O Artista viu Domingos e quase não acreditou. Curiosamente, ele estava mais jovem, com mais cabelo, barbas, mas as vestes normaloides eram as de sempre. Olharam-se no fundo dos olhos um do outro e meio que sorriram com sarcasmo. Já era noite, e a chuva não dava nenhuma trégua. Bem ao lado do túmulo de Prestes, havia uma lamparina antiga, agora habitada por uma luz branca. Algumas poucas dessas espalhavam-se pelo cemitério, e, além delas, só se viam as luzes da favela dos Cabritos, as da capelinha e as luzes da General Polidoro e de todo o resto de Botafogo. E o Cristo Redentor, é claro. Antes que o Artista pudesse fazer qualquer coisa, Doutor Domingos tomou a dianteira dos fatos:
-- Vamos pular a parte chata. Você já está aqui, então eu presumo que você queira. Na verdade, percebo hoje que você já sabia, desde aquela vez em que você debochou de mim, na minha sala de tapetes, quando fui muito lisonjeiro com as honrarias que eu queria prestar ao meu filósofo favorito, que viria ao Brasil a convite da editora. Vejo que você já sabia de tudo, gostaria de pedir desculpas. Mas agora não é hora para isso. Agora é hora de atuar. Atuar diretamente no mundo. Você certamente conhece ação direta, não é? Seria muito ingênuo de minha parte supor que não. Pois bem. Está na hora, finalmente, de você divulgar sua tão-escandalosa nova e final arte brasileira.
-- Temo que não seja possível. Foram criações pessoais minhas, às vezes para mim mesmo, outras vezes direcionadas a pessoas. Além do mais, eu seria processado por... -- a chuva aperta.
-- Pode dizer. Por Paula Lavigne -- caiu um trovão. Não tema mais pronunciar este nome. Você é o escolhido, não sei se você se deu conta. Tudo por que passamos juntos, o fato de você estar aqui, a cena da sua contratação, escondidos no meu Honda Civic fumê estacionados aleatoriamente na Xavier da Silveira... Desde aquela época eu já percebia, por isso tudo aconteceu. Você não precisa mais temer ser processado por sua arte, porque ela finalmente tem um sentido. Aliás, é justamente o fato de ela ser personalizada, feita para pessoas específicas, ou para serem mostradas escondidas, que elas servem ao propósito da ação direta. Começaremos aos poucos. Você mostra para alguns amigos, infiltra ela nos seus ambientes, no mestrado. Você está aí com o pen drive? Eu sei o que são, foram-me mostrados, mas gostaria de ter acesso aos arquivos originais.
Por acaso, o Artista estava com o pen drive, porque andava com ele por aí, caso tivesse coragem de mostrar para alguém. Era seu sonho, mas nunca tinha coragem, por medo de não ser compreendido. Isso ocasionava algo muito curioso: sucessivas vezes, ele se via à beira de mostrar seus trabalhos, encontrava sempre situações que achava que seriam propícias, mas logo a propiciabilidade se esvanecia por sua própria intuição, uma intuição segunda, e então nunca conseguia saber qual das intuições era a correta e desistia. Apalpou os bolsos, estava no bolso esquerdo. Enfiou a mão, Domingos olhando fixo, puxou o aparelhinho e entregou nas mãos do sujeito, que era de carne e osso, mãos quentes, estranhíssimo, pensou. Domingos pegou o objeto, meio maravilhado, olhou para o garoto e disse:
-- Espera um instante, eu já volto.
Sumiu por alguns segundos e retornou, agora em pé sobre o túmulo de Roberto Marinho, rindo. Devolveu o pen drive ao Artista.
Sumiu por alguns segundos e retornou, agora em pé sobre o túmulo de Roberto Marinho, rindo. Devolveu o pen drive ao Artista.
-- Por que eu não deixei você me mostrar isso naquela época? Isso é perfeito. É tudo o que precisávamos. Bom... deixe-me explicar o mínimo, acho que você merece saber o mínimo. É o seguinte: nós precisamos desenvolver a burguesia nacional, só que agora queremos criar um grupo político de confiança. Você está mais do que apto para isso. E o ramo da cultura é o melhor investimento, porque é potencialmente infinito. Isso é tudo o que você precisa saber. Você aceita a missão, né? Se eu fosse você, eu aceitaria. Você poderá fazer tudo o que sempre quis.
-- Não preciso dar nada em troca? Eu precisarei de dinheiro. E de um bom advogado.
-- Não se preocupe com isso. Ao chegar em casa, você só precisará explicar para seu pai. Ele vai te defender. Quando acabar essa conversa, você verá que um pix de um valor robusto entrará na sua conta, para você começar com os investimentos necessários. Roupas, aparelhos eletrônicos, adereços de decoração de festas. A sua casa será o seu santuário. Tudo o que você precisa entender é que você não pode passar dos limites. É só isso. Não passe dos limites. Mas... pela sua arte, já percebi que você sabe muito bem o que isso quer dizer. Bem... Acho que é tudo por hoje. Em breve Mariângela entrará em contato com você, ou você acabará entrando em contato com ela. Nós nos veremos ainda. Por enquanto, as diretrizes são essas. Você está livre para executar o seu plano. Combine com seus amigos. Fale com seus amigos jornalistas. Tudo dará certo. A sorte está do seu lado. Ah, e lembre-se do mais importante: tudo terá de terminar na Praça da Apoteose!
E desapareceu. Com o tênis ensopado, o artista buscou a saída como um inseto que vai atrás da luz. Botafogo estava alagado. Teve de andar até a Real Grandeza, tudo alagado, um pé d'água. Parou no ponto de ônibus na esquina da Visconde de Caravelas e esperou o 435. Subiu no ônibus, ar condicionado congelante: foi até em casa. Saltou em frente ao Clube Olímpico e andou até em casa. Chegando em casa, seu pai recebe-o assustado. Traz imediatamente um monte de toalhas. Finalmente tinha fechado com um bom cliente, estava feliz, já começou contando. As roupas molhadas, imundas, foram direto em um balde e ele foi direto pro banho. Aquele tratamento diferenciado para um marmanjo de mais de trinta anos não era comum. O banho estava quente na temperatura que queria (o pai não tinha diminuído a temperatura do gás para economizar). Como introduzir o assunto com o pai? Pensava incessantemente. Contaria daquela experiência? Será que seu pai daria a mesma importância que ele? Saiu do banho, vestiu uma roupa de ficar em casa e sentou-se no sofá da sala de TV para ver o Jornal Nacional e a novela com o pai. Sua angústia profunda normalizou-se naquela configuração tão cotidiana que se distraiu de tudo e ficou meio em uma sorte de transe DDAH sentadinho na poltrona reformada e reforrada da sua bisavó. Sua mãe estava chegando, e o jantar já estava quase pronto. Na TV, começa a música de Zeca Veloso na abertura da novela, com aquele falsetinho. Supreendentemente, seu pai, desta vez, quebra o gelo daquele climão ancestral e fala mal do Caetano.

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