quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

o adestramento do povo por um Rei bonapartista gera, no longo prazo, uma cultura popular

Suponhamos que um rei, como foi o caso dos portugueses, fosse, inicialmente, o proprietário dos reinos que conquistou. Em oposição ao que se dava com reis da “idade média tradicional”, a formação das suas nobrezas seria algo especial. Se, nas sociedades por excelência do Ocidente medieval, a relação de suserania do rei era um acordo de cavalheiros, nos domínios da Reconquista, a dos nobres era, antes, uma vassalagem. Enquanto no território do medievalismo tradicional as nobrezas locais detinham o seu poder por reconhecimento, mais ou menos legítimo, de proteção – e delegavam fração de sua soberania aos reis –, nos estados da Reconquista, esses senhorios foram criações artificiais para reproduzir as relações telúricas e atávicas do dito modelo tradicional europeu, que surgiu após a desintegração do Império Romano. Enfim, aquela história.

No caso dos povos ibéricos, a questão da propriedade do Estado pelos herdeiros do rei-líder na Reconquista tem mais consequências do que podemos imaginar. Tendo-se o reinado instituído e distribuído o poder entre os mais próximos da empreitada militar, essas instâncias inferiores, assim, foram designadas também plenipotenciariamente, da mesma forma que o rei, por sua atipicidade e artificialidade constitutivas; no entanto, por mais que o método fosse a nomeação, o objetivo era o enraizamento para reproduzir, ainda que distorcida e controladamente, um modelo chancelado pela cristandade sacro-romana – a norma. Enfim, o poder concedido às instâncias intermediárias (as nobrezas regionais) teve um resultado demográfico semelhante ao do florescimento natural dos povos originários do medievo ocidental sobre a população que governavam – mas apenas semelhante: porque as novas localidades não tinham povos autóctones; todas funcionavam como colônias. A designação do poder a essa camada nobilitada a posteriori e a permissão de tutela dos níveis ainda mais inferiores – a plebe – criaram um povo inerme abaixo dos eleitos pelo rei. Como a população verdadeiramente autóctone deveria ser exterminada ou assimilada (árabes, mouros e gentios), o povo que se formava abaixo da nobreza começou a desenvolver uma singularidade cultural determinada pelas geopolíticas do momento, que eram menos macroscópicas do que as dos tabuleiros das nações da atualidade.

A grande questão do “bonapartismo” do rei português é que essa segunda classe inferior se formou sem muitos vínculos tradicionais com os senhores que a governavam diretamente. Diante do fenômeno moderno dos reinos-nação, essa nova camada tornou-se um povo novo que se conformava, de certa forma, como massa de manobra do rei. Deixe-me explicar: como o rei nomeou as nobrezas locais por causa da sua “propriedade” do estado, as populações locais, na prática, estavam mais inclinadas a lhe servirem do que os súditos aos seus reis na Europa medieval de então; ou estavam mais propícias a trair as recém-formadas nobrezas artificiais da terra do que nos territórios feudais propriamente ditos, em que a autoridade havia sido assentada pelo atomismo do alto-medievo. E os reis portugueses, assim como os espanhóis, imagino, aproveitaram-se disso. Raymundo Faoro defende que Portugal tinha mecanismos de nobilitação por  serviços prestados ao rei português, o que lotava as suas cortes de membros da plebe, além de organismos de formação de burocracia, que também aristocratizavam a gente. Assim, esses elementos da nova população formada ajudavam os reis a submeter novamente as nobrezas que paulatinamente se enraizavam no modelo de reprodução artificial da legitimação social medieval, jogando para o povo, como um bom Bonaparte. Usavam o seu poder central -- que, nas monarquias absolutas tardias, foi lentamente negociado -- com muito mais ágio, porque detinham muito mais influência cultural do que as nobrezas locais.

A formação de um povo nacional acima de um povo regional talvez tenha primeiramente ocorrido na península Ibérica. O motivo para isso é que essa plebe amorfa era, na prática, um povo à disposição: tanto do rei quanto da nobreza recém-formada, a depender da oferta. A capacidade de traição desses indivíduos era maior do que nas relações de vassalagem que justamente serviram de modelo para esse sistema da Reconquista. O bonapartismo, portanto, do rei português era apenas uma perspicácia -- disputada com os nobres -- no entendimento da formação demográfica do seu próprio território: instituiu-se um povo, e não relações de dependência territorial-econômica. A formação de uma cultura, isto é, de elementos simbólicos que os faziam se reconhecerem como pertencentes a essa mesma parcela de interesses “culturais”, foi fomentada pelo próprio governo real, na forma de uma cultura de Estado. 

Imagens da Ópera de Apartamento "A Reincarnação do Lixo Tóxico Despachado Pro Sol"

Pós-Óperatórium

In Situ

Álbum Micro-Ópera mais portátil

 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

sexto experimento do escrever livre

Se entendi tudo errado.
Se aqueles que imaginei quererem o bem eram desacreditados ou apenas enganados por seus medos e covardias de dizer que não queriam.
Se só eu mesmo porto a verdadeira crítica.
Então devo pensar: meu abjeto é erro, é eros.
Mas não acredito em nada disso.
Acredito que a minha sofisticação é resultado de cinismos humanizados,
e que meu desejo é realmente real.
Até porque, é melhor o melhor do que o pior,
assim como é melhor um socialismo trabalhado pelo capitalismo. 
Mas eu não sei.
Talvez eu não queira e só queira.
Queira mesmo e desonre a todos. 
E a praia do Rio de Janeiro perderia seu sentido.
Ainda devo pensar.

sábado, 3 de janeiro de 2026

o outrismo do outro

se tudo aquilo que penso desfaz em sua verdade, talvez eu esteja fadado a desquestionar-me de mim.

O que digo? Sou tudo aquilo de melhor que toda a humanidade poderia produzir? O mais puro intelectual, herdeiro de toda verdade, que não a assume, mas a reconhece como resultado de sua própria percepção enquanto ser humano inscrito na sua história. 

minha instancialidade histórica seria tudo menos perpétua, mas seria verdadeira --- por negar a personalidade humana de pessoas incomprováveis.

 Existe uma dimensão do pensamento de Keti Chukhrov que talvez seja questionável. Embora eu reconheça que a sua crítica ao conceito de alienação da chamada teoria francesa tenha fundamento, eu me questiono se o que ela denomina "superação do capitalismo pela alienação" como um projeto do pensamento francês de maio de 68 não seja uma necessidade do capitalismo. Ou melhor, talvez o desejo de alienação, a que ela se refere, seja uma necessidade crítica do pensamento anticapitalista, até que o capitalismo seja superado. Penso isso "de um ponto de vista chinês", isto é, de um ponto de vista de que o esgarçamento da relação da necessidade criada do capitalismo é um processo obrigatório da crítica constante ao capitalismo, que tem de ser recorrentemente atualizada.
 
Peguemos o caso brasileiro. A luta de classes no brasil, no século XXI, pode confundir muito analistas objetivos, assim como muitos daqueles que imaginam que a luta de classes possa ser percebida. Eu, como sou adepto desta teoria (que na verdade é a verdadeira teoria objetiva), entendo que o único passo para a atualização do sentimento de classe social que a atual conjuntura economico politica permita é uma que pode ser lida como uma reinvenção formalista da alienação -- na arte. Se bem entendo o pensamento de Chukhrov, que imagine ser afeito ao ponto de vista Fedoroviano sobre a luta de classes, a superação das classes sociais não se resolve pelo estimulação recorrente do que ela chama de "replique interminável da criação das necessidades capitalistas". Entendo isso muito bem, é claro, caso a superação do capitalismo se desse em nível global. 

Se o capitalismo fosse superado em nível global, a produção econômica, comunalizada, iria finalmente direcionar-se ao seu objetivo desalienante, heideggeriano, no sentido mais groysiano que consigo imaginar. E eu mesmo concordo com isso. Mas, do ponto de vista realista, o desenvolvimento das forças produtivas sob o capitalismo, ao realizar a tal "reprodução das necessidades criadas", produz um tipo de objeto que a economia socialista não teria condição de superar. É como se a economia socialista fosse um esquema de produção que produz, justamente por dipsensar o lucro, para sujeitos que não seriam mais seduzidos pelo tipo de produção libidinal do capitalismo. E isso, na verdade, enquanto o capitalismo perdura, é uma espécie de necessidade, que desenvolve cognitivamente a psiqué humana, ainda que, se o capitalismo fosse superado anteriormente, esse conhecimento talvez fosse inútil. 

Considerando haver alguma teleologia na relação entre a luta de classes e o desenvolvimento da forças produtivas, esse meu pensamento faz sentido. E, em esse pensamento fazendo sentido, o conhecimento passivo do ser, anterior ao desenilvimento ativo, que transforma o espaço, como do ponto de vista suprematista-soviético, torna-se uma vantagem ao futuro do socialismo global. Eu sei que parece não fazer sentido, sobretudo por causa do significado das "necessidades criadas". É claro, porque, se elas são criadas, elas inexistem, e uma transformação do sentido da produção eliminaria essa "clivagem", em direção a um descobrimento das necessidades reais da humanidade.

Contudo, a prática realista da vida demonstra que, enquanto o socialismo não for global, e o tipo de produção nap for alterado universalmenete, a unica possibilidade do "socialismo" competir libidnalmente com o capitalismo é a reprodução assistida do seu mesmo mecanismo. Aliás, se analisarmos bem, a arte é o principal exemplo disso, justamente o que Keti criticaria como "formalismo". Peguemos o caso brasileiro... Talvez nem seja o melhor exemplo, porque a tropicália foi tudo menos uma investida de superação do capitalismo. Mas suponhamos que os ícones que agora identificamos como de esquerda no Brasil (essa espécia de frente ampla do tropicalismo com setores da esquerda ultra moderada brasileira) não pudessem ser dessacralizados. Supinhamos, portanto, que esse impedimento representasse um acordo com uma teoria estética anticapitalista, nos moldes de Keti. Assitiríamos ao desfile de uma burguesia nacionalista do tipo mais camuflado possível.

Não deveríamos, nós, atores revolucionários, questionar o seu desejo de status quo? Não deveríamos apelar, nós, do povo, por uma nova intepretação da luta de classes, que passaria, é lógico, por uma reinterpretação "alienante" do cenário cultural e, portanto, produzir uma arte "formalista" do ponto de vista crítica?