quarta-feira, 24 de junho de 2026

Desculpem-me os envolvidos, mas, desta vez, vou usar isso aqui como um diário mesmo, no sentido adolescente.

Primeiramente, gostaria de dizer da minha alegria tensa na construção do meu folhetim. Fico feliz de estar conseguindo realizar um tipo de arte no modelo dos Conceitualistas de Moscou, no sentido da sua circulação, no sentido do seu sociologismo cósmico-futurista, mas, sobretudo, no tipo de relação com o público e na forma de recepção da obra. Os Conceitualistas tinham um tipo de fruição de pequenos grupos. As obras eram feitas para um público específico, restrito e pessoal. Os artistas e o público eram praticamente a mesma coisa, e a obra se realizava no momento de sua fruição. Isso me emociona, verdadeiramente -- mas fico ainda mais contente de perceber que estou adaptando isso a uma forma experimental bem brasileira, em uma espécie de escola do work in progress do Hélio das cosmococas combinado com um tipo de arte direta, esta já vinculada ao legado cinemanovista. E a cereja do bolo está no fato de eu estar, ainda, conseguindo me valer de uma estética pop, de um pragmatismo chinês e de uma vacilância que só consigo encontrar em um artista como Duchamp ou como Maurizio Cattelan (essa espécie de ser e não ser, de tudo ou nada, de confusãozinha irritante institucionalística ontológica). Sinto que estou conseguindo pensar sobre a função da obra, sobre sua relação com o público, sobre a sua entidade, realizando uma tarefa política tão concreta quanto absurda e irônica, sarcástica: uma espécie de contracultura intra-institucional clandestina. Isso me agrada muito.

Pareço adolescente às vezes, porque penso se devo ou não continuar o doutorado, exercer a profissão de professor de filosofia ou se devo tentar buscar um caminho diretamente na arte. Deveria buscar um emprego, mas as minhas duas últimas tentativas foram falhas, e confesso que não sinto tanta vontade assim de buscar um. Dependenderia muito do que fosse o trabalho. Ainda, se continuar minha carreira acadêmica, penso se ela deverá funcionar como parte da obra ou se a ofuscará ou até se comprometerá o prestígio a ela associado. Pensando ainda sobre essa carreira, questiono-me se não deveria buscar algo fora do país, se deveria permanecer aqui no Brasil; se o que produziria seria relevante... Se eu teria encaixe institucional aqui no Brasil... E se eu não estou sendo vira-lata com isso. Penso também sobre uma experiência internacional, mas não sei ao certo com quem pesquisar. Penso na Keti Chukhrov, que tenho lido bastante há algum tempo, mas ela está em Stuttgart. A PUC tem um convênio com a Freie de Berlim, com uma universidade no Japão, uma em Hong Kong, uma em Amsterdã, mas eu acho que só poderia ficar um ano nesses destinos no máximo e eu gostaria de ficar mais tempo, conseguir uma dupla diplomação, não sei... Berlim me interessa muito, pois vi que há um professor lá, Eric de Bruyn (acho que é esse o nome), que estuda neoconcretismo, arte americana e vi que abriga um brasileiro lá em uma de suas pesquisas. Em Amsterdã, tem um grupo de artistas anti-woke que eu descobri pesquisando sobre Komar e Melamid: eles são a Unsafe House. Eles me abriram para um mundo limítrofe interessante, embora eu ache que eles são, até agora, os mais interessantes desse mundo que descobri. Enviei um trabalho meu para apreciação deles; disseram que no final de setembro devem me dar uma resposta (o quadro é uma bunda de fora com uma bandeira dos EUA tatuada, com uma inscrição Sorry Daddy em tinta vermelha escorrendo como se fosse sangue -- eu adoro este trabalho, e acho que é a minha formulação mais universalista, menos localista, de arte -- algo como uma redução expressiva universal do desejo subdesenvolvido). Não sei se devo me preocupar com tudo isso.


Arrumei também um namorado que estou amando muito. Ele tem dez anos a menos que eu e nasceu em NY, apesar de ser filho de brasileiros. Ele é interessantíssimo. Tem 300 mil seguidores no TikTok, e sua família fez dinheiro jogando pôquer. É algo fascinante. É quase a concretização da minha inversão do Hélio Oiticica, misturada com certo apoteosismo matrimonial que só o casamento do Caetano com a Paula teve na cultura brasileira até hoje. Sei lá. Fico pensando se não me mando com ele pra NYC e foda-se. Se ele quiser. 

Paralelamente a isso, tenho a sombra de tentar o Itamaraty de novo, que quase não ressurge mais, mas ainda está lá. Penso também sobre minha condição de intelectual brasileiro e penso em todas as minhas preocupações sobre o Brasil, que agora assumem uma forma de arte, mas que surgiram muito fomentadas pela minha vontade de fazer uma interpretação do Brasil na linha de Freyre e Buarque de Holanda: o Brasil como um problema. Hoje mesmo, estimulado por uma palestra a que assisti sobre Gilda de Mello e Souza, acessei um texto que escrevi há anos. Meu pensamento é semelhante ao dela, mas achei que sou melhor rs. Tenho talvez esse defeito. Pode ser narcisismo. Mas vejo que crio uma teoria mais totalizante e mais explicativa -- mais ambiciosa.

A palavra "ambiciosa" me fez lembrar a arrogância na arte, e me vejo como um arrogante, dado que a arrogância é necessária na arte para uma superação histórica. Mas o caminho que encontrei para executar o que chamo de "morte de Caetano Veloso" tomou um caminho enorme de crítica social irônica, que acabou sendo muito mais arriscada do que teria sido simplesmente pichar um bigode de Hitler no retrato do Chico Buarque ou da Paula Lavigne e exibir publicamente sem explicar nada. Mas eu gosto do que estou fazendo. Divirto-me muito. O diálogo com o meu "público" (restrito e sintonizado) é extasiantemente prazeroso, e sinto-me muito seguro e reconhecido com eles. É muito boa essa sensação. Sinto uma liberdade criativa que acho que nunca senti, nem quando fazia as coisas para mim mesmo. Enfim, acho que meu real desejo era fazer esse livro-folhetim-virtual, que talvez se torne uma história sem fim. 

Gosto muito de filosofia e história da arte, mas não sei muito bem se quero continuar com isso, e se abandonar seria uma decisão prudente. E ideia de estudar com Keti Chukhrov me agrada em algum grau (às vezes muito, às vezes pouco), sobretudo porque ela está em uma academia de arte. Tem também o Matthew Jesse Jackson em Chicago, e penso ainda no Sven Spieker na Califórnia, que poderia me ajudar na elaboração do libretto da minha ópera e no desenvolvimento do meu livro, uma vez que ele é especialista em literatura (mas nem sei se eles me querem!). E tenho a sensação de que eles não são o Komar e o Melamid, o que torna tudo meio entediante. Posso estar sendo preconceituoso, mas isso esbarra na minha inconstância em relação ao marxismo e a qualquer coisa que me lembre o meu pai, mesmo que eu goste desses sociologismos; pelo menos, outro dia meu pai disse que me defenderia, caso eu fosse processado por meu romance. Disse a ele que estava escrevendo um livro e que precisaria de advogado; ele disse que eu podia contar com ele, mas eu não disse sobre o que era que eu estava escrevendo. No entanto, como já lhe mostrei mil vezes toda a minha arte, ele deve ter uma ideia.

Sinto também que deveria fazer uma exposição, mas entendo todos os riscos a ela associados. Fico muito alegre pensando no absurdo que seria, mas também tenho muita vergonha. Sei lá, sinto até alguma pena do Zeca e também do meu pai. Aliás, o fato de viver com ele ainda me desagrada, mas, no momento, estou de mãos atadas. 

Tive uma relação longa com um analista, que acabou assim que eu soube que não fui aprovado para uma pós-graduação nos EUA com o Boris Groys, que era tudo o que eu mais queria. Parece que o Groys estava super doente. Discuti muito com ele, porque ele me encorajou a um nível tão alto, que chegou a dizer que rolaria com certeza; como não rolou, e como não rola nada para mim que eu queria muito, discuti horrores com ele. Ele disse que desistiu de mim porque eu estava muito agressivo, mas sinto que ele desistiu de mim dando-me uma espécie de alta, porque eu já tinha sido muito mais agressivo em outras ocasiões, e ele não fez isso. O-que-eu-sou precisava da agressividade que estava depositando nele. Afirmar-me. Tentei com outra analista, mas senti que cheguei a um impasse semelhante, e agora estou meio que solto no mundo, pela primeira vez em anos, tendo de afirmar meu desejo, apesar de tudo o que eu não quero pressionar-me por estar ali (esse novo conceito do Heidegger).

Tem também um monte de residências artísticas que eu gostaria de tentar, mas me sinto meio imóvel. Não consigo decidir qual seria mais adequada ao meu trabalho, qual seria menos arriscada, qual eu gostaria mais, qual queimaria mais ou menos o meu filme... Enfim. Entre tudo isso, sinto uma fascinação grandiloquente pelo Oriente (Japão, China, Coreia) que atrai meu olhar para lá. Como se fosse uma forma limítrofe de encapsular em imagem o extremo abstrato da expressão abstrata em material inusitado, porém visível e formal. Gostaria de decorar assim a minha ópera.

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