Suas perguntas vão direto ao coração material do Édipo Geracional. Se o dinheiro é a máquina que desmonta sociologias coercitivas e permite a individuação, então a pergunta "de onde vem o dinheiro?" é, na verdade, "de quem é o pai que estamos matando — ou a quem estamos pedindo a benção?"
Vou por partes.
1. Hong Kong não é China? De onde vem o dinheiro de lá?
Hong Kong é China, mas sob um regime especial. Desde 1997, é uma Região Administrativa Especial com o princípio "um país, dois sistemas". Tem moeda própria (o dólar de Hong Kong), sistema jurídico derivado do common law britânico, e uma autonomia que a China continental não possui. Mas política e soberanamente, é China.
De onde vem o dinheiro de Hong Kong?
Historicamente, de sua função como entreposto. Durante o século XIX e XX, foi o porto por onde o capital ocidental entrava e saía da China. Nos anos 1980-1990, tornou-se o centro financeiro que intermediava a industrialização da China continental: capital taiuanês, japonês, americano e europeu entrava por Hong Kong para montar fábricas em Shenzhen e no delta do Rio das Pérolas. O dinheiro de Hong Kong é, portanto, essencialmente dinheiro de intermediação — comissões, serviços financeiros, especulação imobiliária, fluxos de capital que buscam segurança jurídica e liberdade cambial que a China continental não oferecia.
Com o tempo, Hong Kong tornou-se também a válvula de escape do próprio capital chinês: empresários do continente que querem proteger ativos, fazer IPOs internacionais, ou comprar imóveis fora da jurisdição direta do Partido. É um dinheiro que, em sua origem profunda, é fungível e desterritorializado — não expressa uma produção de valor local genuína, mas a captura de fluxos globais.
2. A libertação brasileira seria conseguir dinheiro brasileiro?
Sim, mas com uma qualificação essencial: não se trata apenas de ter uma moeda nacional forte. O real já existe. O problema não é a inexistência de uma unidade de conta brasileira; é que o valor que o real expressa não é autodeterminado. Ele é, em grande medida, função do que o capital estrangeiro (chinês, americano, europeu) decide que vale: commodities, juros, diferencial de risco-país.
A libertação, no sentido do Édipo Geracional, seria criar um dinheiro cujo valor emane da nossa própria capacidade de produzir sociologia e gozo, e não da nossa posição subordinada na divisão internacional do trabalho. Um dinheiro que não seja apenas uma senha para importar o estilo de vida alheio, mas um meio de expressar e circular uma estilização própria. Hélio Oiticica, com seu Parangolé, criou valor simbólico sem pedir licença ao dólar. Mas isso ficou no plano da arte. A pergunta é: como fazer isso na escala de uma economia nacional?
3. Como se cria o dinheiro?
Tecnicamente, dinheiro é criado de duas formas principais no mundo moderno:
· Pelo banco central, que emite moeda fiduciária (papel-moeda, reservas bancárias) e controla a base monetária.
· Pelos bancos comerciais, que criam dinheiro escritural ao conceder crédito. Quando um banco empresta, ele não tira dinheiro de um depositante; ele cria um ativo (o empréstimo) e um passivo (o depósito na conta do tomador) simultaneamente. A maior parte do dinheiro em circulação é criada assim.
Além disso, dinheiro internacional (dólares, euros) é criado por seus respectivos sistemas, mas circula globalmente por meio do comércio, dos fluxos de capital e dos mercados de eurodólar.
O ponto crucial: o poder de criar dinheiro é o poder de decidir o que será financiado. Se esse poder está subordinado a uma lógica externa (dependência de fluxos de capital estrangeiro, dívida em dólar, necessidade de gerar superávit primário para pagar juros), então o dinheiro criado internamente já nasce com o viés do desejo alheio.
4. Como criar um dinheiro genuinamente brasileiro e puro?
Aqui entramos na utopia material do Édipo Geracional. Um dinheiro genuinamente brasileiro, no sentido que seu texto exige — uma força que desmonta a sociologia do favor colonial e permite a individuação sem pedágio externo —, teria que ser criado a partir de três lastros, que chamo de lastro edípico:
a) Lastro em Recursos Reais Estratégicos (Soberania Alimentar e Energética)
O Brasil é um dos poucos países do mundo com capacidade de alimentar sua população inteira e ainda exportar excedente, além de ter uma matriz energética relativamente limpa e diversificada. Um dinheiro brasileiro "puro" seria aquele cujo valor de troca internacional não dependesse de aceitação especulativa, mas da demanda real pelo que produzimos de essencial. Se o real fosse a moeda pela qual se compra proteína animal, grãos, minérios críticos e energia renovável, ele teria um poder de imposição que independe dos humores do Tesouro americano.
Isso não é autarquia. É usar a nossa posição de "celeiro do mundo" como alavanca de poder monetário, em vez de aceitar passivamente que o valor do nosso trabalho seja denominado em moeda alheia.
b) Lastro em Trabalho Socialmente Necessário (Moeda Fiscal)
Um dinheiro é, antes de tudo, um título de dívida do Estado que é aceito porque o Estado o exige de volta em impostos. Uma moeda genuinamente brasileira seria aquela cuja âncora fiscal fosse a taxação progressiva da riqueza concentrada (a herança da Casa-Grande) e o financiamento de um sistema de bem-estar que liberasse a população da dependência do favor. O dinheiro valeria porque, ao pagar impostos, o cidadão estaria comprando o direito a uma vida não tutelada pelo patrão — saúde, educação, moradia. A moeda se tornaria o veículo de um pacto social real, não de uma simulação de modernidade.
c) Lastro em Criação Simbólica (O Parangolé como Ativo)
Aqui está o pulo do gato. O que Hélio Oiticica fez foi mostrar que a precariedade pode gerar valor simbólico imenso. Um dinheiro genuinamente brasileiro teria que internalizar isso: ser, de alguma forma, lastreado na capacidade de produzir cultura, ciência e tecnologia próprias. Isso não significa precificar a arte, mas sim que a política monetária e o investimento público devem estar orientados para financiar a produção de sentido — design, música, cinema, patentes farmacêuticas, softwares, arquitetura, agricultura tropical — que o mundo deseje e precise. O valor do real se tornaria função, também, da nossa potência criativa, e não apenas do preço do minério de ferro.
d) Emissão Soberana e Desendividamento Estruturado
Por fim, criar um dinheiro puro exigiria um ato fundador de soberania monetária: recomprar a dívida pública em moeda estrangeira usando emissão própria, lastreada nos itens acima, e estabelecer controle de capitais estratégico para impedir que o dinheiro criado internamente seja drenado para paraísos fiscais ou para a especulação cambial. Isso foi parcialmente tentado com a redução da dívida externa nos anos 2000, mas sem a criação de uma arquitetura simbólica e produtiva que desse ao real um novo significado. A China faz isso em parte: controla a conta de capital e usa o yuan em acordos bilaterais. Mas a China ainda depende, em última instância, da demanda americana e da inserção em cadeias globais que não controla totalmente.
A Purificação como Ato Edípico
Criar um dinheiro genuinamente brasileiro e "puro" não é, portanto, uma operação técnica apenas. É o parricídio macroeconômico: significa matar o pai Casa-Grande que nos legou uma moeda sempre dependente do humor estrangeiro; significa recusar o dinheiro de Hong Kong como prótese de modernidade; significa não esperar que o gotejamento do capital chinês ou americano nos redima.
É usar a sociologia — como força crítica — para entender que o dinheiro é um texto coletivo que escrevemos sobre nosso desejo. Se o real é hoje uma moeda que expressa ansiedade (risco-país, diferencial de juros, fuga de capitais), transformá-lo em uma moeda que expressa potência e gozo exigiria uma revolução não apenas econômica, mas da nossa autoimagem como povo. É fazer do Brasil não um entreposto do capital alheio, mas um emissor de valor num sentido total: alimentar, energizar, curar e encantar o mundo — e cobrar por isso na nossa própria moeda.
Hélio dançou essa possibilidade no corpo. Falta dançá-la no Banco Central.

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