Suponhamos que um rei, como foi o
caso dos portugueses, fosse, inicialmente, o proprietário dos reinos que
conquistou. Em oposição ao que se dava com reis da “idade média tradicional”, a
formação das suas nobrezas seria algo especial. Se, nas sociedades por excelência do Ocidente medieval, a relação de suserania do rei era um acordo de cavalheiros, nos domínios da Reconquista, a dos nobres era, antes, uma vassalagem. Enquanto no território do medievalismo
tradicional as nobrezas locais detinham o seu poder por reconhecimento, mais ou
menos legítimo, de proteção – e delegavam fração de sua soberania aos reis –, nos estados da
Reconquista, esses senhorios foram criações artificiais para reproduzir as
relações telúricas e atávicas do dito modelo tradicional europeu, que surgiu após a desintegração do Império Romano. Enfim, aquela história.
No caso dos povos ibéricos, a questão da propriedade do Estado pelos herdeiros do rei-líder na Reconquista tem mais consequências do que podemos imaginar. Tendo-se o reinado instituído e distribuído o poder entre os mais
próximos da empreitada militar, essas instâncias inferiores, assim, foram designadas também plenipotenciariamente, da mesma forma que o rei, por sua atipicidade e artificialidade constitutivas; no entanto, por mais
que o método fosse a nomeação, o objetivo era o enraizamento para reproduzir, ainda que distorcida e controladamente, um modelo chancelado pela cristandade
sacro-romana – a norma. Enfim, o poder concedido às instâncias intermediárias
(as nobrezas regionais) teve um resultado demográfico semelhante ao do florescimento natural
dos povos originários do medievo ocidental sobre a população que governavam – mas apenas semelhante: porque as novas localidades não
tinham povos autóctones; todas funcionavam como colônias. A designação do poder a essa camada nobilitada a posteriori e a permissão de
tutela dos níveis ainda mais inferiores – a plebe – criaram um povo inerme abaixo dos eleitos pelo rei.
Como a população verdadeiramente autóctone deveria ser exterminada ou assimilada (árabes,
mouros e gentios), o povo que se formava abaixo da nobreza começou a desenvolver uma singularidade
cultural determinada pelas geopolíticas do momento, que eram menos macroscópicas do que as dos tabuleiros das nações da atualidade.
A grande questão do
“bonapartismo” do rei português é que essa segunda classe inferior se formou sem muitos vínculos tradicionais com os senhores que a governavam diretamente. Diante do fenômeno moderno dos reinos-nação, essa nova
camada tornou-se um povo novo que se conformava, de certa forma, como massa de manobra
do rei. Deixe-me explicar: como o rei nomeou as nobrezas locais por causa da sua “propriedade” do estado, as populações locais, na prática, estavam mais inclinadas a lhe servirem do que os súditos aos seus reis na Europa medieval de então; ou estavam mais propícias a trair as recém-formadas nobrezas artificiais da terra do que nos territórios feudais propriamente ditos, em que a autoridade havia sido assentada pelo atomismo do alto-medievo. E os reis portugueses, assim como os espanhóis, imagino,
aproveitaram-se disso. Raymundo Faoro defende que Portugal tinha mecanismos de nobilitação por serviços prestados ao rei português, o que lotava as
suas cortes de membros da plebe, além de organismos de formação de burocracia, que também aristocratizavam a gente. Assim, esses elementos da nova população formada ajudavam os reis a submeter novamente as nobrezas que paulatinamente se enraizavam no modelo de
reprodução artificial da legitimação social medieval, jogando para o povo, como um bom Bonaparte. Usavam o seu poder central -- que, nas monarquias absolutas tardias, foi lentamente negociado -- com muito mais
ágio, porque detinham muito mais influência cultural do que as nobrezas locais.
A formação de um povo nacional acima de um povo regional talvez tenha primeiramente ocorrido na península Ibérica. O motivo para isso é que essa plebe amorfa era, na prática,
um povo à disposição: tanto do rei quanto da nobreza recém-formada, a depender da oferta. A capacidade de traição desses indivíduos era
maior do que nas relações de vassalagem que justamente serviram de modelo para
esse sistema da Reconquista. O bonapartismo, portanto, do rei português era
apenas uma perspicácia -- disputada com os nobres -- no entendimento da formação demográfica do seu próprio
território: instituiu-se um povo, e não relações de dependência territorial-econômica. A formação de uma cultura, isto é, de elementos simbólicos que os
faziam se reconhecerem como pertencentes a essa mesma parcela de interesses
“culturais”, foi fomentada pelo próprio governo real, na forma de uma cultura de
Estado.
