2018
o objeto para o materialismo histórico crítico
Se se pretender realizar uma teoria do objeto nos termos do meu proposto materialismo histórico crítico, será indispensável que se passe pela acepção psicanalítica do termo objeto. É a dimensão vital-fisiológica que determina o viés pelo qual o sujeito lerá a condição do mundo. São, portanto, as suas estruturas reguladoras de vitalidade contemplada que definirão o comportamento do sujeito com relação às formas do mundo. O interesse vital de cada sujeito, por sua vez, deve ser entendido como a forma libidinal que emana do sujeito, que a entidade desejo assume. É esse funcionamento vital-fisiológico que desperta tanto a luta de classes quanto o fetiche que a mercadoria exala -- na inveja, na ganância. Se levarmos em conta a historicidade e a trans-historicidade desse fenômeno, perceberemos que o objeto de desejo é transmitido e transfigurado, superado, pelo desdobrar-se dos conflitos geracionais inter e intra familiares. As entidades genético-biológicas, que são os indivíduos, disputam espaços de contemplação dos seus interesses vitais para si mesmos, o que repercute no esforço pela manutenção das suas entidades genéticas, da maneira mais exaltada possível. Por isso, inconscientemente, disputamos libidinalmente: porque a sexualidade é a forma pela qual os sujeitos enxergam o mundo em última instância, com ganas de buscarem realização e prazer na insígnia do status vital, ou auto-sócio-prestígio, algo que é herdado pelas conquistas e acúmulos das disputas geracionais do passado e limitado pela condição física do mundo.
sábado, 5 de maio de 2018
propensão marginal a gozar
O conhecimento é fruto do ressentimento, como algo que funciona porque, no sujeito, é provocada dor, e se a quer aliviada. O ressentimento, por sua vez, é a maneira natural de expressão da luta de classes, o que leva a crer que a própria luta de classes provoca, pelo ressentimento, sua feição vital-fisiológica, as motivações de sua superação; porque se é vida, organismo. A luta de classes provoca conhecimento, e o conhecimento é sempre produto do desejo de superação deontológica da dor, indefinidamente na História, sem que a dor, enquanto sensação relativa, jamais desapareça totalmente -- assim como infinitas são as possibilidades econômicas da humanidade e a propensão marginal dos humanos a gozar.
quarta-feira, 3 de janeiro de 2018
por uma visão kantiana do fetichismo de mercadoria
Entendemos que a realidade produtiva funciona como base de toda sociedade. Devemos agora compreender como ocorre o fetichismo da mercadoria pela visão subjetiva do processo. Já se entende que os homens produzem e consomem, resultando na importância que se dá ao sistema produtivo. O dever agora é explicar o que as mercadorias despertam nos sujeitos, isto é, que motivações individuais os seres humanos, biológicos, encontram na mercadoria para que possam querer apropriar-se dela, a fim de se enaltecerem. Para isso, é preciso pensar no poder simbólico emanado pela mercadoria, que se apodera dos seres humanos: um poder simbólico que os enaltece, que estimula e dá combustível ao seu instinto vital. Por meio da mercadoria, os homens desfrutam, exibem-se e estruturam as suas vidas e as das suas proles. O resultado biológico do fetichismo de mercadoria é que deve ser compreendido agora.
Marcadores:
economia e imortalidade,
fetichismo de mercadoria
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