Desta vez, Zeca estava em outro lugar. Uma espécie de cafofo futurista distópico. Ele vestia como que uma armadura de algo como látex. Aquilo era um barraco. Ao seu lado, Gominho dormia engraçado. Enrolou-se para o lado, puxou uma coberta estranha. Ele estava dormindo em um estrado direto no chão. "Eu também", deu-se conta. Uma poeira cósmica se embolotava por todos os cantinhos que havia até onde seus olhos podiam ver ao seu redor. Uns panos pendurados, portas metálicas semi-abertas, botões, peças e aparelhos piscando e fazendo barulhos eletrônicos e pneumáticos. E havia cipós pendurados do lado de fora, pelo que conseguiu ver pela fresta de uma das portas. Meio acima de Zeca, havia uma tela grande com um teclado de comando também grande. Várias prateleiras com um milhão de coisicas. Eles eram refugiados? Ele entendia que sim. De repente, a tela liga. É uma vídeo chamada. Ele olha para a tela, esfrega os olhos e tenta ler o que está acontecendo. Preta Gil, do planeta El Dorado, está ligando. Zeca aperta um botão que piscava, e a chamada abre. Inacreditavelmente, é Preta mesmo quem atende. Ele se emociona. Ela está em uma sala super computadorizada, está de cabelo platinado, mais gorda. Sua sonda gástrica estava lá ainda, a pobre, mas talvez estivesse refuncionalizada -- era o que deixava imaginar o formato da prótese. Ela começa a falar:
-- Zeca! Zeca! Acorde, vocês precisam sair daí.
Gominho acorda em um susto e assume a frente da conversa.
-- Oi, amiga. Estamos aqui, estamos sem combustível! Você precisa nos ajudar.
-- Estou enviando alguns galões, eles devem estar chegando por agora. A Paulinha já descobriu o paradeiro de vocês e está anunciando por toda a galáxia.
Ela invade a chamada. Está furiosa. Zeca não a reconhece de primeira. Ela está bem mais jovem e com roupas enlouquecidas. Ele reconhece a verve, sobretudo.
-- Não adianta fugir! Finalmente consegui encontrar você. Vamos enviá-lo para o passado novamente e cumprir o que o destino manda. Você precisa terminar de gravar o álbum novo!
Eles ouvem alguns zunzunzuns. Desesperam-se. Gominho apressa-se em desligar o comunicador; Zeca atônito. Uma pessoa, encapuzada, abre a porta metálica capenga com um tapão e entra. Os cipós movimentam-se, o rosto coberto pela sombra... Mas são os amigos de Preta... que rapidamente se identificam. Precisam encher os tanques o mais rápido possível para irem todos embora dali.
-- Paulinha está uma fera. Desde que foi enviada para cá, com 13 anos, nunca a vi dessa forma. -- disse o homem.
Aquele rosto era conhecido, mas Zeca não lembrava bem.
-- Ela descobriu tudo finalmente, e agora quer acertar as contas com o passado. Você precisa sair do radar dela, até que consigamos um momento oportuno para realizar o plano.
Os barulhos ressurgem. Agora só pode ser ela. Arrumam as coisas rapidamente, ligam a nave e saem voando de fininho, por dentro das formações ecológicas e por entre os acidentes geomorfológicos do planeta desconhecido, mergulhando nas rochas e escondendo-se às sombras, até que decolam finalmente para o espaço. Aliviado, o garoto vê pela janelinha da nave a esfera verde diminuir progressivamente, cada vez mais ao longe. Gominho e os outros caras respiram fundo, e todos começam a dar risadas de comemoração. Zeca, ao mesmo tempo, assiste a tudo isso espantado. Sua mãe de 13 anos estava naquilo que supunha ser um futuro? Os homens encapuzados teriam levado ela para lá? E a sua versão que aparentava uns 17, que foi colocada no lugar? De onde tinha vindo? O que estava acontecendo?
Ele acorda. São 4:30 da manhã. Abre a porta do quarto
e bisbilhota para o corredor. Tudo escuro. Ouve sua mãe roncando no quarto,
avança, passa pela sala de TV, acende a luz do abajur e chega à cozinha, em
relativa paz. Comeria sem ninguém por perto. Pega novamente o pirex do arroz, o
do feijão, o da lasanha. Esquenta o prato no micro-ondas, come e volta para o
quarto, silenciosamente. Sua mãe, no seu próprio quarto, tampouco está tendo um
sono tranquilo. Sem que eles saibam, existe uma configuração astronômica
propícia para isso. Bate-se, de leve, na cama, vira a cabeça de um lado para o
outro no travesseiro. Sua frio, até que acorda, assustada, arregalando os olhos,
se pudéssemos ver por cima seu rosto acordando em susto. Levanta para beber
água, no mesmo momento em que Zeca fecha a porta do quarto para voltar a
dormir. Ela ouve um chiado da televisão do garoto e reprova.

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