Apavorada, Paulinha vê-se de boca calada por uma mão com luvas algo góticas. Tenta morder a mão do raptor, em vão. Seus dentes e seus maxilares ainda não atingiram toda a maturidade, mesmo que fosse daquelas meninas desenvolvidas, que não aparentam a idade que têm. O que era aquilo? Entrara por um campo de força digno dos desenhos animados de super-heróis a que gostava de assistir na Manchete. Era todo um grupo de pessoas encapuzadas que a conduziam por aquela espécie de portal -- ela reconhecera bem, principalmente a parte da viagem, em que ficaram, por alguns segundos, dentro daquele campo visual brilhante e estratosférico. Eles voavam de um lado para o outro do campo de força, luzes neon, rosa, branco, roxo, azul alternavam-se em feixes que se sobrepunham; não havia gravidade como a entendemos, embora forças pudessem puxar uns e outros para lá e para cá daquilo que não dava para saber bem se era um espaço. Paulinha, no entanto, estava atrelada ao seu raptor por algum tipo de roupa ou prótese, desde que ele a havia agarrado pro trás e posto a mão na boca dela, calando qualquer grito que eventualmente expelisse e puxando-a para trás para cair no portal que estava aberto por seus comparsas. Quando ele encostou nela, imediatamente tubos de metal envolveram seu tronco, de modo que, na loucura gravitacional do campo de força transportador.
Chegando ao destino, largaram Paulinha lá e entraram novamente no portal. Quem a havia raptado esperou os enlaces se desfazerem (o que foi rápido) e a empurrou para longe, para ter tempo de voltar ao portal e fechá-lo, sem que ela tivesse condições de entrar com ele. Paulinha caiu no chão, tentou levantar, saiu correndo, mas não conseguiu. O portal fechou-se logo antes que ela pudesse enfiar sequer a pontinha de sua unha. Desabou no chão, sentada meio de joelhos de lado, as pernas semi-cruzadas caídas para o lado, apoiada com uma mão no chão e a outra no rosto, quando começou a chorar. Tirou a mão do rosto depois de um tempo razoável de choro e olhou em volta. Ela estava um chão de terra batida, rodeada de montanhas de sucata. Uma iluminação rarefeita em alguns pontos ao longe deixavam entrever alguma atividade naquele lugar, assim como escutava algo como uns barulhinhos vindo das pilhas de metal velho. Algumas marcas de pneu faziam-na intuir o mesmo que o cheiro forte do lugar. Assutada, vê aproximar-se um senhorzinho de olhos puxados, que oferece-lhe um pedaço de pão, que ela acaba sendo obrigada a aceitar. Quando vai começar a fazer algumas perguntas, acorda assustada no quarto do seu apartamento na rua Constante Ramos. Levanta, meio incrédula, e vai pegar um copo d'água. Logo retoma a fúria que lhe era peculiar e abre a porta do quarto quando vê fechar-se sutilmente a porta do quarto de Zeca. Ouve o barulho da TV -- ele está acordado a essa hora? Olha no relógio de corda do corredor: 4:30 da manhã de uma quinta. Semi bufa e vai buscar um copo d'água e fica um pouco para em frente ao filtro elétrico, pensando, assustada, em seu sonho, com um pouco de medo de voltar a dormir.
A poucas quadras dali, no Edifício Muiraquitã, preparava-se um ritual pertinente às posições cosmo-planetárias. Finalmente, o Grande Artista vai poder entrar em contato de novo com o Doutor Domingos e receber a sua última mensagem cifrada antes da nova quadratura intergalática que então se iniciava. Vai para a sala de estar, ampla, perto do que era uma antiga varanda, que fora fechada em todos os andares, porque uma avenida fora construída em frente e inviabilizava o uso como varanda daquele ambiente. Mas ele precisa daquele barulho para acionar o contato com o Doutor Domingo. Leva seu notebook para a sala, coloca-o sobre uma mesinha de centro meio baixinha daquele ambiente da sala, conecta o carregador à tomada para a bateria não descarregar (andava descarregando muito fácil) e entra no site inseguro. Aceita o alerta de navegação de risco. Agora, ele deveria pegar alguns livros da estante, de espessuras diferentes, e iniciar o batuque. Os incensos já tinham sido acesos, o batuque se inicia, e ele emite um som meio tântrico. Quando, às 4:30 da manhã daquela quinta-feira, passa uma moto, começa a abrir-se um campo visual, uma espécie de transparência, por onde se pode ver, sentado em uma escrivaninha de madeira de lei escura, um senhor insuspeito, de roupas normais de qualquer avô, fosse ele general ou sociólogo. O Grande Artista avisa o risco de seus pais aparecerem na madrugada para espiá-lo, então teriam de não se exaltar e tratar de resolver as coisas rápido.
-- Boa noite, Dr. Domingos. -- fez uma reverência -- Peço que tratemos logo das coisas. Meus pais estão dormindo no quarto. É meio longe, eles não devem acordar, mas há sempre o risco.
-- Boa noite. Não há motivos para preocupação. Serei breve. Lembra-se daquele dia em que eu te mostrei um exemplar de um jornaleco de Curitiba? Onde estava anunciado o lançamento de um livro de Jamil Snege? Você pode me reportar os seus pensamentos naquele dia, que saiu do trabalho chorando e decidiu nunca mais voltar?
-- Lembro-me, sim. Lembro-me bem. Lembro que tinha vontade de trabalhar com literatura, mas a editora não tinha esse perfil. Cheguei da faculdade, já cansado, e sentei-me em frente à mesa que me havia sido disponibilizada. O outro rapaz que trabalhava lá não estava.
-- Sei, o Rafael.
-- Sim, o Rafael.
-- Estava tudo como sempre estivera?
-- Não, não. Eu estava praticamente sozinho na editora, à exceção de uma única funcionária, cuja função eu não saberia descrever, embora eu soubesse que ela tinha mais direito a receber um salário justo do que eu, segundo intuía pelas suas expressões faciais.
-- E o que mais?
-- Bem... A cadeira de trabalho permanecia com uma de suas rodinhas desencaixadas... Então eu sempre tinha de ajeitá-la. Toda vez que eu me movimentava, ela deslizava por meio segundo e logo depois eu tinha de curvar-me para baixo para ajeitar. Além disso, o computador fora retirado da mesa. Eu estava pesquisando algumas coisas sobre existencialismo católico alemão no dia anterior, quando de repente a conexão caiu e no dia seguinte (este em questão) ele não estava mais lá.
-- Então, o que foi que você fez?
-- Eu comecei a ler o jornaleco, li sobre o Jamil Snege, escritor que não conhecia. Empolguei-me em poder trabalhar com literatura, apesar da descrição do autor ser algo que eu, instintivamente, seria contrário, por instinto familiar. O texto dizia que ele trabalhava com disputas simbólicas e que, de Curitiba, mudara-se para o Rio de Janeiro e trabalhara junto com Carlos Lacerda no Tribuna da Imprensa. O texto também dizia que ele permanecera desconhecido do público, circulando entre poucos, e que, agora, uma editora pequena de Curitiba queria relançá-lo. Curioso, porque não havia nada na minha mesa, apenas isso, o que intui que era algo que eu deveria ler.
-- E o que você fez depois?
-- Bom, logo depois eu liguei para o senhor. Lembro-me que você respondeu super grosseiramente, de um modo a que eu não estava habituado ouvir. E disse que não queria trabalhar com autor nenhum, que não sabia de jornal nenhum que estivesse sobre a minha mesa e que era para eu não ficar ligando a todo momento para ele, por mais que eu chegasse na editora e não tivesse absolutamente nada para fazer. Desliguei o telefone. Já estava fim de tarde, quase noite, e àquela sensação de fim de dia somou-se uma decepção muito grande. Decidi, naquele momento, que não permaneceria no emprego e que queria voltar a fazer teatro, queria dedicar-me às artes, mas havia algo de profundamente violento que me marcara para sempre e influenciou para sempre meus pensamentos desde lá.
-- E o que eu fiz?
-- Lembro que, depois disso, nunca mais apareci no emprego. O senhor me ligou cobrando presença, e eu expliquei que não queria ficar mais. Alguns meses depois, negociamos que eu trabalhasse por livro, mas o senhor enviou-me um livro de 1200 páginas para revisar que eu nunca nem comecei a ler. Algum tempo depois voltei a buscar um emprego por lá, porque não consegui nada do que eu queria, e o senhor era quem melhor havia me pagado em valores reais de salário em toda a minha vida, mas não havia mais oportunidade para mim.
-- E depois? Você seguiu seus desejos?
-- É complicado. Nunca mais consegui fazer o que eu queria, e o que eu queria passou a ser povoado por essa percepção nova que aquele evento havia despertado. Cheguei a ir à Biblioteca Nacional uma vez, porque só lá encontrei exemplares de livros do autor. Li e achei interessantíssimo, mas continuei sem entender aquela situação, que me parecia estapafúrdia. Aliás, diga-me com quem aprendeu aquela técnica de persuasão!
-- Isso é tudo. Agora você deve agir.
-- Mas, como assim? Isso é tudo? O que fazer daqui pra frente?
A ligação terminou. O Grande Artista ficou ali sem saber o que fazer e teve ódio profundo de Doutor Domingos. Apagou os incensos, recolocou os livros nas estantes, levou o computador para o quarto e finalmente decidiu que não iria mais entrar em contato com aquele velho maldito. Só não sabia direito ainda o que fazer.
Do alto, Doutor Domingos observava o rapaz. Ao fundo, um senhorzinho de olhos puxados cochichou no ouvido de Domingos, que disse:
-- Ele entendeu.

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