A partir de agora, a nossa história necessita de duas temporalidades desenvolvendo-se concomitantemente. Uma delas é a do passado recente e a outra é a do presente da narrativa. Optarei por narrá-las simultaneamente, intercalando seus acontecimentos. Esta nota serve apenas para organizar o texto que se seguirá. Como toda consequência tem sua causa, e como o ritmo da história não se pode perder, avançarei no texto da forma anunciada.
*
Era uma quarta-feira de tempestade no Rio de Janeiro. O Grande Artista, bem antes de qualquer notoriedade, ouve seu pai mencionar a morte de Doutor Domingos com um amigo no telefone. O velho já estava mal há algum tempo, mas custava a morrer. Ouviu que o corpo seria velado no Cemitério São João Batista, em Botafogo, no final da tarde. A causa da morte parecia estranha. "Mas do que morreu?", perguntou seu pai. "Põe no viva voz", o artista pediu em tom de quase sussurro. "Ah, ele já estava mal há algum tempo. Sabe como é, né? Ele estava muito velho, mais de 90 anos. O corpo não aguenta. Parece que teve uma morte serena em sua cama. Teve um mal súbito à noite. De manhã, Mariângela encontrou-o morto. Sofreu demais em vida. Pelo menos teve uma morte serena!", disse o interlocutor, ao telefone. "São João Batista, então, final de tarde?", disse o pai, meio olhando para o filho. "Vou ver se dou uma passadinha lá." E desligou o telefone.
Era um fato triste, sem dúvida. A morte de alguém nunca é algo que se celebra. Pai e filho lembraram, bem-humoradamente, as peripécias do Doutor Domingos com a família. Tinha sido abrigado pelo avô do artista nos tempos da ditadura, antes de fugir para algum lugar. No site da Comissão da Verdade o artista ouvira a um julgamento seu e de outros de seus camaradas pelo Tribunal Superior Militar. Acusados de traficar armas da União Soviética, de terem ido para lá receber treinamento militar. Mas o PCB era uma organização pacífica, que prezava pela conquista do comunismo contrariamente aos arroubos terroristas das facções dissidentes. Comentavam na sala. O trabalho na editora, o camarada escondido no quarto entrevisto pelo filho durante tardes normais de um ano letivo. O velho tinha mesmo uma dentição que parecia uma dentadura. Melhor não pensar nisso. O artista se arrependia, na frente do pai, de não ter aproveitado aquele trabalho. Olhou várias vezes o catálogo da editora depois que abandonara o emprego. A cada vez via mais nomes importantes das ciências sociais brasileiras na lista do site. Mas, na época, tudo havia sido tão abrupto. Seu pai arrumara-lhe o trabalho em uma editora, que tanto queria (mas não aquela). Enfim, não havia como voltar atrás. E, de alguma forma, aquilo havia sido fundamental na sua formação.
Seu pai olhou o relógio. Eram 13:27. O artista tinha acabado de acordar, justamente com seu pai falando alto ao telefone -- o que era mais do que comum, para seu inconveniente --, e descobrira esse fato arrasador. O pai pensou duas vezes se ia ou não ao cemitério, e decidiu por não ir: o famoso "foda-se". Tinha de ir ao escritório? Talvez sim. Mas chovia. Não foi a lugar nenhum. Saiu do escritório de casa para a cozinha, para preparar o almoço que gostava de comer e oferecer ao filho, que não tinha opção a não ser comer o que lhe era oferecido. Também não podia recusar, nem comer em outro horário, pois o pai ofendia-se. Aquele horário era o limite: para dormir, para acordar, para uma rotina. Ele preparava com tanto carinho que, se recusassem, respondia com ponta-pés vocalizados. Mais rico que o filho, estava sem clientes, como sempre. Terminou o almoço, ajudou o pai a recolher a comida nos pirexes, botou tudo na geladeira, terminou de lavar a louça e ainda teve de sentar na sala para tomar mais um cafezinho com o pai, sob o risco de ofender o pai. E lá se vão mais 45 minutos, 1 hora.
Já eram 15:30 a essa altura, e o velório estava para começar. Algum sentimento ambíguo tomou conta dele. De alguma forma, gostava de Domingos, afinal, era um homem que lutou pelo fim das injustiças. Havia uma grandeza naquilo que ele tinha feito. Também sentia, paradoxalmente, alguma ternura na relação que nutriram por aquele breve período em que conviveram, ainda que uma mágoa transbordasse pelo bem. Era como da família? Era. Tinham direitos uns sobre os outros, de alguma maneira. E ele fez tudo aquilo pelo bem maior, uma vez que o imperialismo americano falsificava todos os fatos. Falou com o pai, como todo cuidado para não atrapalhar o nada que fazia a portas fechadas no escritório. "Pode falar!". O velório estava marcado para as 17 horas. Tomou um banho, que demorou mais do que devia, e partiu para o cemitério. Chegando lá, tentou descobrir em que salinha estava sendo velado, e viu a mulher de Domingos: era ali. O corpo já estava sendo levado para a cova. Chovia muito, então a maioria dos que estavam presentes ou foram embora ou permaneceram na construçãozinha do cemitério. O corpo partiu, todos de preto, guardas-chuvas, e lá foi o artista, atrás do corpo.
Ainda assim, um grupo relativamente numeroso acompanhou o cortejo fúnebre. Se não fosse no Brasil, pareceria o enterro de alguém da Yakuza, dadas todas as diferenças do cenário. Os trovões não cessavam, até que chegaram, ensopados, no túmulo. O artista olhou em volta e avistou o mausoléu que lhe haviam reservado. Era quase um castelo gótico socialista com adornos de arquitetura palaciana chinesa. Para um ex-militante empobrecido pelos anos de Ditadura Militar seguida de Consenso de Washington aquilo era um tanto desproporcional. Alguma coisa mudara desde os tempos do estágio. Parados, ali, em frente ao corpo e ao mausoléu, a água escorrendo pelo rosto, Mariângela, mulher de Domingos, olha para o artista e estende-lhe a mão com um cartão de visitas.
-- Ele sabia que você viria. Assim que ele for enterrado, você deve vagar um pouco pelo cemitério. Olhe o cartãozinho. Veja. Há algumas direções que deve seguir aqui. Há algo muito importante que você precisa saber. Por favor. É muito importante que você atenda a esse pedido.
Ao som de um estrondoroso trovão, o artista recebe o cartão. Olha aquilo e vê umas setinhas com uns nomes de figuras ilustres brasileiras. Não entende muito bem, mas seguirá as setinhas. O corpo é depositado no masoléu, fecham-se as portas e todos começam a voltar. Mariângela olha para o garoto à medida que retorna para a capelinha e gesticula, com as mãos e com expressões, como quem diz, em uma cidade do interior de Minas: fique aí, menino! Vai logo fazer!
O garoto pega o cartão. Havia uma representação do mausoléu e umas setinhas, para ele se posicionar. Começa a seguir o caminho. Esquerda, ande três túmulos. Verá o túmulo de Carmen Miranda. Depois vire novamente à esquerda. Passará pelo túmulo de Tom Jobim. Ande reto mais cem metros e verá o túmulo de Cazuza. E aqui você deve esperar cinco minutos contados. Depois, seguirá reto por mais cem metros, até chegar ao jazigo da família de Vargas. De lá, você deve posicionar-se à esquerda da jabuticabeira em frente ao jazigo (olhando para o túmulo), dar três pulinhos e virar novamente à esquerda da direita e correr. Se tudo estiver correto, você chegará a uma encruzilhada: os túmulos de Roberto Marinho, de Machado de Assis e de Luís Carlos Prestes. Sob chuva forte, o garoto acertou tudo. Ficou olhando para as árvores, para os túmulos, até que surge Doutor Domingos sentado no galho de uma árvore.

Nenhum comentário:
Postar um comentário