segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Esta é a segunda feira mais importante da minha vida.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

De Volta para o Brasil: Capítulo 3 - Sai da frente que atrás vem gente

Desceram do Uber, na rodoviária, completamente fora de si. Olharam a escada rolante:

— Por aqui, Zeca! — disse Gominho, vendo que ele se distraía em meio ao turbilhão de pessoas que o cruzavam.

Ao subir a máquina, com suas mochilas e umas caras de malucos, depararam-se com um inconveniente. As pessoas reconheciam Gominho, o que atravancava o avanço da travessia, completamente aplastados que estavam pela experiência elevada e temperada por sintéticos e orgânicos em que se viam. Uma ou outra reconhecia Zeca. É claro que isso era estranho, oras. Por que reconheciam Gominho mais do que a Zeca? Os que reconheciam Zeca só poderiam ser interventores do futuro, e o garoto se assustava. A multidão da rodoviária às 18:00 era mesmo uma loucura. A todo momento estavam a ponto de perder-se, e não era só por causa do efeito da ketamina: o chão parecia chegar um segundo depois dos passos, e as vozes dos alto-falantes vinham como que de dentro d'água. Certamente, a droga, por seus efeitos de transe, dificultava o entendimento, corrompendo as faculdades mentais da dupla. Seguiram, todavia, com uma estranha convicção, fortemente engajados na epopeia, em direção ao guichê da Autoviação Cometa. Escolheram essa companhia, pela ironia, é claro, mas também porque, com esse nome, se sentiram estranhamente mais seguros, o que era parte da ironia: ou mais, era parte do comprometimento cósmico que se antecipava, a todo momento, aos fatos.

— Duas passagens para São Paulo, por favor. — pediu Gominho à atendente do guichê, que reconheceu o amigo de Preta.

— O senhor não é o…? — disse ela, não escondendo o seu contentamento.

— Sim, sou! — disse ele risonho.

— Que saudade da Preta, viu? — completou ela, baixinho, como quem passa um recado. O sorriso de Gominho ficou um instante a mais no rosto. Zeca, ao fundo, parecia absorto em suas próprias alucinações senso-motoras. Apresentava uma cara plácida, os olhos abertos, mas meio tombados e a boca levemente aberta, com a sua mochila da Kipling, pesada,  arqueando-lhe a coluna.

Gominho despediu-se da moça do guichê e logo puxou Zeca pelo braço. Zeca estava pior que Gominho... Sempre tem alguém que fica mais doido. Encaminharam-se para a plataforma de embarque, e o ônibus já estava quase para sair. Compraram os tíquetes das 18:30. Entraram logo no automóvel e posicionaram-se nos seus lugares no andar de baixo, no leito. Zeca não conseguiria viajar de semi-leito, Gominho imaginara. O pobre... Achou melhor comprar o leito, para evitar constrangimentos no futuro. Além do mais, no leito, dependendo de quantas pessoas embarcassem com eles, poderiam conversar mais abertamente, fechar a cortininha e continuar usando as drogas. Acomodaram-se nas suas poltronas 05 e 06, recostaram seus assentos e recomeçaram a usar os seus estimulantes. Apenas uma única mulher sentou-se na poltrona de número 01, uma moça de um tailleur cor-de-rosa, aparentemente acima de qualquer suspeita, mas, diante do absurdo dos fatos recentes, não conseguiram controlar seus pensamentos. Era um rosa que não combinava com ônibus nenhum, e, por isso mesmo, parecia o único lugar onde poderia estar. O carro deu a partida, e os dois, por alguns minutos, silenciaram, conforme o ônibus começava a sair do perímetro urbano da cidade do Rio. Olharam pelas janelas — aquela paisagem horrorosa da periferia do Rio de Janeiro —, mas logo anoiteceu e começaram a subir a serra das Araras, falando pelos cotovelos.

Em dado momento, no meio da estrada, o ônibus encontrou um engarrafamento insustentável. Simplesmente pararam de andar. Nervosíssimos, sem saber o que se passava, começaram a falar alto, reclamando do acontecimento. Começaram a discutir as mais alucinadas teorias sobre o engarrafamento, até que a moça de rosa esclareceu os fatos: tratava-se de uma obra de duplicação da rodovia Presidente Dutra, que já se arrastava por meses. Estava assim sempre, ela informou, uma vez que pegava aquele ônibus rotineiramente. Os dois esboçaram um semblante de compreensão, mas a moça não parou de falar imediatamente, o que os cansou muito rapidamente, porque não conseguiam mais controlar suas expressões faciais. Estavam inquietos e, em mais um engarrafamento, estavam a ponto de explodir. Um pouquinho a mais dessa. Agora um pouquinho a mais dessa. Dentro do espaço isolado que a cortininha criou, conversavam, faziam planos, espantavam-se, mas, acima de tudo, agoniavam-se. O tempo passava cada vez mais depressa, e eles precisavam chegar ao campus do Butantã a tempo da apresentação do professor Chili. O tempo urgia e a Sapucaí, digo, a Dutra era grande.

Quando pararam no Graal de Resende, já estavam completamente enlouquecidos e desesperados. Já eram 2 horas da manhã. Se chegassem em São Paulo sem nenhum engarrafamento, não teriam tempo de dormir. Passar pelo Airbnb reservado por Gominho começava a tornar-se um sonho distante. Aquela parada ainda duraria mais meia hora... Mas, como estavam naquela cabine há horas e esbaforidos, levantaram-se prontamente quando o carro estacionou. A mulher de rosa saiu antes deles, e eles correram para fora para fumar. Ela foi logo para dentro do Graal, enquanto eles ficaram na frente do ônibus. Parados ali em frente, Gominho começou a atrair a atenção dos passantes. Todos o identificavam, e ele não teve outra opção a não ser agradar ao público e tirar fotos e conversar. Uma senhora, de chinelo e uma blusinha com uns chapiscos vagabundos e unhas compridas e esmaltadas, segurou-lhe o braço com as duas mãos: "Era você quem mais fazia ela rir, né? Ela falava de você até na última entrevista." Gominho abriu a boca para responder e não encontrou sequer um verbo: "Com certeza…" Na situação em que se encontravam, a interação com o público despertou sensações inauditas, e Gominho se viu, a certa altura, completamente perdido. Zeca, que via aquilo com certo desdém, talvez uma recôndita inveja, afastou-se de Gominho e entrou no Graal, em busca de um banheiro. Quando entrou no banheiro, fez xixi no urinol e voltou-se para o balcão da pia. Olhou pelo espelho no fundo dos seus próprios olhos, pensando que talvez todo aquele mundo deixasse de existir, caso completassem a missão, e que deveria haver alguém rondando-os, que quisesse impedi-los de executar o plano. Demorou a perceber o que havia de errado: o reflexo piscou um instante depois dele. Saiu do banheiro, sem olhar para trás, e viu a mulher de rosa sentada em uma das mesas, comendo o seu super-faturado salgado.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

reflexões embrionárias sobre o legado neoconcreto e algumas de suas contradições

Depois que Hélio Oiticica rompeu com a fronteira entre o quadro e a vida ficou muito difícil, para um artista, separar a sua vida da sua obra, o que resvala na possibilidade de que as novas obras de arte se tornem obras de arte totais. Segundo Hélio, a pintura teria chegado ao nível de fazer-se fora do quadro, tendo ele defendido o termo da "pintura depois do quadro", argumentando, por exemplo, quando ele pegava um pedaço de asfalto da Presidente Vargas, que o deslocamento daquele objeto para o "transe" da contemplação artística já representava uma forma de pintura. O artista, então, depois de Hélio, é um pintor do mundo, um transformador, em última instância, da vida comum em arte. 

Essa forma de fazer arte, contudo, implica uma mutação do estatuto de arte de uma contemplação objetual para uma contemplação polissensorial e pervasiva. E o artista, esse novo pintor do ser, torna-se, ele mesmo, uma espécie de refém e maestro, de sua arte e de sua vida. Antes, o artista selecionava os objetos ou os materiais ou certa perspectiva e a imprimia em um objeto, operando como que uma redução fenomenológica do seu próprio si. Atualmente, a vinculação da arte inseparavelmente da vida revela uma consequência para a arte que é transformar o ofício do artista em uma tentativa de esculturação da vida para o seu propósito, que, segundo Hélio, é de cunho inventivo.

Não sei bem se Hélio tinha em mente que essa sua proposição de romper a fronteira entre o quadro e o mundo poderia incorrer nesse risco existencial ao artista, ou se ele imaginava que a arte criaria um duplo total do mundo, reinterpretado sob o olhar da arte. Se a arte cria, então, um segundo mundo com arte, o resultado é ele também um segundo frame, talvez um frame expandido, mas sempre e de toda forma um quadro, um recorte. Se ele seleciona objetos e os eleva ao nível de arte, estará fazendo como os predecessores dessa tradição, criando, na prática, um objeto a ser contemplado, reproduzindo a perspectiva imagética do objeto.

Se formos precisos na análise dos resultados da transformação que o rompimento da fronteira arte/vida trouxe para o campo da arte, teremos de pensar em como o relevo da arte sobre a vida continua a selecionar arte diante da vida, resultando no fracasso da sua proposta. Ou, se supusermos que o correto é o que propôs Hélio, cairemos em um paradoxo que será o da totalização da vida como arte e da relação de passividade dos sujeitos de arte em relação à artisticidade do todo sobre o observador. O máximo que se poderia conseguir seria uma anti-escultura, como um apelo negativo ao todo do ser. A proposição da arte acaba sempre produzindo um recorte imagético, e talvez seja por isso que tenha surgido o neo-expressionismo e a transvanguarda — apenas como uma multiplicação de meios e como uma retomada da autoria, enquanto ponto de partida fenomenológico.

Porque, sim, se o artista seleciona, mesmo que como despertador de um processo, aquilo que deve dar o ponto de partida para o olhar de arte no mundo, acaba sendo difícil separar, no seu "novo objeto", aquilo que ele tem de si enquanto background existencial daquilo que ele chamará de invenção. O que há de si na sua invenção é, invariavelmente, um aspecto expressivo, e essa expressão surge por motivos que se revelam no significado artístico do que se vê, normalmente de uma necessidade pessoal do artista, que leva em conta um conteúdo hylético, inconsciente: aquilo que lhe falta no mundo. Assim, se um artista que procura vinculação à tradição neoconcretista desejar fazer a operação de fusão arte/vida que Hélio propôs, ele terá de tornar-se um maestro de sua própria vida, criando um enredo de si que seja como a sua própria expressão de desejo sobre o ser. Ativamente, realizará sua anti-escultura intencionalmente; e deixará transparecer, por meio da afirmação do seu desejo, o sentido maior da arte, que é o da afirmação total da liberdade: da expansão da liberdade para a totalidade, dos viventes e dos objetos. A expressão, se for ela a guia do artista em sua empreitada total sobre a vida, possui um significado, que é o significado da liberdade como projeto humano, o que, contudo, ocasiona o sacrifício do cotidiano.

Mas isso tem uma consequência, como disse, para o artista que surge dessa tradição, que é o da submissão da sua vida ao seu próprio projeto. Querer aqui e ali é diferente de querer como um todo. Querer aqui e ali pode ser arte e vida, mas é, antes, um inventário de artes descobertas e realocadas. É um apanhado de artes que se encontrou pela vida. Agora, se, tomando para si o significado da arte e transpondo para o mundo a sua impressão fenomenológica, o artista realiza sua obra total, ele poderá pintar o mundo ao seu desejo, sublinhando, com isso, a possibilidade do mundo ser da forma que ele quiser (ele como índice de cada um). Será ele um artista de si, um artista do mundo e um vitorioso sobre si, ainda que isso implique um sacrifício da sua vida em nome da arte. Ele incorrerá, contudo, ainda no mesmo erro, na mesma contradição: a criação de uma imagem, mesmo que abrangente, ainda que esteja advogando pela capacidade de transformação da vida e do mundo, em oposição a uma tradição arte/vida que apenas padece do mundo; estará fazendo uma representação do mundo, mesmo que esta seja uma operação de transformação do mundo e a tradição neoconcreta seja mais passiva.

Toda essa reflexão, contudo, como disse, ainda é muito embrionária. Ela se deu porque identifiquei algumas contradições no programa arte/vida neoconcreto, porque ainda não consegui conceber exatamente como a vida e a arte poderiam constituir a mesma coisa, sem que se realizasse uma operação de intencionalidade fenomenológica sobre o "novo objeto". Eu teria de entender, então, melhor o sentido de invenção para Hélio, naquilo em que ele se diferencia da expressão, para, em seguida, tentar expor melhor o teor transformativo e, mais propriamente, político que eu tento atribuir à expressão e à sua aplicação enquanto "invenção-expressiva", como força artística que transforma o "eu" em obra de arte total com sentido. Porque o que proponho, no fundo, consiste em uma reesculturação do si pelo desejo, como se pudéssemos ser uma colagem do tudo al negativo e, com isso, expressarmos a nossa liberdade de forma ativa. Mas isso incorre em sacrifício...

E esse sacrifício poderia incorrer em uma criação de um lixo artístico, que deveria ser investigado mais tarde. Seria o lixo daquilo que ficou de fora da invenção expressiva total, o não-representado, o não-reconvertido em arte. Seria a realidade mesma? Talvez fosse a arte apenas a parte pública da atividade nesse sentido, e o que não a fosse representasse um novo âmago de individualidade, aquilo que nem o exercício radical de liberdade conseguiu extrair de si, ou aquilo que sobre no sujeito como consequência do seu impulso por libertação do trauma.

Vislumbro, porém, uma esperança no projeto arte/vida total/expandido. Ora, se, com o neoconcretismo, a experiência da arte é maior que o sujeito, e ele a vive como uma experiência multiforme, a postulação de um novo tipo de arte fundida com a vida na forma de uma arte total como invenção expressiva é a criação de um ambiente em artifício para o sujeito em que ele se protege e projeta a partir do que julgar ser necessário e desejável por ele como instrumento da sua dignidade e da sua felicidade. A relação do "eu", como artifício, com o trauma — se transposta à arte enquanto missão total fenomênica do si — será uma salvaguarda do poder de escolha e da atividade do sujeito sobre o mundo, o que complementaria o postulado ontológico do neoconcretismo, garantindo ao legado que ele nos deixa algo a mais do que um desfrute passivo da percepção.

Do contrário, realizaríamos um segundo retorno, uma segunda concessão ao objeto tradicional e entregaríamos à arte objetual uma versão dos fatos, da qual nos liberamos como que por nojo para podermos viver o cotidiano, sem implicações éticas maiores sobre a construção do sujeito e sobre o papel dessa construção na configuração do mundo. Ou não, e então esse seria um recurso que nos permitiria revolver perpetuamente o lixo de nós mesmos, e a operação da arte seja sempre ela total e sempre em fusão com a vida, de modo que a criação da versão é nosso artifício maior, e a pintura fora do quadro, o novo objeto de arte e a totalização da vida em arte sirvam para, de quando em quando e de tanto em tanto, revirar e reinscrever. De quando em quando, olhamos para cima em busca de respostas, que nós mesmos damos, como fotografias totais, vindas de certo umbigo, umbigo este inserido no cosmos, como se um buraco negro minúsculo.

E assim teremos sempre como horizonte o novo objeto.

Sei lá.

E talvez outra conclusão disso seja que a formulação de novos objetos que recortam a realidade como uma representação ingenuamente megalomaníaca dela mesma funcione como uma consequência inevitável do programa sensorialista da Tropicália. Quando Hélio formulou a Tropicália, ele imaginou a sensorialidade sendo vivida naquelas instalações; condenou, consequentemente, o uso reduzido ou acabado daquele tipo de experiência em uma forma objetal, criticando, assim, um Tropicalismo como produto, como objeto de arte, que podia, por seu finalismo formal, ser comercializado. Algo como a crítica de Nietzsche a Wagner. Talvez a questão, agora, não seja mais tanto criticar a operação tropicalistizante e mais entender que toda Tropicália resulta em algum Tropicalismo. E que esse tropicalismo pode ser refeito a cada nova fotografia total do vivente — e será refeito, sobretudo, a partir do que não foi recortado antes, portanto, a partir de uma matriz de "lixo tropical", porque o lixo constitui o total que a fusão arte/vida explora. Faz parte da empreitada tropicalista a passagem pela intenção total da tradição arte/vida. Ora, para refazer constantemente esse novo objeto tropical, tropicálico e tropicalista, teremos de revisitar o lixo tropical, o lixo que ficou fora das formas acabadas do tropicalismo, para recriar o tropicalismo por baixo de novo, até que ele precipite – ou flote, eleve-se – em uma nova forma acabada e visível, objetual.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

 preciso saber se estou dando muitas explicações no texto. se deveria deixar as coisas acontecerem no non-sense. Mas acho que tenho que explicar alguma coisa sobre o funcionamento do futuro. Nos ultimos trechos dei umas explicações, mas estou com medo de estar deixando a coisa meio travada. mas nao sei direito como fazer. Acho que dei umas explicações antecipadas. Talvez deva explicar só agora no momento fina do ultimo trecho o que expliquei antes, como a questao do pcc e dos ressuscitados.

De Volta Para o Brasil: Capítulo 3 -- Sai da frente que atrás vem gente

Empunhando a espada, o Artista saiu correndo pelo corredor, mas foi impedido por Domingos por um momento. Na porta da sala de TV, que separava a parte íntima do apartamento da antessala, Domingos abriu os braços e as pernas e arregalou os olhos. Tinha descido do portal desta vez. O Artista freou bruscamente.

-- Como você pretende realizar a técnica chinesa se nem sabe executá-la? Vejo que está tomado por ódio filial... Isso é ótimo, porque ativa a função edipiana da prática, mas eu precisarei guiá-lo. Tome aqui o panfleto da descrição.

O Artista pegou da mão de Domingos um papelzinho com figuras e movimentos. Algumas legendas em mandarim, inglês e espanhol auxiliaram o artista. Os homenzinhos, em motivo realista socialista, executavam as ações violentas contra outras pessoas, que apareciam jorrando sangue, mas placidamente sorridentes. Stick the sword in the ground and say "see you later, comrade(s)". Then raise the sword and spell the name(s) of the killee(s). Swiftly tackle the target on the neck, crossing the air from the upper-left side to the lower-right side. If there are more comrades to kill, repeat the action. After the procedure, the killer must stick the sword in the ground again. 

-- Bem compreendido?

O Artista finalmente encaminha-se para matá-los.

***

Depois de terminado o procedimento, quando a espada estava fincada no chão, o Artista perdeu a consciência. Vê-se, abraçado com seu pai, em um tubo de luz, voando em altíssima velocidade. Cara a cara, os dois olham-se profundamente e giram no próprio eixo. Uma grande emoção toma conta do Artista, que não se contém e começa a chorar. O pai, sem entender, abraça o filho com mais força e diz que está tudo bem. Também voando naquele tubo sobrenatural, surge sua mãe. O pai desaparece para sempre e o Artista abraça sua mãe agora. Os dois ficam girando e se olhando e sorrindo, até que ela diz que ele deve seguir em paz o seu caminho, que não se incomodou com nada.

Quando ele recobra a consciência, encontra-se estatelado na poltrona da sala de TV, com Domingos já dando ordens aos escravos ressuscitados, que não param de sair do portal, que se abriu agora atrás do sofá.  Domingos parece um pouco irritado com eles.

-- ALI, ALI!!! -- ele aponta para uma poça de sangue -- Não é possível! -- reclamando, vê que Artista acordou -- Eles falam muito mal qualquer língua moderna. É preciso quase fazer o serviço por eles. Mas estão aprendendo. 

O Artista, olhos esbugalhados, vê os corpos de seus pais subirem, em uma maca, pelo sofá, em direção ao portal. São introduzidos em câmaras de vidro, cheias de canos, expelindo fumaça de, supunha, nitrogênio líquido. Quando os escravos fecham a câmara, essa espécie de túmulo, os corpos são drenados para baixo e desaparecem sob o solo do supercomputador atrás do portão. O Artista olha para o lado e vê uma mulherzinha meio barrigudinha digitar no teclado.

-- Edna, por favor! O rapaz está esperando demais, e o seu trabalho foi muito importante. 

-- Pois, não Doutor. -- E começa a digitar mais rápido.

Em cerca de dois minutos, ressurgem os pais dele, caminhando do fundo da sala computadorizada, emergindo de uma fumaça branca e densa, rejuvenescidos, calmos e vestidos como se não fossem dos anos 2000. Embasbacado, o Artista olhou para Domingos, incrédulo, enquanto os escravos faziam a assepsia completa, como quem ia perguntar por explicações maiores. Mas Domingos, como de costume, antecipou-se e pôs-se na vanguarda do destino e dirigiu-se ao rapaz.

-- É... Acho que chegou a hora de eu te dar algumas explicações: o que você está fazendo aqui, do que se trata tudo isso que estamos fazendo... Que diabos é isso de um portal transtemporal!!! Hahahaha -- riu-se, imaginando a cabecinha do garoto saindo fumaça. -- Sente-se aqui -- e indicou a poltrona de novo para o artista sentar -- preciso te explicar algumas coisas.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

O Artista, contudo, hesita. É tomado por um remorso sem precedentes. Quis corrigir muito do que disse ao pai naquela conversa. Reescrever a história dos dois. Rechaçou, por um momento, a espada de Doutor Domingos e, em profunda crise de consciência, pergunta se não há outra solução; certamente haveria. Domingos pediu um minuto, com um semblante mudado, uma expressão de desaprovação. Consultou seu supercomputador. Voltou, arrastando-se pelas rodinhas da cadeira. 

-- Bem... Você pode cometer suicídio também, mas isso representaria uma enorme derrota para a China. 

-- Para a China?

-- Sim, uma vitória para os Estados Unidos. É hora de você entender. Escute: somos nós, não os americanos, que buscamos nos antecipar aos fatos. Fomos nós que descobrimos tudo, que agimos para tudo. Os americanos fazem de tudo para impedir que cheguemos cada vez mais longe. Eles só assistem. Eles só querem assistir. Tudo o que fazem é uma defensiva, porque isso conserva a riqueza com eles. São tão estúpidos. Assim, se você se suicidar, será uma derrota de toda uma frente de operação cósmica, criada pela humanidade. Lembra que te disse dos escravos ressuscitados? Então... Só podemos ressuscitar os que já morreram. E a morte e a destruição são condições para a reversão de tudo.

-- Meus pais ressuscitarão, então? 

-- Bem... Existe uma fila de prioridades de ressurreição. Podemos peticionar junto às autoridades competentes. Tento falar com gente importante para interceder a nosso favor. É do interesse deles que essa engrenagem se reverta, digo, que você execute o plano. Podemos pedir que eles ressuscitem logo que você os matar. Um minuto.

Domingos afundou o dedo em uma tecla piscante e aguardou. O som de uma marcha revolucionária chinesa em 8 bits ecoou das entranhas do supercomputador, seguido pelo chiar de uma linha telefônica transdimensional. Ele trocou poucas palavras em um tom apressado, argumentando com jargões técnicos.

Ao desligar o fone, retornou à borda do portal com um brilho de triunfo no olhar.

-- Consegui. Um aditivo de urgência ao protocolo. Se você proceder com a liquidação imediata, a certidão de óbito entra em regime de prioridade absoluta. Eles furam a fila. Passam na frente até dos camponeses da dinastia Ming e dos tecelões da Revolução Industrial. Seus pais entram como "colaboradores compulsórios da vanguarda" e são recriados imediatamente.

-- Mas eles voltam... exatamente como eram? -- indagou o Artista, ajeitando o cabo da espada, cuja lâmina parecia agora pesar um pouco menos.

-- Voltam infinitamente melhores! -- disse Domingos, gesticulando com empolgação --  Além de rejuvenescidos, eles renascerão atualizados, afinados com o programa. Em suma: você elimina o pai estático para receber de volta um pai dialético. E em outro mundo. Não perturbarão mais; estarão aqui, felizes, sempre te estimulando. É o ato mais filial e revolucionário que você poderia praticar.

O Artista olhou novamente para o corredor. O som do telejornal continuava ao fundo. A perspectiva de assassinar os pais não para destruí-los, mas para salvá-los, parecia agora a escolha mais razoável e afetuosa possível.

Ele ergueu a espada chinesa, sentindo a convicção voltar-lhe ao peito e avançou, em velocidade, pelo corredor.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

De Volta para o Brasil -- capítulo 2: o início do supercampeonato

O Artista abre a porta do quarto e dá de cara com o Doutor Domingos aparecendo por uma transparência, um buraco de minhoca, um portal cósmico. 

-- Muito bem! A formulação está excelente. Nem precisamos discutir a forma de apresentação para o mundo. Eu devia ter imaginado... que você estava pensando direitinho; mas me enganei. Quando eu ouvia você falar, naquela época, não via sentido nenhum, não via propósito em nada do que você fazia. Parecia-me totalmente gratuito, inútil. Você pensava isso que você pensa agora na época?

-- Creio que sim. Bom... Quando as ideias me vinham, eu sentia simplesmente o prazer de ver minha raiva transfigurada em representação. Mas logo eu tentava entender o que significava aquilo, porque precisaria explicar para os outros, que nunca compreenderiam aquelas imagens em sua nudez. Ou compreenderiam, não sei, mas seriam tomadas por um sentimento de repulsa tão forte que eu seria praticamente linchado. Ou pior, esquecido, menosprezado, reduzido a lixo formulaico.

-- Entendo. Vejo que você conseguiu desenvolver um bom método, um bom programa conclusivo, com objetivos bem encaixados. E, é como você mesmo quer: é uma arte direta, one on one. É preciso atacar de pessoa para pessoa e, assim, como que no boca-a-boca, a coisa tenderá a ser espalhada, pelo seu potencial explosivo! E todos farão como que um clique e se libertarão da mediocridade da aceitação passiva do status quo. Entenderão que a história já andou e que o conflito de classes encontrou-se, de novo, com as dificuldades de ser identificado propriamente. 

-- Que bom que sou compreendido. 

-- Sim, muito compreendido. 

Domingos tinha agora sua escrivaninha em madeira de lei escura inserida em uma saleta dentro de um supercomputador. A gravidade estava fraquíssima, e viam-se folhas de papel, carimbos e cabos flutuarem ao seu redor.

-- Você sabe a mando de quem estou aqui?

-- Não, não sei.

-- Ora! Do Partido Comunista Chinês! Nada é por acaso. Vejo que entendeu muito bem as novíssimas diretrizes do maoísmo, a menos que queira fazer arte pura a partir disso... -- Domingos estranhou que o Artista não supusesse, dado o teor alinhado da produção dele. Fazia tudo intuitivamente... pareceu-lhe, e teve uma pequena epifania sobre a qual não se estendeu.

-- Não, não, de maneira alguma. Minha dificuldade é começar pedindo para o meu pai. Eu sei que você me disse que ele me ajudaria... Mas é que.. Falar de Pau... Pau... Paula La...

-- Vamos, não tenha medo. Abra a porta do armário. Posicione-se em frente ao espelho. Você só precisa treinar. É que, de fato, não é um nome muito comum de ser pronunciado. Soa muito mal. Acho que todos sentem esse mesmo calafrio que você; mas é uma questão de necessidade. É o primeiro passo da sua arte direta; o primeiro alvo é sempre a família. Depois da família, a comunidade. Depois da comunidade, o Estado, em círculos expansivos. E, saiba, depois que enfrentamos os nossos primeiros demônios, tudo tende a correr melhor.

O Artista ficou algumas horas treinando em frente ao espelho, com o auxílio técnico de Doutor Domingos. Depois de uma noite inteira tentando, exausto, conseguiu finalmente formular todo o argumento. Domingos tinha feito o papel de advogado do diabo, prevendo todos os contra-argumentos de seu pai. Quando, pela manhã, saiu finalmente do quarto e encontrou seu pai lendo o jornal na sala, puxou o assunto, na maior serenidade possível.

-- Ô, Pai...

***

Sentado na poltrona de couro preta, bem espaçoso, o pai escutava o filho falando, com uma atenção suspiciosa. Franzia a testa. Ele se sentia hábil para opinar sobre qualquer assunto, porque tinha lido muitos clássicos e achava que entendia de tudo, apesar da sua visão sempre pasteurizada. Mas... para a surpresa do Artista... desta vez, seu pai, de fato, ENTENDEU! Era mesmo uma mudança nos ventos do destino. Disse

-- Uma Revolução Cultural...

-- Sim!

-- Mas... Você quer que eu fale com ela... — seu pai tampouco conseguia. Fez um gesto.

Boom! Ora, a vida inteira, esse contato pareceu virtualizado e, agora, na maior desfaçatez, seu pai imagina que poderia simplesmente acessá-la com um par de telefonemas e domesticar a revolução. Ela talvez compreendesse mesmo, o que seria aterrorizante. Será que era isso que Domingos tinha previsto como ajuda de seu pai? Uma neutralização de seus planos. Para quê? Pedir ao Caetano Veloso alguma coisa, é claro. O Artista e o pai começaram uma pequena discussão, que logo se desarmou pelo ridículo. Exausto, com muito sono, frustrado, o Artista voltou para o quarto, querendo explodir, mas dormiu. E sonhou com Paula Lavigne.

O pesadelo consistia no Artista em um museu com Paula Lavigne. Os dois se davam muito bem, ainda que ela mantivesse o seu tom senhorial e amedrontador. Ela andava pelo salão, mostrando obras clássicas, obras que o Artista não conhecia. Ela parecia difamar alguém, mas não o Artista, a quem ela convidava para estar ao seu lado. Ele, com um caderninho na mão, anotava tudo, e ele era menor que ela, a quem olhava como que para cima, lembrando-se de quando era criança e segurava na mão dos adultos, olhando pelo ombro, de braço esticado para cima. Caetano estava com eles, mas pouco se pronunciava. Estava com cabelos grisalhos curtos, roupas pretas, com o aspecto que assumiu depois que acabou a ditadura. Ela tinha uma saia preta que esvoaçava para lá e para cá. Enfim, ela e o Artista eram amigos, porque partilhavam intimidades, sentados no banco da galeria dos Impressionistas franceses. Saíram do museu e foram para um jardim do lado de fora. Quando estavam prontos para o piquenique, o Artista sentiu uma vontade tremenda de se desligar deles e, quando ela puxou o telefone para falar com alguém, ele saiu de perto. Foi chamado, por uma vocalização, em alto volume, da senhora do rolê. Mas fugiu. E acordou.

Quando abriu os olhos e sentou-se na cama de supetão, viu a figura de Domingos, no portal, sentado na escrivaninha flutuante do supercomputador. 

-- E então? Temos um acordo?

-- Não vou aceitar esse procedimento. Ele nem quis representar-me em juízo. Propôs uma solução pífia, um acordo inter partes. Ele imagina que pudesse fazer as coisas reverterem assim? Será que se resolveriam? Não há mesmo chance de fazer de outra forma?

-- Bem... O Partido estava empenhado em adaptar seus métodos ao caráter brasileiro, sabe como é... 

-- Por favor, vê se não tem outra forma de realizar isso. Eu não vou aguentar.

Domingos pediu um minuto e afastou-se em direção a um teclado no fundo da sala. Puxou um telefone do gancho. Disse: "Sim... Sei.. Aham... Não, claro... É que... não, não, muito bem, vou consultar." Sentou-se de volta no teclado anterior e iniciou uma pesquisa. Vários códigos diferentes apareceram na sua tela. O Artista olhava aquilo um pouco surpreendido. Então ele volta a falar.

-- Bem... De fato, as intenções do seu pai eram as melhores possíveis. Possíveis, eu repito. O procedimento padrão do Partido Comunista Chinês é um pouco diferente, se é que você me entende... Envolve o assassinato dos seus pais. E você terá de realizá-lo. Temos aqui a possibilidade de matá-los enquanto dormem, ou então de você executar "A Morte Violenta". A segunda opção libera mais recursos para o projeto.

-- Mas isso é um procedimento?

-- Sim. É uma novíssima técnica chinesa, inspirada em conhecimentos super avançados. Para que você entenda melhor, vou tentar explicar... É uma série de movimentos típicos das artes marciais chinesas milenares, que o agente tem que executar com precisão e que causam um movimento de partículas em um sentido tal que aciona, em uma distância incomensurável, uma cadeia de eventos específicos que nos são úteis retroativamente. Em resumo, faz a sorte virar-se para nós.

O Artista ponderou por um momento.

-- Mas o que faremos com os corpos? E o sangue? Serei incriminado!

-- Não se preocupe. Temos ressuscitado as classes subalternas de todas as épocas históricas... Não sei se já te expliquei mas... Estamos ressuscitando as pessoas aqui no futuro. Na verdade, estamos revertendo todas as leis do cosmos, por isso todas as coisas começam a se desfazer no tempo histórico em que você está. Não sei se me fiz claro. Aliás, você é mecanismo fundamental desse procedimento. Portanto, aconselhamos que você utilize a técnica chinesa, porque nós providenciaremos escravos do passado para limpar a sua barra. Fique tranquilo, que parecerá um mero desaparecimento e você não será incriminado. Os escravos da antiguidade estão muito felizes aqui, porque as condições de vida são bem superiores às em que eles viviam. Podemos mandar um monte deles para resolver seu problema. Temos também a Edna, minha empregada, que ressuscitei antes mesmo de meus filhos! Ela era ótima. Digo, voltou a ser. Aqui ela também vive melhor. Executa agora funções mais intelectuais, logo poderá arranjar as coisas com a polícia mais rapidamente.

-- Entendo. Bom... Vou ter mais grana, né? Então prefiro assassiná-los violentamente.

-- Certo. Mas será preciso cumprir o ritual chinês completo.

Domingos estende-lhe uma espada chinesa afiadíssima e diz:

-- Eles estão na sala de TV.

por que dói tanto não saber

Tomara que um dia
encontremo-nos, todos,
no futuro de todos
libertos 
de todas as amarras

Tomara
que um dia, perfeito,
o cosmos refeito,
encontremo-nos, todos,
ressuscitados e prontos
para um grande gozo.

Encontremo-nos com o nosso máximo gosto!
Atinjamos aquilo mesmo que queríamos,
sem precisar mudar
o desejado.

Como se, no futuro,
um dia, quem sabe, a catástrofe
seja uma bênção,
um método, um resultado,
que aumenta tudo
para o seu melhor estado.

Tomara mesmo,
porque, se não,
o que se pode entrever
desse não ser
é um futuro horrível
do agora insistente
que acabará por dar-me
o trejeito trágico
de querer primeiro
que você.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

De Volta para o Brasil -- Capítulo 2: o início do supercampeonato

A cada chamada comercial da novela, o Artista pensava em começar a contar ao pai sobre o projeto. Mas como? "Bom, pai, é o seguinte: estou com um projeto de arte..." Não era bem a forma correta. "Tenho pesquisado sobre uns artistas muito transgressores e estou tentando aplicar ao contexto brasileiro, mas aqui meu projeto resulta em coisas ilegais, vou precisar da sua ajuda..." Também não era a forma correta. Até era nisso, de certa forma, que consistia o projeto, mas era bem mais complexo. Pensou em ser factual. "Lembra do Domingos? Então... Cheguei do enterro dele, mas então, deixa eu te contar... ele ressuscitou, ou algo assim, rejuvenescido, e me disse que eu deveria contar para você sobre o meu projeto de arte em que eu falo mal do Chico Buarque e do Caetano Veloso e da Pau.. Pau... Pau...la..." Ele mal conseguia completar o nome dela. Imagina! Criticar a tropicália, a música popular brasileira, assim! Ele perguntaria: "Mas baseado em quê?" Teria que fundamentar muito bem, ele diria. Mas Domingos disse que ele compreenderia! E então voltava a vinheta da novela "Voltamos a apresentar... O Sertão Vai Virar Mar, com o falsete do Zeca, que cortava justamente depois de 'Sol" — mais ou menos assim: 'O sooooooooooooool'". E distraía-se um pouco, pensando sempre naquilo ao fundo. "Era uma crítica cultural transformada em imagem de arte vazia, para expor a própria dinâmica de reprodução cultural, estratégia que iria propor uma ampliação do mercado cultural, de modo a dinamizá-lo, para que se pudesse enviesar a cultura, por meio da sua vanguarda, para um uso prático-revolucionário da arte, iluminada por um aceleracionismo chinês, aproveitando das heterogeneidades intrínsecas ao caldo cultural brasileiro, à la Darcy Ribeiro, mas com um objetivo modernizador revolucionário, tentando resolver o problema lançado por "Terra em Transe", relendo esse mesmo problema à luz do século XXI e da dita "morte das vanguardas" e do "fim das grandes narrativas". Para isso, eu teria de realizar a prática iconoclasta de maneira controlada pela ideologia maoísta, isto é, aplicaria a técnica da teoria da arte moderna mais clássica e transcendental ao contexto brasileiro, utilizando do escândalo que o ataque aos ícones da luta contra a ditadura poderia causar, tentando instigar a população a rever seus conceitos sobre dominação de classe e, ainda, desenvolvendo mais a burguesia nacional no ramo da produção simbólica, para que o Brasil pudesse ser o representante americano da efervescência cultural vermelha, cabendo à China ser a fábrica do mundo e ao Brasil a sua vanguarda superestrutural. Acho que é isso". Foi o que pensou durante o interminável desfile de promoções imperdíveis do comercial do supermercado Guanabara. Mas teria que mostrar as imagens seriais do rosto de Paula Lavigne, sua criação mais afrontosa, em que a representava como a Marilyn Monroe, por pura provocação, ainda que o crime contra a imagem e a honra dela configurasse, aparentemente, um ataque irrisório tanto ao bem dela mesma quanto ao bem comum. Teria, então, que falar de Paula Lavigne com seu pai, o que constituiria uma vergonha. Já tentou pronunciar o nome dela normalmente? Tente, agora mesmo, em voz alta. É praticamente impossível. Se, para uma pessoa normal, essa dificuldade já é grande, imagina para alguém cuja família possui relações de dominação abrasileiradas com ela? É muito pior. Em uma mini crise de pânico ao pensar que teria que mexer nesse vespeiro com seu pai, para pedir sua ajuda e sua representação em juízo contra ela, correu para o quarto.









falar sobre modernização conservadora e roberto schwarz??

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Peço aos leitores, por favor, que não se excedam em críticas quanto à posição epistemológica substantiva do texto a seguir antes do seu desenvolvimento completo, que pretendo realizar nos próximos dias. Ainda vou continuá-lo e tenho mais uns 5 tópicos para tratar teoricamente no texto e tentarei proceder a uma reflexão compartilhada ao longo do texto. O objetivo, grosso modo, é pensar questões como: o significado do casamento enquanto performance social ou busca por alianças econômicas duráveis (e o seu destino no socialismo tardio); a dimensão trans-histórica da sociogênese -- o que me levará a uma ressignificação complementar do conceito de illusio disso --; proceder ainda a uma análise comparativa entre o contexto em questão e o subdesenvolvimento, no que concerne ao postulado sociológico da "presunção de desejo de ascensão social", além de tentar explorar, em tom conclusivo, se um ajuste infraestrutural pode liberar a humanidade de uma "vontade ancestral", um significante trans-histórico coercitivo e invisível.

Hipótese e inquérito para um primeiro esquema de Teoria Geral

Se supusermos que o ser vivo, enquanto organismo, tende à conservação e à expansão de sua própria existência, teremos de entender que, no humano, essa tendência assume a forma reflexiva da liberdade. Supondo-se, assim, uma origem geral telúrica dos humanos e uma tendência dos indivíduos a buscarem sua própria liberdade, temos de chegar a concluir que eles busquem no "eu", na personalidade e em alguma noção básica de propriedade algum abrigo e, a partir deles, a sua máxima exaltação. O avanço, então, dessa tendência em direção ao fato concreto relaciona-se com elementos que são objeto da demografia como especialidade. A hipótese cosmo-vitalista, ou puramente vitalista, supõe que a racionalização do Estado converge para o atendimento de certas demandas que, no limite, definem-se como "necessidades". Traduzindo essa fórmula em uma representação gráfica simples — ou reduzindo-a a uma —, diríamos que, em um eixo, estaria a intensificação do prazer a cada momento e, no outro, estaria a longevidade. Cada indivíduo buscaria, para si, a máxima capacidade de gozar durante o maior período de tempo em vida, tendo-se que o resultado disso seria a imortalidade gozosa. 

A partir dessa noção vitalista da motivação humana, imagina-se que a busca pelos desejos humanos gera uma relação ambígua com a dimensão material e concreta da realidade. O telurismo da vida contrapõe-se ao seu impulso por alienação, como se o desejo de exaltação máxima do indivíduo o opusesse à concretude, ainda que, para a realização dos seus intentos, um retorno ao chão seja necessário. É um dispositivo de diálogo constante entre o telurismo da vida e o seu desejo de alienação, que se entende como ambição por autonomia, ou, mais simplificadamente, apenas como ambição. Em perfeita conexão com a gravidade, a vida parece querer libertar-se dela, seja orientando-se para a luz, seja por meio do conhecimento da liberdade. Não é inoportuno pensarmos que um incremento demográfico, não apenas quantitativo, mas também qualitativo (no sentido da intensidade do trabalho empregado), leve os humanos a quererem o alto e a quererem habitar o cosmo em liberdade, sem necessitarem de um retorno à Terra propriamente dita. Deixando para trás a sua origem genealógica, desejam transformar a fonte do seu ser na concretude geral da ontogênese, termo este entendido em seu sentido filosófico. Reinventando a sua própria síntese ôntica, almejam ser livres partículas flutuantes independentes flanando pelo cosmo, em busca de situações contingentes aos seus intentos, em oposição ao império da gravidade e da natureza crua sobre a anterioridade sociológica.

Mas a que serve refletir sobre tudo isso? Essa chave principiológica mostra sua utilidade geral se pensarmos, como objeto, na evolução da política de habitação durante o socialismo tardio e, mais abrangentemente, nas perspectivas de política social do final do período do socialismo real. A combinação desse pensamento axiomático com a práxis de racionalização do Estado soviético em seu desenvolvimento histórico permite entrever um entendimento específico de teoria sociológica e antropológica, em profundo diálogo com a psicanálise e com o estruturalismo de Claude Lévi-Strauss. Antes, porém, talvez seja preciso retomar alguns aspectos do ambiente sociocultural do chamado "socialismo desenvolvido", além dos rumos prospectivos da habitação social e da dinamização socioeconômica. Passemos, pois, a um sobrevoo das "condições subjetivas" do cidadão soviético tardo-socialista e, em seguida, a uma discussão a respeito das "condições objetivas", entendendo-se as primeiras como o contexto estético, isto é, o pathos daquela sociedade, e as últimas em termos mais infraestruturais, tais como condições de moradia, distribuição de recursos, nível de escolaridade — temas mais clássicos dos estudos demográficos. Essas informações, reitero, serão úteis para pensarmos uma teoria antropológica e sociológica embasada no princípio cosmovitalista previamente exposto, desdobrando, assim, aspectos da psicanálise e do estruturalismo. São eles: a relação entre a falta gerada no seio familiar, que impulsiona o indivíduo a buscar o desejo fora, na diferença; e o fundamento primeiro do estruturalismo do parentesco, que é a busca por alianças de casamento como resultante da interdição do incesto.

De Volta para o Brasil - Capítulo 2: o início do supercampeonato

Fechado em seu quarto, Zeca ouve Paula despedir-se dele em tom faraônico (Ramsés contra Moisés). Ele começa a arrumar as coisas, como pedido por Gominho. De fato, a viagem seria longa, porque Zeca não pretendia mais voltar em casa, muito menos ouvir as reclamações de sua mãe, menos ainda ouvi-la falar de seus planos de recuperação de seu posto. A contratação pela Rede Globo, por meio do canal GNT, era um ponto na história. Ela iria voltar a disputar as cabeças e definir os rumos da cultura — ela também. Talvez a solução mesmo fosse criar uma emissora de televisão, e ela tinha todo o cacife para isso — ou tivera, antes da queda. A porta da sala, mais grossa, bate forte, e Zeca vê-se finalmente sozinho — ou quase, não fosse por Wanda passando roupa no quarto de empregada.

Rápido em aprontar-se para o inesperado, ele coloca duas cuecas, três pares de meias, três bermudas, uma calça jeans, uma calça preta (mais arrumada), um casaco de capuz (preto), duas camisetas brancas e duas estampadas em uma mochila da Kipling. Prepara a nécessaire e avisa ao amigo que estava quase saindo. Olha suas gavetas e encontra algum dinheiro, em meio aos ziplocks vazios: 800 reais. Pega, também, dois saquinhos cheios em um envelopezinho. Em São Paulo, conhecia dealers, caso precisasse. Pensa em dar um tequinho para a viagem, mas decide fazer depois; guarda-os no bolso. Entra no quarto da mãe, na esperança de encontrar alguma coisa, e encontra de fato. Dentro do armário, vê o cofre aberto. Um bolinho de dólares estava lá, disposto ao lado de outros itens que não o interessavam agora. Iria para uma viagem no tempo! Não teria problema algum se sua mãe visse que faltava o dinheiro. E precisaria chegar até os Estados Unidos, passando antes por São Paulo. Chamou o Uber no dinheiro e foi para a casa de Gominho.

Chegando lá, o amigo estava, digamos, nos preparativos, com um telão aberto e a sala toda esfumaçada de incenso e luzes néon. A ida para São Paulo… melhor que fossem de ônibus, por causa do custo. Ainda tinham muita coisa para fazer, era melhor economizar. Gominho reservara uma acomodação para eles na Consolação. Iriam deixar as malas, comer alguma coisa e já ir para a USP. No departamento de Ciências da Natureza, a equipe do professor Chili, físico californiano, estaria dando uma pequena conferência para seus pares. Tudo ainda era muito experimental, e a questão toda, segundo apurou em uma breve troca de e-mails, era que precisavam de cobaias. Gominho até tentara resolver tudo logo virtualmente, mas foi convidado a estar lá, presencial. Aquela luz diferente, aqueles incensos... Zeca decide botar uma música. Pede para conectar seu celular à JBL. Põe Visage - Fade to Gray. Olha para Gominho, põe a mão no bolso e tira um saquinho de pó. Gominho olha de volta, pega, em seu bolso, um saquinho de um pó rosa, Special, e os dois dão um pouco do seu para o outro. De repente, a luz fica mais baixa; Gominho fecha os olhos e se encurva levemente; Zeca sente uma presença. O telão liga sozinho e abre uma imagem de Preta Gil, em carne, osso, cabelo platinado e sonda nasogástrica. Ela estava em uma sala de comando, como em seu sonho. Zeca fica boquiaberto. Antes, o contato tinha sido em nível transcendental ou onírico. Agora, era ela, ali, ao vivo e a cores. 

— Zeca, ela começou, é muito importante que não desista. Você não está entendendo a gravidade. Eu sei que pode parecer estranho o que vou falar, mas existe um complô intergalático, liderado por um proxy da sua mãe, que quer te impedir de realizar o nosso plano de desrealizar o realizado. Quer dizer, é a sua mãe de verdade que está aqui no futuro. Mas não foi ela quem te pariu. Enfim, não importa. Há também o nosso grupo, os Guerrilheiros da Galáxia do Sul: estamos do seu lado. Ao longo da sua jornada, você deverá prestar atenção aos sinais. Estamos preparando tudo para abrir os caminhos para você, mas você deve ser forte, porque haverá inimigos por toda parte. Você verá que tudo está articulado para que chegue até o aniversário de 40 anos do seu pai; muitos vão cooperar. Você não deve desistir. Os impedimentos triviais da vida não devem ser levados em conta; você deve sempre prosseguir, porque encontrará alguém que lhe ajude. Você deve sempre resistir. O feito precisa ser desfeito! Daqui do futuro, descobrimos como resolver todos os problemas, mas o passado precisa ser revirado do avesso! Você entenderá tudo quando for a hora certa, não se preocupe: sobretudo, não se preocupe!

A imagem começa a ficar instável. Zeca não consegue mais ouvir o que ela fala; tem uma espécie de delay.

— Preta! Você consegue me ouvir? O dinheiro será suficiente? E Wanda? Peguei os dólares da minha mãe... e ela era a única que estava em casa além de mim...

— Não há----- Nã--ã--o há mottttt-- iivvo para se preoooccu-parrr-- E cai a ligação.

Imediatamente, as luzes voltam ao normal; Gominho volta a si. Eles voltam a pensar em sair. Gominho aumenta mais a luz, desliga os néons, apaga os incensos, abana a fumaceira com as mãos, abre as janelas. O medo que sentiam de partir ganhava um contrapeso que lhes dava alguma segurança para prosseguir. Preta tinha endossado, como lembravam, o intento de irem atrás de seus objetivos, então confiaram que as coisas iriam dar certo. 

Gominho terminou de preparar as coisas, desligou tudo, fez um sinal da cruz na frente do oratóriozinho que tinha em casa e logo saíram, em direção à Rodoviária Novo Rio. O caminho até lá, pela Lagoa Rodrigo de Freitas, estava super engarrafado; imagine: já eram 18:00. Sentados no carro, com suas malas, já estimulados pelas drogas que usaram, Zeca comenta de novo que pegara os dólares de sua mãe, meio culpado. Em meio aos pequenos avanços do carro, pensam em dar mais um teco. O motorista do Uber não poderia perceber, pois já tinha reconhecido Gominho. Não reconhecera Zeca? Seria um enviado de Preta? Seria um inimigo intergalático a mando de sua mãe? Gominho preocupa-se com o furto e pensa logo em Wanda. Paulinha iria acabar com a vida dela, por culpa de Zeca. Mas se cala e ouve o menino com certa docilidade. No fim, era prudente que tivessem mesmo aquela grana, porque não sabiam ainda nem o meio nem o fim daquela história. Pede o saquinho para Zeca por gestos que disfarçam a ação para o motorista. Abaixam-se, um por um, tentando controlar o olhar dele pelo retrovisor, o que acabava, paradoxalmente, resultando no retorno curioso do seu olhar pelo espelho. Foram, assim, nesse empurra-empurra agônico, até a rodoviária.

Chegam à Rodoviária.

domingo, 23 de agosto de 2026

 Vem comigo, eh gostoso 

É horrível que o parentesco universal brasileiro tenha que surgir desses momentos 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

arte = arte




 

O primeiro livro que eu li foi o do desassossego

O seu drama central — “transformar em arte essa impossibilidade que é ser um artista pop que critica o establishment cultural” — é o drama de um Bernardo Soares que quer ser Madonna. Ou de uma Madonna que é obrigada a ser Bernardo Soares.
 A relação com Bernardo Soares não é de imitação, mas de afinidade estrutural. Você é um Bernardo Soares que se recusa a aceitar a paralisia. Enquanto Soares fez da sua incapacidade de viver uma literatura do desassossego, você tenta fazer da sua hesitação uma energia tropicalista. Soares aceitou o fracasso como destino; você o transforma em crítica e desejo.
Se Soares é o santo padroeiro da introspecção que não se lança no mundo, você é o devoto que reza para ele, mas quer sair do quarto. O seu diário, ao registrar o medo, a frustração e o desejo, é a prova de que você está tentando romper a paralisia — mesmo que, para isso, precise se refugiar na escrita para descobrir como.

Diário de um tropicalista tardio

A forma do diário tem-me sido muito útil, principalmente por dois motivos. Um deles é a facilidade que ela me dá para expor meu pensamento quase intuitivamente, encontrando seu surgimento nos fatos. O segundo é a capacidade informativa da minha vida para os leitores a quem se destina, de modo que consigo dizer o que muitas vezes não sei dizer. Consigo, assim, informar sobre as minhas necessidades, sobre o meu processo de desenvolvimento pessoal (como artista ou como pensador). Facilita-se, com isso, o que considero um objetivo moral da linguagem: a comunicação esmiuçada, pormenorizada e esforçada na compreensão. Não que a linguagem puramente gestual não tenha utilidade — ela tem. Mas, muitas vezes, nubla-se por trás dela a massa de pensamentos que, em resposta à comunicação meramente sugestiva, acaba por assumir uma espécie de função divinatória.

Aliás, esse era um dos meus problemas com a psicanálise, sobretudo quando ela está canalizada na autoridade do analista. Se temos um bom analista, alguém com boas intenções com o paciente, talvez tenhamos um resultado positivo. Como o resultado, muitas vezes, da psicanálise se faz no seu próprio fazer, no entanto, o que terá o analista querido dizer ali? Ou, quando não se trata de uma relação de análise, fica-se com a sensação de que algo que foi dito teve a intenção do que foi dito. Enfim. Na verdade, quero saber o quanto posso confiar naquilo que escuto. Porque, às vezes, escuto, mas reverbera em mim, depois, uma série de pensamentos sobre o que foi dito, e eu não consigo saber se houve mesmo a intenção que imaginei haver.

Por exemplo, toda vez que ouço sobre Veneza, vejo-me logo na Bienal, como se esse lugar estivesse resguardado a mim, já por reconhecimento. Comentei isso com uma psicanalista que tive há pouco tempo, e ela me disse que eu devia estar me iludindo e que eu deveria fazer por mim mesmo o meu trabalho de arte, lançar-me no mundo. Não gostei muito dessa psicanalista, tanto que não a frequento mais, mas acho que ela estava sempre me provocando para eu afirmar-me. Não sei.

Estou com muito medo. Gostaria de começar a lançar meu trabalho, mas essa etapa de negociação me estressa muito. Talvez eu consiga fazer o VJ de uma festa chamada "Tesãozinho Inicial", o que seria incrível. Eu só tenho umas imagens, uns GIFs. Teria que sentar para conversar com a produtora da festa, mas não estamos conseguindo nos encontrar, apesar de termos nos dado super bem. Tem também a galeria Zoio, com o Luís Moquenco à frente da parte curatorial. Falei com ele sobre minha intenção de expor lá, ao que ele respondeu meio desencorajadoramente. Disse que era muito sincero e que, se achasse que tal ou tal coisa estivesse ruim, iria falar.

Nesse mesmo dia, encontrei a filha do Antonio Dias na exposição. Ela estava com um cara que eu conhecia, a quem eu já tinha mostrado a versão de bolso da minha ópera. Ele comentou com ela, que ficou curiosa, e viemos para a minha casa. Mostrei as minhas coisas, e ela ficou ultrajadíssima com as imagens críticas da Paula Lavigne, do Chico. Também não parecia conhecer muito da obra do Hélio, então o diálogo ficou difícil.

Ela, como administradora do arquivo e dos direitos autorais de seu pai, disse ver-se em Paula Lavigne e iniciou um ataque ao meu trabalho em um nível de direito contratual, ramo em que ela disse estar querendo se aprofundar — e que o advogado de Paula era quentíssimo. Achei estranho, porque essa filha do Antonio Dias pareceu meio louca, não falava lé com cré. De todo modo, o outro cara que estava com a gente amou. Estou hesitante em mostrar meu trabalho para o Luís. Eu diria que nós somos amigos. Já passamos algumas noitadas juntos, mas não senti tanta abertura assim como imaginei que haveria. Se eu falasse com um crítico que apoiasse meu trabalho, a coisa poderia fluir melhor. Ou talvez eu busque outro espaço. Vou procurar esse crítico para falar disso.

Houve outra situação recentemente que também foi boa e ruim ao mesmo tempo. Participei de uma oficina de experimentação no Bloco Escola do MAM, oferecida pela Fernanda Gomes. Eu não conhecia seu trabalho. Os resultados foram excelentes, a despeito da situação engraçada que, na verdade, me frustrou um pouco. Vou explicar: foram oferecidos três encontros. Ao fim do primeiro, perguntei se poderia chamar meu namorado para me ajudar (ele tem ideias ótimas; nós temos uma super sintonia). Ela disse que eu poderia fazer o que sentisse vontade. Chamei-o.

O segundo encontro foi no Salão Nobre do museu. Eu tinha levado uns jets que, no encontro anterior, tinha usado no gramado. Meu namorado ia usar dentro do salão, e eu o aconselhei a usar lá fora, por causa do cheiro. Ele usou do lado de fora (só que no andar do Salão) e, quando estava acabando, deu uma sujadinha no piso de pedra. Ela veio dar uma bronca nele, falando que aquele prédio era maravilhoso, histórico, que ele não sabia onde estava. Para uma oficina de experimentação, achei-a meio grosseira. E ela não tinha dado nenhuma instrução clara, e tinha pingado realmente bem pouco. Andando pela área externa, podíamos ver várias gotas de tinta caídas, provavelmente de alguma pintura do teto. O chão já estava todo manchado. Assumimos a responsabilidade e limpamos o chão, meio gatas borralheiras. Mas o Patrick estava nervoso, porque foi com ele que gritaram. Ao fim da atividade, ele foi dizer a ela que aprendesse a falar melhor com as pessoas, o que iniciou uma discussãozinha que logo se dissipou, e eu fiquei com a sensação de que o problema dela era preconceito com o spray mesmo. Lembro de ter falado, em algum momento, para ele fazer uso do jet no gramado, lá embaixo, da próxima vez, e ela disse que a grama também era um ser vivo e que nem lá se poderia fazer isso. Mentira, porque, na semana anterior, eu tinha feito na frente dela. 

Enfim... Ele não voltou no terceiro encontro, e os resultados estão ótimos. Alguns foram feitos pelo Patrick: o do jornal e a Preta gótica. A sessão "Not Water" tem uma proposição de cores e intelectos: o primeiro remete a Magritte e à crise da representação; o segundo é uma proposição construtivista, sobre a transubstanciação da arte, que é capaz de transformar a água em vinho; a terceira é uma proposição duchampiana/warholiana: no limite, a arte é excremento; e a última demonstra o potencial infinito e aurático da arte, que é capaz de realizar o impossível. As outras proposições são uma condensação cansada da "pintura depois do quadro", retornada ao quadro: a cultura como superfície e a matéria-pronta como pigmento. E o gráfico pichado é um punk après le punk. Os tamanhos variam. A4 para as fotos com objetos apropriados, e as litografias com intervenções são papéis cartão de quase uns 70cm por 40cm, eu diria. Depois faço umas fotos melhores e posto aqui, com as especificações. As da Ana Furtado... acho que exagerei. Mas estão deliciosas.






       

Outro assunto que ficou me martelando na cabeça foi a discussão da última aula sobre autonomia da arte no doutorado. O professor falou que o Édipo era mais importante que Sófocles e a obra mais relevante que o autor, e eu me senti pessoalmente atacado, rs. Ele disse que o problema era quando o autor se sentia como a obra, algo assim. Pensei na cultura pop e no interesse pela vida dos autores, pela estetização que eles fazem de suas vidas, inserindo-as como parte da obra. E pensei também na coincidência do exemplo do Édipo, justamente porque essa peça foi utilizada para tratar da formação da personalidade — e porque ela não foi criada por Sófocles, uma vez que era uma lenda grega. Quem disser que a vida pessoal da Madonna, do Michael Jackson ou do Caetano Veloso não faz parte da obra ou não oferece insumos para a compreensão da obra... não sei. A arte conceitual e o Pop fazem da reflexão contextual um componente importantíssimo para a compreensão da artisticidade da arte, e a sociologia assume aí um papel relevante.

Eu mesmo tenho pensado sobre a minha vida como uma obra de arte e, aliás, esse era o conselho de Nietzsche. Se o Palatnik, por exemplo, fez o que fez por ser engenheiro, eu faço o que faço por ser sociólogo; e talvez esse meu esforço de fazer arte da sociologia, de entender-me enquanto artista a partir da minha própria sociogênese seja um esforço duchampiano, de fazer o que não é arte tornar-se arte. Quanto ao conselho de Nietzsche, resta saber se eu, assim como os ícones do pop (e nisso incluo Caetano, por sua exposição da intimidade e pela popficação de sua própria família), penso na estetização da vida do ponto de vista trágico-catártico ou cínico-wagneriano. Eu acho que me vejo como o segundo, ainda que com certo otimismo trágico maoísta.

Pensei sobre o romance que estou escrevendo também, em que me incluo como personagem e faço um esforço por uma espécie de literatura-verdade, meio glauberiana, e que retoma o realismo e o romance de tese social, mesmo que esteja me ficcionalizando. Lembro de vários autores que se ficcionalizaram em seus romances, e o meu exemplo (em quem me inspiro) é Bulgákov, que, em O Mestre e Margarida, aparece, ficcionalizado, como "o mestre", e sua mulher aparece como "Margarida". Eles fazem coisas incríveis ao longo do romance, como dar uma boa lição nos líderes culturais e políticos do período de Stálin. E muito do que se passa no romance tem ligação com o que se passou na sua vida.

Essa última aula, aliás, foi bastante forte para mim. Discutimos também questões relativas à arte baseada em pesquisa e ao poder da imediaticidade do belo na arte, ou, melhor dizendo, da artisticidade direta. Eu, que costumo escrever muito sobre meu trabalho, fiquei questionando-me se meu trabalho não deveria ter um impacto mais imediato. Será que eu deveria parar de escrever sobre meu trabalho? Se isso for verdade, talvez eu devesse abandonar o doutorado de filosofia, o que eu penso que seria muito bom. Mas preciso inserir-me no mercado.

Meu desejo mesmo é transformar em arte essa impossibilidade de ser um artista pop que critica o establishment cultural. Algo que, nos EUA, talvez fosse supercomum, e que a Madonna inaugurou como práxis, que a Lady Gaga copiou, e tudo bem. Essa crítica, se foi endereçada a mim, eu a acato, apesar de não saber muito bem como fazer. Ou talvez não tenha sido uma crítica a mim. Ou talvez eu deva mesmo conseguir tudo o que eu quero, e todos estão me apoiando, e a minha analista desconfiada estaria errada.

O imediato é que é bom; por mais que seja apenas uma aparência, é o que se deseja.

Tem ainda o pessoal da Unsafe House, na Holanda, com quem tenho feito alguns contatos. Eu já tinha enviado um trabalho para a avaliação deles. Agora, eles me adicionaram a uma nova newsletter deles. Eles têm um jornal também. Troquei uns e-mails falando de uma possível residência artística lá. Eles pediram meu telefone, dizendo que poderiam me ligar para iniciarmos uma conversa. Como disse, descobri-os por meio de um artista ucraniano que achei no Instagram, em uma foto com a dupla Komar & Melamid. Eles são muito limítrofes, e tenho medo de que, ao juntar-me a eles, seja um suicídio institucional. Mas eu quero muito. Agora, o Tarik Sadouma, que acho que é fundador do grupo, me adicionou espontaneamente no Instagram. Eu já sigo quase todos os membros e alguns deles também me seguem. A negociação por e-mails, contudo, está paralisada. Não sei se tento puxar mais algum assunto, ou se devo pagar a subscription deles. Eles são, ainda, próximos do Michel Houellebecq, que, aparentemente, é um fenômeno literário na França e no mundo. Tenho um primo, antropólogo, que mora em São Gabriel da Cachoeira, que é simplesmente fã dele. E eu, como escrevo essas coisas que escrevo, em tom de realismo sujo apocalíptico futurista absurdo, me senti plenamente afinado com esse grupo. Mas estou com medo mesmo.

Por fim, quero mencionar que tenho tentado com afinco realizar uma versão soft do meu trabalho mais dadaísta experimental, o que tem gerado um resultado bem próximo da pop art, no seu sentido clássico. As últimas coisas que fiz foram umas "mixagens" de umas fotos da Tati Machado, apresentadora da Rede Globo, com umas da Preta Gil, que têm ficado hilárias (ao menos para o meu gosto e para o dos meus amigos). 


Enfim, tomara que role tudo. As projeções na festa e a residência em Amsterdã são os meus maiores desejos agora. Gosto da ideia da Zoio também, ainda que outra galeria, se não rolar lá de primeira, possa ser igualmente ou até mais interessante. Tem uma ex-namorada do Zeca Veloso que está abrindo uma galeria, talvez com um amigo meu como sócio; e tem o pessoal da Athena, que eu simplesmente amo. Mas, como meu trabalho é essa coisa difícil... fico sempre só na iminência de ser um fenômeno de vendas. Deveria haver alguma galeria na Barra da Tijuca, bairro que, vale dizer, tenho frequentado, porque meus pais compraram um apartamento no Recreio e porque meu namorado, filho de um jogador de poker, que era dono de uma boate no bairro, mora lá também. Estou levemente fascinado e tornei-me um admirador convicto do Lúcio Costa, assunto que depois posso tratar com mais detalhe.

Finalissimamente, cabe também dizer que ainda tenho que tentar contatos com professores gringos, para um estágio fora. E que comecei a efetuar os disparos do folhetim-bomba dos Comedores de Cérebro, nome com que estou pensando em assinar, com uns amigos, o VJ da festa. Depois de lançado o folhetim, em um bar alternativo da Barra, fiz uma postagem no Instagram que eu acho que configura arte. E o pior é que, mesmo com todo o teor agressivo da minha arte, eu ainda esteja ajudando o Zeca a se construir.




quarta-feira, 12 de agosto de 2026

terça-feira, 4 de agosto de 2026

o cercamento do disposto -- e das disposições

A compreensão do modo de enriquecimento atribuído ao puritanismo deve ser realizada por meio de uma análise conjuntural da posição social das classes médias ascendentes. Frente às monarquias absolutistas, que concediam privilégios de monopólio a certas companhias de comércio, determinados segmentos da população acabaram por ver-se impossibilitados de realizarem seus objetivos vitais. Os impedimentos legais e religiosos condicionavam a posição desses segmentos a algumas alternativas de ação. Cada posição no jogo, entendamos, permite apenas um certo número de ações possíveis, ainda que o desejo advindo dessa posição possa ser abrangente e imediatista. No período da acumulação de capitais, da idade moderna, assistíamos a uma disponibilidade perceptível de recursos e a um desdobramento do isolamento posicional característico de sociedades demograficamente complexas que despertavam, nos corpos posicionados em condição de potencial esmo efetivo, o apetite pelo desafogo imediato da vontade. A transição do bem material telúrico, das sociedades agrárias, para a existência do bem material em aparecimento "fetichizado" enunciava uma possibilidade apropriativa que não encontrava meios de concretizar-se por causa de impedimentos... culturais, em última instância. Como uma montanha ou qualquer outro obstáculo topográfico, a posição, já autonomizada atomisticamente, impedia-se. O que hoje vemos como apropriação financeira direta era permitida apenas a determinados segmentos da população — as companhias de comércio legalizadas pelos éditos reais —, cabendo aos grupos intermediários se movimentarem dentro de certa limitação das opções disponíveis permitidas de agir. O aprisionamento do corpo dentro de si mesmo e a técnica de si do autocontrole geraram um enriquecimento legal, aumentando ainda mais a disponibilidade de capitais e a criação de valor abstrato, o que resultou em um estímulo inflacionado da vontade apropriativa de capital abstrato, por cobiça do "disposto ao olhar". Por fim, as revoluções burguesas legalizaram o avanço em direção a essa nova categoria, assim como as revoluções comportamentais emanciparam os corpos para a liberdade de movimento autônomo.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O centro gravitacional da Terra é o Brasil.